Todos Iguais

68 Gabriela e Pedro.


Notas iniciais
Oi, oi gente. Esse capítulo eu escrevi ontem. E antes de escrever eu pensei: E agora, o que eu vou escrever? Aí foi rolando, até que saiu isso. Não sei, mas eu gostei bastante. Espero que gostem também.

Estou deitada aqui fora, no mesmo chão, sobre o mesmo gramado, no quintal dos fundos da minha casa. Olhando para o mesmo céu estrelado e sentindo aquele ventinho fresco de uma noite de verão.

Depois de tudo que passei nos últimos seis meses, não acho que eu ainda seja a mesma Gabriela. Apesar de que, em parte, eu ainda tenha um pouco daquela Gabi dentro de mim.

Ainda me visto igual, com as roupas rasgadas e pretas. Meu cabelo ainda é um descontrole total, como se não visse um pente há dias. E meus olhos ainda são marcados pelo lápis preto. Ainda gosto dos meus tipos de músicas. E meu quarto é aquela bagunça total.

Mas se tem uma coisa que eu posso afirmar com toda certeza que mudou na minha vida foram meus pensamentos. Por exemplo agora, eu não vejo necessidade nenhuma de estar fumando um cigarro e depois esconde-lo na moita para que meus pais não vejam. E sabe do melhor? Eu não sinto falta nenhuma disso e nem mesmo do álcool, ou das tantas festas, ou dos meus colegas que agiam quase da mesma forma que eu, ou pior.

Eu estou tranquila. Estou em paz.

E tenho gostado cada vez mais de ir ao meu psicólogo e conversar com ele por horas, como se fosse à coisa mais natural do mundo falar sobre as minhas evoluções com um cara que eu mal conheço. Não sei... Ele me faz querer falar cada vez mais, ele parece realmente se importar com a minha saúde, ele me desvenda mesmo que eu não esteja tendo um dia muito bom e não esteja falando muito e... Só sei que eu estou cada vez mais fascina pela profissão que ele tem. Ele não faz seu trabalho como se fosse só mais uma obrigação, ele faz por amor, porque gosta daquilo, porque aquilo ali o inspira... Ajudar as pessoas de alguma forma faz com que ele se sinta melhor.

E às vezes me pego pensando que ser como ele, ser como meu médico, é exatamente o que eu quero pra mim no futuro. Poder ajudar pessoas que algum dia se perderam, assim como eu, e tentar ajuda-las da melhor forma possível. Porque certamente, se não fosse pela minha família, pelos meus amigos ou pelos profissionais que estiveram presentes... Eu jamais teria me recuperado. Só que nem sempre as pessoas têm a mesma oportunidade do que eu, de ter pais prestativos, amigos companheiros e profissionais qualificados.

E sim, eu quero muito fazer parte disso. Poder entrar na vida de uma pessoa, assim, meio sem querer e transforma-la de alguma forma, mesmo quando ela achar que estar tudo perdido e acabado. Poder fazer a diferença e ser tão importante ou significativo quanto o meu psicólogo está fazendo por mim agora. Mesmo que no começo eu não tenha entendido e tenha detestado a ideia de me abrir com um estranho. O mais incrível é que ele reverteu essa situação de uma forma inesperada e veja só no que isso resultou: sinto que somos como amigos, amigos de verdade.

— Gabi, vem jantar! – meu pai grita da janela, interrompendo aquele meu momento de reflexão.

Entro sem relutar e me sento à mesa com ele e meu irmão.

Meu pai está esquisito ultimamente, com esse sorrisinho no rosto... Como se ele estivesse escondendo algo muito precioso da gente. Será que ele está com uma namoradinha nova? Nem posso imaginar! Meu pai é tão careta, tão devagar e tão sério na maior parte do tempo.

Já o Pedro, meu irmão, parece triste, apesar de tentar disfarçar muito bem. E sei que isso não tem nada a ver com a namorada, a Duda, já que eles estão numa fase boa. Como eu sei disso? Eu simplesmente sei. Ele está assim, com essa cara de bunda, porque ainda não consegue superar o fato do Rafa ter ido pra outro colégio e ter andando tão distante.

Por um lado eu entendo, eles eram inseparáveis. Como irmãos. Mas pensa só comigo... O Rafael fez o que fez por vontade própria, não foi? Seja lá quais foram as razões dele. E não é como se ele tivesse ido para o outro lado do mundo. Ele está logo ali, continua morando no mesmo lugar.

Tudo bem, que ele tem dado uma sumida. Só tem aparecido em eventos maiores: festinhas ou reuniões entre amigos. Mas poxa, o Pedro tem mais o que fazer. Ele agora tem uma namorada, que é muito grudenta por sinal. Tem o colégio, tem o cursinho e... Tem a mim!

E com certeza o Rafael também deve estar muito ocupado também, dando em cima das coleguinhas do seu novo colégio. Depois – pode apostar que sim – ele vem com a maior cara lavado do mundo, aparece aqui se sentindo muito culpado e me agarra na primeira oportunidade. Não é como se eu achasse ruim. Já me conformei quando a isso. Quanto a ele não querer nada além de uns amassos de vez em quando.

Mas eu também tenho andado muito ocupada com outras coisas.

Até conheci um garoto...

***

Eu não tinha muito que fazer aquela noite: já tinha feito meu dever de casa, a Duda estava na faculdade, o papai tinha saído e a Gabi – por incrível que pareça – está estudando em seu quarto.

Então eu pensei em porque não ligar para o Rafael e saber como anda as coisas. Já que não nos vemos ou nos falamos há duas semanas.

Peguei meu celular que ficou esquecido no sofá e disquei o número dele que há muito tempo era o mesmo e eu já sabia de cor.

— Fala aí, cara. – disse ele, dispensando as formalidades.

— O que você está fazendo? – pergunto, sem ter nada mais interessante pra dizer.

— Nada. Até você me interromper, eu estava assistindo a novela com a minha mãe. Que por sinal é hilária! – ele riu. — Por quê?

— Ah, nada. – dei de ombros, como se ele pudesse me ver. — Eu só estou meio... Parado. Completamente entediado.

Ficamos em silencio por pelo menos quinze segundos.

— Quer fazer alguma coisa? – ele pergunta e eu suspiro aliviado por ele ter tomado a iniciativa. Eu não quero bancar o chato nem nada. — Estou indo aí, pode ser?

— Claro. Claro! É só chegar. – e desliguei, largando o celular de volta no sofá. Mas sem antes conferir se não havia nenhuma mensagem da Maria Eduarda.

Nada.

— O que foi? – perguntou a Gabi, descendo as escadas. Já de pijama, com o cabelo preso em um coque mal feito. — Porque você está sorrindo assim feito um idiota?

Ignorei-a.

— Ah, já sei. Seu amante está vindo pra cá. – continua ela, provocando-me como de melhor ela sabe fazer. — Eu sei que você estava morrendo de saudade dele e...

— Posso saber o que vocês estão falando de mim? – o Rafa entra naquele momento, sem ao menos bater. O que é bem típico dele.

Gabi suspira e revira os olhos, depois ela continua seu trajeto até a cozinha.

— Cara, tu veio correndo? – pergunto, rindo. Não ia fazer nem um minuto que eu tinha ligado pra ele.

— Um pouco. – disse ele, também sorrindo. Jogou-se no sofá como se estivesse em casa. E estava. — Cadê teu pai?

— Deve te saído para um encontro com a nova namorada. – a Gabi responde, entrando na conversa. Ela senta-se na poltrona do papai, com um copo de leite gelado em uma das mãos.

— Seu pai? – ele olha pra ele, depois pra mim. Parecendo abismado com a ideia. — Em um encontro? Com uma namorada? Não acredito!

— Pode acreditar. – continuou a Gabi, dando um rápido gole em seu leite gelado. — Meu pai é o maior garanhão de todos os tempos.

— Ela está mentindo. – digo, sério. Sentando-me no sofá menor, que estava livre. — O papai não disse que tinha uma namorada...

— Claro que tem! – Gabi rebateu, toda cheia de certezas. — Porque? Você tá com ciúmes dele também?

— Também? – quis saber o Rafa, sorrindo torto. — Como assim... Também?

— Você não está sabendo? – Gabi continuou, sempre tão impertinente. — Ele está morrendo de ciúmes porque você mudou de colégio. Tadinho, ficou tão abalado. Chorando pelos cantos e tudo mais.

— Gabriela! – a repreendi, não acredito que ela podia ser capaz de dizer tanta asneira. — Porque você não volta pro seu quarto, hein?

Rafael caiu na risada. Ele adorava presenciar a gente brigando. Sempre foi assim, desde que éramos pequenos.

— Eu sempre soube que o Pedro morria de amores por mim, secretamente. – Rafael caiu na pilha, fazendo a Gabi rir.

— Af. Vocês dois são patéticos! – jogo uma almofada nele. — Realmente merecem ficar juntos.

No momento que eu disse aquilo, me arrependi. Porque eles não riram. Apenas ficaram sérios, sem olhar um pro outro.

Acho que peguei pesado.

Eu deveria saber que eles não estavam juntos, nem nada. E que isso nunca iria funcionar. Porque o Rafael não estava disposto e minha irmã ainda é jovem e tem muito que aprender e muita gente pra conhecer ainda...

— Vamos ver um filme? – levanto-me, mudando totalmente de assunto para acabar com aquele desconforto que eu mesmo causei. — O que vocês preferem: Capitão America – O soldado invernal ou Planeta dos Macacos – O confronto?

Gabi, segundo as palavras dela, preferia assistir ao Gostoso do Capitão América. Já o Rafa rebateu, dizendo que era filme de mulherzinha e que por nada no mundo ele queria ver aquele cara ridículo sem camiseta. Pra não dar confusão, não coloquei nenhum dos dois.

— Vamos assistir então Operação Big Hero. – concluí.

Gabi foi fazer a pipoca no micro-ondas, deixei o filme carregando no meu noteebok. Enquanto isso, Rafael começou a me contar as histórias sobre seu novo colégio e sua experiência em seu novo trabalho no mercadinho da esquina.

Quando ela voltou com dois baldes de pipoca com muita manteiga, apagamos as luzes, cada um se esparramou em um canto da sala e o filme se iniciou.

O papai chegou quando o filme já estava pela metade. Passou por nós sem dizer muito, apenas cumprimentou o Rafa.

Enquanto ele subia o Rafael, sempre bocudo, resolveu soltar essa:

— E como foi o encontro, Seu Marcos?

Meu pai não respondeu, mas deu um sorrisinho que o entregou.

Eu quase engasguei com a pipoca e a Gabi caiu na risada, assim que meu pai sumiu lá pra cima.

***

Comecei a fazer dois cursos: informática e inglês. Já estávamos na terceira semana. Eu fazia inglês as terças e quinta com duração de duas horas. E aos sábados de manhã informática, por três horas e meia.

Eu estava muito focada no meu futuro, por isso praticamente implorei ao papai e a mamãe que me inscrevessem nos cursos. Papai paga o de informática e a mamãe paga o de inglês. Por sorte, tem dado tudo certo.

Tudo que eu quero é aproveitar esse meu novo ano, fazer o máximo de cursos que eu puder. Já que ano que vem será meu ultimo ano no colégio e o tempo ficará mais apertado, com todo esse negócio de cursinho e vestibulares.

Eu vejo o sofrimento das minhas amigas que decidiram juntos – Bianca, meu irmão e a Nati – fazerem cursinhos nas terças, quartas e quintas, depois da aula e vejo como é sofrido para eles, tentarem conciliar tudo ao mesmo tempo.

Mas sei que os sacrifícios, no fim, valem muito a pena.

Como eu já tinha comentado antes, conheci um garoto, aos sábados, que é da mesma turma que eu de informática.

Ele é da minha idade e faz o maior sucesso entre as meninas. Não que ele provoque isso de propósito, como o Rafael, que tenta ser sedutor e cafajeste. O problema – ou não – é que o garoto já nasceu bonito, em todos os sentidos. Ele é branquinho, tem cachinhos dourados e tem olhos azuis bem clarinho. Sim, parece um anjo.

E pra piorar, eu fico toda boba perto dele. Ah, aliás, ele se chama Daniel. E eu só sei disso por causa da chamada, todo fim de aula. Porque eu nunca tive coragem de chegar nele e puxar assunto.

Não sei. Eu nunca agi assim antes perto de nenhum garoto e é isso que mais me intriga. Eu nunca fui do tipo tímida, acanhada, que fica sem fala ou sem saber pra onde olhar perto de um garoto. Quando eu fico afim de um, eu faço de tudo pra chamar atenção, me aproximo na maior cara de pau, puxo conversa e parto logo para o ataque na primeira oportunidade.

Mas quando eu estou perto do Daniel, tudo é diferente. Ele é tão bonito, tão inteligente, fofo, educado, tímido... Parece tão perfeito. Claro, não só pra mim. Pra metade das garotas da turma também.

Ele senta mais na frente e eu no fundão, meio isolada, mas falo com todo mundo – exceto com ele– só não fiz nenhuma amizade ainda. Já ele só cumprimenta o pessoal, dando o “Bom dia!” mais incrível do mundo, que realmente faz o meu dia ser melhor só pelo fato de ele ter vindo a aula. E depois disso, ele se senta no mesmo lugar de sempre e presta atenção na aula, sem dizer mais nada.

Assim como eu, as garotas ficam todas bobas e suspiram quando ele aparece. Elas cochicham entre si quando ele não está olhando e ficam sorrindo e acenando quando encontram com ele pelos corredores. Loucas para que ele note mais elas. Mas aposto que ele não está nem aí pra nenhuma delas, especialmente pra mim, que sou toda esquisitona.

Tenho quase certeza de que ele namora ou é gay.

Semana passada ele apareceu de aliança e meu sorriso logo murchou.

Fico imaginando quem é a sortuda – ou sortudo! — e porque eu estou agindo de maneira tão patética, com tantos outros garotos por aí.

Hoje ele faltou, pela primeira vez. E eu fiquei tão tristezinha que nem ser quer prestei atenção direito na aula. Depois, voltando pra casa, eu pensei: Qual é o seu problema, Gabriela? Você vai pra aprender mais ou pra ficar caçando garotos?

Eu realmente não sei qual é o meu problema. Mas é que faz tanto tempo que eu não beijo ninguém que não seja o Rafael, que só fica comigo quando quer e olhe lá. Sabe, eu sinto falta dessas coisas de vez em quando. Sem contar que a maioria dos meus amigos namoram – agora até mesmo o meu pai – e eu nunca tive uma pessoa assim, pra chamar de minha.

Eu estou muito carente. Socorro!

O resto da semana seguiu normalmente. Fui para o colégio, prestei mais atenção nas aulas, fiz minhas anotações e voltei pra casa. Minha nova atitude no colégio vinha surpreendendo os professores e os inspetores que viviam me levando para a diretoria. Mas eu não causava mais problemas pra ninguém, eu estava muito focada agora.

Em casa eu passava um tempo com a minha família. Com meu pai e a minha mãe sempre que ela vinha nos ver. O Pedro alguns dias sumia, ia dormir com a namorada. E eu ficava sozinha, assistindo televisão, no computador ou fazendo dever de casa.

Nos dias do curso de inglês eu ia tranquilamente, aprendia sempre cada vez mais. Mais tarde, alguém ia me buscar só pra eu não voltar sozinha tarde da noite. Em casa eu jantava, ouvia um pouco de música e ia dormir mais cedo.

Quando minha mente estava ocupada, eu nem ser quer tinha tempo de ficar pensando na minha paixão platônica pelo Daniel.

Mas no sábado as coisas mudaram.

Estava eu saindo do curso, achando que tinha sido uma manhã muito produtiva. Eu até tinha conversando um pouco mais com a garota que sentava sempre do meu lado e que tinha muito cara de roqueira.

Eu já estava quase chegando na calçada quando senti alguém tocar o meu braço. Virei-me pra trás com tudo e adivinha com quem dei de cara? Sim, o Daniel. Vocês acertaram.

Como se não fosse obvio, devido a minha excitação.

— Ei, Gabi, não é mesmo? – ele perguntou, com aqueles olhos azuis penetrantes nos meus.

Ele nem me chamou de Gabriela. Chamou-me de Gabi. Vocês tem noção do quanto isso me afetou naquele momento?

Apenas assenti, confusa e perdida demais para dizer algo.

— Será que você pode me emprestar suas anotações de semana passada? É que eu faltei. E notei que você nunca falta e está sempre anotando tudo que o professor diz. Então eu pensei que...

— Claro. Claro! Eu empresto sim. – revirei minha mochila toda, muito nervosa e peguei meu caderno, que estava ali, todo o tempo, bem na minha cara. Entreguei a ele.

— Obrigado. – disse ele, sorrindo lindamente. Eu nem conseguia olhar direito. Estava em pânico! Ai. Como. Eu. Sou. Ridícula.

Já ia me virando pra ir embora, quando ele me tocou de novo.

— Ei, você está com fome? – sim, eu estava. Eram onze e meia da manhã ainda. — Nós poderíamos comer alguma coisa, tipo, agora. Claro, se você estiver disponível e...

— Sim, pode ser. – respondo, notando que ele parece muito nervoso também.

Fomos caminhando em silencio até a padaria mais próxima, onde nos sentamos em um canto.

Uma mulher com os dentes da frente tortos se aproximou para anotar os pedidos. Eu pedi um suco e pão de frios. Ele pediu um café e um pão de queijo grande. Ela se afastou, depois de anotar tudo.

— Vocês não tem namorada? – acabei perguntando, sem pensar muito. Apenas saiu e eu fiquei muito embaraçada por ter sido tão ousada e ter perguntado isso logo de cara.

— Na verdade, eu tinha. Mas nós terminamos. É uma longa história. – explicou ele, muito educado por sinal. — Acho que posso te contar mais sobre isso em uma outra ocasião.

— Claro, eu adoraria. – sorrio sem jeito, ele sorri de volta.

A mulher voltou e depositou sobre a mesa tudo que pedimos, depois ela se foi, deixando-nos em paz novamente.

Antes de comer ou beber qualquer coisa, olhei para o Daniel por um rápido momento. Peguei-o olhando pra mim e sorrindo. Sorri de volta, animada com a ideia de que ele estava disposto a termos outro momento como aquele, onde ele poderia me falar mais sobre ele.

— Você tem olhos muito bonitos. – ele comentou, assim, do nada. Pegando-me desprevenida.

— Hm, ah, obrigada. – digo, sem conseguir olhar pra ele de volta. — Os seus também são muito bonitos.

Ouvi-o dar um risinho.

— Você parece muito nervosa. – disse ele, colocando a mão sobre a minha e fazendo meu corpo todo levar um choque. — Relaxa. Eu não mordo. Pode não parecer, mas eu sou muito legal.

Disso eu não duvido, eu pensei. Mas não disse em voz alta.

***

Mamãe nos convidou no domingo para almoçar no KFC no shopping.

A Gabi perguntou se poderia levar uma pessoa, mamãe disse que não teria problema. Achei que seria só nós três, mas pelo visto enganei. Por isso tive que recorrer a Duda para não me sentir sozinho. E sem problemas nenhum, ela aceitou ir conosco. Ela e minha mãe se davam muito bem.

Minha irmã acabou levando um amigo que ela conheceu no curso de informático. Um loirinho não muito alto, que aparentava ser muito mais novo do realmente era. Eu não sei bem qual era a deles, mas achei que eles se davam muito bem juntos. A Gabi também não falava em outra coisa, era Daniel pra cá, era Daniel pra lá.

Era evidente que ela estava apaixonada pelo tal garoto, ainda que eles não estivessem tendo nada. Não que eu soubesse. Estavam naquela fase boa, onde tudo é um mar de rosas. Quando eles se conhecem, descobrem mais um do outro, sorriem muito e ficam sem graça por besteiras.

Não sei bem porque, mas eu estava feliz por ela. Sei que eles só estão se conhecem, mas nada impede que eles se tornem mais que amigos em um futuro próximo. Parecia que enfim ela tinha desencanado do Rafael. Quando contei a ele sobre, ele pareceu chateado, mas aceitou bem a ideia de ela estar conhecendo outro garoto, que estivesse mais a altura dela.

Quando enfim encontramos uma mesa grande, bem no meio da praça de alimentação que estava lotada e barulhenta, nós nos sentamos e aguardamos o pedido que já tínhamos feito no balcão. Mamãe ficou conversando com a Duda, querendo saber como ela estava na faculdade.

Duda admitiu que no início foi difícil, um desafio. Mas que agora ela já tinha aprendido a lidar melhor com a coisa e estava gostando bastante, sabia que tinha entrando no curso certo.

Eu fiquei de lado, apenas ouvindo as duas conversarem e prestando atenção no movimento.

Entediados, Gabi arrastou o Daniel para o playground, onde normalmente as crianças passavam horas brincando. Os dois foram direto para o fliperama, onde pareceram ser divertir bastante.

Olhando assim, era visível que eles tinham uma sintonia. Quase que inocente. E se davam muito bem, além de combinavam em vários aspectos. Não exteriormente, mas por dentro. Sabe? Compatíveis, acho que era a palavra certa.

Quando o numero do nosso pedido apareceu no painel, eu fui lá buscar a bandeja. Um balde de frango enorme e refrigerante. Mamãe nem se incomodou em chamar a Gabi e o namoradinho para comerem, já que eles pareciam estar se divertindo pra valer.

Depois do almoço, fomos tomar sorvete. Foi quando apareceu um cara muito alto e forte. Mamãe nos apresentou como o cara com quem ela estava vivendo agora. Me surpreendi um pouco e fiquei enciumado pra caramba por ela não ter falando antes comigo a respeito.

Mas eu vi a forma com o cara, o Saulo, a tratou durante o resto do nosso passeio, até comprou flores pra ela e meu ciúme foi desaparecendo pouco a pouco e por fim, eu concluí que todo mundo, merecia uma segunda para amar de novo. Até mesmo os meus pais, que já tinha vivido muita coisa em todos esses anos de vida.

Saulo nos deixou em casa em seu carro. Daniel e Gabriela ficaram lá fora, na calçada, provavelmente decidindo se iam ou não se beijar de uma vez. Duda e eu entramos em casa, logo depois de nos despedimos de todo mundo. Encontramos o papai vendo as melhores rodadas do futebol.

Ele perguntou como havia sido nosso dia. Contei tudo, deixando de fora apenas a parte de que o namorado da mamãe tinha aparecido de repente para nos fazer uma surpresinha. Não sei se ele, apesar de também já está progredindo, estaria preparado para ouvir isso.

Esperei a Duda beber água e subimos para o meu quarto. Seria a primeira vez que ela dormiria ali, na minha casa, no meu quarto.

Ficamos conversando sobre assuntos aleatórios, deitados na minha cama e ouvindo música. Conversamos até mesmo sobre o meu futuro e as minhas vontades. Sim, eu estava fazendo cursinho. Mas já tinha me decidido o que faria caso passasse em uma faculdade publica: faria Direito.

Não sei por que cheguei a essa conclusão, mas sabia que já estava na hora de pensar mais sobre o futuro. Estávamos numa fase em que todos estávamos preocupados com o rumo de nossas vidas.

Quando eu parava pra pensar melhor nisso, mal podia acreditar que um tempo atrás estávamos todos em uma festa, mais uma entre muitas, bebendo e fumando muito, dançando, conversando, suando e gritando. Arrumando confusão, como o Rafael. Ou tendo que arrasta-lo para fora de uma festa, devido a uma briga que ele tinha arrumado.

Claro, não deixamos de ser jovens. Temos entre 16 a 19 anos. Mas se formos parar pra pensar onde estávamos há mais ou menos um ano atrás, nem por um momento imaginários que hoje, estaríamos aqui agora: eu com a Duda e não com a Nati, o Rafael com todas (ah não, isso não mudou), a Gabi chapada em uma festa, a Bianca com o Felipe e não com qualquer outro que ela poderia ter e a Luiza com a Natália.

Não tinha se passado tanto tempo, mas de alguma forma somos pessoas completamente diferentes de antes.

Ou nem tanto assim.

Afinal, somos tão jovens. E tem tanta coisa pra acontece ainda.

Ontem não imaginávamos que chegaríamos até aqui. E amanhã pode ser que nada seja como é agora.

Notas finais
Essa ultima frase do capítulo ficou meio... Estranha. Mas espero que entendam o sentido dela haha E aí, gostaram do penúltimo capítulo? Comentem.