Notas iniciais
Para minha queridas, ansiosas, muito muito insistentes, leitoras

Dia 17, Domingo

Havia cinco dias desde que eu, Peter e as crianças, estávamos nesse chalé em Buenos Aires. Peter havia me dado essa viagem de presente de aniversário que é dia 22. Viajaríamos na outra semana, mas ele ainda tinha uma série para gravar, e eu, o evento de Katarina. E este tem sido um dos melhores momentos da minha vida.

Peter nasceu e viveu aqui, então ele conhece bem a cidade, essa manhã sairíamos para ver tudo.

Eram 8h da manhã quando acordei. Peter ainda dormia do meu lado. Virei para a varanda e observei a paisagem estonteante, quando Claire veio correndo do seu quarto tentando carregar seu irmão três anos mais novo, Thiago, que se debatia e dava com seu ursinho na cabeça de Claire.

Eles se jogaram na cama fazendo Peter acordar e começaram a pular. Thiago, mais calmo, sentou-se do meu lado e pôs seu ursinho na minha barriga. Claire se jogou em Peter e ficou mexendo em seu cabelo.

– Bom dia pra vocês também! – falou ele rindo. Ele me deu um beijo e passamos um bom tempo conversando, e depois saímos para tomar café na cafeteria ali perto.

Passamos o dia conhecendo novos lugares, levando as crianças para os parques, fomos ao Obelisco, à Catedral, e tantos outros lugares que me davam cada vez mais vontade de morar lá. No final, comemos em um restaurante que Peter dissera ser muito bom, e ele estava certo.

Voltamos para o chalé, já era final da tarde. Deixamos as crianças na casa da tia de Peter, que morava ali perto, e saímos para um jantar em Puerto Madero, num restaurante chamado Cabaña Las Lilas.

Passamos a noite observando as luzes da cidade e comendo uma maravilhosa refeição. Claire e Thiago iriam ficar na casa da tia de Peter até amanhã à tarde, então tínhamos a noite para nós dois.

Dia 18, Segunda-feira

Eu e Peter tomamos café da manhã no mesmo lugar do dia anterior, e depois fomos para os bosques de Palermo. Talvez uma das coisas mais bonitas que já vira.

Por um lado estava um pouco preocupada com a empresa, eu e Mykaella sempre cuidamos de tudo, mas sempre quando uma está ausente, acontece alguma coisa.

– Peter, preciso ligar pra Myka. – disse para ele. Peter segurava na minha cintura enquanto olhávamos para o lago abaixo da ponte.

– Não, nada disso. – ele pegou meu celular. – É um momento nosso, para comemorar o seu aniversário, e quero que seja especial. Nada de se preocupar com a empresa. Myka está lá, não está?

– Sim... – assenti.

– Então, vocês trabalham juntas há anos, não tem pra que ficar preocupada. Tudo bem? – ele pegou no meu rosto e deu um de seus sorrisos mais lindos, que eu não via há tanto tempo. Aquilo me fez querer ficar ali pra sempre, ao lado dele, naquele lugar maravilhoso.

Mais tarde, fomos à casa da tia de Peter para pegar as crianças e ela fez questão que ficássemos para o almoço.

– Ah, mas que crianças adoráveis vocês tem! – disse ela sorrindo. – Quantos anos eles tem mesmo?

– Claire tem seis, e Thiago tem três anos. – respondi a cumprimentando.

– Elas não fizeram nada de errado, não é? – perguntou Peter olhando pra Claire.

– Ah, não! Eles só foram brincar no escorrego e Claire acabou machucando o joelho. Mas não se preocupe, cuidei de tudo! E fiz um almoço delicioso para nós! Venha me ajudar, Peter! – falou a tia dele empolgada. – Thaís, pode ficar a vontade minha querida! – disse ela me abraçando.

– Obrigada! — eu ri e sentei no sofá com as crianças.

Depois de um tempo ele vieram trazendo uma travessa de carne de churrasco e outros complementos.

– Podem vir crianças! – anunciou a mulher. Ela ajudou Thiago a sentar, e sentou-se. Ela nos serviu e ficamos lá por um bom tempo.

– Ah, me desculpem. – falei tentando tirar meu celular da bolsa que tocava freneticamente. A ligação era de Katarina, então eu me levantei e fui à varanda para atender, mas o sinal daquela casa era muito ruim, então não consegui ouvir nada. Esperei para ver se ela ligava outra vez, mas não ligou, então voltei para almoçar.

Dia 19, Terça-feira

Era final da tarde, e estávamos em casa, pois estava muito frio para sair. Então Peter foi pegar lenha no depósito para acendermos a lareira.

– Thai... – disse ele voltando com alguns pedaços de madeira. – A emissora me ligou, e eu vou ter que gravar uma cena amanhã à tarde.

– O que?! Mas só íamos voltar dia 20! – pronunciei.

– Eu sei, eu sei, eu queria ficar aqui com você, as crianças, mas eles disseram que é urgente... Vamos ter que ir amanhã de manhã. – disse ele se sentando do meu lado no tapete.

– Tudo bem... – respondi um pouco triste.

Passamos a noite ali, nós quatro tomando chocolate quente e conversando. Isso realmente me fez esquecer de que voltaríamos amanhã.

Dia 20, Quarta-feira

Quando acordamos, Peter havia ido comprar as passagens, enquanto eu arrumava as malas. Então meu celular tocou. Era Mykaella.

– Alô?

– Thaís, temos um problema!

– Ai meu Deus, o que aconteceu? – perguntei nervosa.

– Parece que o nosso negociador está desviando dinheiro da nossa construtora, e que ele está subornando a dona da imobiliária... – disse Mykaella.

– Josh?! Não pode ser! Eu pensei que... – parei por alguns segundos e continuei. – Estou voltando hoje. Não se preocupe. Estarei aí hoje mesmo. – falei tentando soar firme.

Ele estava traindo minha amiga e a empresa.

Mais tarde, já estávamos no aeroporto esperando o avião que atrasou duas horas.

Assim que chegamos, deixei as crianças na creche, me despedi de Peter e fui para a empresa. Tudo o que eu queria era um momento de nostalgia depois de ter passado o melhor tempo da minha vida. Mas, isso não foi possível.

– Myka! – falei quando entrei no escritório dela. Ela estava conversando com Josh. – Josh, pode se retirar por uns minutos?

– Claro. – falou ele frio e saiu ajeitando o terno.

– O que houve? – perguntei preocupada.

– Pior do que eu estava lhe contando... Ele tem dormido com a dona da imobiliária, e todo o dinheiro que seria investido no nosso projeto em parceria com a imobiliária está indo para a conta dele, restando menos de um terço para a gente. – contou Mykaella.

Eu parei por um instante. Não sabia se ficava triste e com raiva por causa de Katarina, ou se tentava resolver isso profissionalmente. Claro que tive que optar pela segunda opção.

– Joana! – chamei. Joana era minha secretária desde que começamos, ela sempre fora muito criativa e prestativa.

– Sim, Srta. Gomes. – falou ela. – Ah, seja bem-vinda de volta! – ela sorriu, ajeitando seus cabelos ruivos que estavam presos.

– Traga o relatório de funcionário de Josh e o chame aqui, por favor.

Poucos minutos depois ele adentrou na sala e sentou-se na cadeira.

– Josh... Soube que você esteve dormindo com a dona da imobiliária, a subornando e desviando dinheiro da empresa. Acima de tudo vem chegando atrasado há duas semanas e atrapalhando o projeto dela. – apontei para Mykaella. – Não é isso?

– Sim. – confirmou Mykaella. Ela pegou os relatórios e olhou várias vezes e assim que deu sinal para mim eu continuei.

– Receio que teremos que demiti-lo. – falei.

– O que?! Não, isso é tudo mentira! Eu sou casado! Você sabe disso... Digo, tivemos uma briga ontem, mas nada de mais! Eu nunca faria isso com minha mulher... Thaís...

– Sr. Copperman, darei o tempo necessário para você retirar suas coisas do seu escritório... E é Srta. Gomes para você. – e voltei a sentar.

– Não, isso é injusto! Quem inventou isso?! – falou ele se levantando da cadeira. Nesse momento Joana entrou no escritório. – Ah foi você, não é? Claro! Sempre quietinha, observando todos com essa sua caderneta imunda, sua vadia! – gritou ele.

– Sr. Coppeman sente-se agora! – gritou Mykaella.

– Você vai me pagar! – ele gritou e à medida que Joana se afastava assustada ele ia se aproximando. Josh pegou um jarro da mesa de Mykaella e o quebrou na ponta, apontando o vidro afiado para Joana.

– Sr. Copperman, por favor, não fui eu! – disse ela com a voz trêmula.

Josh estava com as mãos sangrando, seus olhos estavam arregalados e ele estava ficando vermelho de raiva. Chamei os seguranças, mas quando menos esperei ele enfiou o caco de vidro no pescoço de Joana. Gritei para alguém vir ajudar a pegá-lo, dois funcionários apareceram, mas não conseguiram segurá-lo por muito tempo.

– Eu não posso ser demitido ouviram?! Não posso! – ele deu um murro em um funcionário que tentava segurá-lo. – Me soltem... Eu saio sozinho. – falou ele num tom mais baixo, mas ainda nos fuzilando com o olhar.

Ficamos paralisadas por um bom tempo, mas eu tive que fazer alguma coisa. Tentamos acordar Joana, chamamos a ambulância, mas já era tarde demais.

Fechamos a empresa mais cedo, e dissemos que só abriríamos novamente na segunda-feira. O que não faltava eram policiais na área do ocorrido. Não sabia se lamentava a morte da minha amiga Joana, ou se ligava para Katarina. Provavelmente ela me ligara naquele dia para falar alguma coisa sobre isso. Se é que ela descobriu. Então resolvi ir a casa dela.

Quando a liguei ela disse que estava na casa de Thomas. Sim, ela já sabia.

– Katarina! – falei quando ela abriu a porta.

– Oi, Thais, pode entrar. – ela falou sorrindo.

– Desculpe não ter ligado de volta, o sinal onde eu estava era muito ruim, mas o que importa é que, eu voltei hoje, e aquele maníaco atacou minha secretária... E ele te traiu... Eu nunca senti tanta raiva na minha vida!

– Atacou sua secretária? – perguntou ela. Expliquei tudo o que houve, mas por mais que eu quisesse chorar, eu não conseguia com a presença de alguém. Ela também me contou o que vira, e disse que estava na casa de Thomas desde ontem, contou também o que havia ocorrido entre eles dois nos últimos dias. Até que ele chegou.

Notas finais
Próximo capítulo: Bárbara.