Tormenta

1 Tormenta


Notas iniciais
Magi: The Labyrinth of Magic e seus personagens pertencem a Shinobu Ohtaka! Trigger warning de relacionamento abusivo / violencia. Se esse tema te incomoda de alguma maneira, leia minhas outras fics e nao prossiga, ta? ♥

O intenso trovejar vinha acompanhado dos clarões que invadiam a escuridão daquele quarto.

As vidraças encharcadas estavam embaçadas o suficiente para que pudesse ver apenas os rastros luminosos que os faróis dos carros, em alta velocidade, deixavam. Sob a forte tempestade, deviam estar apressados para chegarem em casa.

Deitada de lado, abraçando a si mesma, ela observava o rádio-relógio. Os dígitos formados por traços em vermelho indicavam que passava das oito da noite e, como de costume, seu marido ainda não estava em casa.

Ela pegou o celular, cuja tela estava rachada de uma ponta a outra, e conferiu se a mensagem que havia enviado há duas horas tinha sido respondida.

“O Kassim continua com febre. Preciso que traga o antibiótico que o médico receitou.”

Nenhuma resposta.

Suspirando, inconscientemente, Morgiana fechou os olhos, apertando-os com força na vã ilusão em que acreditava que, ao voltar a abri-los, descobriria que tudo aquilo não passava de um sonho ruim.

Porém um forte trovejar a trouxe de volta à dura realidade. Não só ele, como também o estridente choro de uma criança.

Um novo suspiro.

Levantando-se, ela pôde sentir a dor intensa em seu braço esquerdo. Como se aqueles dedos grossos ainda o apertassem, tão presentes quanto o hematoma que ficara naquela região.

Mas não havia tempo para lamentar. Rapidamente ela cruzou o minúsculo corredor e chegou ao quarto que ficava ao lado do seu. O lugar era um cubículo e mal tinha espaço para o berço, um pequeno trocador ao lado e o armário de duas portas. Foi tudo o que puderam salvar depois da ordem de despejo.

Afastando o mosquiteiro, ela encontrou o bebê de pouco mais de cinco meses esperneando a chorar. Seu tesouro mais precioso.

Assim que o retirou do berço, ela o apoiou contra seu peito, afagando os ralos fios dourados que cobriam aquela cabecinha. Pelo fino tecido do macacãozinho azul que ele vestia, podia sentir a alta temperatura. E como lamentava por não ter um centavo consigo para poder comprar um analgesico que fosse para aliviar a agonia daquela criança.

Shhh!! Fique calminho, papai já vai chegar.

Ela tinha plena consciência de que tentava acalmar a si mesma e não seu filho. Logo Alibaba chegaria e, juntos, levariam Kassim ao hospital, certo?

Seu coração acelerou ao ouvir, do lado de fora da casa, o barulho de uma porta de carro batendo. Graças a Deus era ele! — pensava consigo mesma. Mas ao ouvir a campainha tocar, Morgiana se assustou.

Levando a criança consigo, Morgiana logo chegou à sala. Acendeu a luz, bastante preocupada. Aquela hora da noite, quem poderia ser?

— Quem é? — receosa, ela indagou, a mão pronta para virar a chave na fechadura.

— Sou eu, Morgiana-dono!

Em meio aquele chiado sem fim da chuva, ela ouviu a voz daquele amigo de longa data. Abriu um sorriso ao abrir a porta e encontra-lo, um tanto quanto ensopado, trazendo uma sacola de papel abraçada ao corpo.

— Hakuryuu-san! Entre!

Ela logo deu passagem e, um tanto quanto sem jeito, o moreno adentrou a humilde residência que, apesar de tão modesta, era tão bem cuidada e conservada por aquela moça. Sentia-se mal ao se ver encharcar os tacos de madeira que forravam o assoalho.

— M-me desculpe vir a essa hora e sem avisar. Disse que o Kassim-kun está doente.

— Não precisava se preocupar, Hakuryuu-san. — ela sorria enquanto corria para dentro de um dos quartos para voltar com uma toalha em mãos. — Por favor, se seque. Senão você e quem vai ficar doente.

O riso divertido daquela mulher fazia a pele alva de Hakuryuu ficar tão vermelha quanto os cabelos cor-de-fogo de Morgiana. Por mais que tantos anos se passassem e tivesse se conformado em aceitar os sentimentos dela por seu melhor amigo, o palpitar de seu coração condenava o quanto aquela mulher mexia com ele.

Morgiana não havia se tornado apenas uma bela mulher, mas uma esposa em excelência que cuidava de casa, da família e agora, ao tornar-se mãe, parecia ainda mais bonita! Havia ganhado novas curvas e sua pele parecia ainda mais brilhante.

— Trouxe algumas frutas e ervas que podem ajudar o Kassim-kun a ficar melhor.

Claro, Hakuryuu era um famoso botânico especializado no estudo do uso de plantas não só na medicina, como também na culinária.

— Muito obrigada, Hakuryuu-san! — os olhos dela brilhavam. — Nem sei como agradecer...

Apenas naquele instante que Hakuryuu notou a marca roxa em volta do olho direito a moça. Não era a primeira vez que a via com marcas de agressão. Na verdade, aquilo tudo havia se tornado bem mais recorrente após o nascimento de Kassim.

— Morgiana-dono, — a voz dele saia quase que sussurrada. — o que foi isso em seu olho?

Anh?!

Como pudera se esquecer? Hakuryuu havia chegado tão de repente que acabara se esquecendo completamente de se maquiar para disfarçar aquela marca.

— Que… Que marca? — era a melhor forma de disfarçar, mas o nervosismo era evidente em seu rosto.

Ele massageou as têmporas e deu dois passos a frente, ficando bem próximo da ruiva. O menino em seus braços já tinha adormecido.

— Morgiana-dono, eu sei que nao tenho nada a ver com isso, mas… — ele mordeu o lábio inferior, procurava palavras. — isso não está certo.

— D-Do que está falando?

— Não insista. Eu sei muito bem o que está acontecendo e não só eu. Todos sabem.

Apesar de não ser a intenção de Hakuryuu, Morgiana se sentiu humilhada. Todos sabiam do que sofria nas mãos de seu marido? Não havia como conter as lágrimas que foram encharcando seu rosto tanto quanto a chuva fazia nas vidraças.

— Morgiana-dono… — apoiando o queixo dela entre seus dedos, Hakuryuu ergueu o rosto da jovem mulher. — eu não me importo que tenha um filho dele. — a raiva era tanta que evitava mencionar o nome de seu amigo. — Eu cuidaria como se fosse meu!

— Ha-Hakuryuu-san… — ela tentava não encara-lo.

— Eu te amo e jamais, escute bem, jamais faria algo assim! Eu não aguento mais vê-la sofrer, Morgiana-dono! Eu abri caminho porque pensei que ele faria você feliz!

— Por favor, Hakuryuu-san, eu agradeço por tudo, mas vá embora!

Ela não fez cerimônias, tirando a mão dele de seu rosto.

Afastou-se rapidamente como se soubesse que, a qualquer momento, cederia àquelas carícias, àquele amor que Hakuryuu lhe oferecia.

Era tão genuíno, tão especial. Tão… o que ela tanto desejava!

Quantas vezes não se arrependera de tê-lo rejeitado?

Quantas vezes, ao se ver vítima da violência de Alibaba, ela não desejou voltar ao tempo em que seus lábios se encontraram com os de Hakuryuu? Ele a amava tanto…

— Eu não estou te forçando a nada, Morgiana-dono! — ele insistia. — Mas não suporto vê-la infeliz!

— Vocês não sabem de nada sobre o Alibaba-san! Ele me ama! — retrucava Morgiana, a mão livre a secar o rosto umedecido. — Ele me tirou daquele lugar horrível!

Hakuryuu estava no limite de sua paciência. Morgiana havia chegado a um nível de submissão extremamente perigoso e ele acreditava que um dia Alibaba acabaria, até mesmo, a matando. Não podia admitir que aquilo prosseguisse, precisava ser rígido mesmo se magoasse Morgiana.

— Não é porque ele te tirou daquele prostíbulo e daquele cafetão asqueroso do Jamil que tem o direito de te tratar como um nada, Morgiana-dono!

— CHEGA!

Era a gota d'água.

— Saia daqui! — vociferou. — Você não tem o direito de falar assim do meu marido!

— E você não tem o dever de ficar sofrendo por causa de um animal desse! — retrucou Hakuryuu, bufando. — Eu vou embora, Morgiana-dono, mas… saiba que as portas estão sempre abertas, até mesmo a da sua casa para você sair daqui e ser feliz!

Morgiana nada respondeu. Apenas soluçava quando a porta bateu e Hakuryuu saiu sem dizer mais nada. Não o culpava. Ele estava certo. Por pior que fosse e por mais que não quisesse admitir, Hakuryuu estava coberto de razão.

Ela permaneceu em um choro silencioso enquanto abraçava seu filho. Aquela preciosidade que Alibaba havia lhe dado. Era grata a ele nao so por te-lo tirado da prostituição, mas também por aquela criança tão especial. E era por causa de Kassim, apenas por ele, que Morgiana se sentia forte o suficiente para suportar qualquer coisa.

Afinal, ele não tinha culpa de que os negócios iam mal, a empresa que erguera com tanto suor fora forçada a decretar falência. Ela compreendia que ele precisava de um escape e a bebida, as noitadas, eram a única forma que Alibaba encontrava para extravasar.

Não era culpa dele se por um gole a mais ele ficava violento. Sem a bebida ele não a agredia, nem ao menos a culpava por não terem tempo para fazer sexo, já que Kassim vivia doente e precisava de mais cuidados do que qualquer criança normal.

Ele não tinha culpa… Não e?

Aquela indagação era a responsável por tanta angústia. A interrogação que a fazia duvidar de todas as convicções que inocentavam Alibaba. Que permitiam que ele agisse da forma agressiva que agia.

Não estava sendo fácil para ninguém… Não é?

Ele tinha seus motivos… Não é? Afinal, ele sempre foi um bom homem.

— MORGIANAAAAA!!!! MORGIANA!!!

Aquele chamado aflito vinha acompanhado de batidas na porta. Ela reconhecia aquela voz.

Praticamente saltando do sofá, ainda agarrada ao pequeno Kassim, a ruiva se levantou e correu para abrir a porta.

Deparou-se então com a imagem lamentável que, segundo ela, não era uma visão atípica.

Apoiado ao batente da porta, estava completamente molhado, os cabelos loiros bagunçados, a gravata frouxa sobre os botões desalinhados da camisa branca, por baixo do terno que fedia uma mistura de álcool com perfume feminino.

Ela não parecia irritada ao vê-lo assim, pelo contrário. Morgiana se sentia aliviada de vê-lo chegar em casa.

— A-Alibaba-san? — ela olhou para fora por um instante enquanto seu marido cambaleava ao adentrar a casa. — Onde está o carro?

— Tsc, perdi pra um filho da puta no carteado!

— Que?! — a ruiva arregalou os olhos. — Não temos mais carro então, Alibaba-san?

Ele voltou a estalar a língua e, apoiando-se às costas do sofá, virou-se para encará-la.

— Tá vendo algum carro lá fora, mulher? — ela balançou a cabeça negativamente, engolindo a seco. — Então, não temos mais carro!

— É que… — precisava de coragem para falar. — o Kassim está com muita febre, precisamos levá-lo ao médico! Eu estava esperando que viesse e trouxesse pelo menos os antibióticos que receitaram ontem!

— Médico, médico! Comprar, comprar! — ele mimicava a voz da esposa. — Desde que essa porra dessa criança saiu de você só temos despesa! — bufou o loiro enquanto chutava os sapatos para descalçar os pés. — Aliás, desde que enfiei essa merda em você que só temos despesa! Exame ali, daqui, remedinho! Quando é que esse lixo vai trazer algum pra casa e não so despesa?!

Em menos de trinta segundos, Alibaba conseguia xingar seu filho de três formas diferentes.

Ele está assim porque perdeu o jogo, perdeu o carro. Não é?

Morgiana se resignou em seu silêncio. Mordendo os lábios, ela seguia com a criança no colo para pegar a toalha que ainda estava sobre o assento do sofá, a mesma que dera a Hakuryuu.

— Se seque, Alibaba-san, vai acabar pegando um resfriado.

Alibaba praticamente arrancou a toalha da mão da esposa, mas assim que o fez, sentiu o perfume masculino que subia na atmosfera. Inspirando forte uma, duas, três vezes…

— Quem é que esteve aqui, sua vagabunda?!

Anh?! — ela piscou. — N-ninguém, só o Hakuryuu-san que…

— Ah, e ele tomou banho aqui? Porque a toalha encharcada impregnada de cheiro de macho, sua piranha!

A toalha acinzentada foi arremessada na direção de Morgiana que, receosa, abraçou mais firmemente o filho contra si. De certa forma, sentia-se mais segura com Kassim em seus braços.

Alibaba não a agrediria se estivesse junto de seu filho. Não e?

— Eu passo o dia todo tentando trazer um centavo pra essa merda de casa, pra te sustentar e você tá aqui dando pra outro macho? — um tapa forte estampou os cinco dedos de Alibaba no rosto de sua esposa. — Aquele miserável do Hakuryuu?!

As lágrimas escorriam sem parar pelo rosto bonito da mulher, agora avermelhado devido aos golpes do loiro.

— Ele esteve aqui porque soube que o Kassim tá doente, Alibaba-san! — soluçando, ela tentava se explicar. — Ele trouxe frutas, ervas para ajudar!

— O que ele tem a ver com isso? Ou esse moleque é filho dele e eu não sei?!

Chegava a ser ridículo ver Alibaba questionar se aquela criança, que era idêntica a ele, era filho de outrem.

— Por favor, Alibaba-san… — ela já estava desistindo.

— CALA A BOCA!

Alibaba vociferou, mas desta vez, cerrou os punhos ao acertar o rosto de Morgiana.

Com o impacto do golpe, ela acabou se desequilibrando e caiu. E por mais que se esforçasse em segurar Kassim, a criança despencou de seus braços.

O coração da ruiva disparou ao ouvir o baque do pequeno corpinho indo de encontro ao chão. Tamanho susto antecedeu o choro estridente do bebê. Morgiana não sabia se ficava aliviada ou mais assustada ao ver seu filho berrar.

Ele estava apenas descontando sua dor neles... Não é? Não…

Ela sabia bem a resposta de todos os seus questionamentos. Em especial quando viu a porta entreaberta. O vento havia soprado um pouco mais forte e mostrado a ela um caminho que levava a uma forte tempestade. Ou aquela falsa calmaria debaixo de seu teto fosse tão mais cruel que a tormenta que seus olhos viam do lado de fora?

... Saiba que as portas estão sempre abertas, até mesmo a da sua casa para você sair daqui e ser feliz...” — ela ouviu as palavras de Hakuryuu ecoarem em sua mente e, misteriosamente, enchendo seu coração de força e coragem.

Tsc, Morgiana, me desculpa!

Ela encarou Alibaba, que parecia atordoado. Novamente não era uma situação atípica.

Quando chegava ao ápice e ele voltava a si, tomando consciência do que havia feito, Alibaba era tomado por uma onda de remorso que incluía choro, arrependimento e assim ele convencia, mais uma vez, de que ele não tinha culpa. Mas não daquela vez.

— Por favor! Como ta o...

Ela espalmou a mão que Alibaba tentou usar para tocar no filho em seus braços. Kassim ainda chorava, sendo afagado por sua mãe, que rosnou para o loiro como se fosse uma leoa feroz, disposta a proteger seu filhote.

Aquele olhar e a expressão que demonstravam tanta revolta assustou Alibaba.

— M-Morgiana?

— SAIA DE PERTO DE MIM!

— Do que está falando?! — ele piscava, confuso ao receber aquela reação.

— Você nunca mais vai tocar em mim ou no meu filho, Alibaba-san! — ela disse, obstinada, ao se levantar. — Nunca mais!

— Isso não tem sentido, Morgiana! Nós decidimos ficar juntos para sermos felizes e…

— Você acha que isso é felicidade?! — ela o interrompeu. — Você é o pior, Alibaba-san. Eu sai das garras do Jamil para sofrer muito mais com você. Ele eu não amava, mas ser tratada assim por quem eu amo... Melhor... eu amava… — corrigindo-se, Morgiana secava o rosto com a mão livre.

Alibaba a ouvia, nitidamente atordoado. Morgiana sempre foi uma esposa submissa, resignada, disposta a aceitar todos os, segundo ele, problemas que passavam.

— Você decidiu vir comigo, Morgiana.

— Eu também decidi algo agora, Alibaba-san. Eu decidi ser feliz!

Não houve tempo para que Alibaba dissesse mais nada.

Com o filho nos braços, Morgiana abandonou a falsa calmaria de seu lar para se aventurar naquela intensa tempestade. Certamente o que, aos seus olhos, parecia ser tão assustador não era nada comparado a tempestade invisível da violência travestida de amor.

Afinal, o arco-íris sempre surge após uma forte tormenta. Não é?

Notas finais
A fic ficou bastante pesada e eu confesso que e um tema bastante doloroso e terrivel de se tratar, mas a guinada e determinaçao da Morgiana no final me deixaram satisfeita! ^^ E voces, gostaram? Criticas, sugestoes, elogios? Me mandem review! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!