Todos Iguais

17 Felipe e Rafael


Notas iniciais
Foi bem difícil escrever esse capítulo. Porque até eu fiquei com o coração apertado. Mas acabou dando certo e eu consegui expressar tudo que queria. Acho que vocês vão gostar.

O Pedro me ligou desesperado, como se algo o afligisse muito. Quase pude duvidar de que ele estava chorando do outro lado. Mas ele não disse nada, não por telefone. Ele ligou porque queria pedir para que todos nós nos encontrássemos com ele em sua casa. E foi assim, que todos nós, reunidos na sala de sua casa, ficamos sabendo do sumiço da Gabriela.

Ao saber da notícia fiquei em estado de choque. Todos nós tivemos a chance de ler o bilhete que ela deixou e tirar suas próprias conclusões. Estava me sentindo muito angustiado, surpreso e até mesmo triste. Não esperava que ela pudesse ir tão longe. Talvez ela tivesse chegado ao seu limite, como ela mesmo tentou dizer através da carta. Mas por exatamente?

Eu bem que notei que ela estava muito diferente nos últimos dias, muito mais fria e distante. Nem se quer olhava pra gente. E quando olhava com aquele par de olhos incríveis ora verdes ora azuis parecia que ela queria nos comer vivos, amaldiçoando-nos por estarmos sendo rudes com ela pela brincadeirinha que ela fez com a Bianca. Eu não achava certo estar sendo tão duro com ela, mas no fundo algo me dizia que ela precisava disso para poder repensar melhor sobre suas atitudes.

Todos nós achamos que dar um gelo nela seria a melhor das punições, mas pelo visto para ela foi demais. E agora eu lamento por ter agido tão injustamente com ela. Afastando-me quando ela mais precisou de alguém ao seu lado. Nesse momento, com o silencio e a preocupação, acho que todos nós nos arrependemos de alguma forma. No fundo ela é bem mais frágil que todos nós e já deveríamos ter previsto isso.

Não saber onde ela estava e com quem estava fazia a minha mente se encher de pensamentos negativos. Eu, mais que qualquer outra pessoa, queria saber ao certo onde encontra-la. Queria estar com ela, protegê-la e acalma-la em meu abraço, dizendo que ficaria tudo bem desde que estivéssemos juntos. Mas eu não fazia ideia de onde encontra-la.

Nenhum de nós sabia. E isso é perturbador. Como se fossemos incapaz de saber as particularidades e segredos de nossa própria amiga. Por um momento me coloquei no lugar do Pedro, o irmão, e percebi que ele estava sofrendo até mais do que eu. Pois todos nós sabemos o duro que ele dá para tentar se próximo da Gabi, mas ela sempre o afasta. Ela sempre afasta todo mundo quando vê que estão chegando perto demais. Uma forma de se proteger, de se defender, de se sentir segura consigo mesma.

Quase como ela se não precisasse de ninguém. Mas ela precisa. Eu sei que precisa. Até mais do que qualquer outra pessoa. E como se eu pudesse sentir essa fragilidade dela, eu me apaixonei instantaneamente.

— Vamos mudar essas carinhas, pessoal. Afinal, ela está bem e não morta. Pensem positivo. Ela só quer um tempo. Quem nunca quis? – era a Luiza interrompendo o silencio entre nós, fazendo com que todos olhassem para ela. — Ou talvez ela esteja só querendo chamar a atenção. Vocês conhecem a Gabi. Ela é forte, ela sabe se virar sozinha. Eu duvido muito que ela esteja correndo perigo. Então, vamos manter a calma.

Eu sei que a Luiza só queria ajudar, mas acabou deixando o Pedro ainda mais aflito. Eu logo percebi isso pela expressão amedrontada que ele possuía, com os olhos verdes cheios de lágrimas que ele tinha vergonha de expor. Percebendo o mesmo que eu a Bianca deu uma cutucada na amiga, olhando para ela com uma cara feia, como se quisesse repreende-la.

— Já sei. – a Bianca levantou-se com graciosidade, como quem toma a frente de um grupo de combate se preparando para a guerra. — Chega desse silencio perturbador! Vamos montar um plano. Quem aí pode dar um palpite de onde ela esteja? Vamos anotar todos os palpites e depois ir atrás dela. Que tal? Podemos nos dividir, será bem mais fácil.

Eu sorri para ela quando nossos olhos se encontraram, orgulhoso por ela ter tido – pela primeira vez em meses – uma ideia brilhante. Ela sorriu de volta, meio constrangida. Um sorriso genuíno. E eu passei a gostar ainda mais dela naquele momento, pois ela mais que qualquer outro ali tinha todos os motivos do mundo para odiar a Gabi. Mas também ela foi a primeira a sugerir um plano, preocupada, assim como o resto de nós, com o sumiço da sua arquirrival.

Pelo visto eu desmereci muita a capacidade da Bianca, só agora – após a nossa repentina aproximação – eu sei que ela tem um coração grande, um coração bom, capaz de perdoar e dar uma segunda chance a aquelas pessoas que mais desmerecem.

Meu conceito sobre ela tem mudado muito ultimamente.

***

Estávamos traçando o plano da Bianca quando o pai e a mãe do Pedro entraram em casa e todos nós tivemos a mesma reação de espanto. Não era muito comum que todos nós reuníssemos daquela forma, ainda mais na casa do Pedro, com aquelas caras de quem estão aprontando algo. Não demorou muito para os dois perceberam que tinha alguma coisa ali. A mãe do Pedro, a Célia, foi a primeira a querer saber o que estava acontecendo. O Pedro, meu amigão, não teve outra escolha a não ser contar a verdade.

Não preciso nem dizer que ela além de surpresa, começou a chorar ao ler do bilhete que a Gabriela deixou para o irmão. O pai do Pedro, o Marcos, também quase caiu duro no chão, tamanha preocupação. Com o desespero, sem saber ao certo o que fazer, os dois foram direto ligar para a polícia. Mas todos nós sabemos que só é dado como sumiço depois de vinte quatro horas que a pessoa não dá sinal de vida. E só então eles podem fazer algo, o que é um absurdo. Mas por outro lado é compreensível. Vai que tudo não passa de um mal entendido.

Naquele caso, eu sei que não. A Gabriela é mesmo capaz de tudo.

— Acho melhor a gente ir embora. – a Natália sussurrou, olhando para nós quatro. — Esse momento é da família. Se ficarmos aqui no meio dessa confusão só vai piorar ainda mais a situação.

— Mas também não podemos ficar parados! – protestou a Bianca, que estava me surpreendo muito àquela noite. O que deu nela? Era quase como se a Gabi fosse uma de suas melhores amigas. O que não era verdade.

— A Nati tem razão. – foi à vez de o Felipe dizer algo. — Podemos continuar com o plano em outro lugar. Mas não aqui, não agora.

Eu não queria ter que deixar o Pedro em um momento como aquele, afinal, eu e ele sempre estivemos um do lado do outro quando mais precisamos. Não parecia certo ir embora e deixa-lo para trás, tendo que lidar sozinho com o desespero dos pais pelo sumiço da Gabriela.

— Vocês podem ir. Eu vou ficar. Qualquer coisa vocês ligam pra mim.

Bianca, Luiza, Natália e Felipe se levantaram para irem embora.

Permaneci calado na sala de estar, ouvindo os pais do Pedro o encherem de perguntas lá da cozinha. Eles queriam saber tudo que ele sabia sobre o sumiço da Gabriela para poderem explicar a polícia depois.

Qualquer informação para eles era útil como uma pista.

Eu estava me sentindo muito mal por tudo. Como se eu fosse o culpado pelo sumiço da Gabriela. Até porque ela tinha me procurando inúmeras vezes durante os últimos dias, como quem quer desabafar ou um ombro amigo, ou até mesmo um abraço acolhedor. E todas às vezes eu a desprezei, me afastando. Eu não dei ouvido a ela quando ela mais precisou de mim e agora ela desapareceu. Se eu tivesse lhe dado ouvidos poderia ter evitado o pior ou poderia estar atrás dela nesse exato momento.

Já era muito tarde, se passava das duas da manhã quando o Pedro foi liberado pelos pais e pediu para eu subir com ele para o seu quarto para que pudéssemos ter mais privacidade. Eu posso ser muitas coisas, menos insensível. Ver meu melhor amigo naquele estado fazia meu coração se apertar dentro do peito. Ele estava péssimo, como se estivesse muito cansado, como se não dormissem há dias ou como se estivesse prestes a desabar em lágrimas a qualquer momento.

Ele sempre amou a irmã, mesmo ela sendo um pé no saco com ele.

— Pedro, a culpa é toda minha. – passei a mão pelos cabelos ao me sentar em sua cama, quase sendo capaz de arrancar cada fio com os dedos. — Me desculpa amigo. Mas a culpa é minha! Eu sou um inútil. Um imprestável!

— O quê? – ele se aproximou, sentando-se também. — Rafael, eu não estou entendendo. Do que diabos você está falando?

Em meio às lágrimas que eu não pude mais segurar de ódio de mim mesmo, comecei a explicar a ele o meu lado da história: das vezes em que a Gabriela me procurou e eu fui cruel com ela só para castiga-la.

O Pedro me olhava indiferente a tudo que eu dizia, o que me fez sentir ainda mais como um monte de lixo. Eu queria poder ajudar. Só Deus sabia o quanto. Mas eu estraguei tudo, como eu sempre faço. E agora ela estava desaparecida por minha culpa e sabe-se lá onde ou com quem.

***

Eu mal consegui dormir aquela noite pensando na Gabi e ainda assim acordei às sete horas para me arrumar para o colégio.

Como já era de se esperar nenhum de nós tínhamos condições alguma de enfrentar aquela maratona de aulas naquela sexta-feira nublada. Não quando uma de nós estava desaparecida. Nenhuma aula era mais importante do que saber o paradeiro desconhecido da Gabriela.

Sem cabeça para prestar atenção na explicação da professora de Inglês, fiquei conferindo as horas de cinco em cinco minutos no visor do celular, louco para sair dali de uma vez por todas. Onde também tinha um foto da Gabriela como papel de parede.

E então, como uma luz no final do túnel, ouvimos a voz do diretor González ecoar pelas caixas de som coladas no alto das paredes de todas as salas daquele colégio. Ele usava aquela ferramenta quando queria dar algum recado ou chamar algum aluno à direção. Era pratico e rápido. Ele nem precisava tirar o traseiro da sua poltrona de couro em sua sala confortável.

— Pedro Noronha do segundo ano. Por favor, compareça a direção imediatamente. – ele repetiu essa mesma frase três vezes.

Todos na sala se entreolharam, mas infelizmente ou felizmente o Pedro não fazia parte da nossa turma naquela aula.

Levantei-me e fui até a professora, que estava agora anotando algo no quadro-negro para turma compiar no caderno. Ela sorriu para mim e bem baixinho eu pedi a ela que, por favor, me deixasse ir ao banheiro.

Ela deixou.

Acho que eu não fui o único a ter aquela ideia após o pedido do diretor pelos alto-falantes. Já que encontrei o resto da turma indo rumo à direção, no térreo. Onde colheríamos mais informações através do Pedro sobre o sumiço da Gabriela. Será que tinham a encontrado? Eu torcia para que sim.

Ficamos esperando por ele na recepção por longos minutos, todos muito tensos e calados. O Pedro estava falando com o diretor naquele momento, mas quando ele enfim saiu de sua sala foi em nossa direção um tanto cabisbaixo, o que deu a entender que nada de novo havia acontecido e que estávamos na mesma: quase sem opção para ajudar.

— E então, o que ele disse? – O Rafael foi o primeiro a perguntar o que todos nós queríamos saber. — Ele tem informações sobre ela?

— Na verdade, não. – Pedro respondeu, sem olhar para nenhum de nós em particular. — Ele só queria mostrar suas condolências diante do caso, já que meus pais fizeram o favor de ligar e contar tudo. E disse também que fariam tudo que fosse possível e necessário para ajudar na procura.

A Natália o abraçou, como que para reconforta-lo. E nós entendemos o recado, deixando os dois sozinhos, mais á vontade.

— É melhor voltarmos para a aula. – sugere a Luiza, fazendo uma careta até que engraçada. — Nem que quiséssemos, não há nada que poderíamos fazer nesse momento.

Ao contrário dos outros eu não voltei para aula, estava abalado demais para isso. Não tinha cabimento algum fingir estar bem, quando por dentro eu estava desmoronando de preocupação. E me dirigi até o jardim do colégio, onde me sentei em um dos inúmeros bancos vazios.

O céu estava recoberto de nuvens acinzentadas e carregadas, o ar estava gelado e a qualquer momento poderia chover.

A Gabriela bem que podia ligar, só para dizer que estava tudo bem.

Não sei por quanto tempo fiquei ali, mas ouvi quando o sinal tocou indicando que aquela aula, no caso a minha era de Inglês, havia terminado. Mas não movi nenhum centímetro do meu corpo para ir para a próxima aula, até podendo levar uma advertência ou ser flagrado por algum inspetor enxerido matando aula. Nada disso me importava.

— Aqui está você. – ouvi quando alguém se aproximou e ainda por cima sentou-se ao meu lado. — Te procurei por todos os lugares.

Olhei para o lado, dado de cara com os olhos verdes claro da Bianca.

— Você me parece muito mal, às vezes tenho a impressão de que você está até mais preocupado do que a própria família da Gabi. – ela soltou um risinho e eu continuei imóvel. Olhando em outra direção que não fosse para aquele lindo par de olhos verdes invejáveis. — Pelo visto a Gabriela é muito significativa para você.

— Até mais do que você pode imaginar. – eu me ouvi dizendo, sem nem pensar nas minhas palavras. Arrependi-me no mesmo instante.

Senti que a minha revelação teve um impacto inesperado na Bianca, ela remexeu-se no banco evidentemente desconfortável.

— Você gosta dela... Não é? – olhei para ela, bem confuso. Era impressão minha o seu tom de voz tinha alguns resquícios de magoa? — Claro! Eu já deveria ter percebido. Você gosta dela! Digo, pra valer.

Não tive saídas. Não tinha como desmentir algo assim.

— Sim, é verdade. Eu gosto dela. Gosto mesmo. – desviei o olhar constrangido por estar admitindo aquilo pela primeira vez em voz alta, ainda mais para a Bianca a quem eu costumava desprezar por ser tão fútil. — Muito mais do que um dia gostei de qualquer outra pessoa. E não saber onde ela estar, como estar, com quem estar... Está me matando.

— Eu não entendo. Não entendo! – acho que eu estava imaginando coisas. Porque a Bianca não poderia estar brava por eu gostar de outra, não é mesmo? Isso não tem cabimento! — Porque dela? Porque ela?

Voltei a olhar para ela, a sobrancelha arqueada em sinal de confusão.

— Como assim? Eu que não entendi. – perguntei, sem esperar por uma resposta imediata. — Porque ela? Ué, porque ela é diferente. Ela é ousada, atrevida, corajosa, é fugaz. Tudo que nenhuma outra é. – revirei os olhos, após soltar um riso. — Eu sei que isso parece intrigante. Até porque ela foi bem cruel com você e com muita gente por aí. Eu não sei... No fundo eu sei que ela é boa, ela é sensível, amorosa, carinhosa. Ela é especial!

Bianca soltou uma risada alta, um tanto sem humor. Continuei olhando para ela, sem entender o porquê do sarcasmo.

— Eu não estou acreditando nisso. – ela levantou-se, passando a mão pelo rosto como sinal de frustração. — De repente não me parece uma má ideia ela desaparecer. Tipo, para sempre.

Dito isso ela saiu praticamente correndo, sumindo de vista.

Afinal, qual é a dessas mulheres? Elas são o quê... Malucas?

***

Agradeci aos céus quando o sinal tocou enfim às quatro da tarde daquela sexta-feira. Nem esperei pelos outros e sai praticamente às pressas, atravessando os portões do colégio. Livre para ir atrás de respostas. Mas infelizmente estava garoando, o que não me impediu em nada em digitar uma rápida mensagem de texto para o Pedro.

“Eu estou indo atrás dela agora. Eu prometo que irei encontra-la.”

Eu já não dou ouvidos as aulas, naquela manhã em especial eu não dei ouvidos a mais ninguém. Como se eu tivesse desligado um botão em mim mesmo. Facilitando assim meus pensamentos falarem mais alto, processando rapidamente em busca de alguma pista que me levasse até a Gabriela. Eu devia isso a ela depois da forma como eu a tratei tão mal. Eu devia isso ao meu melhor amigo.

Tive muito tempo para pensar e bem lá no fundo da minha mente eu busquei algumas cenas, de alguns dias atrás, bem suspeitas que eu presenciei com meus próprios olhos. Não faz muito tempo em que percebi que a Gabriela estava tendo certa proximidade do Augusto Vieira e de sua gangue. O gordinho ruivo que se mete com drogas da turma dela, do primeiro ano.

Não preciso nem dizer que nunca fui com a cara desse garoto. Não só porque ele se envolve com coisas da pesada. Mas também porque ele abusa, sempre tentando influenciar pessoas mais inocentes a comprarem suas drogas. O que pra mim é muito errado, já que ele vai a busca dos mais fracos e otários – pra ser sincero. O garoto não tem nem dezesseis anos e já se acha o cara dos esquemas. Sempre quis dar uns murros na cara gorda dele.

Quando eu vi a Gabi pela primeira vez com o grupinho dele, fiquei bem intrigado. Ela pode ser tudo, menos burra. Eu sei que ela é mais esperta do que a maioria das garotas da idade e não iria se envolver com esse tipo de coisas ilícitas. Então, nem dei muita importância.

Depois a presenciei cada vez mais próxima deles e cada vez mais envolvida. O que me deixou ainda mais com curioso com aquela repentina aproximação. Na certa ela só queria me provocar – ou nos provocar – porque sabia e sempre soube que não nos metemos com gente assim. Por estar com muita raiva dela, nada eu fiz para evitar o pior.

Então ela resolveu sumir por uns tempos e tudo que deixou foi um bilhetinho para o Pedro. Então eu pensei... Pensei... Pensei até que meus neurônios estivessem prestes a explodir e liguei os pontos. Não sei porque precisei de tanto tempo para chegar a tal conclusão: claro que o sumiço dela só poderia ter algo a ver com o tal Augusto e seus comparsas do crime. Afinal, ninguém age sozinho. Não com coisa erradas.

Esse tipo de pessoa a gente sabe bem onde encontrar. E lá fui eu, em busca do principal suspeito. Peguei um ônibus e coloquei o capuz do meu moletom azul-marinho sobre a cabeça para me proteger do frio.

Eu já fui vilão muitas vezes, mas agora era a minha vez de ser o herói.

Era o mínimo que eu poderia fazer.

Desci no bairro Jardim Ângela com a minha mochila, um dos mais decadentes do estado de São Paulo. De longe avistei o conjunto habitacional onde eu sabia que o Augusto morava com seus irmãos mais velhos, provavelmente também gente que se envolve com coisa errada. Mas eu não tenho medo dessas coisas. Eu aprendi muito com a vida nesses meus dezessete anos. E pouca coisa realmente me assusta.

Perguntei a alguns moradores onde eu poderia encontra-lo naquele prédio humilde. Todos por ali pareciam conhecê-lo. Subi a escadaria até o ultimo andar e bati na porta de numero 53. Não demorou muito para um homem alto de cabelos e barba ruiva – sem camiseta naquela noite fria — abrir a porta com uma carranca.

— O Augusto está aí? – fui logo perguntando, sem rodeios.

Eu também fiz a minha melhor pose de mau.

— E você é quem? – ele rebateu, arqueando a sobrancelha ruiva.

— Um amigo. Você pode chama-lo pra mim? Por favor.

— Um amigo? – ele estava ignorando todas as minhas palavras, com o peito estufado como um galo de briga. O que nada me abalou. Eu praticamente era apenas três centímetros menores que ele. — Como você se chama? Ele teria avisado caso fôssemos receber visitas.

Dei uma boa olhada através daquele homem nada intimidador para dentro do apartamento. Vi que era escuro, uma completa bagunça e que lá de dentro vinha um forte odor de tabaco. Não demorei muito para voltar a olhar para o tal homem bem na minha frente e suspirei forte, impaciente.

— Ele tá aqui ou não?

Ele estreitou os olhos na minha direção.

— Não. Ele não tá.

Não sei se acreditava ou não naquela afirmação.

— Olha, é o seguinte: eu estou atrás de uma garota, que provavelmente o seu irmãozinho raptou ou algo do tipo. Eu não quero confusões, se é que me entende. Eu só quero a garota. Mas caso vocês estejam a fim de encrencas, já vou logo avisando que eu não tenho problema alguma em suar por alguns segundos para conseguir o que quero. Desde que eu tenha a minha garota de volta. É só isso. Então, cadê ele?

O homem parece confuso com tudo que acabo de dizer.

— Entra aí, cara. Vamos conversar melhor.

Entrei, mesmo receoso. Sentei-me no canto de um sofá imundo, olhei em volta rapidamente e vi que o lugar era realmente bem um horror. Como se nunca fosse limpo. Havia uma caixa de pizza aberta sobre a mesinha de centro. O tal homem me ofereceu, mas eu rejeitei. Eu até estava faminto, mas aquilo parecia estragado. Ele sentou-se bem na minha frente, em uma poltrona meio rasgada nas laterais.

Pelo visto o dinheiro que eles conseguem com a venda de drogas só serve mesmo para comprar o que comer, pensei. Ou nem isso.

— Você me pegou de surpresa agora. Eu não estou sabendo dessa história aí não... Uma garota? Uma garota raptada? Explica-me isso melhor.

E lá fui eu, muito pacientemente, explicar a minha situação. A cada palavra proferida de minha boca, o tal homem, que acabei descobrindo se chamar Jorge, parecia cada vez mais espantado.

— Olha, acho que posso te ajudar nessa. – ele levantou, enfim se cobrindo com uma camiseta velha. Sobre uma mesinha no canto ele pegou um miolo de chaves. — Vamos lá. Vamos ver o que o Augusto aprontou dessa vez. Eu juro que ainda vou acabar com a raça daquele garoto.

De repente comecei a gostar do tal sujeito.

Andar de moto naquele frio e ainda com aquela garoa e sem capacete me deixou ainda mais com frio. Jorge dirigia rápido, quase como se estivesse fugindo da policia. Subimos e descemos por varias ruas desconhecidas, atravessando alguns bairros e vielas. Onde afinal ele estava me levando?

Será que fui tolo de mais em aceitar a sua ajuda?

Chegamos a um galpão pequeno e um tanto caído. Fui logo atrás dele, já que o cara é mais familiarizado com o lugar. Entrando lá quase não pude ver nada por conta do escuro, mas pude ouvir algumas vozes bem distantes.

— Augusto, você tá ai? – o Jorge chamou. Ninguém respondeu.

Continuamos adentrando o lugar.

Em um determinado ponto aonde a luz de alguns postes vindo da rua iluminavam o lugar eu vi uma pilha de caixas amontoadas em um canto. Logo deduzi que ali era um posto de drogas ou algo assim. Continuei indo bem atrás do Jorge até o final do galpão, onde havia uma salinha.

Dali já não ouvíamos mais nenhuma voz, como se as pessoas tivessem sentido nossa presença e resolvido se calar. Ele abriu a porta, entrou primeiro e eu continuei mais atrás. Pelo menos ali tinha uma luz fraca vindo do teto. Fiquei paralisado com o que vi. Meu coração querendo saltar pela boca.

E lá estava a Gabriela, encolhida em um canto, entre uma mesa de escritório e a parede fria. Ela parecia desacordada. Corri até ela, ajoelhando-me em sua frente, com as mãos em suas pernas. Ela a chamei, eu a chacoalhei e ela nem se quer abriu os olhos ou a boca.

Meu Deus, ela estava fedendo muito. Que cheiro pobre era aquele?

— Jorge, é você? – me virei para trás ao ouvir aquela voz. Era o desgraçado do Augusto. Primeiro ele olhou para o irmão e depois para mim, um tanto surpreso com a nossa aparição. — Ai, merda! Essa não.

Então ele desapareceu de vista.

— Augusto, volta aqui seu moleque! – Jorge gritou, nervoso. Indo logo atrás dele, saindo da tal salinha. — Eu juro que vou te matar! O que você fez com essa garota? Você ficou maluco!

Voltei-me para a Gabriela novamente. Dessa vez passando meus braços por baixo de seu corpo para pegá-la no colo. Pelo menos ela ainda respirava. Mas certamente havia se drogado com algo muito pesado.

Levantei-me com ela já nos meus braços, parecendo muito frágil e desprotegia. Meus olhos estava cheios de lágrimas, apesar de o meu corpo todo ferver de raiva. Se ela não estivesse tão mal, eu juro que iria atrás do Augusto e eu mesma acabaria com ele com as minhas próprias mãos.

Que moleque sem noção.

Como ele pode deixa-la chegar a esse ponto?

Saí com a Gabriela dali, deparando-me com uma chuva forte do lado de fora.

Era só o que me faltava.

— Ela está bem? – Jorge aproximou-se correndo, todo ensopado e tentando recuperar o fôlego. Provavelmente após uma interminável corrida atrás do irmão caçula. — Diz pra mim que ela está bem!

— Na verdade, eu não sei. – olhei para ele, desesperado. Não sabia como iria sair dali e o que faria com aquela garota desacordada em meus braços. — Acho que ela precisa ir para um hospital.

— Não se preocupe, cara. – ele tirou o aparelho celular do bolso do jeans escuro muito desajeitadamente. — Eu vou chamar um táxi.

Eu abri a boca para dizer que não tinha dinheiro suficiente para isso, mas como quem lê meus pensamentos o Jorge não deixou eu terminar de falar.

— Eu disse que ia ajudar, não disse? Deixa que eu pago a corrida de táxi. Vamos leva-la ao hospital. – agradeci mentalmente por no final das contas ter encontrado um alguém de bom coração, diferentemente do irmão drogadinho. — E não se preocupe, deixa o Augusto por minha conta. Aquele garoto vai receber o que merece. Não se preocupe!

— Tudo bem. Tudo bem! – eu tentei sorrir, torcendo para que o Jorge matasse logo o irmão. Que na verdade seria pouco provável. Mas pelo menos ele iria fazer algo a respeito. Isso não poderia ficar assim. — Mas acho que antes de qualquer coisa eu devo ligar para família dela e para os meus amigos. Eles vão querer saber que ela foi encontrada.

Notas finais
Ufa, deu tudo certo no final das contas. Ou será que não? haha Comentem!