Notas iniciais
Esse capítulo tem alguma revelações e alguns conflitos também. Eu estou começando a desenvolver alguns pontos importantes de determinados personagens.

Todo aquele barulho que o papai estava fazendo no quintal dos fundos estava começando a me irritar. Eu sentia como ele estivesse batendo com o martelo na minha cabeça. Era uma dor pontiaguda e intensa. Papai resolveu tirar o dia de folga para mexer nos canos da lavanderia. Eu estava de férias e tudo que eu queria era ficar dormindo tranquilamente no meu quarto escuro como eu estava fazendo todos esses dias.

Eu precisava daquele tempo longe tudo. Aquele momento só meu, onde eu podia deitar a cabeça no travesseiro, fechar os olhos e esquecer-me de absolutamente tudo. Eu precisava descansar o meu corpo, a minha alma e a minha mente. Eu queria ficar sozinha, apenas saboreando aquele momento de sossego. Aquelas férias estavam me fazendo muito bem, pelo menos até agora.

Na maior parte do meu tempo a casa ficava silenciosa e calma. Eu aqui no meu quarto, dormindo ou escutando musica. Meu irmão lá em baixo, jogado no sofá assistindo tevê ou jogando videogame. Eu não tinha notícias da mamãe há tempos, mas eu sabia que o Pedro ainda mantinha contato com ela. Eu ainda não me sentia reparada para isso. O papai voltou ao seu normal, após a sacudida que o meu irmão deu nele e voltou ao trabalho.

Hoje ele está de folga, o que é algo muito raro, e ao invés dele sair por aí para se divertir com os amigos – se é que ele tem amigos – ou procurar por uma nova mulher – eu sei que isso vai acontecer uma hora ou outra – ou simplesmente tirar o dia para descansar, porque eu imagino que essa vida de adulto seja exaustivamente cansativa... Mas... Não. Ele tirou o dia para me fazer perder a paciência, batucando lá em baixo.

A única janela do meu quarto era voltada para os fundos da minha casa, então todo o barulho entrava no cômodo, mesmo com tudo fechado e abafado, era como se ele estivesse batendo no cômodo ao lado.

A cada batida de seu martelo, meu corpo estremecia. Eu bem que tentei contornar essa situação. Virando-me de um lado para o outro e tentando manter a mente trancada. Mas não funcionou. Nada funcionava. Eu tentei também colocar meus fones de ouvido e aumentar as minhas musicas no ultimo volume, mas aquilo só faria minha cabeça doer ainda mais. Eu sufoquei minha cabeça com o travesseiro e tentei inutilmente tampar os ouvidos com a mão.

Eu estava prestes a me levantar, mesmo estando só com uma calcinha grande e um top, abrir a janela e gritar para que o meu pai parasse, pelo amor de Deus, como todo aquele barulho infernal, pois eu só queria dormir. Era medir demais mesmo sendo duas da tarde? Não, não era.

Mas antes que eu me levantasse... Ele parou.

Aquilo pareceu um milagre.

Será que ele me ouviu mesmo lá de baixo?

E olha que eu nem cheguei a dizer que...

— Gabriela! – meu pai gritou ferozmente, escancarando a porta e fazendo-a bater com tudo na parede de trás. Ele ficou doido?

Primeiro que a entrada dele ou de qualquer outro adulto é proibida aqui. Eu achei que todos tivesse consciência disso. Segundo que, porque ele tá gritando feito um maluco se eu to morrendo de dor de cabeça?

— Será que você pode me explicar o que é isso?

Ele balançava no ar um saquinho transparente cheio de... Drogas. Puta que pariu! As drogas que eu escondi no jardim dos fundos.

É, pelo visto ele as encontrou.

— Pai, eu posso explicar. – eu disse, sentando-me no mesmo instante e tentando cobrir parte do meu corpo seminu com o lençol.

— Eu acho bom mesmo. – ele disse, parecendo muito bravo. Bravo de um jeito que ele nunca esteve antes comigo. — Mas primeiro... Que fedor é esse, minha filha? – ele fez uma careta, passando os olhos por meu quarto como se procurasse carniça. — Porque está tudo trancado e bagunçado desse jeito? Isso aqui tá parecendo um lixão, Gabriela.

Pelo jeito era a primeira vez que ele via o meu quarto e eu não o culpava por isso. Por motivos óbvios, claro.

— Agora me explica isso – ele continuou ali, parado perto da porta olhando-me com uma expressão assustadora e uma postura severa.

— Pai, olha... – eu comecei, ainda sem conseguir raciocinar direito. Eu estava faminta e nem havia me dado conta disso. Meu corpo parecia em decomposição, mais esquelético do que o normal e eu estava fedendo e com mal hálito. Como foi que não percebi isso antes? E morrendo de dores por todo o corpo se um caminhão tivesse passado por cima de mim.

— Pelo amor de Deus, Gabriela! – ele interveio, perdendo totalmente paciência comigo. — Primeiro eu quero que você tome um banho, escove esses dentes, coma alguma coisa, troque de roupa, penteei esse cabelo e dê um jeito nesse quarto. Agora! – essa ultima parte ele gritou.

Bufei de frustração e ainda assim tive que reunir forças para me levantar da cama ou ele não sairia dali tão cedo. Calcei os chinelos e me arrastei como uma múmia dos filmes até o banheiro. Meu irmão apareceu no corredor com a maior cara lavada do mundo.

— O que aconteceu aqui? – ele quis saber, se aproximando e me ajudando a entrar no banheiro, como se eu tivesse acabado de fazer uma operação e não tivesse em condições de fazer nada sozinha.

Eu nem precisei explicar nada a ele, já que o meu pai fez o favor de fazer isso por mim com o maior tom de durão do século. Ele jogou uma toalha na minha direção, a qual caiu no chão, porque eu nem tive tempo de parar para pegar no ar, já que me sentia praticamente morta.

Meu pai estava com a macaca hoje.

Tomei um banho demorado e quentinho. Depois que saí do banheiro me sentindo um pouco melhor passei por meu pai, que estava supervisionando de perto tudo que eu fazia e trancei-me em meu quarto para trocar de roupa. Pelo menos pra isso eu ainda tinha privacidade.

Vesti algo mais leve e amarrei o cabelo em um alto rabo de cavalo só para não ter que pentear a bucha que era o meu cabelo.

— E ai, já terminou? – meu pai entrou sem nem bater na porta. Eu podia estar pelada, mas quem se importava? Pelo visto muitas coisas mudariam aqui dentro de casa, agora que a mamãe tinha ido embora. Teria sido uma boa ideia expulsá-la daqui? Meu pai não costumava ser assim, pelo menos não comigo. — Filha, você ainda não arrumou esse quarto?

Eu quis chorar. Eu não tinha muitas saídas. Ou eu daria um jeito naquele lixão ou eu daria... Um jeito naquele lixão. Porque meu pai fez questão de ficar parado ali na porta, feito um segurança brutamontes daqueles que a gente encontra por aí parados feito uma estatua com aquela cara de mal, supervisionando cada passo meu.

O problema é que eu nunca tinha arrumado o meu quarto.

— Pai, você não acha que tá pegando pesado demais? – ouvi meu irmão perguntar quando voltou a surgir feito um anjo que desce do céu para iluminar a minha vida. — Ela está um... Lixo.

Quase rosnei pra ele. Não precisava ter pegado tão pesado assim, não é? Por um momento acho que eles esqueceram-se que eu ainda estava ali e escutava tudo que eles conversavam sobre mim.

Pedro me passou uma vassoura, sacos de lixos, flanelas e alvejantes para me ajudar na limpeza. Mas o papai não deixou ele mover um dedo para me ajudar na arrumação. Por volta das seis da tarde eu terminei.

Ou achava que sim.

— Ai pai, por favor. – choraminguei em sua direção, como eu fazia nos velhos tempos quando queria algo. — Já não tá bom assim?

Minha organização não estava lá grande coisa, como a mamãe estava acostumada a fazer por toda a casa. de repente senti uma falta enorme dela, mas pelo menos eu tinha recolhido o lixo do chão, dobrados as minhas roupas e socado no guarda-roupa, tinha arrumado a cama, varrido o chão, limpado a janela, catei todos os objetos que estava espalhados por aí e coloquei devidamente tudo em seu lugar. Por fim acabei encontrando em meio a toda aquela tralha coisas que eu achei ter perdido há anos.

— Boa não está. Mas... Parece melhor. – disse ele, um pouco mais calmo agora e menos chato também. — Agora vamos descer para você comer alguma coisa e depois teremos aquela conversa.

O Pedro preparou um lanche da tarde pra gente, que eu devorei em questão de segundos. Mas aí me odiei por isso, pois deveria ter sido mais inteligente e ter ido com calma, já que logo depois eu seria obrigada a conversar com o meu pai sobre aquilo. Eu só queria fugir dali.

Papai se sentou em sua poltrona. Pedro sentou-se do canto do sofá, praticamente ao meu lado e eu fiquei mais ou menos no meio. Olhei para os dois intrigada. Eles não tinham expressões muito boas, o que me fez deduzir que eles já tinham conversados seriamente sem mim.

— Então Gabriela, desembucha. – pediu meu pai, voltando a ser aquele chato insuportável outra vez. Será que eu deveria ficar com medo?

— Pai – comecei novamente, tentando me lembrar qual era a minha tática de antes para convencê-lo do contrario sempre que eu queria me safar de algo. Ah, lembrei. Eu só precisava dar um sorrisinho mínimo e olhar com ele com lágrimas nos olhos e... Pronto. — aquilo não era meu.

Tentei fazer aquela carinha de cãozinho abandonado, mas então meu pai riu e eu murchei no mesmo instante, surpresa com ele.

Acho que dessa vez não funcionou.

— Você só pode estar brincando com a minha cara, Gabriela. – ele então parou de rir e passou a me fuzilar com os olhos raivosos. — Se não era seu, então de quem era e o que fazia escondido no nosso quintal?

— Ah pai – abaixei a cabeça, completamente envergonhada com essa situação. Eu só queria a mamãe aqui ou que o Pedro intervise para me defender. Eu queria estar longe dali, eu queria me safar dessa ou simplesmente ficar no meu quarto e fingir que nada disso era real. — sei lá. Deve ser de um nóinha qualquer que se infiltrou no nosso quintal e escondeu isso lá.

— Para de mentir para mim, Gabriela! – meu pai gritou tão mais alto do que eu achei ser capaz. Olhei para ele com os olhos arregalados. Ele parecia prestes a voar no meu pescoço.

Nesse momento ele estava de é pé vermelho de raiva e com os olhos repletos de lágrimas. Engoli em seco, amedrontada e envergonhada.

— Filha, eu pensei que depois daquele episodio no qual você foi parar no hospital você nunca mais fosse se envolver com essas coisas. Você prometeu, Gabriela. E eu inocentemente acreditei em você.

Não me aguentei e comecei a chorar.

O que é que eu tinha feito com a minha vida?

Eu estava sem qualquer controle sobre mim mesma. Eu me sentia morta, cansada, topada, deprimida e doente na maior parte do tempo. E ainda assim não tinha coragem de pedir a ajuda de ninguém. Porque no fundo eu tentava me convencer de que aquilo era só uma fase difícil, logo tudo iria mudar e voltar ao normal. Eu conseguiria muito bem parar quando eu quisesse e seguir com a minha vida como se nada tivesse acontecido.

Mas eu me enganei. Cai nessa armadilha. E agora estou presa nesse labirinto sem fim. Aqui onde é tudo muito escuro, úmido e sufocante. A minha cabeça está tomada de vozes acusadoras. Eu vejo e sinto coisas que não existem. Eu não consigo mais processar direito. Fico agindo sem pensar nas consequências. Na esperança de que as drogas me ajudem a esquecer parte do meu sofrimento. Mas do contrário, elas só pioram tudo.

Levantei-me do sofá e subi correndo para o meu quarto, onde me tranquei. Onde eu sempre poderia me trancar quando as coisas ficassem difíceis para o meu lado. Ouvi meu pai gritar aos prantos, pedindo par eu voltar, pois não tinha terminado ou ele me colocaria de castigo pelo resto da vida. Mas eu não me importei. Enquanto isso o Pedro tentava acalma-lo, pedindo que ele fosse paciente e compreensível comigo.

Mas eu sabia que não merecia nada disso. Eu deveria ser punida por ser tão fraca e estúpida. Eu queria ser punida, porque assim talvez a minha vida desse uma sacudida e voltasse a tomar consciência das coisas.

No outro dia acordei bem cedo, às oito e meia da manhã. Tomei um banho morno bem rápido e vesti outra coisa. Eu não sei como, mas a noite de noite meio que me revigorou. Eu pensei muito antes de adormecer e me convenci de que eu era melhor do aquilo, eu era mais forte, mais estável. Ou pelo menos costumava ser. Eu não queria ser motivo de desgosto para o meu pai que eu tanto amava e não queria ser mais um problema para o meu irmão cuidar já que ele tinha os próprios problemas para lidar.

Há três dias eu estava limpa. Não tinha usado nenhum tipo de drogas e talvez tenha sido por essa razão que me deprimi tanto, já que eu havia me tornado dependente daquilo. Isso aconteceu porque devido à dividas que eu acumulei desde que me envolvi nesse meio. Augusto e nenhum dos seus conhecidos queriam mais me vender nada, até que eu tomasse vergonha na cara e pagasse as minhas dividas, que era muitas por sinal.

Mas como eu poderia pagá-los se eu não tinha um custão?

Peguei a jarra de suco na geladeira e enchi meu copo com o liquido amarelado. Virei tudo em um só gole. Depois olhei em volta, tentando pensar no que eu poderia fazer para me livrar daquela vida. Eu estava farta de tudo e ia dar um jeito nisso agora mesmo.

Na sala de estar eu vi um vaso muito bonito que pertencia a minha mãe. Ela provavelmente deve ter se esquecido dele. Sei que ela o herdou da avó, que era tão querida para ela e faleceu há dois anos. Aparentemente ele deveria valer uma fortuna já que era quase como uma herança de família.

Mesmo não sendo podres de rico como a família da Bianca, nós tínhamos em casa algumas coisas bem valiosas. Como os objetos eletrônicos de ultima geração: a tevê, o videogame do meu irmão, os celulares. Esse tipo de coisa que hoje em dia quase todo mundo tem e que são razoavelmente caros. Mas eu não poderia simplesmente pegar a tevê da sala e sair com ela de casa sem que ninguém percebesse. Mas aquele vaso antigo caberia perfeitamente na minha mochila e ninguém sentiria a sua falta.

Ele era perfeito para o meu plano. E seria com ele que eu iria pagar todas as minhas dividas e me ver longe daquela vida miserável.

Augusto que não entendia nada dessas coisas ficou admirado com o vaso, que particularmente era horrível e de péssimo mal gosto. Para minha sorte ele o aceitou como moeda de troca para na certa vendê-lo depois que eu fosse embora por aí e minhas dividas foram todas eliminadas.

— Fique aí. Eu não demoro. – ele pediu, levando o vaso para bem longe de mim. — Eu tenho uma coisa pra você.

O meu plano era apenas pagar as minhas dividas e nunca mais voltar ali para seguir com a minha vida de antes, mas o Augusto pareceu não entender isso, voltando com um novo saquinho cheio de pílulas.

— Isso é um presentinho meu para você. – disse ele com um largo sorriso e o cabelo alaranjado iluminado pelo sol da manhã.

— Isso são mais drogas? – eu perguntei, meio incerta. — Oh, não. Eu não quero mais nada disso. Eu quero ficar limpa, Augusto.

— Não seja boba. – ele riu, divertido. — Isso são sim drogas, mas são menos pesadas que as outras. São medicamentos, fique com eles. Eles vão fazer você se sentir melhor.

Ele já tinha dito exatamente aquilo diversas vezes, mas naquela ocasião em especial – mesmo lutando comigo mesma internamente – eu acabei acreditando no brilho diferencial de seus olhos verdes.

Remédios são bons para as pessoas, não são? Eles não poderiam me fazer mal e sim pelo contrário. Eles poderiam me ajudar a me manter mais calma e menos ansiosa com a abstinência.

Sendo assim, acabei aceitando o presentinho.

Eu não sabia ao certo o que estava acontecendo comigo naquela manhã, mas de alguma forma eu me sentia renovada, pronta para recomeçar. O dia estava lindo, o céu azul e as nuvens se espalhando para dar espaço ao sol. Os pássaros cantavam e as pessoas sorriam nas calçadas. Tudo parecia diferente e melhor, da mesma forma que eu me sentia naquele momento, certa de que finalmente havia conseguido me livrar do pior.

Resolvi passar em uma lanchonete, onde com algumas moedas eu comprei um refrigerante. Lembrei-me dos comprimidos que estavam no bolso da minha calça jeans rasgada e decidi experimenta-los ou eu nunca saberia se eles dariam resultado.

Eram onze da manhã. E eu era uma vitoriosa. Meu pai e meu irmão já não tinham mais que se preocupar comigo. E eu só queria apagar aqueles últimos meses da minha vida e ir à diante como se nada nunca tivesse acontecido. Retomar de onde parei. Ir a festas, estar com os amigos, beber cerveja e fumar meu cigarrinho sem extrapolar e divertir as pessoas queridas. Pensando em tais coisas, o sorriso cretino do Rafael me veio à mente. Eu me perguntei se ele estaria acordado nesse momento.

Eu ia até a casa dele. Era isso. Eu iria abrir meu coração para ele. Eu ia finalmente dizer que gostava dele de verdade e não só como amigos ou colegas. Diria que queria estar com ele, que tinha feito muitas coisas para ele se dar conta de que eu estava ali, por ele. Cada provocação, demonstração de ciúmes, brincadeira e atitudes mal pensadas. Eu diria que adorava o seu sorriso e era completamente louca por seu corpo. Diria que ele foi o único capaz de romper as barreiras do meu coração e que eu faria de tudo para ficarmos juntos. Diria que fomos feito um para o outro, porque somos loucos e insanos e por isso nos completávamos de uma forma única e especial.

Por muito tempo eu tentei me enganar, dizendo que isso não era nada, apenas ódio por ele estar sempre roubando o meu irmão de mim. Por muito tempo eu tentei evitar para não me machucar ou para não me passar por ridícula de um jeito torto que o amor faz com as pessoas. Mas só agora me convenci de que eu estava preparada para ceder, eu estava pronta para arriscar e ir mais além. Eu queria o Rafael como todo o meu coração e queria que ele pudesse me querer também.

Não precisávamos começar a namorar sério. Na verdade, eu queria ir com calma e descobrir a graça que todos acham naquilo de poder, mesmo que por um instante, pertencer a alguém. Eu queria que ele me conhecesse de um jeito que ninguém mais conhecesse, eu queria que ele fosse o único capaz de me desvendar ou me compreender quando todo o resto do mundo parecer contra mim. Eu queria que soubéssemos coisas intimas um do outro, coisas que ninguém nunca seria capaz de descobrir. E que compartilhássemos segredos através de um simples olhar.

Tudo que eu queria era ele. E eu queria que ele se desse conta disso nesse momento. Porque eu estou pronta para isso. Estou pronta para jogar-me em seus braços e beijar sua boca até o amanhecer. Eu quero passar a noite com ele jogada em sua cama, sentindo seu peito subir e descer enquanto ele dorme. Poder admirar seu rosto e sentir o seu perfume.

Queria sentir tudo àquilo que eu nunca me permitir sentir por ninguém. Eu quero me entregar a ele e quero que ele me receba de braços abertos, dizendo que não via a hora daquele momento acontecer. Eu quero que ele me beije intensamente e diga que me ama e que nunca irá me deixar, nem mesmo nos momentos de dificuldade. Quero fazer planos para o futuro, mesmo que a maioria deles não aconteça. E quero dar risada de tudo isso, quando tivermos muito mais do que um dia sonhamos.

Como eu fui praticamente correndo, cheguei em questão de segundos a casa do Rafael. Mas parei pelo caminho antes mesmo de me aproximar completamente, escondendo-me atrás de um poste de luz para observar aquela cena. Para minha total infelicidade e decepção, o Rafael estava naquele momento abraçado a Maria Eduarda. Havia um carro de luxo parado em frente à casa dele, onde rapidamente reconheci um dos motorista da Bianca, o tal Marcel. Eles se beijaram rapidamente, trocando sorrisos e entraram no carro, sumindo em questão de segundos.

Para onde eles iriam afinal?

Enquanto voltava para casa de cabeça baixa, eu me dei conta de que estava chorando feito uma garotinha estúpida que acabou de ter o coração partido e os sonhos destruídos por um imbecil. Como eu puder me esquecer desse grande detalhe? O Rafael ainda estava com a Caipira. Não havia espaço para mim ali. Ele não gosta de mim. Não desse jeito.

Em casa pensei que encontraria o Pedro ainda dormindo, exatamente como o deixei antes de sair. Mas ele normalmente não acorda tão tarde quanto a maioria. Ele estava tomando café e assistindo desenho animado feito um garotinho de cinco anos.

— Gabi, você estava na rua?

— Pois é. Mas cheguei. Então relaxa.

— E onde você foi?

— Por aí, Pedro. Não interessa.

Pelo jeito que ele me olhou eu logo deduzi seus pensamentos.

— E não, eu não fui me envolver com mais drogas. – revisei os olhos e subi para o quarto antes que ele começasse com um sermão igual o do papai.

Atirei-me sobre a cama, frustrada. Ainda sem acreditar que por um momento eu tenha sido tão ingênua. Meus pensamentos foram interrompidos com algo me incomodando no bolso da calça. E não era só o meu celular, eram também os comprimidos. Resolvi engolir mais um, talvez ele me ajudasse a dormir agora mesmo, nesse instante.

Esperei por um tempo. Mas não ajudou.

Estiquei-me e peguei mais dois comprimidos dentro da gaveta do criado-mudo ao lado da minha cama. E antes que eu pudesse joga-los na boca o Pedro entrou em meu quarto, pegando-me no flagra.

— Não começa! – gritei. — Me deixa em paz. Eu estou bem!

— Bem? – ele riu. — Eu duvido muito.

Pela raiva em seus olhos verdes eu pensei que ele iria tomar tudo de mim, jogar no vaso sanitário e dar descarga enquanto ria da minha cara infeliz. Mas não foi bem o que ele fez. Pedro suspirou fundo antes de se aproximar e deitou-se ao meu lado, fitando o teto com um ar de pensativo.

— Me deixa te ajudar, ta? Porque você não conversa comigo?

Não o respondi de imediato, voltando meus olhos para o teto também e suspirando forte.

Eu estava tão cansada de tudo.

— Pedro, eu não quero conversar. Eu estou farta. Eu só quero dormir, será que eu posso?

Ele virou a cabeça para poder me olhar de lado.

— Não, não pode.

Suspirei profundamente outra vez.

— Será que você não entende? – explodi, sentando-me e passando os dedos pelo emaranhado de cabelos escuros. — Sabe de quem é a culpa de tudo isso? – era uma pergunta retórica. Ele não precisava me responder, por isso continuou mudo, me olhando com indiferença. Esperando o meu surto acabar. — Tudo isso é culpa do seu amiguinho estúpido. Ele estragou tudo, Pedro. Ele sempre fode tudo! – e então eu comecei a chorar de novo e me odiei por isso.

O Pedro também se sentou, preocupado comigo e passou a mão cuidadosamente em minhas costas.

— E eu burra do jeito que sou não consigo odia-lo por muito tempo. Ele não percebe que eu gosto dele. E gosto pra valer! De um jeito que nunca gostei de outro, mesmo ele não sendo nem um pouco perfeito. Nós somos tão parecidos... Eu só pensei que pudéssemos ficar juntos. Mas ele continua lá, se enganando com aquela Caipira oxigenada.

Eu estava chorando não só pela tristeza que me consumia naquele exato momento, como também chorava de raiva.

Cara, eu acabei de me confessar para o meu irmão.

Que doideira!

— Eu não sabia que você gostava dele tanto assim...

Com um gesto e um olhar assassino pedi para ele não continuar.

— Só esquece o que eu acabei de dizer. Eu não estou em meu juízo normal. Você entende, não entende? – ele assentiu. — Ótimo. – enxuguei as lágrimas agora controláveis com o dorso do braço. — Agora cai fora daqui.

Notas finais
A Gabi enfim resolveu se abrir com o irmão quanto aos seus sentimentos pelo Rafael. Quem aí shippa esses dois como um casal? Ou vocês têm uma opinião diferente? Quero comentários!