Tons de Vermelho
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Rua do Ludíbrio – 2010
A escuridão permanecia pela Rua do Ludíbrio. Apenas uma casa continuava acesa, enquanto o resto tinham todas as suas lâmpadas apagadas em forma de luto. Richard Ludíbrio, ou apenas Ludíbrio, um vizinho respeitado havia acabado de falecer.
O frio que era sempre sentido estava cada vez mais piorando. Talvez fosse uma coincidência, até porque era apenas uma morte. Não era?
Richard tinha a capacidade de ganhar a confiança de todos os moradores da vizinhança. A notícia de sua morte não apenas chocou, mas como também destruiu. Seu sobrenome era conhecido como o sobrenome falso, já que não tinha muito haver com sua própria personalidade.
Seus pais eram ainda mais respeitados (antes de também falecerem). A rua possui o seu sobrenome, que representa o carinho que todos sempre teriam por essa família. Moravam na última casa da rua, que não se localizava vem na esquerda, nem na direita. Era como se fosse o centro.
De longe, parecia assustadora. Pássaros sombrios voavam por cima de seu telhado que começara a quebrar, vidro embaçado por conta do inverno que insistia em cada vez ficar mais forte, muros afiados que espetava qualquer um que tentasse passar por cima.
Mas mesmo assim, ele não parecia ser dono daquela casa tão sombria. Vestia quase todas as cores ao mesmo tempo, geralmente descartando o preto (cujo estava pintado sobre a parede de sua casa).
Várias teorias haviam sido criadas para justificar sua morte. Algumas pareciam ter sentido, enquanto outras foram descartadas antes de acabar a primeira frase. Mesmo assim, a família dele não saiu de casa em nenhum momento para falar com parentes ou amigos próximos.
Zara Morgan, com seus completos dez anos de idade, não estava acostumada com uma rua tão escura. Sua casa era a única acesa, e isso a assustava ainda mais. Por que todos tinham a casa apagada menos ela?
—Mamãe, poderíamos apagar a luz? –ela perguntou ao ver sua mãe lendo um livro no sofá.
Sua mãe a olhou estreitando seus olhos. Insatisfeita com a pergunta, não respondeu, apenas pegou seu livro e saiu da sala.
Zara não sabia o porquê de sua mãe não ter lhe respondido, muito menos sabia o que havia acontecido com seu vizinho. Seus pais achavam melhor ela continuar sem saber, assim não ficaria receosa.
De qualquer forma, ela decidiu que se sua mãe não queria lhe contar o que estava acontecendo, é porque aquilo realmente não era de sua conta. Embora fosse curiosa (até demais), ela conseguia respeitar o espaço que as pessoas pediam que ela respeitasse.
Antes de ir ao seu quarto, e assim dormir como se nada estivesse acontecendo, viu uma sombra na rua. Não fazia sentido, porque se a rua estava tão escura, como era possível ver algo como uma sombra?
Ela estreitou os olhos vendo se conseguia enxergar melhor o que era. Percebeu que não era uma sombra, e sim uma pessoa vestida toda de preto. Essa pessoa olhou diretamente para Zara, que fechou a janela rapidamente fingindo não ter visto nada.
E com isso, meio assustada, foi para seu quarto e não contou nada aos seus pais, porque provavelmente não teria uma resposta.
Rua do Ludíbrio – 2016
O dia amanheceu bonito lá fora. Pássaros cantando, crianças brincando e famílias preparando seus apetitosos almoços de final de semana. Nesses dias tão animados, pessoas saem de casa para aproveitar e conhecer pessoas novas.
Mas é claro, nem para todos era desse jeito.
Zara Morgan, com seus dezesseis anos, aproveitava esse dia novo trancada em seu quarto. Sua janela estava fechada, assim não conseguia ouvir a música que seus vizinhos escutavam felizes e animados.
Durante seu sono conseguiu uma ideia nova para a sua história. Assim que acordou, precisava escrever e depois mostra-la para a sua amiga virtual que adorava ler suas histórias. E assim passaria o seu domingo.
Pelo menos, era assim que ela pensou que passaria.
A porta de seu quarto, cuja tinha cartazes de seus filmes favoritos colados, foi aberta com força por sua mãe.
—Eu não acredito. –Marissa falou- Você passará o seu domingo, trancada nesse quarto? Nem adianta falar que é porque estava escrevendo.
—Então você quer que eu minta? –Zara revirou os olhos. Sabendo que sua mãe reclamaria pela sua falta de educação, acrescentou- A senhora disse que minhas notas em redação tinham que melhorar e é isso que estou fazendo.
Marissa não respondeu. Pegou um livro com capa vermelha guardado na primeira gaveta dela e jogou sobre a mesa onde ela escrevia atentamente.
—Está vendo isso? –perguntou- Você gosta tanto de ler, mas por que nunca leu esse livro que eu sempre pedi? Eu sei os gêneros de suas histórias. Esse livro serve como uma inspiração a você. Estou falando sério.
Zara encarou o livro por cinco segundos.
—Esse livro não tem nada haver comigo. –ela reclamou- O que eu escrevo é de terror e mistério, esse livro é de drama e fantasia. O que tem haver? O nome do livro também é estranho. “Um olhar vermelho”.
—Você entenderia esse olhar se pelo menos tentasse ler.
Zara impaciente pegou o livro para ler a sinopse.
—“Após milhares de guerras, a pessoa que tivesse o olhar vermelho era a culpada. Esse olhar não significava que ela era uma vampira, muito menos que usava lentes de contato. Esse olhar significava todos os sonhos e vidas que essa pessoa tirou, e que talvez, tiraria.”.
Deu um suspiro e colocou o livro sobre a mesa.
—Por que você quer que eu leia isso?
—Quer saber? Se não quer ler, não leia. –Marissa reclamou- Esse livro é bom, e eu não quero te dar satisfação para que você o leia. Aliás, saia desse quarto agora. Temos vizinhos novos e eu quero que você leve uma lembrança a eles.
—Poxa mãe. –indignou Zara- Vizinhos novos? Que casa que estava à venda aqui na rua que eu não sabia?
—A última casa da rua. A casa dos Ludíbrios.
Com uma pequena bolsa e uma cesta com diversos alimentos dentro, Zara estava indo a caminho da última casa da rua. Teria que passar apenas por duas casas até chegar a aquela, mas mesmo assim, parecia ser um caminho longo.
Torceu mentalmente que seus vizinhos não a cumprimentassem, mas evidentemente, não tinha como fugir deles.
A única pessoa que ela realmente não conseguia fugir completamente era do seu vizinho mais chato. Tinha a sua idade, cabelo castanho e olhos verdes (que achava que tinha razão para se exibir por isso).
—Bom dia, princesa. –ele falou.
Seu nome é Carlos McFustter. Estudavam no mesmo colégio, com algumas aulas juntos. Sabia que ele namorava uma garota por pelo menos uma semana e depois a largava. Não conseguia sentir interesse por ele. Talvez por ninguém.
—Bom dia. –ela respondeu seca.
—Que falta de humor no domingo. –ele disse sorrindo- Sabia que eu senti a sua falta na sexta feira que você não foi à festa da Clara?
—Até porque eu não fui convidada. –ela respondeu- Agora se me der licença, preciso presentear os nossos novos vizinhos.
—Interessante. –ele falou- Eu não sabia que os parentes do Richard Ludíbrio tinham saído da casa. Mas agora outros parentes deles estão morando ali.
—Outros parentes? – ela perguntou arqueando as sobrancelhas- Quantos familiares ele têm? Naquela mansão moravam pelo menos cinco pessoas.
Ele passou a mão por seus cabelos e ficou por cinco segundos em silêncio, irritando Zara, que estava prestes a gritar com ele.
—O irmão dele se mudou para aquela casa. –ele disse- Ele se casou com a antiga esposa do Richard Ludíbrio. Como o Richard tinha apenas dois filhos e eles já se cresceram e se mudaram, os outros dois filhos do irmão dele estão morando ali juntamente a ele.
Zara olhou brevemente para a casa. Por tantos anos estava tão apagada, com a pintura começando a se desfazer. Agora era possível ver as caixas de móveis novos, jogadas ao lado de fora.
—Não posso demorar. –disse Zara tentando mudar de assunto.
—Entendo. –ele disse- Nos vemos depois, princesa.
Sem responder, Zara continuou seguindo o seu caminho até a grande casa. Ela não conseguia não achar o sobrenome algo estranho. O significado deixava aquele sobrenome ainda mais misterioso.
A questão é que ela não sabia o porquê alguém teria esse sobrenome. Talvez, era algo que realmente deixasse os outros curiosos, mas também poderia significar que algo no passado deles os deixou conhecido assim até que uma hora decidiram que esse seria o sobrenome verdadeiro deles.
Quando menos esperava, já tinha chegado à mansão. Por ser a última da rua, era a maior. Zara logo percebeu que a parede exterior da casa tinha sido pintada recentemente. O piso tinha sido trocado. As plantas cresciam novamente.
Então nesse momento, tocou a campainha. Uma música clássica tocou no interior da casa. Em menos de dez segundos, a porta foi aberta.
Uma garota alta, com cabelos longos e loiros e olhos azuis atendeu. Zara nunca tinha a visto em toda a sua vida. A garota a olhou de cima abaixo até seus olhos pararem bem na cesta de alimentos.
Sorriu timidamente.
—Oi. –ela falou – Posso ajuda-la?
—Prazer. Meu nome é Zara Morgan. Somos vizinhas. –Zara respondeu também meio tímida- Minha família mandou um pequeno presente aos novos moradores. Têm alguns doces e coisas que talvez vocês gostem.
Ela entregou a cesta à garota loira.
—Adorei. –disse a loira sorrindo- Já encontrei várias coisas que eu gostei. Muito obrigada.
Zara retribuiu o sorriso.
—A propósito, meu nome é Evelina e quantos anos você tem?
—Dezesseis.
—Ótimo, temos a mesma idade. Gostaria de entrar?
“Por que não?” pensou Zara. Lembrando-se do que Carlos havia lhe dito, preferiu entrar para ver se realmente era verdade. Não tinha nenhum interesse sem ser isso. É uma pessoa extremamente curiosa, não tinha como deixar isso passar em branco.
Ela assentiu, então entrou. Evelina colocou a cesta na cozinha e levou Zara até seu quarto. O quarto é bem espaçoso, com uma decoração que concentrava principalmente tons de vermelho e prata.
Tinha um lustre que ficava centralizado no quarto. Uma parte da parede tinha quadros que provavelmente eram de livros. Por exemplo, uma coroa com sangue lembrava o livro A Rainha Vermelha.
—Seu quarto é lindo, Evelina. –Zara disse admirada- Meu quarto é totalmente bagunçado. Senti-me até constrangida agora.
Evelina riu.
—Nem sempre meu quarto é tão arrumado. –ela falou- Só está assim hoje porque eu receberei visitas amanhã. Todos os vizinhos serão convidados para um jantar especial aqui em casa. Aliás, me chame de Lily porque eu não gosto do meu nome.
—Somos duas, também não gosto do meu nome. –Zara disse rindo- Mas não existem muitos apelidos para Zara. Minha prima me chamava de Zaza, mas a própria percebeu que não combinava comigo.
Lily riu novamente.
—O que você tem na sua bolsa? –Lily perguntou- Não que eu seja curiosa, mas é que eu não consigo ver bolsas a minha frente e não ter vontade de saber o que tem dentro delas.
Zara riu. Pegou a bolsa e tirou os objetos que estavam ali dentro. Um celular, um bloco de notas, um lápis, uma borracha e o livro que sua mãe havia dado. Lily colocou a mão na boca surpresa ao ver esse livro.
—Eu não acredito que você também gosta desse livro. –ela perguntou animada- Pensei que eu era a única.
—Ah, eu nunca li. –Zara corou um pouco- Minha mãe me recomendou, mas por enquanto eu ainda não li.
—Você precisa ler. –disse Lily sentando ao lado de Zara- Eu também achava que era chato, mas juro a você que é uma das melhores histórias que você pode ler. Quando a minha mãe faleceu, meu pai começou a trabalhar por mais horas no trabalho. Por isso, eu ficava ainda mais sozinha no meu quarto e por isso comecei a ler diversos livros para o tempo passar mais rápido. Esse livro foi um dos melhores que eu li.
“Quando a minha mãe faleceu, meu pai começou a trabalhar por mais horas no trabalho.” Essa era a primeira coisa que Zara anotou mentalmente. Se ela queria descobrir o passado dos Ludíbrios para entender mais o seu sobrenome, precisava anotar cada detalhe.
—Eu sinto muito pela sua mãe. –disse Zara. Lily deu de ombros, como se não quisesse falar disso- Que dia você acha que eu devo começar a ler esse livro? Você e a minha mãe estão falando tão bem dele...
—Agora!- Lily respondeu imediatamente- Na verdade, estou com vontade de reler esse livro, então vamos ler o primeiro capítulo juntas. Se não entender algo, eu te explico. Mas calma, não te contarei o final, mesmo que eu queira.
Lily deitou-se na cama e fez um gesto para que Zara se deitasse ao seu lado e começasse a contar a história.
—Capítulo 1...
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