Tormento
1 O sonho
Notas iniciais
Era uma voz entranha, que só era possível ouvir nos meus sonhos.
- Bons tempos HAHAHAHA!
Aquela casa era nostálgica, naquela época os infinitos lances de escada ainda não me cansavam e tudo era mais divertido por ela estar lá. O mesmo programa de todas as tardes estava na TV, não me lembro do nome, mas era nossa diversão ver o apresentador juntar pessoas que não se conheciam; a brincadeira consistia em cada um dos "casais" beijar uma face da carta — de um baralho qualquer — que era posta entre os dois, e então — depois de um anunciante, ou até mesmo de uma piadinha sem graça — o apresentador retirava a carta, fazendo ambos se beijar.
- Luke, vamos tentar? — aqueles pequenos olhos me pressionavam de um jeito inocente, como uma criança pedindo por atenção.
Ela era cerca de dois anos mais velha, e eu não conseguia me lembrar ao certo quantos anos EU tinha. Devia ter por volta de cinco anos, e não fazia ideia de como dar um beijo, ou muito menos de como lidar com aquilo, mas convenhamos, eu era uma criança, então era natural e inocente copiar as pessoas. Animado com a brincadeira, abri a primeira gaveta do criado-mudo do quarto de minha tia procurando o baralho.
- Amy, aqui esta a carta, como vamos fazer? — perguntava para ela.
Com um sorriso de lado, Amy me respondeu:
- você já assistiu milhares de vezes comigo, quando foi a hora, puxe a carta.
Peguei o baralho, umedeci meus lábios como todos faziam e beijei uma face da carta que escolhi, esperando a garota fazer o mesmo.
Meu coração estava me matando de tão forte que pulsava, e eu não sabia o porquê, me sentia cada vez mais anestesiado à medida que Amy se aproximava de mim, até que o ar quente de sua respiração me embalava em direção a algo desconhecido, algo incrível. Nossos olhos logo se cruzaram quando Amy finalmente tocou a outra face da carta, e então, puxei a mesma para "continuar o show”, assim minha primeira sensação de um beijo foi sentida: era uma mistura de medo com algo divertido, os lábios dela eram macios e quentes como uma chuva no verão, foi um momento único.
- Vamos tentar de novo? — perguntei para Amy, que deu uma risadinha e assentiu.
- Não se esqueça de como era fácil, garoto! HAHAHAHA — Dizia aquela estranha voz em minha cabeça enquanto eu acordava.
*Pipipi-pipipi-pipipi* Levantei às 6 horas com meu despertador para ir à escola, tomei cafe-da-manhã, escovei os dentes, arrumei minha mala e fiquei me encarando no espelho do banheiro como quem procura algo dentro de si. "Besteira, não deve ser nada de mais", pensei comigo mesmo enquanto passava a mão em meu cabelo raspado — era prático.
Um velho amigo meu sempre me esperava na frente da minha casa para sairmos juntos para a escola, Edd com sua frase padrão: "certeza eu não tenho, pois posso estar errado", na verdade sabia se não de tudo, da maioria das respostas do mundo e universo.
Sai de casa as pressas para não me atrasar.
- Hey Edd, tudo certo?
- Yep, demorou hoje. – disse Edd, quase que me repreendendo.
- Tive um sonho peculiar...
No caminho para a escola encontramos alguns amigos nossos que se mudaram para outra instituição no ano passado, Darwin e Megan mais precisamente – Edd e eu já estávamos atrasados, mas depois de parar para conversar, mudamos esse “um pouco” para “definitivamente” atrasados. Darwin era um cara misterioso, atlético e divertido, Meg – como a chamávamos – era extrovertida, inteligente e extremamente linda! Papeamos por um longo tempo, entretanto não demorou muito para lembrar o atraso e sair correndo para a aula. Ficamos do lado de fora da sala esperando o segundo sinal, felizmente nossa escola possuía certa liberdade em relação aos horários.
Even flow de Pear Jam invadiu meu sono, esse sim era o som de meu despertador. Sentei-me na cama com os olhos ainda quase que fechados, acabei sonhando com um dia normal. Ainda com a visão embaçada “vi” um vulto na cadeira do computador, e a única coisa que eu consegui distinguir foi uma camisa social... Olhei novamente para o mesmo lugar e não havia mais nada, talvez fosse só o sono me pregando uma peça, mas não era como se eu nunca tivesse visto aquela camisa.
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