Todos os Erros do Mundo
1 Do Lado de Cá
Notas iniciais
Emma Swan se tornou uma conceituada detetive particular em NY, sempre cumprindo com seu dever, sempre vencendo os prazos que ela mesma estabelece e sempre superando expectativas. Ela não se lembra que é uma heroína, mas a busca e o prazer por aventuras nunca a abandonaram. Só há uma coisa no mundo que a loira ama mais do que se meter em confusão para cumprir com seu trabalho: sua família.
Deitada entre as duas pessoas mais valiosas que sua própria vida, Emma estampa o sorriso mais genuíno que possui, sente-se a mulher mais sortuda do mundo e sequer se acha merecedora de toda felicidade que lhe é proporcionada dia após dia. Não é uma pessoa de fé, mas nessa noite, enquanto vela o sono de sua família, pede baixinho, torcendo para que Deus tenha a audição apurada, para que todos os dias de sua vida terminem assim.
***
Sentados no chão e escorados um nas costas do outro diante do prédio onde a filha mora, Snow White e Prince Charming tentam elaborar uma boa forma de abordar Emma e fazer com que ela recupere suas memórias. A princesa defende a ideia de aproximarem-se aos poucos da filha, para que ela não se assuste, mas o príncipe não é tão paciente quanto a esposa.
— Nós podemos apenas colocar a poção em uma garrafa de água, oferecer para Emma e pronto, tudo está resolvido. — Ele joga as mão para o alto enfatizando a praticidade de seu plano.
— E você acha mesmo que ela beberia água de estranhos? — Pondera Snow — Além disso, Rumple foi bem específico quando disse que ela deve tomar a poção por espontânea vontade ou não terá efeito.
A discussão atravessa a noite e só quando os primeiros raios de sol os atinge é que conseguem entrar em um consenso. Tão impaciente para discutir quanto para executar o plano, Charming finalmente cede, a estratégia que irão adotar é a proposta por Snow desde o início. Eles se aproximarão da filha com cautela, iniciando uma amizade, e lhe darão a poção quando tiverem sua total confiança.
— Quando Emma sair do prédio, nós a abordamos. — A princesa repassa o plano a cada dois minutos. — Será que ela e Regina são amigas? Seria tão mais fácil assim, faríamos tudo de uma vez só.
— Duvido muito. — O príncipe não aguenta mais esperar e parte em direção a entrada do prédio decidido a interfonar, mas é impedido pela esposa.
— Olha, David, ela está vindo.
Nesse momento toda a confiança que sentiam, esvai-se. O coração da princesa falha algumas batidas e suas mãos tornam-se repentinamente geladas. As pernas do príncipe fraquejam e ele sente escapar-lhe, por entre os lábios semiabertos, a capacidade da fala. Sentem-se ainda mais impotentes quando os olhos de Emma pousam sobre eles, examinando-os cuidadosamente.
— Estão precisando de ajuda?
A vontade de ambos, ao ouvir a voz da filha, é correr até ela, abraça-la fortemente e contar de uma vez toda a verdade, mas tudo que conseguem fazer é sorrir abestalhadamente, como se estivessem diante de um milagre há muito desejado.
— Vocês estão bem?
Como se despertasse de um sonho, Snow pisca os olhos repetidamente e solta o ar que prendia, tenta lembrar-se o que deveria dizer exatamente.
— Oi... — gagueja — Nós chegamos recentemente na cidade e estamos procurando por um apartamento. — Fala em um único fôlego, como se aquilo esclarecesse tudo, mas ao perceber a expressão de confusão instalada no rosto de Emma, tenta reorganizar seus pensamentos. — Precisamos de um apartamento e pensamos que talvez tivesse algum vago aqui.
— Desculpem-me, mas eu não sei dizer. Talvez consigam alguma informação com o recepcionista.
Emma mantinha a expressão confusa, mas sorriu ao final da frase enquanto ameaçava dar as costas ao casal, mas Snow se apressou em manter o diálogo:
— Sou Mary Margaret — estendeu a mão para a detetive — e esse é meu marido David Nolan.
— Prazer em conhecê-los. — Emma cumprimenta a princesa e aguarda longos segundos pelo aperto de mão do homem. Após uma cotovelada discreta, David parece despertar e finalmente a cumprimenta. — Eu preciso trabalhar agora, mas não deixem de ir até a recepção. — A loira aconselha e caminha alguns metros na direção oposta até entrar em seu carro.
— Você foi de muita valia, meu amor. — Snow provoca o marido enquanto prende o riso.
***
Emma entra no restaurante com o rosto levemente corado prendendo os longos fios ondulados em um coque desajeitado. Senta-se diante da esposa e do filho que sorriam para ela.
— Qual foi a aventura da vez, mãe?
Henry era fã da loira e desejava ser como ela quando crescesse. Poderia passar horas ouvindo suas histórias que, segundo a outra mulher ali presente, eram carregadas de exagero.
— Não é possível que você não pegue um caso simples que seja. Você está mentindo.
—Ô, morena, aceite que sou um ímã de grandes e arriscados casos. — Emma devolve a provocação da esposa que sorri quando a loira estufa o peito como um pombo.
— Está tentando parecer valente?
A detetive não resiste ao movimento da morena de arquear a sobrancelha e se joga sobre a mesa roubando-lhe um beijo. Aquele simples gesto possui poder imensurável sobre a loira. Aliás, tudo na esposa lhe era absolutamente tentador.
***
Charmig e Snow conseguem alugar um apartamento no mesmo andar que a filha, apesar das ponderações do príncipe de que poderia parecer que estavam perseguindo a loira.
— Mas é exatamente isso, David.
Charming sabe que discutir com a esposa é inútil e cede novamente, mas consegue convencê-la a sair para jantar, pois nada haviam comido durante o dia. Quando o elevador abre, se deparam com Emma e um enorme barco com comida japonesa em mãos.
— Hey! Então vocês conseguiram? — Emma pergunta simpática ao reconhecer o casal.
— Sim!!! — Charming responde mais empolgado do que desejava. — Estamos no apartamento 1411.
— Então somos vizinhos. — Emma sorriu mais uma vez. A desconfiança que teve pela manhã relacionada ao casal havia se dissipado e no lugar dela um grande desejo de conhecê-los a atingiu.
— Você sabe se tem algum restaurante aqui perto? Ainda não jantamos. — Dessa vez foi Snow quem se pronunciou.
— Sim, têm vários bons restaurantes por perto... — Emma estreitou os olhos considerando se deveria fazer mesmo o que lhe passou pela cabeça. — Ou talvez vocês possam me acompanhar com tudo isso?! — Ela indicou o barco com os olhos e o levantou alguns centímetros.
Snow começa a falar, pronta para aceitar o convite imediatamente, mas é atropelada pelo marido:
— Nós não queremos incomodar. É muita comida, você provavelmente não está sozinha.
— Não é incômodo. Vem, vamos jantar.
Emma caminha até o apartamento 1413 e chuta a porta algumas vezes até que ela é aberta. Ao se depararem com Henry, as emoções de Snow e Charming voltam a ficar afloradas, mas eles logo tratam de afastar as lágrimas que tentavam nublar suas visões.
— Hey, garoto, — Emma passa pelo filho e desaparece ao dobrar o corredor sem parar de falar — esses são Mary e David, nossos novos vizinhos. Vão jantar com a gente.
Henry os cumprimenta com um sorriso e lhes convida para entrar guiando-os até a sala. Emma volta e senta-se na poltrona de frente para o casal que sorri nervosamente.
— Então... — Snow tenta iniciar uma conversa — Henry é seu filho?
— Sim, mas poderia ser o contrário. — Henry responde no lugar da mãe, provocando-a.
— Amor, olha o Henry debochando de mim. — Emma grita olhando para o corredor vazio, mas logo surge sua morena favorita, sorrindo cúmplice para o garoto, e senta-se no braço da poltrona da loira dando-lhe um selinho.
— Qual foi a verdade que ele falou dessa vez?
A morena abre mais o sorriso e estende a mão ao filho para um hi five. Os olhos de Charming e Snow se arregalam diante da cena. Dentre todas as teorias que eles criaram sobre como era a vida do trio em NY, em nenhuma essa cena era cabível. Imaginaram sim que Emma pudesse ter alguém — o que poderia até mesmo atrapalhar o plano -, mas nunca imaginaram que esse alguém pudesse ser ela: Regina.
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