Todos os quadrinhos do mundo. |Marcaniel

1 Me tornei lider (e único membro) da seita "Quero minha casa"


Notas iniciais
 Saudações! Antes de tudo, gostaria de agradecer por você ter escolhido dar uma chance a esta história. Sua leitura, seu tempo e seu interesse significam mais do que eu consigo colocar em palavras. Todos os quadrinhos do mundo é uma fanfic de minha autoria, inspirada no universo de Miraculous Ladybug. No entanto, esta obra é uma releitura e não segue fielmente todos os acontecimentos da série original. Algumas personalidades, situações e rumos da história foram adaptados para servir à narrativa que eu quis construir. Esta fanfic é classificada como um AU (Universo Alternativo). Aqui, o foco principal está nas vidas civis dos personagens, em seus conflitos internos, relações, sentimentos e no impacto do cotidiano sobre quem eles são longe das máscaras. Não haverá a introdução de novos heróis nesta história. Apenas Ladybug e Chat Noir existem como figuras heroicas, enquanto os demais personagens aparecem exclusivamente em suas versões civis. A proposta não é a ação constante, mas sim a construção emocional e narrativa dos personagens. Reforço que esta história não possui continuidade direta com a série, não é oficial e foi criada apenas por carinho, criatividade e admiração pelo universo original. Todos os direitos pertencem aos seus criadores. Por fim, deixo aqui meu sincero obrigada a todos que lerem, comentarem, favoritaram ou simplesmente acompanharem em silêncio. Cada interação, por menor que pareça, incentiva e motiva a continuar escrevendo. Espero que você se co


Nathaniel acordou caindo. O barulho do despertador explodiu ao lado da cama como uma agressão.


O impacto veio antes da consciência O corpo despencou da cama com um baque seco, o ombro batendo contra o chão seguindo de um palavrão engasgado que morreu no meio do ar. A respiração saiu descompassada, seu coração batia agressivo no peito, acelerado, como se tivesse tomado dezenas de doses de energético,como se estivesse tentando atravessar km e km de fumaça espessa, e por alguns segundos, ele apenas ficou ali, estendido, encarando o nada enquanto o coração martelava forte demais no peito.


- Merda!! — murmurou para si mesmo, a voz rouca, arrastada, o'que acontecia todas as manhãs com Nath, que sempre estava disposto a cometer um crime de ódio contra sua própria mente por tê-lo privado de mais uma boa noite de sono,e talvez o despertador, por ter lhe lembrado claramente de algo que ele não gostaria: A escola.


Quando abriu os olhos de vez, foi a luz que o incomodou. O sol atravessava a janela sem pedir licença, espalhando-se pelo quarto e denunciando o que ele já temia: estava tarde. Tarde demais para fingir que ainda tinha controle sobre a manhã.


Nathaniel se sentou devagar, observando o próprio quarto como se estivesse vendo tudo de fora. Um simples espectador. O chão estava coberto de folhas de papel, a maioria com esboços incompletos, rabiscos interrompidos no meio de uma ideia que nunca chegava a se formar. Lápis espalhados, roupas jogadas sobre a cadeira e chão, telas em branco apoiadas na parede.


Tudo parado. Uma completa bagunça. Assim como ele.


Levantar-se exigiu mais esforço do que deveria. Ele tropeçou em um caderno aberto, quase caiu novamente e soltou uma risada sem humor. Ele tentou puxar o ar com força — e engasgou por um segundo. Vestir-se foi um processo automático: uma camiseta qualquer e o macacão jeans manchado de tinta, como se aquelas marcas fossem a única prova de que ele um dia soubera criar algo.


Na cozinha, o som do lápis preenchia a sala, ecoava. Sua mãe já estava acordada há horas, — vítima de seu vício em trabalho — sentada em frente a sua mesa de projetos, os cabelos presos de qualquer jeito, usando um escalímetro, que embora fosse algo que sempre leve consigo, raramente o usa, completamente absorvida em mais um projeto. O pai, ao contrário, tomava café com calma, folheando o jornal como se o mundo não estivesse sempre à beira de um novo desastre.


Nathaniel abriu a geladeira e pegou a primeira coisa que viu, mordendo sem pensar, fazendo uma careta quando sentiu entre seus dentes o gosto neutro — E nada gostoso — de um pepino.


- Bom dia — disse o pai, pousando o jornal sobre a mesa com cuidado. O barulho do papel ecoou alto demais para os ouvidos de Nathaniel. — Dormiu mal de novo?


Nathaniel deu de ombros, puxando uma fatia de pepino do prato como se ela fosse muito mais interessante do que a pergunta. Não era.


- Dormir é uma palavra bem interessante e nova — murmurou, sem levantar os olhos. — O que ela significa, exatamente?


O pai soltou um meio sorriso, curto, daqueles que tentam aliviar a tensão, mas não insistiu. A mãe, por outro lado, finalmente desviou o olhar do papel. Seus olhos o percorreram com atenção rápida, porém minuciosa — o cabelo desalinhado, as olheiras suaves, o jeito distraído com que mastigava.


- Nathaniel... — ela chamou, num tom baixo, quase cuidadoso. — Você dormiu tarde outra vez?


- Eu só... — ele hesitou, engolindo em seco antes de terminar de mastigar. Procurou uma resposta melhor, menos verdadeira. — Não consegui pegar no sono. Estava ansioso com a prova de aptidão física. Você sabe que eu não curto esportes.


Ela suspirou, deixando o seu lápis sobre a mesa, como se aquela conversa exigisse mais do que meia atenção.


- Você sabe muito bem que eu não gosto que fique acordado até tarde, certo? — disse, apoiando os cotovelos na mesa. — Você precisa de rotina!


Nathaniel assentiu vagamente, sem convicção. O pai pigarreou, dobrando o jornal.


- Educação física agora anda causando insônia? — comentou, com uma sobrancelha arqueada. — Antigamente era só matemática.


Nathaniel deu um sorriso torto, rápido demais para ser sincero.


- Evolução do sofrimento — respondeu.


A mãe não sorriu. Seus olhos se estreitaram levemente enquanto observava os dedos manchados de grafite, quase invisíveis, mas presentes.


- Você virou a noite desenhando de novo? — perguntou, direta.


Ele congelou por um segundo. Depois voltou a mastigar o pepino, como se isso fosse resposta suficiente.


- Não foi a noite inteira...


- Nathaniel!! — ela interrompeu, com firmeza contida. — O que eu já lhe disse sobre isso?


Nathaniel piscou algumas vezes, jogando o resto do pepino no lixo antes de finalmente encará-la. Os óculos da mulher mais velha mal conseguiam esconder as olheiras profundas, denunciando que ela própria também tinha ido dormir tarde — um detalhe que ele agora tinha quase certeza de ter herdado dela.


- Você me disse para eu não me exigir demais e preservar a minha saúde — respondeu, erguendo a mão num gesto vago, que logo deixou cair. — Mas, como pode ver, passar alguns dias depois da meia-noite não me matou.


- Ainda! — a mãe corrigiu, seca, sem tirar os olhos dele.


Nathaniel arqueou levemente a sobrancelha.


- Está tentando me matar, senhora Kutzberg?


Ela cruzou os braços, apoiando o peso em uma perna só.


- Precisa da minha ajuda pra isso? — retrucou. — Pelo que parece, você está fazendo um ótimo trabalho sozinho.


O pai pigarreou, claramente desconfortável, mas o canto da boca se contraiu, quase um sorriso.


- Vocês dois são dramáticos demais antes das nove da manhã. — comentou.


A mãe lançou um olhar rápido para o marido, depois voltou-se para Nathaniel.


- Não estou brincando — disse, mais baixa, porém firme. A mãe lançou um olhar rápido para o marido, depois voltou-se para Nathaniel após respirar fundo. — Você vai se atrasar — disse, enfim. A voz não era dura, mas tinha peso. — De novo.


Nathaniel olhou para o relógio na parede e praguejou em silêncio. O ponteiro parecia zombar dele, avançando rápido demais, como tudo naquele mundo que não esperava por ninguém.


- Eu sei — murmurou, passando a mão pelo rosto. Ele mentiu, não havia notado e nem se lembrava, e saber disso não lhe deixava exatamente ansioso. — Já estou indo. — Nathaniel afanou do prato de seu pai uma torrada que ele havia acabado de fazer, pego da cadeira sua bolsa terrivelmente leve — já que não era idiota como alguns de levar e voltar com seu material todos os dias quando tinha um armario em seu colegio.


Shirel se aproximou um pouco, apoiando a mão na mesa, inclinando-se até ficar na altura dele. O gesto não era agressivo. Era íntimo. Preocupado demais.


- Nath... — chamou, mais baixo. — Lembre-se de que não precisa continuar correndo se sua visão estiver doendo, ok?


Ele engoliu em seco com a lembrança da sua última aula, onde foi vítima do sedentarismo e desmaiou sendo obrigado a interromper o trabalho de sua mãe para que ela o buscasse. — Com um uniforme de ginástica terrível. — desviar o olhar foi automático.


- Não tem problema!! — mentiu. — aquela vez foi só um acidente!!! o sol estava muito quente!!


- Vocês estavam dentro do ginásio! — A mãe rebateu.


- O sol bateu no telhado e deixou o interior quente. Isso é física!!


A mãe suspirou, como se já conhecesse aquela resposta de cor. Estendeu a mão e, com dois dedos, virou o rosto dele na direção dela, obrigando-o a encará-la.


- Você transforma tudo em obrigação — disse. — Até o que odeia.


O pai se levantou, pegando a própria xícara.


- Vou levar o carro hoje — anunciou. — Posso deixar o Nathaniel no caminho.


O ruivo arregalou levemente os olhos.


- Não precisa, pai.


- Eu sei que não — respondeu ele, calmo. — Mas posso.


A mãe observou os dois por um segundo, depois assentiu.


- Ótimo. — Voltou-se para o filho. — Então vão. você já está atrasado Nathaniel. Agora!!


Nathaniel obedeceu sem discutir. Passou pela cozinha arrastando os pés, sentindo o corpo pesado demais para aquela hora da manhã. No quarto, pegou as chaves do apartamento, pegou de sua mesa, que estava cheia apenas de cadernos rabiscados e lápis quebrados, um bloco de desenhos. Antes de sair, seus olhos pararam em uma tela encostada na parede.


Branca.


Intocada.


O estômago revirou.


No carro, o silêncio se instalou pesado, cortado apenas pelo som baixo do rádio. Paris passava pela janela como um borrão de concreto e pessoas apressadas, todas parecendo saber exatamente para onde iam. Uma multidão de pessoas, em uma das cidades mais turísticas do planeta. Nathaniel não desgostava de morar ali. Nunca havia saído de Paris, e mesmo que o tivesse, talvez não teria se impressionado tanto.


- A prova de educação física é hoje, não é? — perguntou o pai, quebrando o silêncio sem tirar os olhos da rua.


Nathaniel sempre reparava nos modos de dirigir de seus pais. Embora sua mãe tenha a personalidade correta, perfeccionista e alinhada, na direção era o total oposto de seu pai. Shirel era um tipo imprudente e raivoso. Quase sempre estava com uma mão no volante e outra sobre a marcha, sempre relaxada. Às vezes buzinava raivosa quando o trânsito era pesado — Mesmo que não fosse fazer nenhuma difereça. — e sempre procurava atalhos. Seu pai, no entanto, era um GPS perfeito, sempre pegava as mesmas rotas, e chegava no tempo exato para tudo, como um relógio.


Nathaniel assentiu.


- É.


- Quer que eu te busque mais cedo?


Ele pensou por um segundo. Na sensação de correr até os pulmões queimarem, o ar entrando em golpes curtos e desordenados, como se nunca fosse suficiente. A testa úmida de suor escorria lentamente, grudando mechas rebeldes à pele, enquanto o cabelo preso em um rabo de cavalo puxava o couro cabeludo em um incômodo constante. Cada detalhe parecia errado, fora de lugar, apertado demais. Nath torceu o rosto numa careta silenciosa, o desconforto atravessando-o de dentro para fora.


- Talvez — respondeu, por fim.


O pai não pressionou. Apenas assentiu, como se aquela resposta já dissesse mais do que suficiente.


Quando o carro parou em frente à escola, Nathaniel permaneceu imóvel por alguns segundos, a mão pousada na maçaneta como se ela pudesse mantê-lo ali dentro para sempre. Inspirou fundo, mas o ar parecia pesado demais para os pulmões. Do lado de fora, o prédio o aguardava com a mesma indiferença de sempre, grande demais, barulhento demais. Por um instante, desejou que o carro desse meia-volta, que aquele dia fosse cancelado antes mesmo de começar.


- Nath — chamou o pai.


Ele ajeitou a mochila nas costas antes de olhar desanimado para o pai.


- Você não precisa ser bom em tudo ok? — disse ele, simples. — Só precisa continuar como você está.


Nathaniel deu um meio sorriso cansado.


- Ok!


E então saiu do carro, fechando a porta atrás de si, caminhando em direção ao prédio da escola como quem se dirige para um campo minado.


O dia ainda nem tinha começado.

E ele já estava exausto.


O portão da escola rangeu quando ele passou um som metálico e áspero que se misturou ao burburinho dos alunos. Vozes demais, risadas altas demais, passos apressados demais. Nathaniel sentiu o corpo enrijecer quase por reflexo, como se cada estímulo fosse um pequeno empurrão contra um equilíbrio já frágil.


Ele ajustou a mochila no ombro mais uma vez pelo hábito e seguiu pelo corredor principal, mantendo o olhar baixo. O chão polido refletia pés em movimento, tênis coloridos, sapatos sociais, sombras que se cruzavam sem notar. Tudo parecia seguir um ritmo que ele não sabia acompanhar.


- Nath!!! — A voz veio da esquerda, familiar demais para ser ignorada. Ele fechou os olhos por meio segundo antes de virar o rosto.


Alix estava sentada em cima de um dos armários baixos, as pernas balançando no ar, o capacete pendurado na mochila como se fosse uma extensão natural dela. O cabelo curto ruivo estava bagunçado, e o sorriso era afiado, vivo demais para aquela hora da manhã.


- Você desapareceu ontem. — Disse ela, pulando no chão com facilidade alética. (coisa que ele absolutamente não tinha) — Te mandei mensagem, mas você não respondeu.


Nathaniel puxou o celular do bolso. Notificações não abertas. Ele suspirou.


- Eu dormi cedo.


Mentira obvia.


Alix estreitou os olhos por um segundo, a cabeça levemente inclinada enquanto avaliava. Então relaxou os ombros e fez um gesto displicente, deixando claro que já tinha tirado suas próprias conclusões. — e que Nathaniel não a havia convencido.


- Claro. Dormiu cedo. Clássico. — comentou andando ao lado dele pelo corredor. — Hoje é o dia certo?


Ele não precisou perguntar do que.


- Educação física. — Respondeu , sem entusiasmo.


- Hummm. — Ela fez um som curto enquanto acariciava seu queixo, como se fosse uma detetive desvendando o caso da sua vida. — O ritual anual de humilhação coletiva. Tô ligada.


Nathaniel soltou o ar pelo nariz, algo entre riso e cansaço.


- Você não ajuda!


- Ajudo sim. — rebateu rápido. — Eu normalizo o ódio.


Nathaniel soltou uma gargalhada baixa para a melhor amiga.


Ao chegar à sala, Nathaniel exitou antes de entrar. O cheiro de giz no ar sempre empoeirava o local e atormentava o nariz do artista, o'que tornava o caso curioso já que usava todo tipo de material artístico. — As vezes de procedência duvidosa. — Ele foi direto para seu lugar após balançar a mão na altura do nariz. Seu lugar era perto da janela, no fundo, o ponto mais distante. Para alguns esse era o lugar dos excluídos, para outros era o lugar dos delinquentes, e Nath nos últimos anos estava se encaixando nos dois. Natanael deixou sua mochila de qualquer jeito sobre a mesa antes de abaixar a cabeça.


Alix se jogou na cadeira atrás dele, apoiando o queixo no encosto.


- Você vai ficar bem. -disse sem suavizar demais. — E se não ficar você para. Sem drama, sem poses de heróis da marvel antes do nocaute


Ele revirou o rosto escondido um pouco.


- Você fala como se eu fizesse as coisas de propósito.


- Não disse que você fazia. -Respondeu ela. — Mas é melhor do que desmaiar de novo no meio do meu jogo favorito.


Nathaniel moveu a mão para conseguir olhar Alix que se apoiava na cadeira, embora suas palavras tenham parecido duras, eram a cara da Alix dizê-las assim. Quando Nathaniel desmaiou da última vez, Alix foi quem alertou o professor, o levou para a enfermaria, e até avisou seus pais antes da escola. Nathaniel tinha quase certeza de que Alix conhecia seus limites melhor do que ele mesmo.


O sinal tocou alto demais para a cabeça sonolenta de Nathaniel. O dia seguiu quebrado e rotineiro: Explicações de matérias que ele não se dava o real trabalho de absorver, a não ser quando precisasse passar no semestre, exercícios que fazia no automático, embora completamente errados. O tempo escorria devagar demais aos olhos do ruivo.


No vestiário, o cheiro forte de chulé e suor, misturado a dias — talvez semanas — sem qualquer sinal de limpeza, atingiu Nath em cheio. Uma estrutura abandonada, vítima dos adolescentes revoltados e da clara falta de funcionários. Ele prendeu a respiração, o rosto se contorcendo numa careta que muitos poderiam facilmente classificar como desprezo.


Trocou de roupa o mais rápido que conseguiu, evitando qualquer chance de virar alvo de piadas vindas de outros tão parecidos consigo — como se já não bastasse o espelho, que fazia questão de ignorar. O uniforme de ginástica parecia uma piada grande e ridícula, estampada em vermelho, azul e branco neon, cores gritantes demais para alguém que só queria desaparecer.


Já próximos aos armários, Alix amarrou seus tênis com força exagerada. Nathaniel acompanhou os movimentos de sua amiga atlética antes de suspirar já derrotado.


- Se começa a escurecer, você para!! — Disse batendo os pés no chão como se para testar se os tênis haviam sido bem colocados. — Não tem segredo. Sentiu que vai morrer, você para, entendeu? Eu vou estar vendo.


Nathaniel assentiu desanimado.


O banco de madeira estava frio demais quando Nathaniel se sentou. na verdade, se jogou, como um vilão à beira da derrota. O contato atravessou o tecido fino do uniforme e subiu pela coluna com arrepio tardio. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos inclinando o tronco para frente, tentando convencer os pulmões de que ainda havia ar suficiente no mundo, e que o trabalho dele era de suga-lo e não de pegar fogo.


Inspirar.


Expirar.


Nada prestava.


Nathaniel estava podre. Bem podre. Estava se perguntando se seus órgãos estavam lhe dando uma lição por forçá-los a algo que eles OBVIAMENTE não queriam fazer.


Nathaniel fecho os olhos.


O coração ainda batia rápido, mas não mais como um animal em pânico. Agora era um martelar insistente, cansado, como se reclamasse de cada esforço imposto minutos antes. O gosto metálico na boca denunciava o limite que ele tinha alcançado — e respeitado dessa vez.


Nathaniel levantou o olhar para averiguar o ambiente. Não haviam muitos igual a si, na verdade, ele era o que mais estava sofrendo. Kim era uma das pessoas que definitivamente não estava sofrendo. Le chien Kim, na percepção de Nathaniel ele era simplesmente um monstro. Nunca viu esse garoto falar ou fazer nada que não envolvesse esportes. Chega a ser assustador ver como ele age em todas as aulas de educação física, que ele desconfia ser a preferida dele.


Próxima aos bancos, ao lado de uma garota de óculos cujo nome ele nunca conseguia lembrar, estava a famosa — e infame — Chloé Bourgeois. Filha do prefeito de Paris, como fazia questão de deixar claro. Ela era tudo o que Nath odiava: irritante, barulhenta e naturalmente intimidadora, como se o mundo tivesse sido feito para se curvar à sua passagem.


Nathaniel nunca a vira fazer absolutamente nada nas aulas de educação física. Ainda assim, era mais do que provável que não precisasse. Bastava uma ameaça bem colocada para custar o emprego daqueles professores desalmados e visivelmente sem qualquer expectativa de vida.


- Ei!


A voz de Alix surgiu ao lado dele, baixa e discreta. Ela estava de pé segurando a prancheta do professor que ele havia deixado momentaneamente com ela — Sabe-se lá o porquê. Talvez confiança. Talvez cansaço.


- Como ta o mundo? — Perguntou.


Nathaniel abriu os olhos devagar.


- Girando menos — Respondeu — Ainda meio borrado mas... melhor.


Ela assentiu, como se aquilo fosse exatamente o esperado.


- Ótimo, porque a próxima parte não envolve correr.


Nathaniel ergueu o olhar, cansado, decepcionado, e desconfiado.


- Como assim?


- Testes separados. — Explicou -Resistência já foi. Agora é força básica e coordenação. Flexão, abdominais, salto. Coisas curtas, controláveis.


Controláveis.


A palavra ecoou dentro dele com um peso estranho. Não como promessa, mas como possibilidade...para a morte.O professor se aproximou conferindo uma lista.


- Nathaniel Kutzberg? — Chamou.


- Aqui!! — O ruivo do cabelo preso disse antes de se levantar sem vontade e ir até o professor.


Os testes que vieram em seguida foram uma verdadeira tortura. Flexões, saltos — exatamente tudo o que Alix havia prometido, um exercício após o outro, sem qualquer misericórdia.


Nathaniel ainda estava vivo, embora por muito pouco ele acreditasse nisso. Os joelhos afundavam no chão enquanto ele se curvava para frente, lutando para puxar o ar para dentro dos pulmões. Cada respiração vinha curta, falha, como a de um moribundo à beira do colapso.


Alix se sentou no chão de pernas cruzadas ao lado dele, empurrando levemente o ombro dele com o próprio.


- Viu só, corpo chato, mas funcional.


Nathaniel soltou um riso curto.


- Tava torcendo pra desmaiar de novo e não ter que fazer.


- Eu achei que você fosse desmaiar mesmo. — Alix disse apoiando suas mãos nas costas e jogando a cabeça para trás. — Mas você foi até o final. Isso foi novo.


- Preciso de nota, estou abaixo da média.


- Não sabia que tinha como ficar com média baixa em ginástica. Isso é novo também.


- Educação física sempre encontra um jeito — murmurou, a voz abafada. — Se não dá pra reprovar oficialmente, eles inventam um constrangimento pedagógico.


Alix soltou uma risada curta, seca, aquele som que parecia mais um sopro pelo nariz do que riso de verdade.


- Isso explica muita coisa sobre o sistema educacional francês.


Ele virou o rosto de lado, ainda sem coragem de se sentar direito. O peito subia e descia de forma irregular, mas já não queimava como antes. Era só cansaço agora. Um cansaço pesado, profundo, que se alojava nos ossos.


- Você tem noção que em algum lugar do mundo alguem faz essa tortura por diversão?


- Sim. — disse ela convicta, quase zombeteira. — psicopatas.


Ele riu de novo, um pouco mais solto dessa vez, e finalmente se endireitou, apoiando as costas no banco. A camiseta grudava no corpo de um jeito desconfortável, e o coração ainda batia rápido demais para o que ele considerava aceitável, mas... estava tudo ali. Funcionando. Mais ou menos.


O vestiário estava mais silencioso quando Nathaniel terminou de se arrumar. A maioria dos alunos já tinha ido embora, e o eco das vozes havia sido substituído por um zumbido distante, quase confortável. Ele vestiu a camiseta limpa com cuidado, sentindo o tecido seco colar na pele ainda quente, e puxou o macacão jeans por cima, ajeitando as alças no automático.


Não passou a mão no cabelo.


O reflexo no espelho devolveu uma versão dele que parecia... levemente fora do eixo. Os fios ruivos ainda estavam desalinhados do esforço, caindo sobre a testa de um jeito irregular, um pouco mais bagunçados do que o habitual, preso a um rabo de cavalo torto. Normalmente, ele teria tentado arrumar. Alisar. Colocar cada coisa no lugar certo, como se isso também organizasse o que estava por dentro.


Mas não hoje.


Hoje, o cansaço não pedia correção.


Ele pegou a mochila, agora mais pesada pelo simples fato de estar sendo carregada por um corpo exausto, e saiu do vestiário com passos lentos, porém firmes. O corredor estava quase vazio. A luz do fim da tarde atravessava as janelas altas, douradas demais, fazendo partículas de poeira dançarem no ar.


- Ei, sobrevivente.


Alix apareceu ao lado dele, já com o capacete na mão, observando-o de cima a baixo.


- Você não arrumou o cabelo — comentou, como se estivesse apontando um detalhe gravíssimo.


Nathaniel ergueu a mão até a testa, tocando de leve os fios bagunçados. Sentiu o suor já seco, o arrepio tardio no couro cabeludo.


- Percebi — respondeu. — Mas se eu mexer, acho que meu braço cai.


- Justo — disse ela. — E, honestamente... combina.


Ele franziu a testa.


- Combina com o quê?


- Com alguém que acabou de passar por um trauma esportivo e saiu vivo — respondeu, dando de ombros. — Visual pós-batalha.


Nathaniel soltou um riso baixo, quase tímido.


- Eu odeio que isso faça sentido.


Enquanto caminhavam, as vozes começaram a surgir aos poucos, primeiro como fragmentos soltos, depois como conversas inteiras que atravessavam o corredor quase vazio. Nathaniel não prestava atenção de propósito — era impossível não ouvir.


- Você viu que a Aurora perdeu? — disse uma garota perto dos armários, mexendo no celular com indignação genuína, Nathaniel conhecia bem essa garota. Seus cabelos curtos e loiros e voz açucarada entregavam quem era sem nem precisar olhar.


Rose lavilant


- Perdeu como assim perdeu? — respondeu outra, quase inaudível. Seus cabelos castanhos quase ruivos, com uma face indiana.. — Ela literalmente faz previsão do tempo desde o sexto ano.


- Pois é! — Rose rebateu a garota de roupas xadrez, que Nathaniel se esforçava muito para lembrar o nome. Era algo que ele não conseguia de jeito nenhum, embora tivesse certeza de que ela era uma aluna nova. — Mas falaram que ela "não tinha carisma suficiente pra televisão".


- Carisma suficiente para clima? — um garoto riu assim que apareceu atrás de Rose — O que queriam, que ela sorrisse enquanto anuncia granizo?


- Eu acho que foi armação — comentou uma terceira voz, mais baixa, uma garota de cabelos roxos neon, que deixavam Nath com dor de cabeça. — Dizem que a direção queria alguém mais... "solar".


- A Aurora literalmente se chama Aurora Boreal.


- Ironia cruel — concluiu o rapaz, dramático. Ajeitando seus óculos no rosto.


Nathaniel passou por eles sem virar o rosto, mas o canto da boca se mexeu quase imperceptivelmente. Alix percebeu.


- Tá rindo de fofoca alheia agora? — provocou.


- Não — respondeu ele. — Só tentando imaginar alguém explicando pra Aurora que ela não venceu um concurso de meteorologia porque não parecia feliz o suficiente.


- Isso é muito escola — Alix disse. — Transformar qualquer coisa em um concurso de popularidade.


Mais à frente, perto da saída, outro grupo comentava o mesmo assunto, dessa vez com entusiasmo excessivo. Era sem dúvida o assunto do momento.


Nathaniel suspirou com todo aquele burburinho. Seus olhos foram ao chão como que pra raciocinar oque estava escutando. Nayh não era assim tão próximo de Aurora, mas era o suficiente para ela tê-lo contado que iria fazer testes para ser a nova garota do tempo do jornal local, uma posição que parecia feita totalmente para ela.


- A nova garota do tempo é aquela da turma B, né?


- A de cabelo curto? Mirela né? A que sempre erra a previsão?


- Ela mesma! — alguém respondeu. — Mas pelo menos ela sorri.


- Ótimo — ironizou outro aluno. — Vai chover, mas com otimismo.


Alix soltou uma risada curta.


- Se algum dia você se candidatar a alguma coisa, vai perder pelo mesmo motivo da Aurora. — disse ela.


Nathaniel a olhou de lado.


- Falta de carisma?


- Excesso de realidade — corrigiu. — Você não tenta parecer outra coisa.


Ele pensou nisso por um instante enquanto atravessavam o portão. O céu começava a escurecer devagar, nublado de um jeito indeciso, como se nem ele tivesse certeza do que queria fazer.


- Acho que prefiro assim — murmurou.


Alix colocou o capacete, ajeitando a tira com um estalo seco.


- Eu sei.


Nathaniel ajustou a mochila no ombro, sentindo novamente o peso (ou a falta dele) — não desagradável, apenas presente. Ao fundo, as vozes dos alunos continuavam discutindo injustiça, estética, favoritismo. O mundo seguia barulhento, cheio de opiniões demais.


Mas ali, naquele passo lento em direção à saída, com o corpo cansado e o cabelo bagunçado, ele não sentia vontade de se explicar para ninguém.


Talvez a Aurora também não devesse.


O pensamento veio rápido e passou.


Nathaniel respirou fundo e seguiu em frente, deixando o burburinho para trás, inteiro o bastante para ir embora.


O caminho para casa começou errado quase sem que Nathaniel percebesse.


Ele tinha saído pelo portão certo, atravessado a rua conhecida, seguido alguns quarteirões no piloto automático, mas a mente ainda estava presa demais ao ginásio, ao cansaço honesto no corpo, às vozes sobre Aurora Boreal ecoando como um ruído distante. Pensava nela sem querer. Na injustiça. Na sensação amarga de perder algo que parecia óbvio demais para precisar ser disputado.


Quando deu por si, a rua estava... diferente.


Os prédios eram mais altos. As vitrines, estranhas e bem mais chamativas do que o normal. O silêncio, pesado demais para uma tarde comum em Paris.


Nathaniel parou.


O céu, que já estava nublado, havia assumido um tom impossível. Cinza-esverdeado, espesso, como se alguém tivesse misturado tinta demais na atmosfera. O vento soprou de repente, violento, arrancando papéis do chão e jogando-os contra as paredes. Um trovão rasgou o ar, não alto, mas profundo, vibrando no peito.


- ...isso não é normal — murmurou tendo certeza que era um fenômeno meteorológico único.


Foi então que ouviu os gritos.


Primeiro distantes. Depois próximos demais. Pessoas correndo em direções opostas, guarda-chuvas sendo arrancados das mãos, vitrines tremendo. Nathaniel ergueu o olhar e o estômago afundou. Decidindo se transbordava ou se encolhia a ponto de fazê-lo pensar que tem apendicite.


No céu, entre nuvens rodopiantes, uma figura pairava.


Um vestido feito de correntes de vento e chuva, cabelos flutuando como se fossem parte da tempestade, um guarda-chuva enorme girando acima da cabeça como um eixo do caos. Relâmpagos se dobravam ao redor dela, obedientes. A voz ecoava distorcida pelo trovão.


- SE NÃO POSSO CONTROLAR O TEMPO... ENTÃO NINGUÉM PODE!


O nome veio em sussurros apavorados entre as pessoas:


- Um akumatizado!


Nathaniel sentiu o chão desaparecer sob os pés.


O coração disparou de um jeito diferente do ginásio. Não era cansaço. Era puro pânico. As mãos começaram a tremer, os ouvidos zumbiram, a visão estreitou como um túnel mal iluminado.


- Mas que caralho... — repetiu, dando passos para trás.


Uma rajada de vento o atingiu em cheio. Ele perdeu o equilíbrio e caiu, as costas batendo forte contra o chão molhado. O impacto arrancou o ar dos pulmões.


Respira. Calma.


Mas o corpo não obedeceu.


Outro trovão. Um poste arrancado do chão voou alguns metros adiante, esmagando um carro estacionado. Nathaniel gritou — um som curto, quebrado — e se encolheu instintivamente, os braços protegendo a cabeça.


Vai cair em mim.


A qualquer segundo.


Ele se levantou cambaleando e começou a correr.


Não sabia para onde. Apenas corria.


As ruas pareciam se contorcer sob a tempestade. Objetos voavam. Placas se soltavam. O vento empurrava seu corpo magro como se ele fosse feito de papel. Na segunda queda, ralou o joelho. Na terceira, o medo venceu completamente.


Nathaniel caiu de novo, as mãos afundando na água da chuva, o corpo inteiro tremendo. Ele agora estava se perguntando porque diabos não havia tentado melhorar nas aulas de Educação física.


- Puta que pariu!!! Eu vou morrer — sussurrou, sem perceber que chorava.


Algo enorme veio em sua direção.


Uma cabine telefônica, arrancada do chão, girando no ar, lançada como um projétil pela akumatizada.


Nathaniel ergueu os olhos a tempo de ver a sombra cobrindo tudo.


Então nada aconteceu.


Um ioiô vermelho se esticou pelo ar, enrolando-se na cabine e desviando-a violentamente para o lado, onde se espatifou contra a fachada de um prédio. — Nathaniel tinha certeza que se ele havia sobrevivido graças a isso, outros não tiveram a mesma sorte naquele momento.


- EI! — uma voz feminina gritou do alto. — CORREU O SUFICIENTE POR HOJE! NÃO ACHA?


Uma figura vermelha e preta pousou à frente dele, firme apesar do vento. Nathaniel fez uma careta confusa ao olhar para a garota de maria chiquinha.


- Uma, joaninha?... — Nathaniel arfou, em choque.


Do outro lado, algo preto saltou, girando com leveza impossível, aterrissando ao lado dela com um bastão em mãos.


- Uau, tempestade nível apocalipse climático. — comentou Chat Noir. — Nota mental: nunca irritar garotas do tempo.


Joaninha se virou imediatamente para Nathaniel, os olhos atentos, urgentes.


- Você está machucado?


Ele tentou responder, mas só conseguiu balançar a cabeça negativamente, o corpo inteiro em colapso tardio.


- Escuta bem — disse ela, segurando seus ombros por um segundo, firme o suficiente para ancorá-lo. — Vá se esconder. Agora. Um lugar fechado, resistente. Não saia até acabar.


- E nada de tentar bancar o herói — completou Chat Noir, apontando para ele. — Hoje isso é trabalho nosso. — Nathaniel estranha mais uma vez com a suposta piada do vigilante de preto, já que não era uma piada muito comum de se fazer para ele.


Outro raio cortou o céu. A Tormenta gritou algo ininteligível, e o vento voltou a rugir.


- Corre! — ordeno a joaninha.


Nathaniel obedeceu.


As pernas mal respondiam, mas ele correu, dobrando a primeira esquina que viu. A chuva caía quase horizontal. Ele tropeçou mais uma vez, mas se levantou, movido apenas pelo instinto de sobreviver.


Foi então que viu a vitrine.


Uma loja pequena, antiga, quase escondida entre dois prédios: quadrinhos empilhados até o teto, pôsteres desbotados, uma placa rangendo ao vento.


Sem pensar, Nathaniel se lançou contra a porta.


Ela abriu com um sino estridente batendo e ele entrou tropeçando, fechando-a com força atrás de si. Girou a chave, que para sua sorte havia sido esquecida na fechadura. Empurrou uma estante contra a entrada.


Só então percebeu que estava tremendo inteiro.


As pernas falharam.


Ele escorregou para trás caindo até o chão, sentando-se pesado, os joelhos dobrados, os braços envolvendo o próprio corpo como se pudesse se manter inteiro assim. O som da tempestade do lado de fora era abafado, mas ainda presente, trovões, vento, algo se quebrando ao longe. O ruivo de cabelos presos olhou para suas mãos trêmulas e sujas pela água da suja, assim como suas roupas, para ter certeza de que elas realmente estavam ali.


Nathaniel respirava em soluços.


O coração parecia querer sair do peito. Os dedos estavam gelados. O cabelo ainda bagunçado colava na testa molhada.


- Eu sabia que deveria ter fingido diarreia para ter faltado a aula hoje. — O ruivo do cabelo preso gritou em um surto. A voz ecoando alta demais naquela loja pequena. — Deveria ter dito que uma seita se apoderou da escola. Vai ser mais convincente do que uma garota voando com um guarda chuva!!


- Não acho que seus pais vão acreditar muito nessa história de seita também. — Uma voz chamativa para o ruivo, porém desconhecida, falou ao fundo. — Deveria dizer que os sapos do laboratório fugiram e contaminaram todos com doença de sapo. é menos pior.


Nathaniel virou seu rosto para olhar quem falava. Um garoto estava parado no balcão, com um sorriso amigável.


E terrivelmente bonito também.


- Puta que pariu!!



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.