Todos Iguais

43 Rafael e Pedro


Eu estava começando a sentir falta dessa farra. Fazia um bom tempo que não saímos assim, só nos dois, para curtir por aí, como se nada fosse capaz de nos impedir. Como se não estivéssemos cheios de problemas, estresse e insuficiências. Era muito bom esquecer por uma noite, ao lado do meu melhor amigo, que nossas cabeças estavam cheias de merdas sem soluções. Era muito bom poder estar com ele, como dois garotos jovens, que tinham uma vida toda pela frente e não queria mais perder tempo.

A festa era diferente de tudo que já presenciamos antes. Estávamos no Centro Cultural do Memorial na Barra Funda. Na zona oeste de São Paulo. Aquele espaço imenso estava dividido em “tribos”. De um lado uma tenda com todo o pessoal que curti reggae, do ou outro lado os rockeiros. Tinha também o pessoal que curti musica eletrônica, sertanejo, pop, hip hop, rap, pagode e funk. Ali tinha de tudo. Eu fiquei muito impressionado com tudo e perdido também... Eu queria fazer parte de tudo de uma só vez.

Era muito bom estar em um lugar no mundo, nem que fosse por uma noite, onde todo o pessoal, de diferentes gostos e preferências, se dava bem, assim, nunca boa, sem implicância, sem brigas e sem faltar com o respeito um com o outro, apesar de tudo. Estavam todos tranquilos, ocupados demais curtindo com os amigos aquilo que eles mais apreciavam em suas vidas: a música.

Pedro e eu ficamos dando voltas, conhecendo o pessoal, bebendo, curtindo as músicas, aprendendo coisas novas, mas principalmente azarando as garotas. Sim, pelo menos eu estava. Sempre que uma me chamava atenção eu não perdia a importunidade. Desde que ela estivesse sozinha, claro. O lugar era grande, mas tinha muita gente ali. O que era bom e ruim ao mesmo tempo, ainda mais com aquela garoa chata.

Eu tinha convencido o Pedro a vir comigo, não só porque queria a companhia dele, mas também porque eu tinha garantido a ele que o faria esquecer aquela Caipira. E essa noite parecia a oportunidade perfeita para darmos um jeito nisso de uma vez por todas, antes que fosse tarde demais. Se é que já não era, pois com a cara de tédio que ele estava, na certa não estava se divertindo tanto quanto eu desde que cheguei.

— Porra, Pedro. Muda essa cara! Olha só esse lugar, já viu algo mais incrível que isso? Já viu tanta garota bonita e diferente em um só lugar? Não! Claro que não! E você ainda consegue pensar naquela garota?

— E quem disse pra você que eu estou pensando nela, hein? – ele rebateu, sem me olhar direto nos meus olhos. Um sinal de ele poderia estar supostamente mentindo pra mim, tentando me convencer do contrário, quando na verdade eu estava mais que certo.

Bom, de qualquer forma eu não tinha muito que fazer, caso ele estivesse mesmo começando a se apaixonar por ela. Se tem uma coisa que fode com a vida da gente é gostar da pessoa errada. Não que eu tivesse muitas experiências nisso, mas eu sei das coisas. Eu como seu amigo estava aqui, para ajuda-lo a mudar isso, mas se ele não estava disposto a se ajudar, eu não poderia fazer de tudo por ele, certo?

Continuamos andando, mas já deu pra perceber que não vende bebida alcoólica aqui dentro já que tem toda uma equipe de segurança, com guardas espalhados por todos os lados, prontos para ferrar com alguém que esteja disposto a burlar as normas do evento.

Pedro e eu saímos para o lado de fora, ignorando a garoa. Poderíamos entrar e sair a qualquer momento, já que o evento era gratuito. Ali fora nós podíamos fazer de tudo... Ou quase tudo. Fomos até um daqueles vendedores ambulantes de prontidão e compramos uma latinha de cerveja pra cada.

Também não poderíamos entrar com nada suspeito dentro do evento, então ficamos ali mesmo, tentando nos proteger da garoa, enquanto tomávamos nossa cerveja e observamos a movimentação.

***

O Rafael estava disposto a me ajudar, então eu não poderia simplesmente dar para trás agora. Eu não confiava muito nos métodos dele, mas precisava dar meu voto de confiança. Afinal, era melhor arriscar do que ficar parado, esperando a merda toda ferrar comigo.

Eu realmente estava convicto do que eu achava que estava sentindo pela Maria Eduarda eram só paranoias da minha cabeça. E as poucas vezes em que tínhamos nos beijados eu não tinha sentido nada além do arrependimento que vinha a seguir. Eu devia estar mesmo com a cabeça no mundo da lua por ter a beijado e deixado que ela me beijasse. Eu não sabia dizer bem o que era, mas eu sentia uma coisa estranha sempre que ela se aproximava. Quase impossível de conter, mas eu tentava ser duro na queda e quase sempre eu conseguia.

Também estava tentando me convencer de que ela não era do tipo de garota “gostável”. Longe disso. Ela estava mais para aquele tipo de garota que tem tudo pra fazer você se derreter, mas que verdade quanto mais distancia, melhor. Ela é como uma bruxa que lança seu feitiço no primeiro coitado que passa. E no caso, o coitado da vez só eu. Estou a todo custo tentando quebrar esse encanto, antes que ela me lace de vez.

Eu não estava muito com vontade de estar ali naquela festa, apesar de estar sensacional. Não sei, talvez fossem só os problemas tomando conta da minha mente. Parecia que não tinha espaço para mais nada. Eu ainda andava preocupado com a minha irmã e agora também com o meu desempenho nas provas do colégio. Agora eu só queria estar em casa, tranquilo e relaxado deitado em minha cama, tentando dormir enquanto ouvia o barulho da chuva cair do lado de fora.

Parecia perfeito... Mas um desejo muito, mais muito distante.

Já que eu estava ali, em meio a aquele montão de gente diferente, eu resolvi tentar ao máximo aproveitar para não dar viagem perdida e também para não decepcionar o Rafael. Mas sempre que chegamos a um lugar assim ele cai matando pra cima das meninas, na maior cara dura. E eu que não sou um descarado feito ele fico só de canto, observando.

Meu melhor amigo é um babaca.

Vinte pra meia noite – lembrando que esse evento não tem hora pra acabar – o Rafael já ficou com umas vintes garotas ou mais. Eu é que não fico contando, mesmo ele se gabando, contando detalhes de cada ficada. O que pra mim é desnecessário, mas ele faz questão em dizer onde pegou, ou onde ella tocou e coisas do tipo. No final eu não sei quem é mais tapado. Ele por sair pegando qualquer uma e depois cantar vantagem disso, como se tudo fizesse parte de uma grande competição. Ou se são elas, que deixam ele passar a mão em partes dos corpos delas mesmo ele sendo completamente desconhecido. E pior: deixam ele as tocar aqui mesmo, em meio a tudo isso.

A essa altura eu também já não estou muito bem e nem dava mais sermões nele – como se isso fosse adiantar muita coisa! – e sim o contrário, eu ria das histórias que ele me contava. Mas isso só aconteceu porque que tem um pessoal fumando maconha aqui do lado. Segundo que eu já bebi pra caramba, mesmo sabendo que não deveria extrapolar. Porque eu não era muito bom em beber, por isso evitava ao máximo ir longe demais.

Também já perdi a conta de quantas amigas das garotas que ele estava pegando ele tentou me apresentar e eu disse que não, não ia ficar com nenhuma delas, não por dó. Não queria bancar a babá, fazendo companhia para essas garotas, tentando puxar conversa, só porque o Rafael resolveu sequestrar uma delas para dar um amassos por aí, em qualquer canto.

Cada um com seus problemas.

Se sua amiga é uma vadiazinha, problema seu.

Às duas da manhã o Rafael sumiu. Fiquei preocupado e furioso. Primeiro que ele já tinha sumido muitas vezes essa noite para ir à caça, dizendo que eu era mole demais para acompanhar seu ritmo. Ele estava certo, por isso aceitei numa boa e fiquei por ali mesmo, curtindo um som. Mas agora parecia mais sério, porque ele não tinha voltado e isso ia fazer uns quarenta minutos já. Ou a garota que ele estava ficado era muito safada e estava indo longe demais. Ou o Rafael tinha desmaiado por aí, com a cabeça cheia de cachaça. Para não dizer outra coisa.

Resolvi dar uma volta e procurar por ele. Mas eu juro que andei por toda parte, mesmo esse lugar sendo imenso, e juro que não o vi por nenhuma parte ou ninguém parecido com ele. Quando eu estava prestes a desistir, sinto meu celular vibrar dentro do bolso do jeans. Na certa era ele, dando sinal de vida. Peguei o aparelho no bolso e eu estava certo. Era o filho da mãe.

“Cara, desculpa aí. Mas eu acabei me dando MUITO bem e você nem imagina com quem estou ou onde estou agora hahahahaha.”

Eu fiquei muito furioso ao descobrir que ele tinha se mandado com uma qualquer e me deixado ali. Filho da mãe desgraçado. Tomei o ultimo gole da minha cerveja e joguei a latinha de lado. Resolvi ir embora, pois eu que não ia ficar ali sozinho e bêbado de jeito nenhum. Eu queria é minha cama. Eu nem deveria ter saído dela, só pra constar.

Indo em direção à estação para pegar o trem uma cena me chamou muita atenção. Era uma garota, ela estava sozinha, e passando muito mal. Usava um vestido preto muito colado ao seu corpo magro, — quase esquelético — e uma meia-calça arrastão também escura e toda rasgada Ela estava de All Star, que só pra constar, também era preto. Sei que os cabelos dela eram de um castanho muito escuro, mas não pude ver nada do seu rosto, pois ela estava curvada, vomitando no chão.

Apesar de ter um estilo alternativo muito peculiar, que lembrava muito a minha irmã, toda revoltada e rebelde, de mal com a vida; eu resolvi prestar minhas condolências, mesmo não tendo naquela a ver com aquilo. Confesso que tive um pouco de dó da coitada, ela parecia muito mal e frágil, estava sozinha e desamparada.

Quando eu me aproximei para perguntar se estava tudo bem, ela virou-se para mim com os olhos azuis cheios de lágrimas. Olhos lindos, que por sinal estavam contornados por uma maquiagem muito forte e preta. Ela tinha o rosto coberto por sardas. Era muito bonita, quase angelical. Um anjo negro, talvez.

É, eu não estava muito bem. Eu devia estar chegando na minha casa, mas parei para ajudar uma garota que eu nem conheço. Mas que deveria ter a minha idade ou ser até mais nova. Não sei. E quando os olhos dela encontraram os meus, ela sorriu genuinamente, ou foi impressão minha? E antes que eu pudesse oferecer a minha ajuda ela disse:

— Por favor, não me faça mal. Só me leva pra casa.

Acabei descobrindo durante nossa viagem de trem, enquanto eu tentava segurá-la para ela não vomitar em qualquer lugar, que ela se chamava Cristina, mas preferia que a chamasse de Cris. Ela morava em um bairro vizinho ao meu, tinha vinte anos – não parecia, fiquei surpreso – e que o namorado dela tinha terminado com ela naquela noite, por isso ela estava tão mal, pois estava de coração partido.

Ela não sabia se chorava, se vomitava, se continuava me falando da sua vida sem eu nem perguntar, se xingava o ex-namorado ou se usava minha camiseta como um lencinho para secar as lágrimas e enxugar o nariz.

Deixei que ela fizesse tudo ao mesmo tempo.

Em pouco tempo chegamos ao apartamento onde ela morava sozinha em uma rua de classe média. O lugar era simples, muito escuro e quase não tinha mobília. Me chamou muito a atenção sua decoração um tanto... Gótica. Eu só ia deixar ela ali, sã e salva. Mas ela acabou me puxando para dentro e eu entrei mesmo contra a minha vontade.

Como se não tivéssemos acabado de nos conhecer ela me puxou para o seu quarto e pediu que eu a ajudasse a desabotoar o zíper do seu vestido que ficava nas costas, depois tirar o tênis e as meias. Eu ajudei, claro. Nada de mais nisso, certo? Depois – isso só de calcinha e sutiã floral – ela correu até o banheiro, ajoelhou-se no chão e colocou tudo pra fora de novo. Eu novamente corri pra ajudar, tirando o cabelo dela do rosto e tudo mais.

— Acho que to muito melhor agora. – disse ela, sorrindo pela primeira vez. Percebi que ela tinha um sorriso muito meigo e formavam-se duas covinhas em suas bochechas. Era algo adorável.

E antes que eu pudesse dizer que tinha cumprido a minha missão, ela foi tirando os últimos resquícios de roupa e ficou nua, ali mesmo, na minha frente. Eu me perguntei naquele momento — desconcertado, bêbado e sem conseguir tirar meus olhos do corpo magro dela — quantas vezes ela teve o coração partido por uma babaca e deixou-se levar pelo primeiro estranho assim como eu. Depois ela amarrou o cabelo, ligou o chuveiro e entrou de baixo da água, para se lavar.

Tentei não olhar muito, mas isso foi quase impossível. Mas ela pareceu não se importar e continuou, inocentemente, seu showzinho particular. Só despertei mesmo quando ela pediu que eu pegasse a toalha em cima de sua cama. Voltei até o banheiro e entreguei a tal toalha pra ela.

Acontece que a Cristina, ou Cris, estava tão fora de si, que acabou capotando com tudo na cama, de cara no chão. E ainda de toalha. Mas ela me levou junto, então não tive muitas saídas. Eu também estava acabado e já nem lembrava o que estava fazendo ali naquele lugar desconhecido, deitado com uma garota só de toalha e extremamente sexy de um jeito muito doce.

— Obrigada por cuidar de mim, Pedrinho. – ela sabia meu nome? Eu tinha dito meu nome pra ela? Dessa parte eu também não lembro.

Foi só ela terminar de dizer isso para aproximar seu rosto um pouco mais do meu e me tacar o maior beijão. Não preciso nem dizer que fiquei desnorteado e bem excitado também. Afinal, ela era uma garota só de toalha na mesma cama que eu, e muito linda por sinal. Não parecia justo eu beija-la de volta, sabendo que estávamos bêbados. Mas eu a beijei de volta sim e até ousei colocar minha mão entre os cabelos molhados dela, puxando-a um pouquinho mais para perto, para eu senti-la melhor.

Cris aproveitou para se colocar em cima de mim, beijando-me com mais vontade e até parecia mais acordada, mais lúcida e ciente do que estava fazendo. Deixando até a toalha cair, enquanto tomava posse do meu pescoço. Então nem me senti tão mal assim, ou tão cafajeste e mau caráter por estar prestes a transar com uma desconhecida.

No final das contas, o Rafael não tinha sido o único a se dar bem essa noite. E pior: ele não tinha sido o único a agir feito um cretino, que fica com qualquer estranha só por ficar. Por fim, eu tinha agido exatamente como ele. Ele teria ficado orgulhoso de mim. Eu por outro lado não fiquei nenhum pouco feliz ao acordar no sábado de manhã, olhar para o lado e lembrar muito pouco do que tinha acontecido antes de eu apagar de vez.

Mas eu estava nu, tinha uma garota nua do meu lado, e não estava com amnésia total, então nem podia culpar totalmente a bebedeira. Levantei-me cuidadosamente, peguei minhas coisas, me vesti e dei o fora dali, antes que ela acordasse. No caminho de volta pra casa eu me senti a criatura mais medonha da face da terra.

***

— Você o quê?! – praticamente gritei quando o Pedro terminou de relatar suas aventuras de sexta-feira a caminho do colégio, já na segunda-feira de uma manhã fria e nublada, mas sem chuva.

— É, isso mesmo que você ouviu. Eu dormi com uma desconhecida. E me sinto péssimo por isso. Ainda mais por ter a deixado assim que acordei, sem nem perguntar se ela estava bem.

— Pera aí... Vocês pelo menos usaram camisinha? – perguntei, meio preocupado e também muito orgulhoso do meu garoto. Eu até podia ser um cabeça oca, mas de proteção eu nunca me esquecia.

— Bom, pelo menos dessa parte eu me lembro. Então sim, nós usamos.... Muitas camisinhas. – ele deu um sorrisinho, mas que durou muito pouco. Eu tinha subestimando o Pedro esse tempo todo, mas ele é um putão, assim como eu. Cara, que irado! — Você acha que eu deveria ir lá vê-la? Pedir desculpas, perguntar com ela está, esse tipo de coisas, sabe?

— De jeito nenhum, Pedro! Cara, foi só uma noite. Relaxa! Ela quis, você quis e aconteceu. Foi natural! Não tem nada porque pedir desculpas ou se sentir mal. Já parou pra pensar que pode ter sido a melhor noite da vida dela, mas que ainda sim isso não signifique necessariamente que ela tenha se apaixonado por você e que vocês se reencontraram e serão felizes para sempre? Se liga, Pedro. Nem tudo é como nos filmes ou nos livros.

Ele assentiu, sabendo que eu tinha total razão.

Dei-me conta que estávamos muito perto de chegar no colégio. Eu não queria perder tempo, queria saber de todos os detalhes picantes da noite de putão dele com essa tal de Cris. Queria saber se ela era gostosa e tudo mais. Mas o Pedro não colaborou e disse que nada disso era da minha conta.

Quando chegamos ao colégio ele saiu em disparada na minha frente, dando aquele assunto por encerrado. Parecia uma garotinha amedrontada, mas eu resolvi relevar. Ele estava mudando, devagar, mas estava.

As malditas provas enfim tinha terminado. Eu não queria nem saber das minhas notas que sairiam em alguns dias. Estava começando a achar que eu ia repetir esse ano. Não poderia suportar ter que ver isso tudo de novo.

Eu tinha treino agora nas minhas primeiras duas aulas, mas ainda estava me sentindo um lixo por dentro. Maldita ressaca! Fui até a lanchonete e comprei uma garrafa de água com gás pra mim, depois fui até a enfermaria e pedi pra tia me dar um remédio pra dor de cabeça.

Já no vestiário, minutos antes da aula começar, enquanto eu trocava de roupas acabei comentando, assim meio sem querer, com os caras do time sobre as loucuras do final de semana do meu melhor amigo. Juro que na foi intencional. Eu não queria fazer fofoca. Eu só comentei mesmo por comentar, estava tão orgulhoso do meu garoto que não conseguia esconder minha felicidade por ele. E também, o Pedro ia ficar bem falado com os caras do time. Ia ser praticamente idolatrado e talvez até incentivado a continuar nesse caminho.

Mais tarde já no intervalo, o pessoal do colégio só comentava sobre isso. Para vocês verem como as coisas correm rápido por aqui e são esquecidas também, assim como a história sobre a minha família que a Duda espalhou. Ninguém mais ouvia falar sobre aquilo, para minha felicidade e ninguém mais me olhava torto, como se eu fosse só mais uma criatura de outro mundo que tinha problemas em casa.

Comprei um salgado pra mim e uma Coca-cola, sentei-me a mesa com meus amigos. Bianca estava mimando o Felipe bem a minha frente, o que parecia muito exagerado da parte dela, mas que também tinha muito a ver com ela. Estava na cara que eles estavam muito apaixonados. Natália e Luiza conversavam sobre uma atividade qualquer de geografia que lhes foi passada aquela manhã e nenhum sinal do Pedro. Bom, então eu estava basicamente sozinho, na minha, apenas escutando os demais.

Fiquei me perguntando onde é que o Pedro havia se metido. Será que ele estava por aí atacando mais uma garotinha indefesa? Aposto que sim!

A seguir eu tinha uma aula interminável de português. Eu queria muito tirar um cochilo pelos próximos cinquenta minutos, mas aquela velha estava impossível hoje. Na certa ela me mandaria direto para a diretoria, um lugar que eu não visitava a um bom tempo. Então nem ousei a abaixar a cabeça e fingi está prestando a atenção na aula enquanto minha mente flutuava para um lugar muito, mais muito distante.

Fui um dos primeiros a sair da sala e adivinhem só quem estava me esperando no corredor? Sim, meu amigão Pedro. Eu ia cumprimenta-lo e perguntar onde é que ele havia se metido durante o intervalo, mas ele nem esperou eu falar para começar a me atacar, dando-me um empurrão contra a parede fria do corredor.

O pessoal em volta ficou assustado, observando a tudo.

— Você não tinha o direito de espalhar por aí sobre tudo que te contei mais cedo, seu merda. – ele dizia isso olhando fixamente para mim com seus olhos verdes esbravejantes. — Você é o meu melhor amigo, poxa. Eu confio em você, Rafael. Porque você fez isso? Não tinha nada porque todo o colégio saber que eu dormi com uma estranha.

Claro que ele também nem me deixou dar uma resposta a tudo isso e saiu bufando feito uma menininha para a próxima aula.

***

Com o passar das horas a minha raiva toda do Rafael foi diminuindo. Eu só estourei por um momento, afinal não sou de ferro. Mas já passou. Com o tempo, todos esses anos de amizade, a gente acaba aprendendo algumas coisas sobre outro na marra. Querendo ou não, a gente se acostuma com os defeitos, as manias, mas principalmente, a falta de jeito. E o Rafael é assim, o que mais eu poderia esperar vindo dele?

Mas também não é qualquer coisa minha que ele sai espalhando por aí, até porque somos melhores amigos e ainda tem toda essa coisa de confiança, se não essa relação nem funcionaria mais. Ele só fez o que fez – além de ser um tapado – porque achou que seria o melhor pra eu ter um fama de “pegador” feito ele por todo o colégio. Como se eu realmente precisasse provar alguma coisa pra alguém.

Bom, claro que toda essa historinha de dormir com uma estranha no sábado ainda me perturbada. Não era bem o que eu queria que as pessoas comentassem sobre mim por aí sem saber ao certo exatamente o que aconteceu. Na verdade, eu não queria ser alvo de nenhum tipo de fofoca... Mas como isso é meio impossível de controlar eu já estou mais tranquilo. Não que eu me orgulhe do que fiz, longe disso. Acho até que isso me causará traumas pelo resto na vida. Nada de bebidas alcoólicas por muito tempo. Mas afinal, não era da conta de ninguém o que eu fazia ou deixava de fazer. Então eu não estava muito preocupando quanto a isso. Ninguém sabia ao certo o que aconteceu, só eu.

Podem falar a vontade.

Cada um sabe da sua vida.

Sei também que essa fofoca não vai durar nem dois dias e logo estarão falando sobre outra pessoa, sobre outra coisa e tudo mundo vai se esquecer dessa bobagem. Porque eu, principalmente eu, quero esquecer que isso tudo realmente aconteceu. Não me agrada ficar pensando nesse tipo de coisa. Isso não sou eu. Ou pelo menos, eu não costumava ser assim.

Acho até que toda a influencia do Rafael sobre a minha vida – essa história de ele querer me ajudar a esquecer a Duda – está me fazendo muito mal, quando na verdade deveria estar me ajudando e facilitando pra mim.

As quatro e dez eu já estava saindo do colégio, batendo um papo agradável com o Felipe ao meu lado e me preparando mentalmente para ter uma conversa séria com o Rafael mais tarde, pra gente resolver isso de uma vez e não ficarmos brigados por tão pouco. Despedi-me do Felipe já que ele ficou de voltar pra casa com a Bianca – como se isso fosse novidade – e resolvi ir até o carrinho de balas de um senhorzinho que sempre para em frente ao colégio para lucrar.

Paguei pelo meu Trident e olhei em volta, vendo aquela multidão de alunos, e procurei pelo Rafa em meio a tudo isso. Mas achei melhor termos essa conversa mais tarde, na minha casa ou na dele. Por aqui tem muita gente, nem se eu quisesse poderia dar um soco nele. Teríamos muitas testemunhas. Sendo assim, peguei o caminho de casa.

Mas claro que tinha uma coisa, ou uma pessoa, para me impedir. E essa pessoa eu não via desde sexta-feira. Estava indo muito bom assim, até ela resolver me abordar no meio da rua, o que também já não era nenhuma novidade, já que ela se vê no direito de fazer o que quiser de mim quando bem entender. Maria Eduarda parecia estar muito brava comigo. E eu nem precisava pensar muito para saber o por quê.

Ela já estava sabendo de tudo.

— Quer dizer então que seu final de semana foi bastante divertido? – ela resolveu atacar, mas eu já estava preparado.

Como eu resolvi ignorar completamente a tentativa dela de arrancar informações diretamente da minha boca, ela continuou com seu showzinho.

— Nossa, Pedro. Parabéns! – ela bateu uma... duas... três palmas pra mim junto do sorriso mais debochado desse mundo. — Eu pensei que você a exceção. Mas pelo visto você é igualzinho aos outros.

Já deu pra perceber que eu não estou nenhum pouco a fim de brigar com essa garota. Só ela que não enxerga isso. E também nem tem porque brigarmos, já que não somos absolutamente nada: nem namorados, nem amigos, nem nada parecido. Não é como se eu devesse algum tipo de explicação. O que ela sabe sobre mim? Que eu dormi com uma estranha pela primeira vez na vida? E quantas merdas ela já fez na vida também? Muitas, com certeza. E nem por isso, em todas às vezes eu fui até ela tirar satisfações. Afinal, o que ela faz ou deixa de fazer não é da minha conta. Não é da conta de ninguém!

A seguir eu fiz a coisa mais sensata que eu pensei para aquele momento: continuei andando e a deixei falando sozinha. Eu só queria chegar em casa e descansar. Tive um dia longo e isso não era pedir de mais. Ou era?

Notas finais
Esse final não foi muito extraordinário. O Pedro resolveu agir friamente com a Duda, acho até que ela merece. Mas vocês pelo menos se divertiram com o capítulo? Eu tentei ao máximo pensar como um garoto estilo o Rafael, espero ter funcionado. Bom, comentem. Vou tentar começar escrever o próximo capítulo que será narrado pela Bia e muito provavelmente vou postar na terça ou na quarta. Beijão a todos! E até mais.