Todos Iguais
61 Bianca e Felipe
Notas iniciais

Chegamos a fazendo do tio Edu às dez da manhã bem a tempo para o café da manhã.
Quando concordei com os meus pais em passar o natal no interior, eu disse que só iria por causa do Felipe, que estava disposto a ir comigo a onde for, já que esse seria nosso primeiro e ultimo natal juntos. Muito provavelmente. Caso ele não viesse, eu jamais estaria aqui.
Não que eu não adorasse meu tio, por que sim, eu gosto muito dele. Ele é praticamente a unica família mais “próxima” que tenho. Mas de jeito nenhum eu iria passar meu natal nesse fim de mundo tendo que dar de cara com a Maria Eduarda em toda parte, porque com certeza ela também estaria aqui. Eu só não imaginei que fosse com o... Pedro.
Os empregados levaram nossas coisas aos quartos onde ficaríamos instalados por dois dias. Tio Edu que fazia companhia para a filha e o genro na mesa do café da manhã se levantou para cumprimentar todos nós. Primeiro a mamãe, depois o papai, eu e por fim o Felipe.
Sentamos a mesa e eu não mal olhei para minha prima, mas cumprimentei o Pedro com um sorriso. Para me reconfortar, sabendo que o clima estava tenso, Felipe apertou a minha mão sobre seu colo por de baixo da mesa. Os adultos engataram rapidamente em uma conversa de como havia sido nossa viagem de quase duas horas até aqui. E os empregados nos serviram, sempre gentis e sorridentes.
Depois da primeira refeição do dia, levei o Felipe para conhecer a fazenda, que era enorme. Primeiro demos um tour pela mansão que era quase um palácio e depois pelo campo, indo aos estábulos, as piscinas, aos jardins, ao parque de diversão onde por muitos anos brinquei na areia com a minha prima, ao riacho, a área de esportes e á fazenda em si, onde havia criação de gado, galinha, porcos e vários outros timos de bichos.
Esse lugar era como um pedacinho do paraíso.
Felipe não precisou dizer, mas percebi pela maneira curiosa e atenciosa que ele olhava em volta, para perceber que ele estava deslumbrando com tudo a nossa volta. O ar ali era mais puro, o som dos pássaros e da água mais presentes e para completar o céu estava incrivelmente belo, azul e sem nuvens.
Os adultos ainda tagarelavam sobre os preparativos de hoje a noite na salão principal. Levei o Felipe até a sala de tevê, onde poderíamos descansar um pouco após nosso longo tour e para ficarmos mais a vontade, pois estávamos sozinhos. Imaginei se minha prima estava por aí se esfregando com o Pedro pelos cantos longe do olhar de todos nós.
Bom, se estivesse... Não era problema meu.
— Que bom que o Pedro tá aqui – observou o Felipe, puxando minhas pernas para cima de seu colo e retirando minha sapatilha para me fazer massagem nos pés. Ele era encantadoramente maravilhoso, todo o tempo. — Assim tenho uma companhia masculina da minha idade.
— Então quer dizer que a minha companhia, da sua namorada, não seria o bastante para você se o Pedro não estivesse aqui também? – perguntei, fazendo ar de ofendida. Ele riu e puxou meu rosto em sua direção.
— Não seja boba. – ele me deu um rápido beijo, carinhoso e delicado. — Você sabe que você sempre será o bastante pra mim.
Depois que ele disse isso pareceu se arrepender imediatamente pela carinha tristonha que fez. E eu soube exatamente por que.
A grande verdade é que após termos conversado sobre ele ir estudar fora, ir morar longe, impossibilitando-nos de ficarmos juntos – não que eu o culpasse por isso – nosso namoro meio que ficou sensível e tudo que dizíamos e que se referia ao “para sempre’, ou “por toda vida” ou “pelo resto dos meus dias” parecia que era uma promessa preciosa que não poderia ser cumprida por ser em breve interrompida com a sua viagem que estava cada vez mais próxima.
Eu odiava ter que ficar pensando nisso, mas não podia evitar.
— Felipe? Que bom que te achei. – disse o papai educadamente, após entrar na sala e interromper-nos. — Você não gostaria de se juntar a nós? Vamos pescar. Você não está a fim?
Quando se tratava do Felipe eu era a pessoa mais egoísta e ciumenta de todo o planeta. Mas também não poderia tranca-lo, amarra-lo ou prende-lo. Quer dizer, eu até poderia, mas não seria justo.
E quando ele me olhou daquele jeito fofo e meigo, como se pedisse secretamente a minha permissão para se juntar aos “homens”, eu não pude dizer “não, não vá e fique aqui comigo, somente comigo”. Não queria priva-lo de certas coisas, porque eu sabia que ele merecia ser feliz e se divertir, comigo ou longe de mim. Mesmo que pra isso eu precisasse abrir mão de nós dois.
E então ele se foi, deixando-me.
Felipe, papai, tio Edu e Pedro saíram para pescar.
Mamãe reuniu todos os empregados, que eram muito mais do que trabalham lá em casa, para falar sobre a ceia de natal. Mamãe sempre foi assim, meio mandona, durona e responsável por tudo. Ela também sempre foi muito criativa e responsável. E eu adoro tudo isso nela.
Gostaria de poder ser assim um dia também.
Fui para o meu quarto, o quarto personalizado especialmente para mim, por todas as vezes que eu fiquei aqui, passando minhas férias. Mas infelizmente ele ficava ao lado do da Maria Eduarda, que eu não queria ver nem pintada. Ainda não conseguia engolir esse seu novo comportamento de garota “boazinha” só porque está desesperadamente apaixonada pelo Pedro.
Se bem que eu nunca duvidei da força do amor. Eu, por exemplo, posso falar muito sobre esse assunto. Pelo que sou hoje com o Felipe e pelo o que fui no passado sem ele. E como eu mudei, evolui mesmo sem perceber a partir do momento que ele entrou de vez na minha vida.
Só que essas regras pareciam se aplicar perfeitamente a todos, exceto a minha prima. Era difícil acreditar que ela pudesse mudar por alguém ou amar alguém além de si mesma.
Entrei no quarto que não entrava há tanto tempo, mas que continuava o mesmo, cor de rosa e cheios de resquícios da minha infância. Joguei-me na minha cama. Como eu não tinha nada de melhor para fazer, achei que seria uma boa tirar um cochilo para poder aproveitar mais a noite de festa. Mas antes que eu pudesse conectar meus fones de ouvido minha prima entrou após dar uma batidinha de leve na minha porta.
— Posso entrar? – ela perguntou, educadamente.
Eu pensei em ser curta e grossa, como todas as outras vezes. Mas não consegui, não dessa vez.
— Entra. – digo, sentando-me sobre o colchão.
— Podemos conversar? – ela pergunta, já sentando-se na ponta da minha cama. Não é como se eu tivesse muitas opções.
A situação foi invertida. Agora, hoje e aqui ela é a dona da casa.
— Claro. Pode falar. – olho para ela, tentando me mostrar indiferente a tudo isso.
— Fico feliz que você esteja aqui... É sempre bom passar o natal com a família. E, bom, você é a única prima que tenho e nós costumávamos ser tão unidas, apesar de todas as desavenças e intrigas, e agora, olha só pra gente, mais distantes do que nunca. Será que é isso mesmo que queremos passar aos nossos pais e namorados em uma noite que tem um significado tão especial? Estamos tão perto de começar um novo ano e será que não poderíamos recomeçar de uma forma diferente...?
Ela deu uma pausa e eu fiquei apenas escutando, sem tirar meus olhos dela. Só pra saber se ela estava sendo sincera ou se estava tramando.
— Sabe, não to pedindo que nos tornemos melhores amigas ou qualquer coisa do tipo. Só quero que você me perdoe, por tudo que fiz você passar desde que fui morar na sua casa. Entenda, eu não fiz de propósito. Não todas as vezes. Talvez eu só estivesse com ciúmes, raiva, inveja, rancor... Porque você sempre levava a melhor em tudo e demorou um tempo para eu perceber que talvez você merecesse tudo isso, mas eu não. E que se eu quisesse ter as mesmas coisas ou melhor, eu precisaria ser uma pessoa boa, sem ter que precisar puxar o tapete dos outros.
— E porque isso agora? Você está mesmo apaixonada pelo Pedro? Isso é real? – pergunto, interrompendo-a. Não queria ser dura ou fria, mas eu precisava saber o porquê de tudo aquilo.
— Eu o amo. Um amor que eu jamais poderia por em palavras. Se é que você me entende. – ela deu um sorriso fraco. — Eu não sei bem porque ou como, mas desde que bati meus olhos nele pela primeira vez, eu soube que ele muito provavelmente seria o único que poderia me tirar desse caminho. Porque eu sabia que ele era o melhor que eu poderia ter, que ele sempre seria demais para mim e que eu aprenderia muito com ele.
Ela desviou o olhar por um momento, parecendo muito emocionada.
— Eu sei que você me entende, Bianca. Eu sei que você sabe exatamente como é isso. Porque você também ama muito o Felipe. O Pedro... Ele sempre foi tão maravilho e bom com os outros... E de alguma forma ele transmitiu isso a mim. Agora que eu o tenho, sinto que não há mais necessidades para fazer mal ou aprontar com as pessoas. Porque eu já tenho tudo e com ele sempre será o bastante. Eu não preciso de nada. Agora eu tenho exatamente o que eu sempre quis ter.
Ela começou a chorar tão repentina, que quando dei por mim estava chorando também. Porque ela tinha toda razão: eu entendia. Eu sabia exatamente como era. Talvez não da mesma maneira, mas de uma forma muito parecido.
Por fim, eu acabei a abraçando e choramos juntas.
Eu a perdoava, eu conseguia acreditar e confiar nela.
Talvez aquele realmente fosse o nosso recomeço.
***
Tive uma tarde agradável com aqueles três homens de idades diferentes e ao mesmo tempo tão parecidos. Pescamos e me ensinaram a jogar golfe também. Só voltamos para a mansão com o cair da noite, que era quando o campo ficara mais escuro e um pouco assustador com todo aquele barulho de animais distintos.
Pedro e eu ficaríamos no mesmo quarto. Era grande, amplo, espaçoso e claro. Esperei que ele tomasse um banho primeiro, enquanto arrumei minhas coisas. Depois seria a minha vez. Eu iria ser rápido, porque já estava morrendo de saudade da Bianca. Porque não importava o que eu estivesse fazendo ou com quem eu estaria, eu sempre estaria pensando nela.
Para a noite de natal eu vesti um bermuda de sarja em um tom de beje e um camisão xadrez vermelho preto e cinza. Para os pés fiquei com meu velho All Star preto. Dei uma penteada nos cabelos molhados com os dedos, passei um pouco de perfume e me olhei no espelho por uma ultima vez antes de sair. O Pedro já tinha ido há muito tempo.
Eu não tinha comprado um presente especial para a Bianca, até porque não tinha muito dinheiro. Mas eu tinha feito algo para ela e estava dentro do meu bolso, para dar-lhe no momento certo.
Encontre-a lá em baixo, no salão de festa, onde ela estava conversando em um canto com a Duda e o Pedro. Achei estranha aquela cena e pisquei três vezes até acreditar que... Pelo que parecia ela e a prima tinha enfim se resolvido. Graças a Deus! Já não aguentava mais ficar em meio aquele fogo cruzado.
Aproximei-me e no mesmo instante ela se levantou quando me viu.
Usando um lindo vestido vermelho, justo em cima e solto e rodado em baixo, como o de uma boca. Nos pés sapatilhas pretas e os cabelos estavam soltos, caídos sobre os ombros em cachos adoráveis. Seus olhos verdes estavam destacados pela forte maquiagem e ela estava muito perfumada.
Eu a abracei de leve e a beijei.
Não demorou muito para os empregados começarem a nos servir e também fazer parte da festa que até então estava tão pequena e vazia. Ficamos um tempinho conversando em um canto. Pelo menos o resto do pessoal sim, porque eu só fiquei calado observando a tudo, enquanto acariciava de leve as costas da mão da minha namorada.
Foi uma surpresa e tanto para mim e também para o Pedro que agora estava ao meu lado, quando a Duda e a Bianca se levantaram e de braços dados elas saíram do grande salão e desapareceram pelo breu da noite do lado de fora.
Quando olhei para o lado o Pedro estava conversando com a mãe da Bianca, sabe-se lá sobre o que. Eu não era ousado ao ponto de me meter entre eles, mas achei que seria legal eles se conhecerem. Se é que tinham algum assunto em comum.
Assim, levantei-me e me aproximei da churrasqueira, onde estava o Sr. Eduardo e o pai da Bianca, conversando abertamente. Assim que me viram eles me inseriram na conversa, falando sem parar sobre a tarde que tivemos no lago, pescando e fazendo coisas de “homens.”
Senti um arrepio involuntário percorrer por meu corpo quando senti os lábios da Bianca em minha nuca, mesmo diante de seu pai e de seu tio. Ela e a Maria Eduarda enfim resolveram aparecer e... Pelo pouco que pude ver ou sentir, na certa as duas foram beber algo mais forte escondido por aí. E quando a Bianca deu-me um selinho eu tive certeza quanto a minha teoria.
Tudo que eu pude fazer é sorrir e ficar feliz por ela ter reconquistado uma nova amiga. Por falar nisso, as duas, já muito animadas, foram correndo até o Xbox que estava por ali e eu nem ser que tinha reparo e imediatamente começaram a dançar Just Dance.
Todos começaram a observa-las, tão bem entrosadas, como se tivessem nascido para aquilo. As duas riam todo o tempo, trocando olhares cúmplices quando erravam algum passo. Bianca bem que tentou me convencer a se juntar a elas, assim como a Duda fez com o Pedro, mas nós dois recusas, acanhados. Também não tínhamos bebido nada como elas, apenas refrigerante.
Notei que algumas vezes elas se revezavam para ir lá fora para beber algo que elas tinham encontrado e escondidos para ingerirem longe da monitoração dos adultos. Mas isso durou muito pouco, até elas convencerem os adultos a dançarem também – o que foi ainda mais engraçado e inusitado – e aí elas esqueceram tudo e começaram a beber na cara dura, diretamente da garrafa.
Eu e o Pedro, claro, não ficamos de fora. Também estávamos sedentos por álcool.
A noite passou depressa. Nós dançamos, jogamos, nos divertimos, demos risadas, bebemos bastante e a meia noite a ceia foi liberada e nós atacamos a mesa, famintos. Às duas e vinte da manhã quando eu achei que já estavam todos exaustos e prontos para irem direto pra cama, Bianca e Duda pularam na piscina, de vestido e tudo mais. Já os adultos foram fazer coisas de adultos, na sala de estar, dentro da mansão, enquanto os empregados começaram a limpar e organizar o salão de festas.
Como éramos só nos quatro ali fora, eu achei que seria uma boa também pular na água e se juntar a minha namorada. Estava tão calor e ela estava tão animada e risonha. Eu não queria estar por fora. E pulei também na água, sem me preocupar em tirar o sapato. O Pedro já estava por lá quando entrei. Rapidamente começamos a brincar de guerrinha, com nossas namoradas sentadas em nossos ombros tentando derrubar uma a outra.
As bebidas estavam na beira da piscina, esperando por nós.
Às quatro da manhã eu estava exausto. Nesse momento eu só queria uma boa cama. Mas a Bianca não me deixava quieto um só quer minuto. Por exemplo, nesse instante ela teve a ideia de acendermos uma fogueira e fazermos um luau, só que sem instrumentos.
Duda correu até a mansão, mesmo molhada, e foi buscar toalhas para nós. Depois que voltou entregou uma toalha a cada um. Pedro e eu demos um jeito de atender ao pedido das garotas, pegamos lenha – lenha que já estava ali disponível em algum lugar como se fazer uma fogueira em meio ao jardim já fosse algo muito normal para aquela família – e acendemos com um isqueiro. Depois sentamo-nos em volta, cada um com sua respectiva namorada, que ainda estavam se dando muito bem. Em pouco tempo as duas estavam cantando musicas aleatórias, tanto em inglês como em português, com os braços levantados para o alto balançando de um lado para o outro.
— Esse é o melhor natal de toda a minha vida! – confessou Bianca, com o rosto muito perto do meu. Olhando-me profundamente. — Eu nunca vou esquecer você. – em seguida ela me beijou.
E foi então que eu me lembrei do que tinha feito para ela, mesmo não me considerando muito bom com as palavras. E .... Putz... Estava no bolso do short, todo encharcado. Provavelmente a tinta da caneta teria borrado tudo.
Com cuidado tentei tirar a cartinha que eu tinha feito do bolso e sim, estava tudo molhado, mas ainda dava pra ler. Entreguei a Bianca, que pareceu surpresa. Com delicadeza ela abriu ainda mais o papel para não rasgar e começou a ler tudo que eu tinha escrito em voz alta, mas só nós dois conseguiríamos ouvir — menos mal — já que a Duda e o Pedro pareciam ocupados demais se agarrando.
"Bianca,
meu amor,
Queria começar dizendo que esse ano é o melhor de toda minha vida. E isso graças a você. Nunca pensei que te conhecer fosse me mudar tanto. Você costuma dizer que eu sou o melhor pra você, que eu sou demais pra você, que eu cuido de você melhor do que ninguém, que eu sou perfeito todo o tempo, mas a verdade, é que você também me ensinou muitas coisas.
E uma delas foi que nunca se deve julgar uma pessoa sem antes realmente conhecê-la a fundo. No início eu não gostava de você. Eu não gostava e nem sabia por quê. Talvez fosse por ter achar esnobe demais, incrível demais todo o tempo, clichê, comum e muito exagerada em tudo. Além de muito influencia por tudo e todos.
Mas quando eu tive a oportunidade de saber o melhor que você poderia oferecer, foi quando eu percebi que poderia te amar pra valer. Quando soube o quanto você era doce, delicada, sensível, imperfeita, confusa, insegura e sentimental. Eu acredito que tudo isso em você tenha me encantando um pouco e muito rapidamente. Quando dei por mim você já era tudo que eu queria, só que eu, burro, não tinha percebido antes.
Nunca achei que um garoto como eu pudesse ficar algum dia com uma garota como você. Olhe só pra nós dois! Somos de mundos tão distintos, gostos diferentes, jeitos diferentes, mas no amamos na mesma intensidade. E foi com esse sentimento – forte, intenso e na maioria das vezes inexplicáveis – que chegamos tão longe. Dando-me a oportunidade de ter conhecer cada vez mais e me apaixonar por você cada vez mais pela pessoa que você é, sem mudar ou acrescentar nada.
Eu amo você do jeito que você é.
E talvez sempre tenha amado, mas nunca tenha percebido ou reconhecido.
E por fim, só quero que você saiba que depois que você entrou de vez na minha vida eu nunca mais me senti sozinho, incompleto ou deprimido. Agora eu só tenho motivos para sorrir. E a minha vida se baseia em cuidar e proteger você. Com você eu tenho tudo. E por mais medos e receios que eu tenha do futuro, eu sei que devo muito a você. Seria impossível esquecer tudo que fizemos ou sentimos um pelo outro, independente dos caminhos que seguiremos daqui alguns meses.
Posso não ser capaz de cumprir todas as promessas que te fiz, por causa das surpresas da vida. Mas posso te garantir que eu te amarei para sempre e manterei esse sentimento vivo em mim por muito tempo. E espero algum dia, mesmo que daqui a vinte ou trinta anos, ainda possamos ficar juntos ou retomar de onde paramos. Porque, sinceramente, não consigo imaginar um futuro em que você não esteja presente."
Bianca se aninhou em meio colo e ainda com a carta em mãos ela começou a chorar muito. Por um momento achei que ter escrito aquela carta só tinha piorado ainda mais as coisas ou antecipado nosso sofrimento. Mas como não tinha mais volta, eu a abracei e apertei forte em meus braços, acariciando seus cabelos e pedindo baixinho que ela não chorasse.
Com dificuldade, enquanto fungava e tentava conter as lágrimas, ela disse que não estava chorando de tristeza e sim de amor. E eu achei aquilo tão bonitinho, que até conseguir sorrir e me sentir um pouco melhor.
Em poucos minutos ela simplesmente apagou, bêbada e cansada.
Eu não era lá muito forte, mas podia dar conta dela sim. Bianca era levinha, apesar de estar comendo melhor e mais agora com todo seu tratamento que deu uma pequena pausa nessas férias. Carreguei-a até o quarto desmaiada em meus braços sem que os adultos vissem com a ajuda da Duda e do Pedro. Deitei-me a com cuidado sobre a sua cama.
Ela já não estava tão molhada. Então nem ousei a tirar o vestido dela, apenas as sapatilhas. Também não sei se seria apropriado eu despi-la naquele estado mesmo sabendo que ela confiava muito em mim e mesmo estando só nós dois.
Deitei ao seu lado e coloquei a mão cuidadosamente em seu rosto, onde acariciei devagar. Fiquei olhando para ela por um momento, analisando os contornos de seu rosto perfeitamente esculpido. E por um momento nem acreditei que ela fosse só minha. Não podia acreditar que eu a namorava. E que estávamos juntos. No começo daquele ano eu nunca teria acreditado nessa possibilidade, por não saber que algum dia nutriria bons sentimentos por aquela garota tão incrível e especial.
E olha só pra mim agora, totalmente apaixonado por ela.
Nem consigo acreditar como sobreviverei daqui alguns meses sem tê-la por perto.
***
Ao acordar no outro dia a primeira coisa que me deparo ao abrir os olhos é o rosto suave e adormecido do Felipe muito perto do meu. Sim, ele ainda está dormindo e eu estou tão aliviada por ele ser incrivelmente cuidadoso por ter me trazido até aqui por eu ter ficado em péssimas condições noite passada.
Ele é um super-herói pra mim.
Com muita dificuldade, para não acorda-lo, vejo no visor do meu celular que são onze e meia da manhã. Mas não quero me levantar. Estou acabada, apesar de não me lembrar de todos os detalhes da noite passada. Só me lembro das melhores partes. Especialmente de ter feito as pazes com a minha prima, ter me divertido horrores com ela e ter passado o máximo de tempo possível com o meu perfeito namorado em nosso primeiro natal juntos. Ah, e a carta que recebi de presente, que eu espero que o Felipe tenha guardado pra mim.
Estava tudo tão perfeito. A única coisa que faltava mesmo era o restante dos meus amigos. Fora isso... Parecia não faltar mais nada. E por falar em amigos, aproveito para mandar uma mensagem de “Feliz Natal!” para cada um deles e um beijo especial.
— Já está acordada? – Felipe me surpreende com sua voz rouca um tanto sonolenta. Seus olhos parecem ter dificuldade para se abrirem. Meu Deus, ele é tão fofo! Como é possível? — Porque não me acordou antes?
— Achei que você precisava de mais um tempinho. – respondo ao deixar meu celular de lado e voltar a me deitar ao seu lado. — Bom dia!
— Bom dia... meu amor. – ele também sorri e logo me dá um beijinho carinhoso. Depois acaricia minha bochecha em um gesto singelo.
— Estou faminta! – beijo a ponta de seu nariz, um pouco antes de conseguir me sentar sobre o colchão. — Vamos descer e tomar o café da manhã? Eu quero aproveitar o dia para ficar na piscina e te ensinar a andar a cavalo, que tal?
— Parece ótimo. – ele continuava sorrindo, ainda com aquela cara fofa de sono e preguiça. — Mas primeiro eu preciso de um banho.
— Oh, eu também. Não se preocupe. Uma coisa de cada vez. – eu rio e prendo o cabelo com um elástico que estava sobre o criado-mudo ali ao lado. — Vamos fazer assim: vamos nos encontrar lá em baixo em meia hora, certo?
— Certo.
Antes que eu pudesse me levantar e ir direto para o banheiro, Felipe me puxou pelo braço e me fez cair sobre ele. Eu soltei um riso divertido. Aproveitando a ocasião e a oportunidade, nós começamos a nos beijar e dar uns amassos.
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