Too Much To Ask
57 Capítulo LV - O início do fim.
Notas iniciais
POV Kirsten
Não sei quanto tempo se passou, desde que adormeci, mas no dia seguinte não me levantei. Não tinha forças, não queria ter forças, pessoas iam e vinham no chalé, algumas me olhavam brevemente, outras me lançavam olhares de apoio. Eu não tinha o direito de me entristecer, fazia tempos que não nos víamos, pensei tê-la esquecido, mas então ela sorriu para mim e já fora o suficiente, ela já havia a tempos dominado meu coração de tal forma que não conseguiria imaginar como seria daqui pra frente.
Ah, acho que não me conhecem, sou Lohan, filho de Hécate, irmão de criação da Calista. Bom, vivemos juntos até os 11 anos, e nesse meio tempo ela tinha vindo para cá e seguido sua vida, nos reencontramos de fato a pouco. Ela continuava a mesma, era gentil, esperta, bonita, e tantas outras qualidades que eu ficaria o resto da vida falando. Vida, uma coisa frágil, uma coisa injusta, injusto uns a terem tanto, e outros tão pouco, injusto como temos que prosseguir muitas vezes sem quem amamos, sim, eu a amava, a amo na verdade.
Enterrei meu rosto no travesseiro e impedi que lágrimas rolassem minha face, eu havia perdido muito tempo, tempo que não deveria ter sido desperdiçado, devia ter ido atrás dela quando pude, quando ela ainda estava aqui. Não, não queria pensar nisso agora, ainda tinha a esperança de vê-la entrar correndo no chalé, seu sorriso triunfante, podia vê-la perfeitamente agora, correndo por entre as camas e me envolvendo em um abraço de urso. Não devíamos ter nos distanciado tanto, não havia mais o que fazer.
Mas a morte, assim como o amor, nunca era justa. Alguns perdiam a vida cedo, antes de terem realmente vivido, após um tempo de somente sobrevivência. Alguns tinham a chance de viver plenamente. Eu preferia acreditar que Calista tivesse vivido plenamente em seus 17 anos, mesmo com diversas dificuldades a rondando, como o suicídio do pai e o fato de ter sido criada por uma tutora. Eu conhecia a história dela melhor do que qualquer outro naquele acampamento, até porque, acreditava eu, tinha participado de alguma parte dela.
Não conseguia imaginar quem poderia ter cometido a atrocidade de tirar-lhe a vida tão de repente, tão cedo, de forma tão cruel... Mas eu descobriria, e esse alguém iria pagar por isso.
POV Isa
A notícia do dia anterior chocara todos de tal forma que ninguém tinha realmente retomado suas atividades rotineiras, tudo estava meio... er... morto? Bom, não queria usar esse termo. Havia murmúrios por toda parte, e algumas hipóteses do que tinha acontecido, bom, câmeras de segurança seriam uma boa no acampamento, realmente útil na verdade, mas em todo caso, não tinha como saber, e as fofocas seriam inevitáveis, todos estavam se perguntando quem é que tinha cometido tal atrocidade, e quem seria o próximo, se de fato houvesse um.
– Eu acho que foi alguém de fora do Acampamento. Não sei se alguém daqui de dentro teria coragem para fazer isso. — dizia um dos burburinhos, de alguém do chalé de Deméter.
– Bom, talvez alguém realmente tivesse motivo para matá-la. Traição, talvez? — um deles olhou diretamente para Katie Gardner, que permanecia absurdamente quieta.
– Eu não tenho nada a ver com isso. Travis faz o que quiser da vida dele, que seja ficar com alguma gótica estranha. — murmurou a garota.
Por que eu estava ouvindo a conversa do chalé 4? Bom, meu sentido de detetive dizia que eu devia começar por ali.
– Eu, particularmente, acho que foi alguém do Acampamento mesmo. — disse outro alguém.
– Ah, vamos esquecer a garota dos venenos. Alguém quer cereal? — Katie falou, com uma expressão entediada, como se quisesse mudar de assunto. Ela seria a primeira a ser investigada.
POV Luisa
Logo após o café da manhã, voltei para o meu chalé apenas para buscar uma maleta que eu mantinha por lá por garantia, e puxei Connor e Isabella até o chalé de Circe, onde Calista tinha sido assassinada.
– O que tem dentro dessa maleta, Kirsten? — Isabella perguntou, enquanto andávamos entre os chalés dos deuses menores.
– Este, minha cara amiga, é o meu "kit CSI" — falei, rindo, por ter lembrado de como eu chamava meu kit de investigação criminal quando era mais nova.
– Ah, e o que vamos fazer, detetive? — questionou Connor.
– Não é óbvio? Vamos investigar o chalé.
– Ah, agora faz todo o sentido... — Isabella revirou os olhos.
– Bom, é assim: Eu tenho uma lanterna de luz negra, pra detectar quaisquer fluidos corporais que o assassino possa ter deixado. Não podemos mais investigar o corpo, mas o local do crime pode nos dar informações valiosas. Eu também tenho um pó para encontrar digitais, e...
– Luisa, como você acha que vai investigar depois aquilo que acharmos? Digo... Não temos microscópio, nem dados com digitais, nem... — Isabella começou.
– Você quem pensa. Temos tudo isso e muito mais no sótão do Acampamento. — dei uma piscadela, o que só a irritou mais.
– Quantas vezes você já fez isso? — Connor ergueu uma sobrancelha.
– De verdade mesmo, essa é a primeira, mas digamos que convivo com essas coisas há muito tempo. Confiem em mim.
Com essas palavras, entramos no chalé. A poça de sangue permanecia ali, o que era um bom sinal, já que queria dizer que o chalé não tinha sido limpo, ou seja, as pistas ainda estavam lá.
Abri a maleta e os dois deram uma espiada.
– Deuses, Luisa, eu pensei que era só um kit de brinquedo, mas isso aí é praticamente completo. — comentou Isabella.
– Modéstia à parte... É, é sim. Agora... Quanto antes começarmos, antes descobriremos quem é o culpado.
– Ou não. Não temos certeza de que vamos encontrá-lo. — sussurrou Connor.
– De que lado vocês estão, afinal? — perguntei.
– Do seu, sempre. — começou Isabella. — Mas isso não quer dizer que vamos dar 100% de confiança a isso.
Isabella pegou um frasco e colocou uma luva, que estava dentro de minha maleta, pegou a gosma vermelha e colocou em um frasco, e o tampou com uma rolha.
– Esse negócio termina muito para dar o resultado? — A garota apontou para um dispositivo de análise que estava ao lado do notebook, conectado no mesmo.
– Não sei, nunca foi realmente necessário usá-lo antes, mas acho que não.
Então ela sorriu, destampando o instrumento e logo depois despejando uma pequena porção, em uma espécie de vidro interno do negócio, ou "descobridor" como gostava de chamá-lo. Uma tela verde surgiu, e com ela uma sequência de códigos binários, e o descobridor começou fazer uma análise completa do sangue, logo em seguida dando o resultado. Olhamos apreensivos um para os outros, não podia ser, não tinha como ser.
O sangue era do Connor.
POV Connor
Assim que o computador terminou de fazer as análises, senti os olhares das duas sobre mim. Sem olhar para o resultado, tentava entender o que estava acontecendo.
– Lui? Isa? O que...
– Explique-se, Connor. — falou Luisa, virando o computador em minha direção. Me assustei quando vi o meu nome na barrinha inferior.
– Mas... O que... Eu não... Luisa, você estava comigo o tempo todo! Não pode achar realmente que...
– É o que diz aqui...
– Eu...
*Flashback on*
Eu tinha ido no chalé de Calista para pedir uma poção do amor.
– Connor, entenda... Se você sabe como a sua namorada é, e insiste em cometer erros tolos com ela, eu não vou te dar nenhuma poção. Quer pedir ajuda para uma filha de Afrodite? Peça, aí a responsabilidade não é mais minha.
– Mas...
– Sem mais, Connor. Agora... Que tal você sair do meu chalé e tentar pedir desculpas pra ela?
– Cas, por favor... — Calista apontava o dedo indicador em minha direção, enquanto eu dava passos para trás. Nisso, ouvi o barulho de algo se quebrando. Um fino vidro para poções tinha caído no chão. Me agachei, assustado, para tentar ajuntar os cacos, e, nisso, consegui fazer um pequeno corte na minha mão. Algumas gotas de sangue escorreram por aquele canto.
Ouvi uma risada baixa e encarei Calista, que revirava os olhos.
– Para um filho de Hermes, você é muito desastrado, Connor. — levantei-me e ela mandou que eu sentasse em um pufe que tinha por lá, enquanto entrava no quarto para buscar alguma coisa. Então ela voltou com um kit de primeiros socorros, e tirou de lá um frasquinho de álcool e um band-aid. Limpou minha mão com um algodão com álcool e fez o curativo.
– Obrigado, Cas. E... desculpe pelo incômodo... — falei, indo em direção à porta.
– Não há de quê... Bom, fala com a Luisa... Não tenho muitos conselhos para te dar, mas sei que uma poção do amor não poderia resolver o problema.
*Flashback off*
POV Heitor
Aly estava completamente abalada, todos estávamos, nos acostumamos com mortes, mas não entre nossos entes queridos. Resolvi então, em uma brilhante ideia, tentar acalmá-la.
Cheguei no chalé de Abnara e bati na porta. Ninguém abriu, entrei mesmo assim.
– Aly? — chamei.
Dei uma volta pelo chalé, que nem era tão grande, e a encontrei jogava na cama, dormindo. Fiquei com dó de acordá-la, mas a acordei mesmo assim, ao contrário dos outros, que andaram passando as noites em claro, ela mal saia do chalé, dormia o dia inteiro e não comia. A resposta para isso era? PIQUENIQUE.
– Aly? — chamei, dando um beijo em sua testa.
POV Heitor
Aly estava completamente abalada, todos estávamos, nos acostumamos com mortes, mas não entre nossos entes queridos. Resolvi então, em uma brilhante ideia, tentar acalmá-la.
Cheguei no chalé de Abnara e bati na porta. Ninguém abriu, entrei mesmo assim.
– Aly? — chamei.
Dei uma volta pelo chalé, que nem era tão grande, e a encontrei jogava na cama, dormindo. Fiquei com dó de acordá-la, mas a acordei mesmo assim, ao contrário dos outros, que andaram passando as noites em claro, ela mal saia do chalé, dormia o dia inteiro e não comia. A resposta para isso era? PIQUENIQUE.
Aly? — chamei, dando um beijo em sua testa.
– Me deixa dormir, Heitor! — falou, cobrindo a cabeça com o travesseiro.
– Aly, por favor, eu sei que você está mal, mas...
– Mas nada. Não posso ficar triste por causa da morte de uma amiga? — perguntou, e percebi um tom choroso em sua voz.
– Aly... não chore...
– Eu posso me dar ao luxo de chorar. Vai embora, Heitor.
– Eu não vou se você não vier comigo.
– Por favor Heitor — ela choramingou.
Peguei sua cabeça e a coloquei em meu colo. Baguncei levemente seu longo cabelo alaranjado.
– Tudo vai ficar bem, docinho. A morte é uma coisa difícil de aceitar, mas acaba sendo necessária.
– Não desse jeito — lágrimas brotavam de seus olhos.
Aconcheguei-a em meus braços e senti suas lágrimas molharem minha camiseta.
– Aly, algum dia... — calei-me, pois sabia que as palavras só iriam piorar as coisas. Depositei um beijo sobre seu cabelo bagunçado e fiquei ali, sentindo sua pele fria em contraste com a minha.
– Eu queria pelo menos saber quem foi...
– Nós vamos descobrir, meu amor... Mas vai demorar um pouco ainda...
POV Connor
Luisa e Isabella me acusavam do assassinato. E o que eu iria dizer? Somente voltei para o meu chalé e ouvi o som de um choro abafado vindo da cama ao lado da minha.
– Travis? — perguntei, cuidadosamente.
– Isso... Isso não devia ter acontecido, não...
E eu não me arriscaria a conversar com ele, ao menos não enquanto ele estivesse nesse estado.
Resolvi dar uma volta, indo em direção a floresta.
POV Luisa
Lágrimas brotavam em meus olhos. Connor, o meu Connor, não poderia ser, ele não... ele não.
– Lui... — Isa me abraçou. Apoiei minha cabeça em seu ombro.
– Não, não pode...
– Sinto muito Lui, podemos continuar investigando mas... não acho que encontraremos... uma pista melhor, ou sei lá.
– Isa, vamos... Por favor... Eu... não posso acreditar nisso... Ele... Ele estava comigo o tempo todo. — falei, soluçando. Minhas lágrimas desciam como cachoeiras.
– Mas... Como teria sangue dele no chalé se não fosse isso?
– Sangue... Isa, mas... O Connor não tem nenhum ferimento recente. — arregalei os olhos, lembrando do fato.
– Tem certeza? — ela me encarou. Sua expressão era um tanto quanto maliciosa.
– Eu... costumo ser bem detalhista, lembra? — falei, com as maçãs do rosto se avermelhando.
– Bom, que seja, esse sangue é velho mesmo, só não podemos descartá-lo como suspeito.
Suspirei.
– Ainda não consigo acreditar, não, não pode ser.
– Você já falou isso um milhão de vezes — ela revirou os olhos — Lui, seja como for, você melhor do que ninguém conhece o Connor, o que você achar, é.
"Não acredito que vocês estejam mesmo achando que foi o Connor...", ouvi uma voz em minha cabeça. Àquela altura, eu já estava quase esquecendo daquela voz, mas a reconheci depois de um tempo.
– CALISTA! — gritei. Isabella me olhou como se eu estivesse louca.
– Sim, Luisa, estamos investigando a morte da Calista... Você só percebeu isso agora? — Isabella suspirou, revirando os olhos.
– Não, só... Eu ouvi a voz da Calista.
– Luisa, só pra constar... você não é filha de Hades, até onde eu sei. Então, tecnicamente, não tem o poder de ouvir fantasmas.
– Mas...
– Se você achar alguma pista concreta de que o Connor não é o culpado... me avise, ok? Vou falar com o Heitor. Até outra hora.
Vi Isabella cruzando a porta de entrada do chalé e não aguentei. Caí no chão em posição fetal e senti as lágrimas mornas escorrendo por minhas bochechas, descontroladamente.
"Luisa, eu estou falando com você porque sei que é a única que vai me ouvir", Calista falou, novamente, em minha cabeça. "Não foi o Connor que me matou, e, no fundo, eu sei que você tem certeza disso."
– Então quem foi? — perguntei, entre soluços.
"Não posso falar. Não quero que o culpem..."
– Mas... Ele é seu assassino...
"Lui, eu tenho meus motivos... Confie em mim. Mas agora prometa que vai ouvir o Connor..."
E, depois dessa última frase, senti que o ambiente estava mais vazio. Sequei as lágrimas com a mão e saí do chalé. Avistei o Connor próximo ao chalé de Hermes, e saí correndo.
– CONNOR! Espere!
– O que foi, Luisa? Vai me acusar do quê agora? Vai dizer que fui eu que assassinei a Calipso? Me poupe.
– Connor, eu só... Vim dizer que acredito em você.
Seus olhos estavam arregalados quando ele se virou para mim e viu meu rosto inchado pelo choro de antes. Ele me abraçou, e me senti envolvida por seus braços mornos.
– Afinal, se eu não acreditasse na sua palavra... Todas as mortes que antecederam a essa não teriam valido nada. — sussurrei em seu ouvido. — Que tal darmos um tempinho? — selei meus lábios no dele.
– Eu acho uma ótima ideia.
POV Isa
Precisava pensar, eu não acreditava que o Connor teria matado a Calista, era impossível. Ele estava conosco o tempo todo. Eu tinha outra ideia de quem seria, mas era mais bizarro ainda, não tinha como ser. A única pessoa que poderia me ouvir e não julgar louca era o Heitor, e era para seu chalé que eu estava me dirigindo no momento.
Abri a porta sem bater, como sempre fazia. O que, naquele dia, não foi uma boa ideia. Ele estava com Alawara... Ok, nenhum dos dois estava nu, mas eu não queria atrapalhar... Estava fechando a porta quando Heitor me viu.
– Ahm... Isa, er...
– Não precisa se explicar, Heitor... Ela é sua namorada. — eu ri.
– Sabia que devia ter trancado a porta... — ele murmurou. Alawara estava rindo da situação, enquanto arrumava o vestido.
– Enfim, er... Podemos conversar?
– Quando é que não podemos, Isabella? — falou, e eu sorri.
Olhei para Alawara, não queria ser inconveniente, mas era o que a situação pedia.
– Hum....
– Já estou indo — ela riu se retirando o quarto.
Encarei o garoto a minha frente, ele sempre fora como um irmão mais velho pra mim, mas neste momento, ele tinha se tornado mais que isso, meu confidente.
– Bom, querida, o que te traz aqui?
– Uma teoria, uma teoria muito maluca — e comecei a contar tudo o que sabia.
– Meus deuses... Até faz sentido... Quer dizer, não faria sentido nenhum, mas, em relação à situação, faz todo o sentido...
– É, você definitivamente está pior do que eu...
– Não, Isa, veja só: se fôssemos normais, isso seria algo totalmente louco ou imprudente, mas...
– Ainda acho isso louco e imprudente...
– Posso continuar? Como eu estava dizendo, nós vivemos em um lugar onde existem possessões ou qualquer coisa do gênero. Pode não ter sido por conta própria.
– Não acho que tenha sido uma possessão — uma lágrima rolou minha face.
– Princesa, primeiro temos que descobrir se é verdade, mas é o que tudo indica...
Um sorriso maroto brotou em ambos os rostos. E assim, selamos o acordo, falando em uníssono.
– Vamos investigar.
– Por que mesmo não pedimos ajuda aos deuses? — Alawara entrou no chalé, rindo. — Ah, desculpe... Eu não estava escutando atrás da porta, mas vocês falam alto e minha audição e ótima...
– Tudo bem, Aly, você pode nos ajudar... — Heitor murmurou.
– Claro que posso. Vamos lá, por onde começamos?
– Não acho que meter os deuses nisso seja uma boa ideia, sabe como é, é meio de Apolo esse orgulho — ri.
– Portanto vamos começar dando uma volta pelos chalés, o que acham?
– Que é uma ótima ideia.
O clima no Acampamento era de luto, o que eu achava uma puta duma sacanagem, já que muitos deles sequer conheciam Calista. Mas resolvi não ligar. Ouvi um choro vindo do chalé de Hermes, e entrei, encontrando um Travis que se debulhava em lágrimas. Achei melhor não falar nada, apenas saí e andei em direção ao chalé de Calista novamente.
Um garoto de pele muito clara, e cabelos negros estava sentado em frente ao chalé de Circe. Não estava chorando, mas seus suspiros eram altos, o que me dava a ideia de que ele estivesse tentando conter as lágrimas.
– Quem é você? — perguntei. Talvez com um pouco de raiva, por alguém que eu não fizesse a mínima ideia de quem fosse estar chorando pela perda de uma grande amiga... Mas isso se dissipou quando ele respondeu.
– Sou Lohan Kirsten, filho de Hécate... Calista foi como uma irmã para mim durante muitos anos...
– Lohan... — murmurei indo até o criado mudo de Calista, e abrindo a primeira gaveta. Lá havia duas fotografias, a primeira de duas crianças brincando em um balanço, e a segunda, do garoto da primeira foto já crescido. Mostrei-as para ele — Sabia que já tinha visto seu rosto em algum lugar — Me aproximei, tomando a liberdade de abraçá-lo. Ele não se esquivou.
– Isso, eu ainda, eu...
– Eu sei — Heitor disse — E você é filho de Hécate, certo? Precisamos de sua ajuda.
– Vocês têm alguma ideia do que pode ter acontecido? — ele perguntou, a voz abafada.
– Temos uma vaga ideia... Por isso precisamos da sua ajuda. Pensei em chamar a Kirsten, mas é melhor esperar, já que ela deve estar de TPM...
– Quando é que ela não está de TPM? – Heitor questionou.
– Heim? Estão falando de mim? — Lohan me olhou, confuso, e eu não consegui reprimir uma risada.
– Desculpa, Lohan... Estamos falando da nossa amiga, Luisa, que, por acaso do destino, tem o mesmo sobrenome que você.
– Ai, deuses, a Luisa está aqui? Não a vejo desde... Bom, desde a morte do meu pai...
– Ah, então você sabe quem é... — Heitor comentou.
– Sim, ela é minha prima...
– Se o gênio for de família nós estamos ferrados — comentei.
Todos rimos.
– Bom, precisamos que você faça exatamente isso — Heitor começou a contar o plano. Nos conhecíamos a pouco, mas confiávamos uns nos outros. Tem coisas que unem pessoas, e a morte de uma de nossas melhores amigas foi uma delas.
– O plano parece simples. — Lohan sorriu.
– Se é simples ou não, não sei... Mas espero que dê certo. — falei.
– Todos esperamos...
POV Luisa
– Acho que agora você pode me contar como o seu sangue foi parar lá...
Connor riu.
– É, acho que posso.
Então ele contou tudo. O que tinha ido fazer no chalé no dia, tanto tempo antes... O que acontecera. E eu me culpei por tê-lo acusado injustamente. Eu via em seus olhos que ele falava a verdade, e via a dor que sentia por ter sido culpado pela pessoa que ele mais amava.
– Connor, meu amor... Me desculpe! — falei, abraçando-o.
– Eu nunca deixaria de te perdoar por qualquer coisa que fosse, Luisa. Porque amar é perdoar, e ser amado é ser perdoado.
– Temos que falar com a Isa...
– Será que ela vai acreditar em mim?
– Se ela não acreditar... Eu acredito, e faço de tudo para provar que você é inocente.
POV Isa
– Então temos cerca de meia hora para colocar o plano em ação, e se der certo, bom, tirarei minhas dúvidas perante essa pessoa — disse.
Lohan e Heitor saíram apressados, enquanto Alawara e eu inspecionávamos novamente o chalé.
– Agora só nos resta esperar — afirmou.
Vi Luisa vindo em nossa direção. Seu cabelo estava bagunçado, e pela metade no rabo, mas achei que aquele não era um bom momento para comentar sobre seu cabelo. Connor vinha junto, e tive a impressão de que Luisa realmente ouviu o seu lado da história.
Foi então que eu percebi que nunca tinha realmente culpado Connor. Ele não teria motivos para ter feito aquilo, e uma gota de sangue não limpa no chão do chalé, junto a um monte de poeira, não queria dizer nada.
– Isa precisamos conversar — Connor disse.
– Não, não precisamos — afirmei.
– Isabella, o Connor, eu juro, ele não...
– Eu sei Luisa, ele não seria capaz de ferir nem uma mosca — ri.
– Espera — ele disse — Não sei se fico aliviado ou ofendido com esse seu comentário.
– Bom, isso é você quem decide. Os garotos já estão indo atrás de minha nova teoria.
– Que teoria? — Connor perguntou.
– Se o plano funcionar, eu falo.
– E se não funcionar? — Luisa perguntou, curiosa.
– Aí partimos para outra e vocês vão ficar sem saber.
– Ah, que seja... Com "os garotos" você quer dizer o Heitor e o Leo?
– Meio certo, Luisa. Vocês já vão descobrir.
POV Kirsten
Nos dirigimos ao chalé de Hermes, só para conferir mesmo e começamos a revistar o local que estava vazio. Depois de uma hora desistimos de procurar.
– Não tem nada aqui — Heitor disse insatisfeito.
Então caí no chão e comecei a sonhar.
Em meus sonhos, via um chalé, o chalé de Deméter, entrei no local e uma luz brilhava sob uma das camas, abaixei-me e lá jazia uma adaga, coberta de sangue, quando a toquei, minha mão foi queimada, e eu acordei.
– Sua pressão baixou, dude? — Heitor perguntou, observando, em pé ao meu lado.
– Não, era só... Mamãe querendo me dizer algumas coisinhas. E essa coisinha era que temos que ir no chalé de Deméter. Vamos antes que os campistas voltem do treinamento.
Corremos o mais rápido que conseguimos até o simpático chalé cheio de plantas. Entrei e fui direto até a cama que tinha visto no sonho. Me agachei e olhei sob ela, encontrando exatamente o que eu esperava encontrar.
– Como você sabia disso? — Heitor perguntou, sorrindo.
– Como eu disse, mamãe me deu uma luz. Agora... Vá até o banheiro e pegue um pedaço de papel higiênico. Não quero marcar as minhas digitais antes de investigar isso.
Heitor fez o que eu pedi e peguei a faca, levando-a, discretamente, até o chalé de Circe, onde Isabella pediu que esperássemos. Em alguns minutos, ela entrou no chalé com outras duas garotas e um garoto, que parecia filho de Hermes.
– Olhem o que eu achei. — falei, mostrando a lâmina.
– Vou pegar o computador e o resto do kit de investigação. — a garota de cabelos castanhos falou, saindo do chalé. Em poucos segundos ela estava de volta. — Tinha deixado no chalé de Hermes, foi mais perto...
– Luisa, você é realmente louca por deixar isso no meu chalé... — o garoto que eu não conhecia murmurou.
– Ora, você acha que eu não coloquei magia nisso? Ninguém ia roubar. Enfim... Vamos investigar isso. Lohan, me dê a faca.
– Como você sabe meu nome?
– Você realmente acha que eu não ia reconhecer o meu primo de olhos lilases? Agora me dê a faca, sim? — entreguei o objeto a ela sem mais delongas. Ela estava usando uma luva de cirurgia e segurava dois cotonetes. Em um, ela pegou o sangue da faca, e no outro, o sangue do chão, do assassinato, e colocou em duas lâminas de vidro conectadas ao computador.
– É o sangue da Calista — Luisa disse, perplexa — Aonde você...?
– Embaixo da cama da Kath. — Heitor contou.
– Katie — Luisa disse.
– Que seja — Heitor revirou os olhos.
– Mas... não... não pode... — Luisa continuou, vermelha de raiva.
– Gente, por favor, eu poderia examinar a lâmina? — Isa disse — Heitor, Lohan, fiquem comigo, os outros, por favor, se retirem.
– Ei, eu posso ajudar também. — Luisa parecia com raiva. Dava para entender. Desde criança, era ela quem ficava com as partes principais, ela quem conseguia investigar qualquer coisa como ninguém... Deixá-la de fora disso era como um grande insulto.
– Tudo bem, tire as digitais da faca, Luisa... Desde que você me deixe ver o resultado. Tenho outros planos. E eu preciso falar com os dois sozinha... — Isabella murmurou.
– Que seja — bufou.
Me retirei com os meninos para o outro lado do chalé.
– Você não acha que... bom, que ainda aquela pessoa é culpada, não é? — Heitor perguntou.
– Claro que não — disse — Afinal, não achamos a arma embaixo da cama daquela tal de Katie?
Isabella revirou os olhos.
– Qual é, vocês acham mesmo que a Katie teria a capacidade de usar uma adaga? Ainda mais contra a Calista? Não, eu acho que não, ainda suspeito, e muito daquela pessoa.
– O computador da Luisa provavelmente vai dizer alguma coisa. — sussurrei.
– É, eu sei... Ela é boa em investigação. Mas ainda não quero que ela saiba, por isso pedi para que ela não ver o resultado. — Isabella falou, e eu assenti.
– Ainda acho que parece meio difícil de acreditar que foi aquela pessoa... — Heitor comentou.
– Tá carregando! — Luisa anunciou, saindo do chalé, junto com o garoto que eu ainda não sabia o nome. Nos aproximamos do computador, esperando a confirmação de nossas suspeitas.
– Eu estava certa o tempo todo... — Isabella comentou. Mas não havia, em sua voz, um tom de "Eu sabia". Ela parecia triste, como se estivesse sendo péssimo que aquela fosse a verdade. E realmente era.
Eu não conhecia o garoto, mas eles conheciam. Eu não conseguia imaginar o que tivesse levado o garoto a fazer isso. Eu amava Calista, e a revelação tinha me dado um inimigo. Eu não poderia conter a raiva. Tentaria, ao máximo. E, nessas horas, eu realmente agradecia por não ser filho de Nêmesis.
– Vamos fazer com que ele confesse. Essa noite, na fogueira. — Heitor falou. Ele encarava o chão, e levou um tempo até levantar os olhos.
– Nossos amigos não vão gostar de saber disso... — Isabella murmurou.
– E só vamos contar quando for a hora. — Heitor afirmou.
[...]
POV Luisa
Aquela noite, na fogueira, parecia uma continuação do velório de Calista. Alguns ainda vertiam lágrimas por suas faces, inconformados. Em outros, apenas o silêncio dominava. Até mesmo a lua crescente no céu parecia em luto. E, tendo em vista a mãe de Calista, provavelmente estava mesmo.
Isabella, Heitor e Lohan se recusavam a me contar o resultado indicado no computador... E eu estava achando que aquilo tinha sido muito rápido de ser resolvido... O assassino não devia ser bom em esconder as pistas...
E, confesso, estava com medo do que poderia acontecer... A Isabella estava metida nisso até o pescoço, então eu tinha motivos para temer.
Connor apertou minha mão, como se dissesse "Estou aqui, não tenha medo". E eu tentava acreditar nele.
Isabella foi à frente, junto com Lohan, que segurava a faca do crime.
– Essa é a faca pela qual Calista perdeu sua vida. — Isabella falou, em alto e bom tom, para que todos ouvissem. — Encontramo-la no chalé de Deméter, sob a cama de Katie Gardner.
Todos os olhares se viraram para Katie, sem acreditar.
– Mas, depois de alguns exames cautelosos, descobrimos quem foi o real assassino. Katie é inocente, por mais que eu deteste admitir.
– Quem é o assassino? — alguém do chalé de Ares perguntou.
– O assassino é...
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