Too Much To Ask
43 Capítulo XLII - E o mundo desaba.
Notas iniciais
POV Luisa
A noite havia chegado, e com ela, o treinamento teve seu fim. Voltei para o meu chalé, mas não conseguia dormir. Nesse meio tempo, uma impressão me fez pensar que algo estava errado. Um baixo som de choro invadia o chalé. Provavelmente apenas eu escutei, especialmente pelo fato de minha audição ficar melhor à noite. Levantei-me e segui o som, ignorando o fato de estar de pijama.
E o som de choro me levou até o chalé de Brissy. Bati na porta, e ela atendeu, com os olhos vermelhos e inchados. Não se viam as lágrimas em seu rosto, provavelmente tinham evaporado a partir do momento em que entraram em contato com sua pele quente.
– Luisa...? Mas o que faz aqui? — perguntou, virando o rosto. Aparentemente a deusa queria esconder o inchaço dos olhos, a aparência de alguém que chorara por muito tempo.
– Ouvi o som de choro... Posso estar parecendo intrometida, mas o que aconteceu?
– Entre... — falou, indo até a enorme cama em um canto do chalé. — Sente-se, acho que preciso falar com alguém.
Fiz o que Brissy pediu, então ela olhou-me nos olhos.
– A história é um tanto longa. — começou, mexendo os dedos das mãos nervosamente. — Enfim... Eu tinha um marido deus, seu nome era Agasias... Bom, ele era um deus da água, irmão de Abnara. Eu o amava. No começo, o sentimento parecia ser mútuo... Mas depois de um tempo tudo mudou. Brigávamos o tempo inteiro, muitas vezes por motivos banais, como o de eu querer ir até o meu reino para ver como estavam as coisas... Ele achava que poderia me prender, que eu iria ser uma mulher submissa, mas como você deve saber, assim como a água, o fogo foi feito para ser livre. Tente parar as ondas, elas apenas desviarão de você. Tente deixar o fogo em um lugar fechado... Ele irá se apagar. Eu suportei isso por muito tempo, mas um dia eu fui para o meu reino, queria ver meus pais e meu irmão novamente, e acabei contando o que tinha acontecido... Ronnoc pediu que Abnara falasse com o irmão, aparentemente ele não escutava ninguém além dela... Ela conversou com ele, e nesse meio tempo eu fiquei em Bürnat. Quando voltei para Atlântida, havia um bilhete sobre a cama. O bilhete dizia "Fui para o mundo mortal. Não me procure.". Eu passei muito tempo tentando esquecer isso, tentando seguir minha vida, mas...
– Alguma coisa a ver com a novata? — perguntei, incerta.
– Sim. Na verdade, muito a ver. Os olhos dela... Na essência deles está Agasias. Luisa, suspeito que ele seja pai dela.
Meu queixo caiu.
– Suspeito também, que ele nunca teve outra filha além dela.
– Bom, não sei se ele teve outros filhos além dela... Mas, bom, não é o caso agora. O que me preocupa é o fato de que ele provavelmente manteve seus poderes... Então essa menina é MUITO poderosa.
– Sim, eu temo isso também, mas minha maior preocupação, é ela se voltar contra nós, ou até mesmo...
– Aproximar Agasias do acampamento — Completei.
POV Heitor
Confuso. ARGH! O que meu cérebro estava fazendo comigo? E se você aparecer aqui pra perguntar "que cérebro?", não continue a ler, a não ser que queira perder a cabeça. Aliás, apenas fique quieto e não implique. As coisas já estão ruins o suficiente assim.
O motivo da confusão? Alawara. Sim. Será possível que ela não entenderia que eu não estava nem aí com a novata? Tudo bem que ela era bonita, mas eu estava com Alawara há anos, e, sinceramente? Eu não precisava de outra mulher para encher o saco.
Mas ainda assim, foi golpe baixo ela ter lido minha mente. Eu penso nela 23:59 horas, mas, no único minuto em que um pensamento imbecil roda minha mente, ela resolve bisbilhotar.
Eu amo a Alawara, sempre amei, eu posso até tentar me enganar as vezes, mas é nela que eu penso a maior parte do dia, é o perfume dela que eu sinto em todos os lugares, é com ela que eu sonho todas as noites, e com ela que eu planejo construir minha família algum dia. Não sei para que essa paranoia toda.
Mas é claro, ela é uma mulher. Feminista. E que, além de tudo, tem o poder da telepatia. E isso complica tudo na minha vida. E eu simplesmente olho para uma outra garota e ela faz esse escândalo todo. Di immortales... Será que meu pai já passou por isso também?
Enfim... Resolvi sair do chalé para treinar. Ignorando completamente o fato de ser 3 da manhã. Eu não conseguiria mais dormir, de um jeito ou de outro. Cheguei na arena e toquei meu anel. Minha espada surgiu em minha mão imediatamente. Olhei para um boneco de treinamento que havia ali, e ataquei com toda a raiva que sentia. Lutar era a melhor maneira de acabar com a raiva.
Estava cego, surdo e completamente mudo. Tudo o que eu queria agora era descontar minha raiva, no que fosse. Virei para acertar um boneco, que estava atrás de mim, quando um grito me fez parar a espada no meio do caminho.
Ela estava lá.
Em quem vocês estão pensando? Alawara? Quem dera... Era a Agatha mesmo. Estava toda de preto, como de costume, e também estava linda. Droga cérebro, olha o que você me faz pensar. Bom, se Macária é a deusa da boa morte, Agatha certamente iria me matar, mas posso garantir que não será nada bom.
– Você está querendo matar a filha da morte, Heitor? — sua risada sinistra ecoou por toda a arena.
– Eu não vi que estava aí, Aghata. — tentei fazer com que o asco não transparecesse em minha voz, mas foi quase impossível.
– Sabe, Heitor... Se depender de mim, você não conseguirá voltar para a Alawara. — uma mistura de sentimentos ruins me envolveu. Raiva, nojo, tristeza, pavor. Isso com certeza era algum poder da novata. Ela se aproximou de mim e tocou minha pele. O que estava acontecendo? Eu não fazia ideia. Mas ao mesmo tempo em que eu queria sair dali, algo me prendia. Seus poderes eram mais fortes e mais controlados do que eu imaginava ser possível. Não sabia o que fazer. Tentei criar uma barreira em minha mente, mas não tinha esse poder. A última coisa que vi foi Aghata tocando meus lábios com os seus, e pelo canto do olho uma garota com uma longa camisola azul. A sorte realmente não estava ao meu favor. Um grito agudo invadiu o local e acordei na enfermaria.
POV Alawara
Não, dessa vez não teria perdão. Eu tinha ido até a arena, em busca de esfriar a cabeça, e lá estava ele. Cogitei por um minuto, perdoar-lhe por tudo, esquecer o passado, e encarar o futuro, mas não.
Não. Não. Não. Não! Eu sabia que tinha alguma coisa errada, mas a última coisa que eu imaginei ver era isso! Dessa vez eu não precisaria invadir os pensamentos de Heitor. Ele estava na minha frente. Beijando a novata. ARGH! Belisquei-me, torcendo para estar tendo apenas um pesadelo. Não, aquilo era real. Evitei que lágrimas escorressem pelo meu rosto. Era isso que Aghata queria. E eu não ia deixar que ela levasse o troféu.
Não consegui me conter. Meu arco-e-flecha surgiu em minhas mãos e uma flecha de água voou na direção dos dois. Aghata provavelmente previu meus movimentos, pois se desfez em sombras. Já Heitor... Este recebeu a flechada com tudo. Lembro-me apenas de ter saído dali pisando fundo de volta para o meu chalé.
Aquilo não teria perdão. Seria pedir demais para que eu o perdoasse dessa vez. Não teria volta. Durante dois, três anos, eu cheguei a pensar que ele fosse diferente dos outros garotos, mas estava completamente errada! É engraçado quando você pensa que vai dar tudo certo e, de repente, tudo fica de pernas pro ar. Ah, Heitor, você é tão mau... Finalmente entendi que vocês são todos iguais, como eu pude ser tão ingênua?
Joguei-me na cama, esperando que tudo aquilo acabasse o mais rápido possível, mas não, não conseguia adormecer. E quando por fim o fiz, sonhos me atormentaram o resto da madrugada.
POV Heitor.
Meu corpo estava completamente dolorido, e sentia uma dor enorme no peito. Não, uma dor enorme no coração. Magoei duas vezes a garota que eu mais amo neste mundo, e tudo por causa de uma menina idiota e infantil, que não pensa em nada, a não ser si mesma. Era isso, ela estava destinada a acabar com a minha vida.
Abri meus olhos devagar, e senti que alguém estava ao meu lado, murmurando rapidamente alguma coisa. Fiquei com medo de que fosse uma maldição ou coisa parecida, mas minha vida não poderia piorar mesmo, não tinha nada a perder. Abri os olhos, e enquanto minha visão tomava foco, ouvia uma risada, que depois descobri vir de Isabella.
– Enfim a bela adormecida acordou. — Ela disse — Sabe, eu acho que deveria te deixar assim, ferido, tanto fisicamente, quanto emocionalmente, para você aprender que com amiga minha não se mexe.
– Mas eu... — comecei.
– Mas... — ela continuou — Mesmo sendo um completo idiota, você ainda é meu melhor amigo, e bom, juntos até na morte, não é? Na sua morte, nesse caso.
Sorri. Pelo menos não estava sozinho nessa.
– E sim — completou — Você está sozinho nessa. Aly é minha amiga, e não vou me meter em suas brigas.
Merda.
– Heitor...?
– O que foi, Isa?
– Você queria fazer isso? Digo... Beijar a novata? — perguntou.
– É claro que não! — exclamei.
– Certeza? Você não parece o tipo de pessoa que pode ser obrigado a fazer alguma coisa.
Encarei a parede.
– E normalmente não, mas a garota... ELA É LOUCA, ISABELLA! — gritei na última parte. — E infelizmente consegue controlar os poderes melhor que qualquer um com muitos anos de treinamento...
– Foi o que eu temi, esse tempo todo. — Ela concluiu.
– O que? — perguntei.
– Ah, por favor, Heitor, olhe só para ela, ela não é confiável, e controla bem demais seus poderes, para uma novata. Ela não é uma criança, e semideuses não conseguem viver sozinhos por tanto tempo. Então, eu concluí a algum tempo, que ela teve treinamento. Ela foi criada por um deus. Não Macária. O que me leva a pensar, que ou alguém realmente de confiança a criou, e escondeu muito bem... ou...
– Ela foi criada pelo próprio pai. — Concluí. — Que seria um deus.
– Então ela é extremamente perigosa, filha de um deus menor.
– E se é um deus menor desconhecido, ela é provavelmente...
– Uma espiã — dissemos em uníssono.
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