Todos Iguais

24 Natália e Luiza


Ver o Felipe completamente bêbado – coisa que nunca aconteceu antes – era um tanto preocupante e engraçado. Pelo menos ele parecia estar se divertindo, como se aquela fosse a ultima noite de sua vida. Ele não parava quieto um minuto. Depois de abusar na bebida Felipe até arriscou dar uns passinhos na “pista de dança”, jogou truco e uno, contou piadas, gritou, pulou, abraçou todo mundo, comeu bastante e até chorou.

Não havia ninguém presente naquela festinha que não ria da situação. Acho que ele nunca foi tão desinibido, tão cara de pau, tão livre e solto, pirado ou tão divertido. O Rafael e o Pedro aproveitaram para tirar umas fotos e gravar uns vídeos para envergonha-lo no dia seguinte, quando ele estivesse melhor, quando ele estivesse totalmente sóbrio.

Ia dar meia-noite quando me dei conta que o bolo que compramos no mercado ainda estava na geladeira, dentro de casa. Corri até lá e o tirei cuidadosamente, coloquei-o por um momento sobre a pia, peguei as velas na ultima gaveta do armário e decorei o bolo com as velinhas azuis.

Voltei lá para fora agora com o bolo em mãos e puxei o coro, fazendo todos cantarem comigo aquela famosa musiquinha de aniversário. O Pedro se adiantou e acendeu as velas com um isqueiro. Quando o Felipe se deu conta de que aquilo tudo era só para ele, ele se aproximou com um sorriso largo e os olhos avelã brilhando, cheio de lágrimas.

Eu queria saber o que exatamente estava se passando na cabeça dele.

Felipe fechou os olhos por um momento, fez um pedido e apagou as velas ao assopra-las. Com a pressa acabei me esquecendo da espátula para cortar o bolo, então tive que pedir para uma das meninas irem lá dentro pegar. A Luiza voltou correndo com a tal espátula em mãos e me ajudou a cortar o bolo e servir para todos os gulosos presentes.

Estava sendo uma noite bem especial.

***

Quando a cerveja acabou o Rafael fez questão de pedir para todo mundo mais dinheiro para ir comprar mais bebida. Pelo visto a festa estava muito longe de acabar, mesmo já se passando da meia-noite. Eu particularmente estava adorando, então contribuí, dando tudo que tinha no bolso do jeans. O importante é que a Aline estava ao meu lado, sendo a melhor companhia que eu poderia ter aquela noite.

Eu ainda estava tentando me acostumar com a ideia de estarmos namorando. Afinal, ela era a minha primeira namorada. Eu sei que estamos juntas apenas há uma semana, mas ela faz tudo parecer tão fácil que é como se eu já tivesse nascido sabendo o que fazer ou dizer.

Nada no mundo parecia melhor do que vê-la sorrindo, por minha causa. Então, eu estava me esforçando o bastante para estarmos sempre assim, bem e felizes. Muito mais que namoradas: amigas e cúmplices.

Rapidamente o Rafael fez amizade com o Danilo e eles saíram de carro para comprar mais bebida. Como eu estava conversando bem pouco com a Bianca agora, não sabia dizer se eles tinham voltado a namorar ou estavam só ficando. Mas eles estavam juntos, isso todo muito poderia ver já que eles não paravam de trocar carinhos e não se desgrudavam.

Em parte eu os entendia muito bem.

Quando a gente está gostando muito de alguém queremos aproveitar cada segundo ao lado dessa pessoa, para conhecê-la melhor, para observa-la mais e poder senti-la pertinho. Todo o tempo do mundo parece pouco para o tamanho do amor que queremos compartilhar com ela. Tudo em volta fica mais interessante, preenchido e completo.

Em poucos minutos eles voltaram, mas não tinham comprado mais cerveja e sim umas bebidas bem mais fortes. Todos ficaram animados com o que viram, faltaram dar pulinhos. Eu não tinha bebida tanto desde que cheguei, mas aquela pareceu uma boa oportunidade para reverter isso.

Acabamos sentando na grama fazendo um circulo para jogar uns joguinhos de perguntas e respostas. Quem não estivesse disposto a responder as perguntas ou estivesse evidentemente mentindo teria que virar um pouco inteiro com pinga. Aquilo seria bem divertido.

No inicio as perguntas foram leves, apenas algumas curiosidades a respeito uns dos outros. Depois tudo começou a esquentar, as perguntas passaram a ficarem provocantes um tanto picantes e ousadas. Eu ria na maior parte do tempo, me deliciando com aquela diversão.

Não demorou muito para estarmos todos bêbados, falando bobagens e dando risada sem parar. O som tocava baixinho de fundo, mas não demoraria muito para os vizinhos chamarem a policia por causa da bagunça, dos gritos eufóricos e das risadas histéricas.

Aquilo estava mesmo divertido. Eu não pensei que iríamos tão longe. Estava tudo tão tranquilo e calmo algumas horas antes. Eu conversava baixinho com a Aline em um canto, trocando carinhos. O Pedro cuidava da carne com a Nati. Felipe refletia sozinho em outro canto. Bianca estava sentada no colo do Danilo. Gabriela, Rafael, Duda e Tati dançavam.

E agora, nesse exato momento, o Felipe parecia desmaiado no meio do quintal. Bianca e Danilo também estavam deitados no chão, olhando para o céu escuro e conversando sobre qualquer coisa particular. Pedro e Rafael estavam fumando do outro lado. A Gabriela havia sumido. E a Duda e a Tati estavam vendo os vídeos que os meninos gravaram no tablet.

Mas esperai aí... Cadê a Natália?

— Luiza? – Aline me chamou e eu me virei para ela. — Eu acho que está muito tarde. Eu tenho que ir para casa. Tipo, agora.

Eu já sabia que assim como eu – ou pelos menos como eu costumava ser – Aline tinha pais muito rígidos que determinavam horários para ela chegar a casa. Então eu nem tinha porque ficar emburrada ou coisa do tipo, eu precisava entender e aceitar que ela tinha que ir. Agora. Infelizmente.

— Quer que eu te leve?

Ela pegou o celular no bolso do jeans e olhou para ele por alguns segundos antes de voltar-se para mim novamente.

— Não precisa. – ela suspirou, torcendo os lábios. — Na verdade, meu pai disse que viria me buscar.

Aline se despediu de todos que estavam em condições de entender ou ouvir o que ela dizia. Todos foram bem legais com ela, o que pra mim era muito bom. Aline é um amor de pessoa, não tem como não gostar dela. Eu peguei sua mão, dando a volta na casa e indo até o portão, onde o pai dela chegaria em poucos minutos para leva-la para casa.

Ali na frente estava tudo muito calmo e tranquilo. Estávamos sozinhas finalmente. A rua estava vazia e silenciosa. Eu me virei de frente para ela e peguei suas mãos para segurar enquanto eu ainda podia.

— Nos vemos amanhã então? – quis saber.

— Com certeza. – ela sorriu lindamente.

Aline entrelaçou nossos dedos e fiquei perdida em pensamentos enquanto olhava nos olhos dela por um momento.

— Então, até amanhã.

Aproximamo-nos e começamos a nos beijar calmamente.

Eu tocava o rosto dela com cuidado tamanho sua fragilidade e ela apertava de leve a minha cintura com os dedos, provocando-me.

Depois ficamos caladas, apenas abraçadas sob o céu estrelado. Até que ouvimos o barulho de um carro se aproximando e nos afastamos.

— Eu te amo. – ela disse um pouco antes de entrar no carro do pai.

Fiquei ali, parada e sozinha, vendo o carro se afastar cada vez mais, imaginando o quão solitária seriam as próximas horas sem ela por perto.

Aproveitando que a porta da frente da casa da Natália estava aberta, foi por ali que entrei. Estava me sentindo um tanto zonza, precisando urgentemente da minha cama para descansar. Minha boca também estava muito seca, então fui até a cozinha para tomar um copo d’água.

***

Eu não sei bem porque, mas fiquei todo o tempo espionando-as da janela da sala, enquanto lá fora, em frente ao meu portão, elas se despediam com um beijo romântico e depois um abraço carinhoso.

Elas pareciam tão próximas, tão unidas, tão amigas, tão íntimas, assim como eu e o Pedro, então eu nem sabia por que eu estava com raiva de vê-las assim, tão juntas. Eu estava me sentindo... Confusa. Ou até enciumada.

Voltei correndo para a cozinha quando eu vi a Luiza entrando na casa, eu não queria ser pega no flagra espionando. Isso era bem feio da minha parte, normalmente eu não sou assim. Mas digamos que aquela noite não estava nem um pouco normal. Eu não me sentia normal.

Voltei ao que eu estava fazendo antes de resolver espionar: dar uma limpada na cozinha de casa antes que desabasse na minha cama. Ouvi quando Luiza se aproximou e pediu licença para tomar um pouco de água.

Eu parei o que estava fazendo para observá-la por um momento. Luiza estava tão mais bonita aquela noite. Ou melhor, aquela madrugada. Tão mais radiante e sorridente. Parece que o amor faz mesmo bem as pessoas.

Ela estava simples e comum, porém aos meus olhos ainda mais intrigante com seu jeans justo, uma blusinha cinza manga ¾ com o desenho do Pateta estampado bem na frente e All Star vermelho.

Os cabelos longos estão soltos e descem livremente por toda extensão de suas costas. Seus olhos verdes estão claros e contornados por lápis preto.

Seu perfume é quase refrescante.

— Parece que ela realmente te faz muito feliz. – me vi falando sem nem pensar antes tamanha besteira que acabei de soltar.

— Ela...? – ela tomou toda água em seu copo e depois passou por mim para deposita-lo na pia antes de se voltar para mim. — Ah, ela. Sim. Pra você ver. Parece que finalmente eu encontrei meu par perfeito. – ela sorria, parecendo tímida. — Igual você e o Pedro. Certo?

Tocar no nome do Pedro naquele momento pareceu muito errado.

Imaginei o que ele estaria fazendo lá fora, enquanto eu estava aqui debatendo internamente comigo mesma quanto aos meus sentimentos. Será que tudo isso é por causa da bebedeira de minutos antes?

— Me esquecer foi tão fácil assim? – acabei perguntando, ignorando sua pergunta anterior. Eu não queria envolver o Pedro naquilo.

Luiza arqueou uma das sobrancelhas, evidentemente intrigada com o rumo daquela conversa mais que estranha.

— Meu Deus, Nati. Do que você está falando? – ela riu, bem humorado e eu fiquei brava por alguma razão. — Porque você quer falar sobre isso?

— Eu não sei. Não sei! – acabei aumentando o tom de voz e senti vergonha de mim mesma. — Eu acho que estou... Confusa.

Não só confusa, como também estranha e tonta. Como se me faltasse ar. Minha visão ficou turva e eu fechei os olhos por um momento.

— Nati, você está bem? – ela perguntou, mas eu não conseguia responder. Estava mesmo muito mal. — Não, você não me parece nada bem.

Ela se aproximou, tocando-me. Eu senti um arrepio.

— Eu acho que preciso deitar. – consegui dizer. Sendo assim, Luiza se dispôs a me ajudar a andar até o próximo cômodo. — Não! Não aqui. Ajuda-me a subir até lá em cima? Por favor.

Eu me apoiei na Luiza, enquanto subíamos devagar até o meu quarto.

Com muito cuidado ela me ajudou a deitar na cama e sentou-se perto o bastante de mim para continuar tocando-me mesmo sem querer.

— E agora, você se sente melhor? – ela perguntou e eu assenti. Não estava totalmente melhor, mas estar na minha cama facilitava muito.

Ela sorriu como se pudesse ler meus pensamentos.

— Acho que nós exageramos um pouco essa noite.

Permaneci calada, tentando me recompor.

— Vou descer e pegar um pouco de água pra você, ta?

Ela ia levantar quando eu a puxei pelo braço, impedindo-a.

***

Eu não estava entendendo mais nada quando ela me impediu de levantar. Comecei a suspeitar se a Natália estava sendo sincera quanto ao seu mal estar ou se estava só fingindo para se aproveitar da minha boa vontade.

— Não vai. Fica, por favor. Temos que conversar.

Tá. Agora eu fiquei ainda mais intrigada. Não estava entendendo nada com nada. A Nati estava muito estranha. O que deu nela?

— Conversar? Natália! – eu ri, tentando repreende-la. — Você está passando mal e agora quer conversar?

Ela assentiu, respirando pesadamente.

Acabei me dando por vencida e voltei a me sentar ao seu lado.

— O.K. Vamos lá. Você quer conversar sobre o que exatamente?

— Sobre nós.

Olhei bem para ela, espreitando os olhos.

— Sobre nós? O que tem... Nós?

— Você... Ainda gosta de mim ou não?

Por falta de opções eu ri.

— E porque isso teria importância agora? – eu quis saber, voltando a ficar séria. Quase nervosa. — Eu tenho a Aline e você o Pedro.

— Sim, eu sei. – ela suspirou, tentando se sentar. Eu tentei ajudar, mas ela me impediu um tanto fria. — Só me responda... O.K?

Revirei os olhos e passei a mão pelo cabelo.

— Sim, eu gosto. Ainda gosto de você, mas...

Quase tive um sobressalto quando ela me calou com o dedo indicar, os olhos negros, profundos como um abismo sem fim dentro dos meus, o rosto muito perto do meu, a respiração contra a minha e um meio sorriso.

— Nada mais importa, Luiza. – ela praticamente sussurrou, agora olhando para minha boca. Eu estava queimando por dentro. — Olha, eu não sei o que deu em mim, mas eu preciso provar uma coisa.

Antes de avançar ela umedeceu os lábios com a língua e eu engoli em seco, já quase sem conseguir respirar. Até que ela me beijou, com a mão na minha nuca e eu fechei os olhos, com o coração acelerado.

Ao sentir a língua dela tentando invadir a minha boca, foi quando me dei conta do que fazíamos. Eu não estava tão bêbada assim. Mas ela estava e isso era muito, muito perigoso para nós duas. Tentei me afastar sem parecer muito grosseira, mas ela me impediu, puxando meu rosto para prolongar aquele beijo e eu me rendi, apesar de tudo.

A imagem da Aline dizendo que me amava era tudo que eu conseguia ver na minha frente. Por outro lado meu corpo reagia indiferente ao cérebro e não conseguia se mover, não conseguia parar. Tudo que eu queria era sentir aquele momento tão precioso, que estava finalmente acontecendo do jeitinho que eu sempre imaginei que seria.

***

Eu tomei a iniciativa. Mas estava tão confusa, nervosa e surpresa que logo me arrependi do que estávamos fazendo enquanto todo o resto do pessoal ainda estava lá em baixo, talvez procurando por nós duas.

Primeiro achei que ela não iria querer continuar. Mas acabou que ela foi muito mais além do que eu esperava. Avançando sobre mim, unindo nossos corpos passando as mãos desesperadamente por meu cabelo, depois pelo meu rosto, depois pelos braços e por fim por minha barriga.

Não. Não. Não.

Estava tudo errado e ao mesmo tempo tão completo. Mas tinha o Pedro, que não merecia aquilo. E tem também a Aline, não posso esquecer-me desse detalhe. Ela também é um ser humano e tem sentimentos. Ela também faz parte disso. Não podemos simplesmente esquecer de todo o resto e agirmos conforme as nossas vontades, curiosidades ou desejos.

— Luiza, não. – sussurrei, ainda de olhos fechados. Sentindo as mãos delas em mim. — Por favor. Para...

E então ela parou, afastou-se como se eu tivesse lhe dado um choque e me olhou assustada, como quem não sabe o que está fazendo ali.

— Ai. Meu. Deus. O que foi isso...? – ela não perguntou a ninguém em particular. Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro dentro do meu quarto. — Isso é tão... Errado!

— Fica calma, tá? – levantei-me também. Em parte sentindo-me bem melhor, por outro lado péssima e cheia de culpa. — Isso não deve e nem pode voltar a acontecer. Nós estamos... Bêbadas. Isso foi um mal entendido como todas as outras vezes. Certo? Isso não vai sair daqui. Eu prometo.

Ela olhou para mim, quase aliviada com o que eu disse.

— De mim também não vai sair nada.

Aquilo não era só uma promessa. Era um trato.

Ela desceu primeiro, só para não levantar suspeitas ou sei lá o que. Eu primeiro fui ao banheiro, lavei o rosto e coloquei meu melhor sorriso. Desci também e fui até o Pedro, abraçando, com um peso enorme nas costas. Ele me passou um cigarro e eu aceitei. Mas não tive coragem nenhuma de voltar a olhar para Luiza. Não depois do que fizemos lá em cima.

Poderia ter sido pior, digo a mim mesma.

Luiza vai embora vinte minutos depois.

Às quatro da manhã vão todos embora. Exceto o Pedro que me ajudou a limpar o quintal e o Felipe desmaiado, o qual colocamos no sofá.

Ele passaria aquela noite ali, até melhorar.

— Posso ficar aqui com você? – Pedro perguntou, após termos terminado de limpar tudo. Ele beijou a minha testa carinhosamente.

— Você quer dizer que... Vai dormir aqui? – eu quis saber, um tanto surpresa. Eu não imaginava que aquelas eram suas intenções.

— É, sim. – ele riu. — Nossa, do jeito que você perguntou até parece que eu sou um estranho pedindo para dormir com você.

Eu sorri sem jeito.

Nós trancamos a casa e fechamos as janelas. Apagamos as luzes e deixamos o Felipe ali em baixo mesmo largado no sofá. Subimos até o meu quarto. A casa estava assustadoramente silenciosa e vazia. Tudo que eu podia ouvir era a respiração do Pedro.

Fui até o banheiro, escovei os dentes e coloquei o meu pijama. Quando voltei para o meu quarto o Pedro já estava deitada em minha cama. Sem camiseta, só de jeans. Ele é lindo, com um deus grego. Extremamente sexy com a franja preta colada na testa e os olhos verdes bem abertos.

Senti-me um tanto intimidada.

Apaguei a luz e acendi o abajur, iluminando a nós dois. Tirei os chinelos e me deitei ao seu lado, reconfortando-me em seus braços. Ele beijou a minha cabeça e passou a acariciar a pele exposta do meu braço.

Estávamos muito calados.

Eu muito séria e assustada. Já ele sorrindo de leve.

— Você está bem? – ele perguntou de uma hora pra outra.

Apenas assenti.

Acho que ele acreditou, porque não insistiu na conversa.

Pedro passou a me provocar, contornando toda a extensão da minha pele exposta com a ponta dos dedos e fazendo meus pelinho se arrepiarem. Depois ele se mexeu, mudando a posição sobre o colchão para poder beijar meus lábios. No inicio ele me beijava com certa doçura, com carinho e devagar. Depois ele sugou meus lábios, apertando-me firme e me puxando para cima dele. Ele estava excitado, eu pude sentir.

A primeira vez que transamos foi mágica. Era tudo muito novo para mim. A segunda vez foi estranha. Estávamos envergonhados um com o outro e desconfortáveis com a situação. Não houve uma terceira vez, apesar de algumas tentativas. Quando estamos sozinhos o clima costuma esquentar entre nós e até rola algumas caricias.

Agora parece que vai acontecer de novo. Eu não sei se quero isso, já que minha mente está longe daqui. Mas ele parece bem à vontade, provocante e incrivelmente sensual. Não posso deixar de suspirar ao sentir o seu toque e a boca dele explorando o meu corpo, atiçando-me cada vez mais.

Eu confio nele, eu amo ele, eu o desejo.

Mas...

— Relaxa, eu tenho camisinha. – disse ele, sorrindo com a boca ainda colada na minha. Eu sorri de volta, achando graça naquilo.

Eu nem se quer havia pensado na nossa segurança, mas parece que o Pedro é bem prevenido

— Não é isso. – eu ri baixinho, pousando minha mão sobre a sua barriga lisa e contornando seus músculos pouco definidos. — É que o Felipe está lá em baixo e ele pode acordar a qualquer momento.

— Ah, deixa ele pra lá, Nati. – ele também riu, passando uma mecha do meu cabelo curto atrás da minha orelha. — O Felipe vai ficar bem. Sei que ele não vai acordar tão cedo. Ele também não é um completo idiota.

Tive que concordar.

Felipe não iria simplesmente entrar no meu quarto e...

Pedro tirou-me o fôlego, voltando a me beijar calorosamente.

Não me aguentei por muito tempo, sentando em cima dele. Beijando seu peito, sua barriga e um pouco a cima da barra de sua cueca branca. Ele sorria lindamente e gemia baixinho, achando aquilo muito divertido.

— Por favor... Não pare. – ele sussurrou provocante com um sorriso torto incrível, puxando meu rosto para um beijo mais lento.

Beijei-o por poucos segundos e depois comecei a abrir o zíper de seu jeans com os meus dedos tremendo de nervosismo.

Afinal, o que é que eu sinto pela Luiza?

Será que o que eu sinto por ela se compara ao que sinto pelo Pedro?

***

Demorei um bom tempo para pregar o olho naquela madrugada, mesmo já estando no aconchego da minha casa, dentro da privacidade do meu quarto, sobre a minha grande cama macia e espaçosa.

Eu jurei para mim mesma que não interferiria mais no namoro do Pedro e da Natália. O que aconteceu horas atrás não é totalmente minha culpa. Só em parte. Eu nem sei por que de uma hora para outra ela resolveu tocar naquele nosso assunto e fazer perguntas estranhas. Depois avançou na minha direção, beijando-me deliciosamente em seu quarto.

Eu não deveria ter retribuído. Mas ela também não facilitou, ela não deveria ter resolvido me beijar sabendo que eu ainda nutro sentimentos fortes por ela e que estou tentando ao máximo não prejudicar nem a ela e nem a mim com isso. Só agora eu sinto peso enorme de nossas atitudes mal pensadas. Mas o mais estranho foi ela ter começado e também ter me pedido para parar. Afinal, o que a Natália queria com tudo isso?

O que eu sei é que ela me bagunçou. Deixou tudo confuso e transtornado dentro de mim. Ter nos beijando me fazia sentir suja, imunda, mentirosa, traidora. Mas também tinha o outro lado, uma parte do meu coração, que parecia preenchido, parecia completo e satisfeito.

Isso não pode voltar a acontecer, repito a mim mesma pela milésima vez desde que cheguei a casa. Eu não sei nem com que cara vou olhar para ela assim que nos vermos novamente. Mas será que se ela insistir de novo eu conseguirei parar ou negar? Não. Claro que não! Se ela der o primeiro passo, eu segurarei sua mão e a conduzirei, pois estarmos juntas foi tudo que eu sempre quis.

Pego o meu celular sobre o criado-mudo ao lado e começo a ver as fotos que eu e a Aline tiramos juntas recentemente na minha Galeria. O sorriso dela é lindo, ela é maravilhosa, inteligente e divertida. Além de boa companheira, boa de conversa, tem um beijo incrível e é super carinhosa e atenciosa. Não sei se é porque mal começamos a namorar, mas a verdade é que eu ainda não encontrei defeitos nela.

Também não sei como vou olhar para ela depois do que aconteceu entre mim e a Natália. Algo me diz que em momentos assim devemos ser sinceros com o outro. Mas e se me faltar coragem? Não importa, uma voz diz na minha cabeça. Eu tenho que ser verdadeira com ela desde o começo ou isso não vai funcionar, não iremos muito longe a base de mentiras.

Eu espero, do fundo do meu coração, que ela me perdoe, que ela me desculpe, que ela continue me aceitando e gostando de mim. Talvez tudo isso tenha sido culpa da bebida. Ou melhor, para ser bem sincera, talvez sim, talvez não. Em parte foi. Mas por outro lado, tanto eu quanto a Natália fomos culpadas. Mas será que ela contará o que aconteceu ao Pedro?

Eu não sei. Não sei de mais nada.

Ela prometeu guardar nosso segredinho e eu também disse que faria o mesmo, mas pensando melhor agora, a Aline merece saber disso. Quero aproveitar que estamos só começando e abrir meu coração sobre tudo que ela precisa saber. Quero ver se ela é tão boa mesmo quanto parece mesmo após saber da verdade.

Eu ainda quero ficar com ela. Quero que sejamos amigas, que sejamos namoradas. Quero ser melhor. Quero não errar tanto. Quero esquecer a Natália. Quero apagar todos os nossos momentos que sempre foram bem confusos. Quero começar de novo. Quero ser sincera. Porque não importa o quanto eu goste da Nati, eu nunca a terei inteiramente só para mim. Não quando a metade do coração dela estiver com o Pedro e a outra metade não souber o que pensar ou como agir diante de tudo isso.

Porque agora de uma coisa eu sei: ela sente alguma coisinha por mim, por mínima que seja, por mais confusa que seja. Ela sente. Ela está dividida. E não sabe lidar com isso ainda. Mas não serei eu a responsável para ajuda-la nisso. Não quando eu tenho meus próprios problemas para resolver e a minha própria bagunça para organizar e entender.

Eu não sei o que o futuro me reserva ou espera de mim. O que eu sei é que agora eu quero concertar em parte tudo que está ao meu alcance e viver, viver como se não houvesse amanhã e me permitir ser feliz sem precisar ficar puxando o tapete dos outros.

Notas finais
Qual é a opinião de vocês: Vocês acham que elas agiram mal por causa da bebida ou porque gostam de verdade uma da outra? E o coitado do Pedro e da Aline, como ficam nessa história toda? Bom, tem muita coisa ainda para acontecer e logo as coisas tomaram novos rumos.