Todos os Erros do Mundo
23 Flashlight
Notas iniciais
"I got all I need when I got you and I. I look around me, I see a sweet life. I'm stuck in the dark but you're my flashlight. You're getting me, getting me through the night"
(Eu tenho tudo que preciso quando você está comigo. Eu olho à minha volta e vejo uma vida boa. Estou presa no escuro, mas você é minha lanterna. Você me guia, me guia pela noite)
— Jessie J
Regina entra no quarto com os pensamentos ainda na conversa que teve com Snow e em como, acidentalmente, a princesa a chamou. Foi constrangedor, inusitado, mas não sentiu que tenha sido errado, embora não deseja que se repita. Senta-se na cama com as costas apoiadas na cabeceira e pensa em como seria sua vida se tivesse, simplesmente, aceitado o rei como seu marido, Snow como sua filha e tentado ser feliz com eles ou, ao menos, suportado tudo aquilo sem obsessão por vingança. Sua vida seria menos desgastante, de fato, mas provavelmente nunca se envolveria com Emma e Henry não existiria. Esses eram motivos fortes o suficientes para agradecer aos céus por ter feito tudo exatamente como fez. Não há uma ponta de arrependimento. Se preciso fosse, voltaria e cometeria todos os erros do mundo apenas para chegar onde está.
— Regina? Amor? — A rainha desperta de seus devaneios com Emma chamando-a.
— Fala, querida. — Regina a puxa para a cama e a envolve em seus braços.
— Eu já falei. Não vou repetir. — A loira faz um bico fingindo estar emburrada.
— Me desculpe, querida, eu estava pensando.
— Pensando em que? Em quem? — Emma tenta arquear uma sobrancelha, mas acaba levantando as duas, o que faz Regina sorrir.
— Em outra.
— O que? — Emma desvencilha-se e a encara.
— Em Snow. — Regina sorri da expressão de Emma, que começa a suavizar.
— Agora vocês ficaram amiguinhas? — Cruza os braços.
— Não. Sabe que nossa relação é complicada. — Puxa a esposa para seus braços novamente. — Gostando ou não, ela é minha enteada, nós vivemos embaixo do mesmo teto durante anos, nos relacionando como uma família, mesmo que não fosse do meu agrado. E depois iniciamos uma guerra que nunca conseguimos terminar. E agora ela é minha sogra. — Solta o ar em uma risada. — Você consegue entender essa árvore genealógica?
— Não creio que alguém consiga. — Faz carinho nos braços da morena.
— O fato é que, aparentemente, Snow e eu estamos destinadas a fazermos parte uma da vida da outra.
— Eu sentiria ciúmes se ela não fosse a minha mãe.
Regina bufa e bate três vezes na madeira.
— Vade retro! — Fecha a expressão e Emma não contém a risada. — Como eu estava dizendo... — Empurra a esposa para que possa encará-la de frente. — Eu a perdoo? Não. Eu vou fingir que ela não abriu a maldita boca? Não. Mas eu estou feliz, estou em paz e quero continuar assim. Não quero ficar nutrindo mágoas e desavenças, então lhe propus uma trégua.
— E ela? — Emma pergunta surpresa.
— Ela concordou. — Regina não está certa dessa resposta, pois percebeu que Snow já estava dormindo quando disse aquilo, mas decide considerar o "sim" inicial.
— Você me surpreende. — Recebe um beijo no pescoço.
Henry entra no quarto e se joga na cama. As mulheres de ajeitam para que caiba os três confortavelmente, Henry fica ao lado de Emma, que está no meio, e Regina os abraça.
— Vou precisar dormir com vocês.
***
A manhã é agitada com Gillian e Melissa preparando o buffet da festa, Kate, Henry e Noah preparam a decoração com a ajuda de Mary e David, enquanto Emma e Regina compram as bebidas. A loira enche um carrinho com refrigerante e outro com cerveja enquanto Regina reclama que nenhuma sidra é melhor que a dela, portanto, não consegue decidir qual levar. Depois de longos minutos lendo rótulo por rótulo, escolhe uma marca e compra algumas garrafas, e completa o carrinho com destilados e limão para acompanhar. Eli leva almoço para todos no salão onde será a festa, e recebe os brinquedos que serão montados enquanto os outros comem. No fim da tarde, todos vão para suas respectivas casas se arrumarem para a festa.
— É à fantasia? — Emma pergunta quando vê Henry com uma roupa semelhante a de um príncipe.
— Não. — Ele responde inocente.
— Então por que está vestido assim? — Regina põe a cabeça na sala, enquanto usa a parede para esconder o corpo enrolado na toalha.
— Essa roupa é, na realidade, uma fantasia, mas eu sou um príncipe de verdade, então não estou fantasiado. — Ele se levanta e olha diretamente para Regina. — Meus avós não estão, pode sair daí.
— Onde eles estão? — Pergunta parando ao lado da esposa.
— Já foram para o salão receber o pessoal de Storybrooke para que eles não fiquem perdidos nem falem algo comprometedor para os convidados que são daqui. — Puxa as duas para seu quarto onde há duas caixas — Essa aqui é para você. — Aponta para a caixa maior e depois para Emma. — E essa é para você. — Pega a menor e entrega para Regina. — Quero que usem. Hoje seremos, pela primeira vez em NY, quem somos de verdade.
As duas seguem para o quarto a fim de se arrumarem. Regina começa a se secar e Emma abre a caixa que recebeu do filho. Um sorriso enorme brota em seu rosto.
— Pensei que nunca mais fosse te ver. — Fala olhando para dentro da caixa.
Regina aproxima-se curiosa para logo soltar um suspiro frustrado e franzir a testa.
— Eu não acredito que seus pais trouxeram isso. Eles querem me torturar.
— Eu senti tanta saudade. — Emma tira a jaqueta vermelha de dentro da caixa e a abraça.
Regina desiste de terminar de se secar e abre a própria caixa temendo o que vá encontrar, mas quando toma o objeto em mãos, percebe que é a sua coroa. Não é uma falsa ou alugada, é a sua verdadeira coroa. Sem dizer nada, a coloca e, com os olhos marejados, encara a esposa.
— Majestade. — Emma se curva em reverência.
— Agora eu entendi o que ele quis dizer quando falou que hoje seremos quem somos de verdade. Eu sou a rainha e você a savior da jaqueta vermelha.
— E ele é o príncipe. — Se abraçam e selam os lábios.
***
Regina usa um longo vestido vermelho de mangas compridas, com um generoso decote v e detalhes prateados na cintura, que é o mais próximo que encontrou dos modelos que usava na Floresta Encantada. E, claro, a coroa. Emma opta por uma calça de couro preta, uma bota, também preta, de cano médio, camisa branca, a jaqueta vermelha e o cabelo preso em um coque alto com alguns fios soltos. Quando chegam ao local com Henry, a recepcionista informa que todos os convidados já chegaram. Entram no salão e, assim que as luzes os encontram, todos os convidados de Storybrooke se curvam diante deles. Os nova-iorquinos estranham em um primeiro momento, mas quando notam a roupa de Henry e a coroa de Regina, entram na "brincadeira" e ajoelham-se também. Nem imaginam que estão diante de uma verdadeira família real, diante de uma rainha, uma princesa e um príncipe de verdade.
Regina aproxima-se da mesa onde está servido o buffet, deliciosamente preparado por Gillian e Melissa, e avista Eli aos beijos com uma mulher. Esconde-se atrás de um pilar da decoração para descobrir quem é a moça e, posteriormente, brincar com o amigo, mas seus olhos arregalam-se ao perceber que é Ria. Busca Emma com o olhar e, assim que a avista, a chama com um meneio de cabeça.
— Viu como não precisa ter ciúmes? — Emma provoca a morena e lhe abraça por trás.
— Emma, ela está tentando com todo mundo. — Vira-se de frente para a loira. — Será que os outros já foram cantados também?
Antes que Emma possa responder, Regina avista Robin e corre até ele, arrastando a esposa pelo punho. O abraça com força enquanto sussurra em seu ouvido o quanto sentiu saudades. Separam-se apenas quando ouvem Emma coçar a garganta.
— Querida, esse é Robin Hood.
— É um prazer finalmente conhecer a famosa savior. — Robin estende a mão.
— Igualmente. — Emma responde seca, com o ciúmes crescendo por suas entranhas.
Tinker e Maleficent aproximam-se dos três. Regina as abraça e Emma as cumprimenta apenas com um sorriso forçado. Não tem nada contra a fada, nem algo, diretamente, em desfavor da feiticeira, embora sinta um pouco de ciúmes, mas está desconfortável com a presença do arqueiro. Vendo-o assim de perto, percebe que ele é bem parecido com o que sempre imaginou. Tem o corpo bem trabalhado, com músculos definidos, e é muito bonito, o que só a deixa com mais ciúmes. Em uma rápida troca de olhares entre Regina e Maleficent, a feiticeira entende o que está acontecendo e abraça Robin dando-lhe um beijo no pescoço e balança seus corpos no ritmo da música. Emma encara Regina pedindo confirmação, mas a morena prefere não exibir qualquer reação. Não quer mentir para a loira, mas também não quer que a esposa sinta-se insegura em uma noite que tem tudo para ser perfeita. Kate e Melissa aproximam-se deles e Maleficent e Tinker mentem os nomes com uma naturalidade que impressiona a rainha. Noah abraça Regina por trás, tirando-a do chão e a carrega para a cama elástica, mas antes de estar longe o suficiente, Regina olha para a esposa e aponta Mary e David sentados em uma mesa próxima. Entendendo o recado, Emma pede licença ao grupo e caminha até os pais.
— Oi. — Sua voz sai tão baixa que teme não ser ouvida, já que a música está alta. — Posso me sentar com vocês?
— Claro, filha. — Snow bate com uma mão na cadeira ao seu lado e Emma acomoda-se. — A festa está ótima. Nunca vi Henry tão feliz.
— Nem eu. Obrigada por toda a ajuda que deram. — Emma tenta puxar qualquer assunto para adiar a conversa que precisa ter com os pais. Sabe que Regina está certa, eles merecem uma chance, mas quando se lembra do quão difícil foi sua vida sozinha, de como os pais sempre priorizaram todos os outros em detrimento da sua vontade, de como trataram seu casamento com Regina e, agora, essa gravidez de Mary, sente a mágoa crescer. Entende que a criança que virá ao mundo não tem culpa de seu sofrimento, mas será sua irmã ou irmão e terá tudo que ela nunca teve e sempre desejou. Quando seus pais não respondem, apenas sorriem, Emma decide que é hora de criar coragem e tocar no assunto. — Regina me disse que vocês decidiram dar um tempo nessa guerra.
— É verdade. Sabemos que isso não nos fará mais bem do que mal. É hora de seguir em frente. — Mary olha para David e sorri segurando sua mão.
— Acho que se até Regina consegue deixar de lado tudo que vocês já se fizeram e tentar manter a paz, talvez já seja a hora de melhorarmos isso. — Aponta para si e para os pais.
— É o que mais queremos, Emma. — David segura a mão da filha que está repousada na mesa. — Nós estivemos errados quase o tempo todo. Erramos quando exigimos que abandonasse sua vida pela segunda vez, erramos quando julgamos seu envolvimento com Regina, e, principalmente, quando a acusamos de ser a responsável por perdemos você. Aquela escolha foi apenas nossa, foi nosso erro e nos arrependemos. Devíamos ter ficado com você apesar de tudo, apesar de maldição ou de qualquer outra coisa.
— Uma vez Regina disse que não ter ninguém é a pior maldição que se pode imaginar.
— Nós sentimos muito. — Snow abaixa a cabeça e lágrimas descem por seu rosto.
— Apenas me prometam que nunca, em hipótese alguma, abandonarão essa criança. — Toca a barriga da mãe. — E nem a mim. — Completa com a voz embargada.
— Nunca. — O casal puxa Emma por cima da mesa e a abraçam.
Regina observa tudo de longe e sorri com a reconciliação. Passa os olhos pelo salão constatando que todos estão felizes e, pela primeira vez, ao mesmo tempo que ela. Vê Robin e Tinker dançando desengonçados, pouco atrás Maleficent conversa com Gillian, com os corpos próximos demais e já imagina onde aquilo vai dar. Noah ainda está na cama elástica com os amigos de Henry. Este, por sua vez, não sai da pista de dança e neste momento tenta acomapnhar os passos de Belle. Ao lado deles Zelena e Ruby dançam abraçadas. Troca um sorriso com a irmã e cerra os olhos para a loba como se ameaçasse de morte caso Zelena saísse magoada daquele relacionamento que está começando. De repente sente uma presença ao seu lado.
— Como se sente sendo a primeira vilã a conseguir um happy ending?
— Pensei que você já tinha o seu. — Encara Rumple que observa a esposa dançar.
— Ainda não, mas estou trabalhando nisso. — Vira-se para Regina e segura sua mão. — Pode não acreditar, mas eu estou contente e orgulhoso pela mulher que se tornou. Não é o que eu esperava, mas é bem melhor.
A rainha sabe que aquilo é o mais próximo que Rumple consegue chegar de uma declaração de amizade e sente-se muito feliz pela expressão serena que seu professor carrega, como se o peso de ser Dark One, nesse momento, não o afligisse. Finalmente entende o que ouviu Belle dizer tantas vezes, basta olhar com cuidado que se enxerga o homem por baixo da fera.
Encara o salão e volta-se para o homem, mas quando o faz, ele desaparece. O salão esvaziasse e a música agitada torna-se lenta. Apenas o centro do salão está iluminado e uma figura surge aos poucos, com uma mão estendida em sua direção. Caminha lentamente até conseguir focar a visão. Quando discerne os traços de Daniel, corre até ele enlaçando seu pescoço. O cavalariço a ergue e rodopia algumas vezes. Quando a põe de volta no chão, colam suas testas e abrem os sorrisos que um tanto ama no outro.
— Você demorou. Pensei que não voltaria mais.
— Eu disse que estarei sempre com você.
Daniel passa um braço pelas costas de Regina e toma sua outra mão iniciando uma dança.
— Eu sempre tive certeza de que você o teria.
— Teria o que? — Encara o homem com a testa franzida.
— Seu happy ending.
— Você acha que é mesmo?
— Não precisa ter medo, meu amor, pode se entregar ao momento e a todos os sentimentos. Você nunca mais ficará sozinha ou infeliz.
Regina deita a cabeça no peito do noivo e respira seu cheiro.
— Sempre que eu estou feliz, alguma coisa acontece e me atira de volta ao fundo do poço. — Encaram-se nos olhos.
— Está vendo todas essas pessoas? — Imediatamente o salão volta a encher-se com os amigos, em câmera lenta. — Elas nunca te deixarão lá. Sabe a sensação que tem quando cavalga em Rocinante?
— De liberdade.
— Você está livre, meu amor. Livre para o seu "feliz para sempre".
Com um sorriso tão largo que chega a comprimir os olhos, Daniel desaparece aos poucos e, tão lentamente quanto, o barulho de música e das conversas voltam aos ouvidos da rainha.
— Sonhando acordada? — Emma pergunta parando ao lado da esposa.
— Estava.
Regina mantém os olhos soltos pelo salão. Uma sensação de felicidade cresce dentro de si ao notar que as pessoas a lançam sorrisos sinceros e estão se divertindo vulneráveis, sem desconfiança ou medo de que ela lhes faça algo. Eles confiam nela. Sente-se bem e percebe que não é alguém, que nunca foi alguém, o responsável por seu happy ending.
— "Meu final feliz é me sentir em casa no mundo". — Sussurra mais para si do que para Emma, que a encara confusa, mas nada pergunta.
Regina vira-se de frente para a loira, enlaça os braços em seu pescoço, enquanto Emma a abraça pela cintura, roça a boca pelos lábios rosados e afasta-se apenas o suficiente para encarar as esmeraldas.
— Eu amo você, Srta. Swan.
— Eu amo você, majestade.
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