Notas iniciais
Oi, oi, gente!! Esse é o segundo capítulo da nossa história e esperamos que gostem! Não temos certeza se chegaremos a 2141 de fato, mas vamos ter esperanças! *Não pusemos a foto dos personagens ainda porque não conseguimos, mas estamos tentando. Aproveitem!

Assim que Aaron chegou em casa, desligou o celular. Scott era um ponto positivamente singular e bastante eficaz dentro da empresa, mas não conseguia dar um passo sem anunciar.

Girou as articulações enquanto deixava a porta trancar automaticamente atrás de si. Ser o coordenador da montagem do mais novo computador feito aos moldes exclusivos e bem mais precisos para a NASA tinha suas vantagens. Ter apenas dez minutos de descanso entre um trabalho e outro as anulava, no entanto. Precisava se manter a base de cafeína e alguns comprimidos energéticos, mas, quando a taquicardia ameaçava, era hora de parar e ir embora.

O contato restrito com a chefe também não ajudava. Sua mãe acreditava que bons funcionários não deviam ser dispensados por problemas pessoais, mas não dirigia mais que poucas palavras diárias a ele havia pouco mais de um ano. Não que o relacionamento fosse muito bom antes, apenas menos cansativo.

Olhou a sala cinza ao seu redor, estranhando não ver o irmão ao lado da presença holográfica de algum amigo ou jogando algum jogo de realidade virtual. Ele era barulhento e perceptível demais dentro do cenário com poucos móveis para chamar a atenção, quase como um adereço para o local.

— Eileen, onde está Nathan? – perguntou à I.A. enquanto colocava a carteira e o papel de uma bala sobre a mesa de centro. Não estava acordado o suficiente para se interessar pelas saídas dele.

— No seu escritório – a voz feminina, com uma base metálica muito sutil, anunciou calmamente.

Isso o interessou.

Ele se direcionou ao elevador que levava ao cômodo no subsolo. Existia um motivo para estar escondido e com certeza não era a presença frequente de outra pessoa. O reconhecimento córneo era um dos mais eficientes, em que momento Nathan burlou isso? Ou tinha se esquecido de fechar a porta da última vez?

— Ele disse o que queria?

— Não, senhor.

Aaron respirou fundo, beliscando a ponte do nariz. Às vezes, deixar Nathan sozinho era tão perigoso quanto deixar uma criança sem supervisão por alguns segundos.

A porta estava entreaberta quando chegou lá, e, numa primeira vista, nada parecia fora do lugar. Contrariando o restante do lugar, o escritório – que mais se assemelhava a um laboratório de engenharia – era o ambiente mais claro da casa. As paredes e os pisos se mantinham no mais perfeito branco, contrastando bem com alguns dos móveis e máquinas pretos, e com a figura vestida de azul sentada no chão, revirando as gavetas.

— O que você quer? – entrou na sala sem tentar ser sutil.

Nathan não se abalou; sequer demonstrou algum interesse assustado em sua presença. Apenas observou por cima do ombro antes de recolher a pasta verde-escuro ao seu lado.

— Você sabe que não tem direito de acesso a essa sala, não é? – disse enquanto retirava a jaqueta marrou e a jogava na mesinha de vidro ao lado.

— O que é isso? – mostrou a pasta. Havia uma etiqueta mediana onde estava escrito “Universidade” em uma caligrafia apressada e torta.

O canto de sua boca elevou-se um pouco. Colocar um reconhecimento digital em alguns de seus materiais não foi perda de tempo, afinal.

— Coisas da universidade – deu de ombros, mesmo que os sentisse tensos. – Recordações.

Uma risada debochada preencheu o ar.

— Está ficando sentimental?

Aaron soltou todo o ar que podia pelo nariz, passando distraidamente a mão pela barba. O plano era simples: tomar um banho e se jogar na cama enquanto ainda podia se manter inacessível. Havia programado sua I.A para forçar o celular a ligar depois de 5 ligações seguidas, apenas para evitar possíveis tragédias. Nathan podia muito bem seguir o roteiro.

— Guarda isso e vaza. Eu quero dormir.

— Tem a ver com aquela mulher? – insistiu. – Que te procurou quando você ainda estudava?

O batuque que vinha fazendo sobre a mesa parou antes que desse conta. Não era um assunto confortável, e ficava ainda pior quando não se lembrava de ter contado ao irmão. Nathan era pequeno, na época; não fazia sentido abordar isso.

— Como?...

— Ouvi você conversando com Scott há um tempo – deu de ombros. Talvez, de fato, não importasse muito. – Você disse que uma mulher estranha te entregou alguns papéis. Foram esses?

Alguns, não; vários. Bolos empacotados que quase não couberam em seu armário.

Sem maiores expectativas de sair dali rápido, levando-o junto, pegou o banco-baú de couro branco que ficava na frente das estantes de vidro e o puxou para mais perto de Nathan. Suas pernas apreciavam esse agrado depois de tantas horas em pé.

— Foram – respondeu enquanto se ajustava.

Aquela mulher entrou e saiu de sua vida rápido e sem deixar grandes vestígios. Ela marcou um encontro particular com ele, sem nunca explicar como o encontrara – embora se lembrasse vagamente de uma presença seguindo-o –, e se apresentara como Eileen, uma mulher do passado. 1911, mais especificamente.

Pareceu tão fictício que teve dificuldades de levar à sério quaisquer palavras que dissera depois daquilo. Para um garoto de 21 anos, numa faculdade completamente pautada na realidade, aquilo soava bizarro demais. Foi inevitável não olhar com seriedade para aqueles documentos entregue às pressas.

— Eileen Muller. Dizia ser uma cientista e me pediu para guardar isso – apontou para o calhamaço. – O restante está nas outras gavetas.

O garoto franziu a testa.

— Nunca ouvi falar nela.

Nem Aaron, por muitos anos. Era um nome perdido e enevoado pelo tempo, jamais mencionado dentro ou fora da internet. Estava quase desistindo de encontrar algo quando um livro totalmente dedicado a ela chegou ao seu conhecimento. Seria o mais próximo que chegaria de ima biografia, embora o conteúdo fosse altamente duvidoso.

— Não tem muitas informações – concordou, deixando as mãos penderem unidas no vão entre as pernas. – Era uma cientista do início do século XX sem grandes feitos.

Nathan assentiu devagar até parar por completo; os olhos se arregalando no processo. A frase finalmente chegara a ele.

— Início do século XX? – repetiu.

Aaron assentiu com o olhar desfocado. Antes de achar o livro, acreditava se tratar de uma mulher que escolher de forma sortida um nome e inventou uma historinha bastante criativa; depois, acreditou que era uma pesquisadora entusiasmada sobre a história de Eileen e que queria se divertir um pouco, aproveitando-se do fato da mesma ter uma influência quase nula.

Mas ela nunca pareceu divertida. A mulher se mantinha com um olhar centrado e uma expressão decidida, ainda que as sobrancelhas, que se franziam com frequência, denunciassem certo medo. O tom de voz era cadenciado, sempre muito perto de chegar ao desespero toda vez que Aaron não se mostrava receptivo à ideia, mas nunca chegava.

Podia tratar-se apenas de uma boa atriz com poucos furos dentro da história criada. Com o passar do tempo, no entanto, a desculpa se tornava boba e perdia a validade.

— Você está me dizendo que essa mulher era do passado? – mais um pouco e ele soaria esganiçado como um adolescente na puberdade.

Ela disse, não eu.

— E você não acreditou? – era quase uma afirmação baseada nos conhecimentos que Nathan tinha sobre o irmão.

Ele quase riu da expressão. Em momentos muito específicos, quando as sobrancelhas se perdiam sob a franja loiro escuro, Nathan parecia uma criança impressionada que se empolgava com qualquer coisa.

Sua infância não foi a melhor e, mesmo tendo 12 anos entre um e outro para aprender, a mãe deles nunca conseguiu. Seu pai morreu antes de Nathan completar um ano e Anelise tinha uma visão muito particular sobre como ocupar o cargo de mãe, mesmo que já tivesse sido lhe dado há bons anos antes.

As melhores escolas sempre foram garantidas, assim como as melhores roupas e brinquedos, e comida de excelente qualidade. O afeto, porém, nunca entrava na fórmula, até que Aaron parou de se importar e a tomar a responsabilidade do irmão para si, com a plena certeza de que sabia mais sobre ele do que ela jamais saberia.

Mesmo com tudo isso, fora há pouco mais de um ano, na formatura do colegial de Nathan, que parou de falar com a mãe. Ela não apareceu e, depois da comemoração, arrumou todas as coisas do garoto e o levou para sua casa.

— Isso quer dizer que existe uma máquina do tempo – o puxou de seus devaneios.

— Não exatamente.

Era algo difícil de se afirmar. Durante muitos anos, as pessoas tentavam trazer a fantasia de viajantes do tempo para a realidade, e não se importavam em mentir para atingir seus cinco minutos de fama.

— Mas você disse...

— Eu sei o que eu disse – interrompeu, estalando os nós dos dedos. – Não vou discutir isso com você, Nathan.

Ignorando-o, olhou para a pasta com admiração. Se era incumbida, já não sabia dizer.

— E chegou a ler?

Aaron deu de ombros.

— Na época. Mas eu ainda estava no quarto semestre, não entendi muitas coisas.

Por muito tempo, pensou em tratar os manuscritos como uma mera ficção científica que, por acaso, se baseava em cálculos. Quase. O pensamento nunca o dominou por completo. Matemática era matemática, afinal. Se parasse para analisar com calma, saberia dizer se chegaria a algum lugar com aquilo ou se tudo não passava de números dispostos aleatoriamente.

A pasta foi jogada em seu colo sem que esperasse por isso, e Nathan já estava se levantando.

— Para de ser idiota e lê logo isso – resmungou. – E se for sobre viagem no tempo? Ela te deu isso para você fazer alguma coisa, e não para guardar na gaveta.

Aaron bufou. Depois de anos trabalhando com cientistas de todas as áreas, percebera que não era difícil encontrar um ou dez com ideais nada nobres. O fato daquela mulher ter uma história mais rebuscada não a tirava, automaticamente, do grupo.

— Você ficaria surpreso com a quantidade de charlatões que existe.

— Se acreditasse mesmo que ela é uma, já teria jogado isso fora – rebateu, finalmente seguindo em direção à porta. Antes que a alcançasse, girou sobre os calcanhares para encarar o irmão. – Foca nisso. Nada te dá mais fama que falar sobre o tempo, já dizia Einstein.

Ele finalmente conseguiu rir, deixando os ombros caírem no processo. Mais um pouco e teria concordado de olhos fechados.

— Peça perdão a Einstein antes de dormir e dá o fora – sorriu. Nathan estava quase saindo quando o irmão o chamou; o bom humor agora era um mero vislumbre. – Não fala sobre isso com ninguém.

Aprumando a coluna, ele bateu continência de forma que faria muitos soldados levantarem dos túmulos em desgosto e saiu. Aaron refez sua lista mental. Banho, dormir e pensar sobre aquilo. Nessa ordem. Não se permitiria pensar sobre nada antes do tempo.

E, mesmo com essa intenção, antes de apagar por completo sentiu sua mente desengavetar as lembranças do dia em que Eileen Müller apareceu, em seu já encardido jaleco branco, até tudo ficar escuro novamente, com suas palavras vagando pelo infinito de sua mente.

Conto com você”.

Notas finais
Espero que tenham gostado! O terceiro capítulo ainda está sendo produzido, mas, como o prometido, não demoraremos mais que duas semanas para atualizar a história. Se tiverem gostado, por favor, comentem. Isso incentiva muito o autor. Espero que tenham aproveitado! Até mais!