Tolos de Abril

1 Nossa Canção dos Tolos de Abril


Eu acreditava que todos nós ficaríamos felizes para sempre, vivendo nossas vidas normais. Acreditava que sairíamos todos os sábados para vermos as árvores e não voltaríamos até de noite, e então você me compraria algodão doce e iríamos para casa. Éramos muito felizes naquela época, mamãe, lembra? Você, mesmo divorciada do papai, trabalhava duro para nos sustentar e sempre sobrava um tempo para você ficar comigo.

Você sempre comemorava quando minhas notas chegavam, mesmo eu não sendo muito boa em Matemática. Crianças da quinta série não costumam ser boas em Matemática, mas eu me esforçava o máximo possível e você me ajudava – Sentava comigo quando podia e tentava me explicar a matéria.

Sempre que podia, também fazia o jantar, e o meu preferido era a macarronada com bastante molho. Adorava mexer nos seus cabelos que pareciam dourados enquanto você mexia no fogão, e depois tinha que tomar seu tempo tirando as trancinhas que eu havia feito nos seus cachos.

Todo o ano era feliz com você, mamãe. Não havia nada como Natais traumáticos nem aniversários ruins. Na verdade, apenas um dia não era bom – O primeiro de Abril.

Nunca gostei dessa data. Era comum os seus amigos do trabalho ligarem e falarem coisas estúpidas como “o banco está sendo assaltado, ligue para a polícia” e então, depois que você ficava desesperada, ligarem novamente e dizerem “feliz Primeiro de Abril”. Era ridículo. Lembra daquele, quando eu tinha nove anos? O segundo pior? Quando disseram que você tinha uma enorme papelada para preencher até o dia primeiro. Lembro que você ficou muito estressada, mamãe, e inclusive teve problemas cardíacos, tendo que ir ao médico e ficar afastada do trabalho por uns tempos.

No fim, era tudo a mesma coisa. “Feliz Primeiro de Abril”, eles diziam.

Eu aturava. Ficava triste, mas aturava. Caía fácil na antiga piada do “A professora quer falar com você e está muito zangada”, mas aturava. Caía fácil na piada do “Olhe, dinheiro”, mas aturava.

Feliz Primeiro de Abril, feliz Primeiro de Abril, feliz Primeiro de Abril.

Ah, mamãe...

Então completei onze anos de vida antes daquele dia. E tudo começou novamente – Ou assim eu pensava.

Era de noite e eu achava que aquele dia passaria batido sem piadas estúpidas de seus colegas de trabalho ou dos meus colegas da escola, quando ligaram para você. Trimm, trimm, alô, quem é? Você? Como?! O quê?! Acha que vou acreditar em você de novo?!

Suspirei, preocupada, sabendo exatamente quem aquele “você” era. Meu pai. Seu antigo esposo, mamãe. Você nunca gostou dele de verdade, não é? Pois é, nem eu. Ele era... Estranho. Tinha inúmeras passagens pela polícia e só nos trazia problemas. Não gostava nem que você falasse com seus colegas do trabalho, achando que você estava “dando mole” para eles. E não gostava de mim. Nunca gostou.

Para ele, eu era apenas a conseqüência de uma noite agitada. E mais, acho que ele queria um menino. Ou não. Não sei.

A separação de vocês foi uma das melhores coisas que já nos acontecera. E agora ele estava de volta, pedindo desculpas, implorando para que você ao menos descesse as escadas para falar com ele ao vivo. Ele estaria segurando um buquê e daria para você, mamãe. Estava arrependido, ou assim ele dizia.

Você mandou eu esperar lá, que você apenas iria lá em baixo ver o que ele queria. Mas eu, teimosa, fui atrás de você, silenciosamente, com medo e querendo te proteger daquele maluco.

Você deveria saber que era melhor não ir, mamãe.

Ele estava lá, segurando o buquê, ao lado de um carro. Você foi até ele e o cumprimentou friamente, e acabou caindo na lábia dele, acho. Ou foi apenas um momento de fraqueza. Ou não. Ele abriu a porta e pediu para que você entrasse, mas você não foi – Fez o que qualquer um faria. Então ele, furioso e fora de si, a agarrou pelo braço e a forçou para dentro.

Corri atrás dele e, com minha pouca força de criança, lutei para que a soltasse. Acabamos nós duas lá dentro, e ele entrou em seguida e apontou um revólver para sua cabeça. Mandou-lhe ficar quieta e deu a partida.

Lembro ter deixado algumas lágrimas escaparem e você me abraçou. Ah, mamãe, que saudades do seu abraço.

Alguns minutos se passaram e ele nos mandou sair, rumando para um hotel e mandando-nos fingir que estava tudo bem, ou coisas piores aconteceriam. Você obedeceu e eu também, com medo. Estava tremendo, lembro de sentir suas mãos geladas e tremiliquentas segurando as minhas com força.

Você estava com medo, mamãe? Eu estava. Com muito. Mas você nunca deixou transparecer o medo.

Entramos e ele nos empurrou até um quarto e trancou a porta. Fez coisas horríveis com você, mamãe, todas apontando o revólver para sua cabeça ou para a minha. Em alguns dias, você nem mais gritar, gritava. Te bateu tanto... Te chamou de nomes ruins, também, e eu chorei muito. Ele me bateu uma vez ou outra, mas queria te machucar mais do que me machucar.

Aquele homem era insano, mamãe. Completamente insano.

Um dia, eu o vi te bater com uma barra de ferro, bem na cabeça. Sangrou muito e você parou de se mexer por alguns momentos, lembra? Eu senti ódio. Muito ódio, e acabei chorando de novo. Ele, rindo, deu com a barra em mim também, e disse que eu morreria do mesmo jeito que você morreu, mamãe, mas você não morreu. Jurei que daria um jeito naquele homem malvado.

No dia seguinte, quando ele estava rindo de você, que ainda não havia voltado a se mexer, eu escorreguei as mãos até a gaveta onde ele guardava a arma. Atirei como nunca atirei e nunca atirarei na minha vida, e ele caiu todo cheio de buracos e sangrando.

Feliz Primeiro de Abril atrasado, papai.

Você, então, acordou e me levou para a casa com ajuda de alguns policiais. Poderíamos voltar a viver felizes, mamãe, mas todos me odeiam por ter matado um homem, mesmo para te defender. Estamos juntas agora, sozinhas, numa casa diferente. É cheia de outras crianças, e estamos esperando um novo marido para você e um novo pai para mim.

Espero que isso aconteça rápido. Já se passou um ano.

Olhe, já é Primeiro de Abril. Feliz Primeiro de Abril, mamãe. Estamos bem agora. Eu te amo.

Deixe-me apenas pôr esse caderninho de lado. Nele está tudo que aconteceu desde aquele dia. A história dos tolos de Abril. A canção dos tolos de Abril. Em homenagem a todos que não gostam desse dia.

Feliz Primeiro de Abril.

Vamos passear, ver as árvores de novo. Dessa vez, aqueles homens e mulheres dessa casa não vão nos impedir. Eles dizem que você já se foi. Que bobagem, não, mamãe?

fim

Notas finais
Espero que tenham gostado.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!