Todos Iguais
66 Felipe
Notas iniciais

Sabe quando você tem tudo para estar aproveitando ao máximo um momento bom com sua nova família, a sua namorada linda e perfeita e seus amigos, mas a sua mente flutua por um momento para muito, muito longe?
Então... Aconteceu isso comigo agora.
Estávamos tendo mais uma tarde nesse finalzinho de férias especialmente boa. Assim tantas outras. Lídia e os outros empregados da família Vasconcelos fizeram um almoço excepcionalmente delicioso para o e exército que estava ali presente: Bianca, seus pais, Maria Eduarda, Pedro, Rafael, Gabriela, Luiza, Natália e eu.
Era um daqueles momentos especiais em que a gente esquece todos os problemas e as diferenças, deixa tudo o que é menos importante de lado, só pra curtir ao máximo a presença de pessoas tão especiais.
O apartamento que costumavam ser imenso e vazio alguns meses atrás, quando os pais da Bianca costumavam se ausentar na maior parte do tempo, agora tinham uma atmosfera completamente diferente com todos nós reunidos. Tudo mais alegre, animado e divertido.
Antes e durante o almoço estavam todos conversando ao mesmo tempo sobre assuntos diversos. Dando risada, falando alto e debochando um do outro. E foi durante uma dessas tantas conversas aleatórias que eu me calei por um momento, olhei em volta e me dei conta do quanto eu sentiria falta daquilo quando eu tivesse que partir para outro país.
A Bianca, apesar de ser uma boa anfitriã, estava todo o tempo ao meu lado. Com seus dedos entrelaçados aos meus. Algumas vezes ela se virara para o lado, para conversar com as meninas sobre coisas de meninas. Mas Logo depois ela se voltava para mim e dava aquele sorrisinho que poderia significar muitas coisas. Mas principalmente que ela ainda estava do meu lado e jamais sairia, independente das circunstancia.
E sim. Eu acreditava muito nisso.
E eu estava muito, muito feliz por estarmos todos tendo aquela fase boa, de nos darmos bem, até que uma nova crise surgisse novamente e tivéssemos que dar um jeito de concertar as coisas. Como sempre fazíamos.
Por exemplo, a Luiza enfim tinha voltado a se dar bem com a Natália. Eu até preferia que fosse assim. Elas combinavam uma com a outra. Elas se pertenciam e nada poderia mudar isso. Nem mesmo um mal entendido bobo, desses que costumam acontecer entre os casais.
A Bianca também não falava em outra coisa. Ela estava mais contente por elas do que eu, claro. Porque enfim ela voltou a ter suas duas boas e velhas amigas para ir ao salão de beleza ou ao shopping fazer compras e a fofocar.
E não preciso nem dizer que esse Grupinho da Luluzinha só aumentou, agora com a integração da Maria Eduarda a quem todos decidiram dar uma segunda chance. E olha que ela estava fazendo muito por merecer, se mostrando uma pessoa completamente melhor.
Pedro e Rafael também não estavam mais olhando torto um para o outro. Vai ver que enfim eles se deram conta de que não vale a pena perder uma amizade tão duradoura e significativa por uma briguinha atoa por causa de uma garota. Seja lá quem fosse. Namoro é namoro. Amizade é amizade. São coisas totalmente diferentes e ao mesmo tempo tão iguais.
Sim, sei que isso soou meio estranho. Mas você deve ter entendido o que eu quis dizer se já passou por isso de brigar com um amigo ou amiga por causa do novo namorada ou namorado. E descobriu que realmente não vale a pena. Pelo menos não na maioria das vezes.
Pelo pouco que eu estou sabendo e observando, o Rafael e Gabi não estão juntos. Pelo menos não oficialmente. Apesar de ser explicito química entre eles rolar mesmo quando eles estão apenas se olhando e trocando sorrisinhos bobos.
O problema é que o Rafa nunca muda. Nem mesmo pelo amor. Ou ainda não chegou o momento certo pra ele. Já a Gabi ela evoluiu muito em um pequeno espaço de tempo. Continua sendo a mesma de sempre por fora, mas totalmente diferente por dentro. Sem duvidas alguma, eu prefiro muito mais ela assim. Parece menos ameaçadora e menos inconsequente. Mais responsável e mais presente.
Quando o almoço terminou, eu ainda estava meio aéreo. Deleitando-me com a carinha de expectativa de todos quando Lídia anunciou que a sobremesa seria mousse de chocolate. O pessoal comeu tudo tão rápido, que a coitada da Lídia teve que servir mais mousse pra todo mundo até ele acabar.
E olha que a Bianca comeu três vezes! Se ela pensa que ninguém reparou isso, eu sim, reparei. E fiquei muito orgulhoso, apesar de muito surpreso e assustado. Orgulhoso por ela não se preocupar mais com quantas calorias tem um pratinho de sobremesa. E assustado por ela ter comido três vezes. Mas até do que eu. Que comi uma única vez.
Sim, é verdade. As consultas com a psicóloga estavam fazendo muito bem a ela. E como eu sabia disso? Porque depois ela não arrumava uma desculpinha qualquer para se retirar da mesa e ir vomitar no banheiro mais próximo ao sentir a consciência pesada por ter comido demais.
E não era só por medo ou receio de alguém perceber não. Eu confiava nela de olhos fechados. E sabia que ela agia da mesma forma mesmo quando estava sozinha em casa e acabava comendo mais do que o de costume. Vencendo suas próprias expectativas.
Às cinco e meia da tarde foram todos embora. E eu fiquei com a Bianca e seus pais, na sala de estar, conversando um pouco. Foi quando eles me perguntaram se eu já estava preparado para mudança radical que eu teria naquele novo ano que eu me lembrei de uma coisa muito importante.
— Putz! – bati com a mão na testa. — Eu quase me esqueci que ainda não me inscrevi para a faculdade. E essa é a ultima semana!
— Relaxa, amor. – Bianca colocou a mão na minha perna antes de se levantar do sofá. — Meus pais e eu vamos te ajudar com isso.
Eu sabia que para ela ainda era muito difícil falar ou pensar sobre aquilo. Porque pra mim também era. Um novo ano mal tinha começado e tudo estava andando tão depressa! Isso me assustava muito.
Segundos depois Bianca voltou com seu notebook em mãos e voltou a se sentar ao meu lado.
E de fato, a presença de seus pais naquele momento foi fundamental para eu conseguir me inscrever na universidade. Eles sempre foram muito prestativos e atenciosos comigo. Como se fossem meus próprios pais.
Algumas coisas, como por exemplo, a documentação, algumas normas e leis que eu teria que aceitar e me adaptar quando me mudasse para o exterior... Eles me explicaram e me disseram a melhor forma de portar diante delas.
Naquele momento eu também percebi que o meu inglês estava muito enferrujado. Nem se comparava ao bom pronunciamento que eles tinham. Os pais da Bianca leram tudo no site da universidade sem precisar de um dicionário nem por um momento. Muito ao contrário de mim.
Mas também eu tinha terminado meu curso de inglês há quase três anos atrás. Eu era novo e imaturo.
— Eu tenho uma dica pra você. – sugeriu o pai da Bianca, olhando para mim de forma acalentadora. — Se inscreve em um desses cursinhos online e logo você vai conseguir voltar a falar inglês fluentemente.
E sim, era o que eu faria em breve. Até porque não daria pra ir morar em outro país falando inglês mal ou sem conseguir entender direito as palavras na hora da escrita ou da leitura.
Ah, e por sorte eu tinha salvo em meu e-mail a carta de recomendação que a professora de História lá do colégio tinha escrito pra mim.
Mais tarde, com o céu já escuro, Bianca e eu entramos em seu quarto. Ela deixou o computador de lado, sobre sua mesinha e eu fechei a porta de seu quarto, sem me importar se seus pais achariam ruim ou não de ficarmos ali sozinhos de porta trancada. Porque eu sabia que eles não achavam ruim, até porque nunca disseram nada. E mesmo que dissessem, eu entenderia numa boa e não o faria mais.
Quando me virei para ela, percebi que a Bianca estava com uma carinha muito triste, já sentada na ponta de sua cama com os olhos baixos. E eu sabia exatamente por que. A minha função era reverter aquilo, mesmo estando no fundo muito triste também. Mas eu precisava ser forte por nós dois.
Então me aproximei devagar. Sentei-me ao seu lado e passei meu braço sobre seus ombros. Beijei sua bochecha, fazendo ela virar-se pra mim com um meio sorriso. Que pra mim já era um grande começo.
— Eu sei que estou sendo boba. – disse ela a mim, olhando-me com carinho e tristeza. — Mas...
— Não precisa se desculpar por isso. – digo, sorrindo um pouco. — Você sabe que eu te entendo.
Ela assentiu e suspirou.
— Por acaso, você já falou com seus pais a respeito da viajem? Você sabe que eles deveriam ser os primeiros a saber, não sabe? Afinal, eles ainda são seus pais e você ainda é menor de idade.
— Eu sei, eu sei. – é minha vez de baixar o olhar por um momento. — E não. Eu não falei com eles ainda. Não sei se estou preparado...
— Se você quiser, eu posso te ajudar nisso. – ela interrompeu. E eu voltei a olhar para ela, agradecido.
— Não, você não têm que fazer tudo por mim. Eu agradeço. Mas acho que isso é por minha conta
— Tudo bem. – ela virou-se totalmente de frente pra mim, girando o corpo e me pegou de surpresa, ao me abraçar. — Então faça isso logo. Ou você vai se encrencar bastante
Passamos mais algumas horinhas juntos, tentando nos distrair com qualquer coisa: conversas, risadas, televisão, música, livros, sites, revistas, abraços e beijos. Mas nada me tirava da cabeça o que ela tinha dito.
Então naquela mesma noite, quando eu decidi voltar mais cedo pra casa, foi que eu resolvi enfrentar aquela situação. Aproveitando que meus pais já tinham chegado do trabalho aquela noite e agora estavam jantando.
— Você não vai jantar? – perguntou a minha mãe, quando eu entrei na cozinha para beber um pouco de água. Porque estava muito tenso.
Geralmente ela nunca se importava se eu ia ou não jantar. Aquilo me surpreendeu muito. Minha mãe fazia mais do tipo que não via o filho invisível voltar pra casa depois de ter passado o dia todo fora.
— Você que sabe. – ela deu de ombros, após eu não ter respondido de imediato a sua pergunta. — A comida está nas panelas. E vai esfriar.
E lá estava a mãe fria que não se importa muito com o filho que ela culpava pela morte do outro filho novamente.
Peguei um prato e me aproximei do fogão.
Sim, eu estava disposto a jantar aquela noite.
E com eles, na mesa.
Quando me sentei, tentando não fazer muito barulho para não irrita-los percebi que pelo canto do olho a minha mãe me olhava desconfiada, com uma das sobrancelhas levemente arqueada.
Mamãe não era feia nem nada. Tinha os cabelos curtos, ondulados e castanhos claros. Os olhos esverdeados. A pele com algumas rugas. E ela aparentava ser muito mais velha do que realmente era. Mas isso só aconteceu depois da morte do meu irmão. Porque se eu me lembro bem, ela costumava ser bem vaidosa antes dele morrer.
— Já sei – ela voltou a dizer, me fazendo olhar para ela. Ainda mais tenso do que antes. Quase arrependido de ter aceitado me juntar a eles. Meu pai, do outro lado da mesa continuava calado, quase sem expressão.
Também aparentando ser muito mais velho do que realmente era. Ele sempre foi assim, serio e calado. Bancava o durão, mas no fundo eu sabia que ele sofria com a morte do meu irmão tanto quanto a minha mãe. Ou ainda mais. O problema é que minha mãe sempre gostou muito de falar pelos cotovelos. Ele não. Sempre foi mais reservado.
Bianca uma vez me disse que eu me parecia muito com meu pai. Pelo menos assim, na fisionomia. Eu achava que não. Já que os cabelos claros deles estavam cada vez mais ralos e os olhos caramelos com profundas olheiras.
— Você quer dinheiro, não quer? – perguntou a minha mãe, com um tom debochado.
Eu não disse muito, apenas balancei negativamente a cabeça e voltei a comer, tentando manter a calma.
Depois que todos terminaram, eu tirei a mesa e coloquei tudo para lavar na pia.
Papai se dirigiu a sala de estar, para ver o noticiário e minha mãe foi até a lavanderia, na certa para recolher as roupas que ela estava disposta a passar aquela noite.
Quando ela voltou pra sala e arrumou tudo, eu resolvi me arriscar.
— Pai, mãe, eu preciso ter uma conversa muito séria com vocês.
Minha mãe riu, totalmente fria.
— Vindo de você, não deve ser uma coisa muito boa. – mesmo assim ela sentou-se no mesmo sofá que meu pai, de frente pra mim, que preferi ficar em pé. Caso as coisas apertassem, eu poderia correr.
— Eu vou estudar fora. Ganhei uma bolsa para ir estudar e morar nos Estados Unidos. Não se preocupem, é tudo gratuito. Vocês não vão precisar me dar nenhum centavo. Vou me mudar no final do ano.
Os olhos do meu pai praticamente saltaram. E o queixo da minha mãe quase foi ao chão. Eles pareciam muito, mais muito surpresos com a notícia. O que já era de se esperar.
— Você só pode estar brincando, Felipe. – mamãe novamente riu, ajeitando a postura e me olhando com o cenho franzido. — Você não seria capaz de ganhar uma bolsa para estudar fora. Seu irmão sim, teria sido capaz. Mas... você?
Ela me olhava com incredulidade.
Eu engoli em seco, tentando manter minhas mãos nervosas rente ao corpo.
— Pois é. Mas eu consegui. E fiz isso especialmente por ele. Porque sei que onde quer que ele esteja, ele estará muito orgulhoso de mim. Diferentemente de vocês.
Então meu pai se levantou. Ficou em pé por um momento, apenas olhando pra mim sem uma expressão definida. Depois ele caminhou devagar em minha direção, parecendo velho e cansado. Por um momento, achei que ele fosse me bater. Porque? Eu não sei.
Mas tudo que ele fez foi pousar a mão em um dos meus ombros e abrir um pequeno sorriso enquanto me olhava nos olhos. Um único sorriso em anos.
— Parabéns, filho. Eu também estou orgulhoso de você.
— Não! – gritou minha mãe, quase me fazendo dar um pulo de susto. Ela também pulou do sofá e ficou em pé. Vermelha. Acho que de raiva. — Isso não é verdade. Você não vai embora, Felipe!
Meu pai abriu a boca para dizer algo. Pela primeira vez para dizer algo contra a minha mãe. Talvez porque ela estivesse passando um pouquinho dos limites. Ou indo além dos limites. Mas ao perceber isso eu toquei em seu braço, trocamos um rápido olhar e eu apenas sussurrei:
— Deixa eu que resolvo isso, pai.
E ele saiu, em direção aos quartos.
E eu fiquei sozinho de frente para fera
— Sim, mãe. Eu vou. Já está tudo resolvido. – senti as lágrimas tomarem meus olhos. — Você não entende? É uma oportunidade única...
— Você não entende! – ela berrou de volta. Os vizinhos já deveriam estar chamando a policia. — Não entende que eu não posso perder mais um filho. Não outra vez. Não o único que me restou!
E ao contrario do que eu imaginei, eu não fui o primeiro a sair correndo quando as coisas apertaram. Mas minha mãe sim. Saiu correndo, literalmente correndo. Com o rosto banhado de lágrimas.
Tudo que eu pude ouvir a seguir foi à porta de seu quarto sendo batida. E a voz baixa do meu pai tentando acalma-la.
Meu corpo, agora exausto e mole, caiu no sofá mais próximo e eu me afundei ali, também chorando. Só que em silencio.
Eu chorava de tristeza e alegria. Tristeza por as coisas nunca darem certo entre mim e meus pais. Não depois que meu irmão se foi. O que era uma pena. E alegria porque eu enfim havia entendido porque durante todo esse tempo a minha própria mãe havia me tratado tão mal.
Não que justificasse.
Mas eu havia entendido depois daquela cena.
Ela me tratava mal porque foi a forma que ela encontrou de proteção. Porque ela sentia medo, muito mais medo após a morte do meu irmão de perder seu outro filho, o único que sobrou. E por isso ela me afastavam e me culpava. Porque assim, dentro da cabeça insana dela, fazia muito mais sentido. Parecia muito mais certo, pois se algum dia caso ela chegasse a me perder também, a dor seria menor. Ou era assim que ela gostava de acreditar.
Não era porque ela realmente me culpasse pela morte do Guilherme. Porque ela sabia melhor do que ninguém que eu era apenas uma criança inocente quando tudo aconteceu. Para ela eu não era o pequeno monstrinho que arruinou com tudo. Na verdade, para ela eu sou muito precioso. Ao ponto de desmoronar tudo que sobrou caso ela também viesse a me perder algum dia.
O que ela não entende e nunca entendeu, é que essa não foi a melhor forma de ela lidar com isso. Muito pelo contrário. Ela só nós fez sofrer por todo esse tempo. A ela por se limitar a ser a mãe que eu precisava e a mim por acreditar que eu realmente fui culpado por tudo. Ela praticamente destruiu nossa família com sua teoria toda errada de que o melhor é se afastar de quem se ama porque a dor será menor quando perde-la.
Naquele momento, em meio às lágrimas, eu só consegui amar ainda mais a minha mãe por tudo isso. Porque apesar de tudo, ela era uma vencedora. Não tinha feito tudo certo, mas tinha conseguido chegar muito longe mesmo depois de ter perdido um filho. E agora, tudo que ela precisava entender é que não tinha me perdido pra valer. Não tinha me perdido para um caminho sem volta. Eu só ia até ali, para o norte do planeta e passar uma temporada por lá em busca dos meus sonhos.
Não era como se eu fosse morrer.
Mas na cabeça dela não funcionava assim.
Naquele momento eu soube que se fosse atrás dela, para tentar esclarecer e explicar alguns pontos... Eu não obteria resultados. Mas eu precisava muito colocar isso pra fora. Eu precisava muito compartilhar isso com alguém. E porque não com a Bianca? Pensei.
Peguei o elevador e subi até o andar dela. Bati feito louco em sua porta, mesmo sabendo que já era muito tarde da noite pra isso. Por sorte, quem me atendeu foi a Lídia. Toda preocupada. Me ajudou a entrar, porque eu estava destruído e me ajudou a sentar no sofá.
Ela foi correndo buscar água pra mim.
Aproveitei a deixa e subi correndo até o quarto da Bianca.
Ela estava se preparando para dormir. Prendendo os cabelos longos, lisos e loiros de frente para o espelho com um elástico cor-de-rosa quando eu entrei com tudo, sem ao menos bater.
— Felipe? – ela virou-se pra mim, assustada. — O que aconteceu, meu amor?
Deixei que ela visse até mim e me abraçasse daquele jeito carinhoso e repleto de amor que eu tanto precisava.
Ficamos assim até a Lídia aparecer, interrompendo nosso momento e me dar a água que eu tinha deixado pra lá por necessitar demais da Bianca nesse momento tão frágil.
Lídia saiu logo depois, voltando a nos deixar sozinhos e a vontade.
Sentei-me na cama e com as mãos tremendo levei o copo de água até a boca. Bianca trancou a porta de seu quarto e logo voltou para perto de mim.
Ela passou a mãos nos meus cabelos, até que eu me acalmasse e pudesse dizer alguma coisa. Mas eu não conseguia, apesar de querer muito.
A imagem da minha mãe nervosa e chorando por minha causa voltou a minha mente e eu novamente comecei a chorar baixinho.
Bianca deitou a minha cabeça em seu peito, como se eu fosse um bebezinho. E eu mais do que nunca me maravilhei naquela sensação de paz que só ela era paz de me transmitir.
— Agora, por favor, me conte o que aconteceu. – pediu ela, com um fio de voz.
E então eu contei. Tudo. Desde o comecinho. E as foram saindo, saindo, muito naturalmente mesmo eu fungando por causa das lágrimas. Até que eu me esgotei e adormeci por ali mesmo.
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