Too Much To Ask
45 Capítulo XLIV - Sangue Fresco.
Notas iniciais
Ninguém apareceu para me ajudar, porém eu não podia julgá-los: Todos estavam ocupados com suas próprias batalhas. Meu corpo doía. Muito. E eu não queria arriscar me mexer enquanto Aghata ainda estivesse por perto. Eu queria que ela pensasse que eu estava morta. Isso pode até parecer algo meio macabro, mas era apenas uma forma de não morrer realmente.
Meus olhos ainda estavam fechados, mas meus ouvidos estavam bem abertos. Eu conseguia ouvir todos os sons da batalha. Todos os gritos desesperados dos que eram atacados, o som das espadas zunindo por causa da velocidade e do vento, monstros se desintegrando. E o som das botas de Aghata, que se afastava, indo em direção à floresta. Provavelmente não olharia mais para trás.
Tomei coragem para me sentar, com dificuldade, e pegar um frasco de Néctar no meu bolso. Tomei a metade, sentindo o gosto de brownies recém saídos do forno descer a minha garganta em estado líquido. Olhei para os lados e vi Heitor, também caído e desacordado. Era possível ver hematomas muito escuros em seus braços, devido ao ataque e à queda, provavelmente. Arranhões em seu rosto e respiração pesada foram coisas que eu vim a perceber logo depois.
Me arrastei até ele com dificuldade. Peguei o mesmo frasco de antes e coloquei a outra metade do líquido em sua boca, lentamente, pois não saberia dizer se aquilo poderia fazê-lo engasgar. Portanto, resolvi não arriscar.
Esperei alguns minutos, até perceber que seus belos olhos azuis se abriam novamente. Contive a felicidade e o ajudei a se sentar. Depois disso levantei. O Néctar já tinha tido efeito. Peguei minha aljava de flechas explosivas e saí à procura de Aghata. Ela teria o que merecia.
P.O.V Heitor
Levantei vendo o vulto da Aly sumir na floresta e fui atrás dela. Ela estava lutando com Aghata um pouco acima de um rio. Rio, seu ponto forte. Ela era realmente muito esperta. Mas não, ela estava perdendo, e estava sem forças. Aquilo não acabaria bem.
P.O.V Alawara
Eu não tinha mais forças para continuar a lutar, e ela tinha percebido isso. Estávamos em uma luta voraz, e o prêmio era nossa vida. Ataquei um jato de água e ela desviou, uma neblina nos envolveu, e não consegui enxergar mais nada; era uma neblina tóxica, e no segundo seguinte, eu estava caída no chão, e ela estava para dar o golpe final.
P.O.V. Brissy
Os olhos de Agasias me encaravam, relutantes. Eu ainda estava no chão, não tinha recuperado totalmente as forças para voltar à luta.
E devo admitir: Eu estava errada. Agasias não era covarde como eu pensava que era. Se fosse, ele não teria esperado que eu levantasse, mas sim teria atacado e me deixado mais fraca ainda. Ou... algo pior que isso.
Pensei em chamas tomando conta de mim, e só então consegui recuperar minhas forças. Levantei-me, a espada em mãos. Agasias ainda me encara, paralisado. Por quê? Isso eu não entendia.
Hesitou em me atacar. Na verdade, não o fez. E sequer desviou das chamas que atirei em sua direção. Ele desapareceu, e em seu lugar apenas se via vapor d'água.
Virei-me. Eu o conhecia, ele daria um jeito de se materializar novamente em algum lugar que achava que eu não poderia vê-lo.
E foi isso que aconteceu. Ele se materializou nas minhas costas, com sua espada em minha garganta.
Desapareci em chamas. As chamas diferentes das que eu estava acostumada. Não apenas raiva, ira, rancor, asco. As chamas, mais avermelhadas que o normal, também refletiam outra coisa: Eram chamas de um amor perdido, chamas daquilo que eu nunca poderia recuperar. Aquilo que eu ainda podia ver em seus olhos, mas que sua razão e desejo de vingança não permitiam revelar.
Não deixei que mais lágrimas escorressem pelo meu rosto. Apenas ataquei. Uma luta entre dois deuses poderia durar eternamente. E com esta luta eu já estava acostumada.
Eu cresci em um longo treinamento com Agasias, Abnara e Ronnoc. Os poderes de todos eram conhecidos. Não havia uma maneira de vencer.
P.O.V Alawara.
Não sei porque ela hesitou, mas rapidamente consegui me levantar, e começamos novamente a lutar, girei meu anel e peguei minha espada, que, devido a minha raiva, estava mais fria que o normal. Ataquei.
Aghata desviou do ataque e investiu contra mim, seria uma luta longa. Parei sua investida com a parte chata da minha espada, e a girei, de maneira que a espada voasse de sua mão. Ela pegou uma adaga que estava presa ao seu cinto. Finalmente a vantagem que eu esperava. Ou não. Ela era muito habilidosa, mesmo com a adaga, o que me fez imaginar a qualidade e o tempo de treinamento que essa menina tivera.
Rapidamente ela estava com a adaga em meu peito. Como? Sei lá.
Arfei.
– Desistindo tão fácil? — Ela sorriu.
– Jamais — Me esquivei e voltei a atacar
POV Brissy
– Então, Brisingr, desistindo tão fácil? — falou Agasias. Sua espada estava em meu pescoço. Em todas as outras vezes eu já teria desaparecido, mas uma lembrança invadiu minha mente.
*Flashback on*
Atena tinha me chamado em Atlântida para treinamento. Naquela época eu não entendia porque os treinamentos eram sempre lá. Eu tinha apenas dez anos. Queria correr pelos jardins de Bürnat, ver as flores, como qualquer deusa da minha idade.
"Você é uma futura rainha, precisa de treinamento.", era o que minha mãe, Rhanara, sempre dizia quando eu reclamava. Meu irmão recebia o mesmo treinamento que eu, mas ele normalmente gostava disso. Claro, era um homem. Não que isso mudasse alguma coisa. Sua força a mais não significava nada para mim. E além do mais... eu sabia que existia outro motivo para ele querer ir até Atlântida. Seus olhos sempre brilhavam quando eu mencionava o nome que acompanhava aqueles cabelos e olhos azuis.
Abnara era legal. Tinha a minha idade. Na verdade, a diferença era pequena, mas nenhum de nós se importava com isso. A deusa gostava de lutar, e era ótima. Contra o irmão, era sempre ela que vencia, mesmo nas lutas que não envolviam armas. Ela era esperta e rápida. E forte. Tinha todas as características perfeitas para uma boa batalha.
Vê-la lutando contra meu irmão era algo muito interessante. Era a melhor parte dos treinamentos, na minha opinião. Essas lutas demoravam, e raramente tinham algum vencedor.
A harmonia em suas lutas, o modo que se olhavam... não precisava ser filho de Afrodite para saber o que aconteceria no futuro. Ronnoc e Abnara eram perfeitos um para o outro...
Já quando Atena queria me ver lutando com Agasias... a decepção era visível em seu rosto. Nós não éramos maus lutadores, mas depois de toda a perfeição de meu irmão e Abnara, qualquer coisa seria ruim...
Cresci assim. Era o casal perfeito contra... bom, qualquer coisa que eu e Agasias fôssemos.
Em uma de nossas lutas, eu já estava cansada. Não queria continuar, não aguentava mais lutar com ele. Era algo completamente monótono, chato... ele me puxou para perto, derrubando a espada de minhas mãos e colocando a própria em minha garganta. Não me preocupei em desviar, pegar a minha de volta de alguma forma... apenas permaneci ali, parada, enquanto Agasias me enchia de suas ironias habituais.
– Desistiu, pequena? — perguntou, me puxando para mais perto. Eu queria gritar para que ele se afastasse de mim. Queria sumir dali, voltar para meu reino... mas não me movi um milímetro, e também não rebati. Atena nos olhava de forma repreensiva, e alguns minutos depois ele me soltou e me olhou nos olhos.
Depois desse dia, eu sabia que nunca conseguiríamos lutar juntos.
*Flashback off*
E foi o que aconteceu. Agasias não me soltou, mas também não me atacou de verdade. Alguns segundos depois ele me virou de frente para si, de forma que eu o olhasse nos olhos.
– Não podemos lutar com a certeza de que não terá um fim para nenhum de nós. — falou, de uma forma que nunca pensei que ouviria. Aliás, ele não estava ali em busca de vingança? — Eu nunca vou ter coragem de te matar. Nunca faria isso com uma pessoa que conheço há uma eternidade.
Pensei que esse seria o fim de uma batalha completamente desnecessária. E então ouvi uma explosão.
P.O.V Alawara
Luta vai, luta vem e eu já estava acabada, cada golpe que eu conseguia dar, era um pedaço a menos de mim. Mas parecia que ela não estava cansada, ou melhor, não se cansava nunca. Olhei em volta, e a mata ao nosso redor estava completamente destruída, árvores quebradas, crateras abertas por todas as partes. Íamos destruir metade da floresta desse jeito.
Estávamos em uma mata fechada, mas como consequência da destruição, o céu estava visível, pude então, dessa maneira, ver a quantidade de tempo que se havia passado, muito, muito tempo.
Nós duas estávamos cansadas, e, dessa maneira, nos entreolhamos.
– Você acabou com a minha vida — vociferei.
– Sim, e ainda foi pouco, gostaria de ter feito muito mais.
– Heitor... — Lágrimas ameaçaram rolar, mas me contive, não choraria em sua frente.
– É, ele é um belo garoto — gargalhou — Belo demais para uma garotinha como você. O que você tem a oferecer a ele? Nada. Absolutamente nada. Você é frágil garota, frágil. Frágil como um pedaço de vidro. Qualquer um conseguiria te derrubar.
Gritei.
Uma onda jorrou de meu peito, a atingindo em cheio. Aghata caiu sentada, arfando, e não conseguiu se levantar. Ela xingou, muito, de nomes que eu nem sabia que existiam, muito menos o significado, xingou todas as minhas gerações, e então se levantou cambaleando. Como ela ainda tinha forças?
Uma gosma negra saiu de suas mãos e veio para cima de mim, e começou a me sufocar. E eu sabia, sabia o que estava por vir, era agora que eu morreria, e nem conseguiria me despedir de ninguém, principalmente do Heitor, aquele que por tanto tempo eu amei, e que nunca deixaria de amar.
Cai no chão sem forças, e sem oxigênio, minha visão começara a escurecer, e meus ouvidos zuniam. A filha de Macária se aproximou de mim, com uma lança a pouca distância de meu peito. Desisti, desisti de tudo, da vida, da minha raiva pelo Heitor... ah, Heitor, tudo o que eu mais queria era estar com ele agora, sentir seus braços nos meus, sentir sua boca na minha, seu abraço quente e apertado. Minha garganta estava seca, e senti a morte chegar.
Aghata gargalhou fracamente.
– Algum último desejo princesinha?
Minha voz falhou.
– Heitor.
Ela riu.
– Que assim seja, em breve vocês se encontrarão... No Hades.
E então eu ouvi um grito.
Mas ele não era meu.
P.O.V Heitor
–Aly estava lá, caída no chão, com Aghata prestes a enfiar uma lança em sua garganta. Um turbilhão de sentimentos me invadiu: amor, saudade, ódio, ciúmes, raiva, tristeza e me lembrei de quando nos conhecemos.
*Flashback on*
Tinha ficado sabendo que uma garota nova tinha chegado no acampamento, mas quando a vi, uma surpresa enorme passou por mim, ela era linda, e visivelmente o meu completo oposto. Estava na cara que a garota era organizada, fofa e principalmente, facilmente irritável. Me aproximei e vi que ela estava conversando com Kayra, filha de Atena. Seu nome, Alawara, lindo. E eu já sabia como eu iria irritá-la.
– Olá Alawara — Cheguei mais perto — Me chamo Heitor, e a propósito, posso te chamar de Aly?
– Não. — disse Alawara, revirando os olhos.
Tinha atingido o ponto em que queria.
– Beleza, Aly — Disse em um tom sarcástico, seguido de uma risada — E então é filha de quem?
– Minha mãe se chama Abnara... Pelo que meu pai me disse. Fui tentar pesquisar por ela... Mas não achei nada... Algum de vocês a conhece? — perguntou.
– A-Abnara? — um tremor percorreu meu corpo, Abnara era minha madrasta. Então olhei para Kayra que também parecia aterrorizada — Sim — respondi — Nós a conhecemos
*Flashback off*
E assim eu soube que ou seríamos grandes amigos, ou grandes inimigos, mas eu nunca soube que isso chegaria a ser tão forte, que eu a amaria mais do que a mim mesmo.
E agora ela estava morrendo, no chão, frágil e indefesa, e eu estava de mãos atadas. Não conseguia ver aquilo, o olhar focado de Aghata, e o olhar confiante de Alawara, ela não estava assustada com a morte. Aghata perguntou-lhe alguma coisa que não consegui identificar, pois a única coisa que conseguia focar era em seu rosto, manchado de sangue, deitado na terra úmida. E então ela sussurrou, sussurrou apenas uma coisa, sussurrou meu nome, e Aghata riu e começou a descer a lança.
– NÃO — gritei.
O resto aconteceu muito rápido. Na fração de segundo em que a lança descia, eu só pensava em salvá-la. Então, com uma sobrecarga de energia, me lancei em sua frente. Senti o impacto do meu corpo no chão, na frente do seu, e a dor, a dor da lâmina atravessar meu peito, e transpassar meu coração.
Depois tudo ficou escuro, e já não senti mais nada.
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