Todos Iguais
2 Bianca
Notas iniciais

Só consegui dormir um pouco mais de três horas. Acordei na segunda-feira com a Lídia, uma das empregadas, cutucando-me por eu não ter ouvido meu celular despertar as seis da manhã. Todos os dias é a mesma luta.
Vou direto para o banheiro, tomo um bom banho morno e me visto.
No meu closet escolho um vestidinho rosa de algodão, por cima opto por um casaquinho branco, para os pés sapatilhas douradas combinando com cinto fino em volta da cintura e por fim uma tiara também branca.
Cuidadosamente penteio meu cabelo loiro claríssimo em frente ao espelho. O loiro natural eu puxei da minha mãe, que é descendente de europeus. E os olhos verdes do meu pai. Meus fios de cabelo são fininhos e lisos. E a maioria dos pelos do meu corpo são do mesmo tom dos meus cabelos claros. E como minha cor preferida é rosa, eu tenho uma única mecha cor-de-rosa na lateral da cabeça.
Todas as manhãs eu preciso de um pouco mais de uma hora para me arrumar, pois preciso estar impecável, mesmo que eu esteja um caco por dentro. Eu realmente preciso manter as aparências. Pois estou sempre em destaque. E pra isso, eu conto com a ajuda do meu milagroso kit de maquiagem que eu carregado para todos os lados dentro da bolsa.
Para aquela manhã em especial, passo de leve apenas um rímel, base, blush, gloss e lápis preto. Nada muito exagerado. Algo que apenas disfarce a minha noite mal dormida e as minhas poucas sardas.
Pego minha bolsa sobre a escrivaninha próxima a janela. Antes de fechar a porta dou uma última olhada em meu imenso quarto cor-de-rosa: está tudo impecável, em perfeita ordem. Nada fora do lugar. Lídia arrumou a minha cama enquanto eu estava no banho. Roupas, sapatos, bolsas e tiaras estão no meu closet. Livros, cadernos, canetas e folhas na estante ou bem organizadas sobre a escrivaninha. Não há nada que eu mudaria em meu mundinho particular, onde eu realmente posso eu ser livre, sendo eu mesma sem precisar me esconder de ninguém.
Fora do meu quarto a história é outra.
Desço as escadarias que dão acesso ao pavimento inferior e sigo rumo a mesa do café da manhã. Onde minha mãe, Isadora, está tomando seu café e tentando falar ao telefone ao mesmo tempo com seus. Coisas de trabalho. Já o meu pai, Sérgio, está com os olhos centrados no jornal em mãos.
Dou um beijinho de bom dia nos dois.
— Mãe, o que você achou do meu look? – pergunto, tentando chamar a sua atenção. Detalhe: mamãe é estilista e é diretora de uma grande empresa da moda bastante conhecida pelo país.
Minha mãe que já não fala mais ao telefone parece não ouvir o que eu acabei de dizer. O que é bem normal, eu já deveria ter me acostumado. Mas não me acostumei. Afinal é muito difícil pra mim, como filha única, viver implorando pela atenção dos pais que vivem ocupados a trabalho.
Eu vivo me perguntando se eles realmente me amam e vivem de trabalho porque se preocupam comigo e querem o meu melhor ou se eu só apenas um peso que eles precisam carregar na vida mesmo contra a própria vontade, por ser nada mais nada menos que um acidente.
— Filhinha, você está linda! – é o meu pai que diz. Digamos que ele seja mais sensível que minha mãe e está sempre tentando contornar a falta de atenção dela. Tentando me recompensar de alguma forma, mas que para mim não é o bastante. Mas não ouso a me queixar, afinal muitos queriam ter a minha vida e eu não posso e nem devo ser tão mal agradecida.
Aproveito a deixa para ver as horas no visor do meu Iphone.
— Eu estou atrasada! – volto a dar um beijinho em cada um deles. E pela primeira vez aquela manhã minha mãe parece ter se dado conta de que eu estava ali o tempo todo. — Eu preciso ir.
Corro até a porta, pois já são sete e quarenta e cinco. A minha primeira aula começa a oito da manhã.
— Bianca, você não vai tomar o café da manhã? – pergunta Lídia, ao me alcançar. Já estou no corredor, rumo ao elevador do meu prédio.
— Não, obrigada Lídia. Hoje não. – respondo, tentando sorrir. — Eu como alguma coisa quando eu chegar no colégio. Eu vou me atrasar!
— Tudo bem, querida. – ela sorri de volta, passando a mão cuidadosamente pelo meu cabelo. Lídia sempre foi muito maternal. Uma mãe que eu nunca tive durante meus dezesseis anos de vida. — De qualquer forma eu preparei um lanchinho para você. Está dentro da sua bolsa.
Agradeço pela preocupação e aperto o botão do elevador. Não me demoro muito e já estou lá em baixo, na garagem do prédio. Onde Marcel, um dos motoristas, me espera dentro do carro.
Desde que me entendo por gente Marcel e Lídia trabalham para os meus pais lá em casa e também fora dela. Eles são os empregados que trabalham há mais tempo para nós. Eles sempre foram muito prestativos e carinhosos, comigo e com todos. Marcel já deve ter uns sessenta anos e Lídia cinqüenta e poucos, eu não sei ao certo, mas tenho um carinho especial pelos dois.
Antes de descer do carro dou uma olhadinha em mim mesma na câmera frontal do meu celular. Estou ótima. Desço do carro o mais graciosamente possível, porque sei que estão todos me olhando naquele momento.
O colégio no qual eu estudo não fica muito longe de casa, mas ainda assim prefiro ir de carro. Nem morta eu iria caminhando, ou de transporte público ou algo do tipo. Talvez eu pudesse ir de táxi, mas como eu tenho meu próprio motorista, diferentemente da grande maioria, tento aproveitar isso ao máximo.
Antes mesmo de entrar no colégio sou surpreendida pela minha melhor amiga, Luiza Fidélis, que vem de encontro a mim e me abraça, como se não nos víssemos há décadas. Além de sermos melhores amigas desde a quinta série, nós também moramos no mesmo prédio. Eu daria uma carona a ela todas as manhãs, se os pais dela não viessem trazê-la.
Entramos no colégio de braços dados. Posso sentir que ainda tem muita gente olhando para nós, ou mais precisamente para mim. Digamos que eu seja a garota mais popular do colégio. Muitos me consideram patricinha, mas eu garanto que não sou. Tento ser o mais normal possível, não sou de ficar me gabando por tudo que eu tenho, não trato ninguém mal ou diferente, não ando de nariz empinado e nem sou orgulhosa ou cheia de frescuras.
Talvez seja exatamente por isso que as pessoas gostam tanto de mim, por eu não agir como eles imaginam que eu seja. Talvez seja por isso que elas, especialmente as garotas, querem ser como eu. Talvez seja por isso que sou bastante reconhecida, admirada e até mesmo idolatrada. Talvez seja por isso que eu faço sucesso entre os garotos, apesar de não dar bola para quase nenhum e talvez seja por isso que ainda existiam garotas que querem me ver por baixo, como se isso fosse realmente possível.
O único problema em ser popular é que eu preciso estar a todo tempo impecável, sempre alerta as últimas tendências da moda. O que é fácil, já que meus pais trabalham com isso, até mais do que eu gostaria. Eu preciso ser o exemplo, eu preciso ser o modelo. Preciso pensar bem antes de agir ou dizer alguma coisa, para não fazer feio. Não posso decepcionar essas pessoas. Eu preciso que elas gostem de mim e me admirem. Eu preciso ser o centro.
Eu gosto disso, gosto de estar rodeada de atenção, gosto de ter os olhos focados em mim, seja para o bem ou seja para o mal. E só assim posso preencher o vazio que há em meu coração, pela falta do amor dos meus pais.
— Bia, eu vou ao banheiro antes da aula começar. – anuncia Luiza interrompendo meus pensamentos, desgrudando-se de mim. — Você vem?
— Não, pode ir. Eu vou indo para a aula. Nos vemos mais tarde. E qualquer coisa pode ligar no meu celular, você sabe.
Nos separamos.
O meu colégio é imenso, um prédio grande pintado de amarelo claro que contém vários andares. Recentemente foi reformado e agora está bem mais moderno, com janelas novas que vão do piso até o teto e portas e portões mais resistentes. Além da segurança mais reforçada. Aqui nós estudamos das oito da manhã até as quatro da tarde.
Eu estudo aqui há muito tempo. É considerada uma das melhores instituições educacionais do estado. Aqui nós temos professores de boa formação e aulas diferenciadas que ajudam no aprendizado até mesmo daqueles com mais dificuldade. Aqui somos nós, os alunos, que mudamos de sala e não os professores. Assim fica muito mais fácil aprender quando a sala especifica de tal aula já está preparada para receber a turma com todo o material didático que precisaríamos.
Minha primeira aula aquela manhã é de História. Eu sinceramente estou longe de ser o modelo exemplar de melhor aluna no colégio. Particularmente eu detesto estudar. E as coisas só dificultam ainda mais quando a professora ou professor passam cinqüenta minutos do meu dia falando sem parar. É cansativo e parece interminável. Mas eu tenho uma vantagem nas aulas de História. E o nome dele é Felipe Medeiros.
Sei que ele chega atrasado praticamente todos os dias. Por isso me adianto, indo até o fundo da sala e me sentando na última bancada. Aos poucos a turma vai entrando e preenchendo o cômodo. Alguns vêm falar comigo, mesmo que eu não os conheça. Já outros apenas acenam de longe e sorriem. Eu tento ser a mais simpática possível.
A professora Adriana é a última a entrar, fechando a porta. Adriana tem mais ou menos quarenta anos. Ela coloca a bolsa sobre a sua mesa, no canto da sala, perto das janelas. Cumprimenta a turma e escreve algo no quadro.
Meus olhos estão atentos, ainda na direção da porta.
Estou esperando por ele.
Felipe entra com a cabeça baixa, todos param para olhar para ele. Felipe está usando um jeans preto surrado e uma das suas camisetas da Marvel. No mínimo ele deve ter coleção delas. Nos pés um All Star preto velho e sujo.
Adriana, a professora, o deixa entrar sem dizer nada. O que já era de se esperar, já que ela o ama. Todos os professores o amam. Felipe certamente deve ser o melhor aluno do colégio inteiro. Tem as notas mais altas e o melhor comportamento. E essa não é a única qualidade que ele tem.
Ainda de cabeça baixa, as bochechas levemente rosadas de vergonha, ele praticamente se rasteja para um dos lugares vazios da sala: ao meu lado. Ou ele poderia simplesmente sentar-se com Patrick Almeida. Ninguém quer sentar-se perto de Patrick já que ele exala um forte odor de axilas suadas.
É terrível e repugnante.
Felipe joga a mochila sobre a bancada e senta-se, sem dirigir o olhar para mim. Nem ao menos me cumprimenta ou sorri. Isso realmente me desaponta, mas tento não deixar transparecer. Apenas continuo a observá-lo pelo canto do olho, enquanto ele lentamente tira o caderno e as canetas de dentro da mochila e começa a fazer suas anotações.
Eu não consigo fazer outra coisa durante toda a aula, além de ficar olhando para ele incansavelmente. Felipe é lindo de um jeitinho todo especial. Poucas notam, mas ele é incrivelmente fofo. Mesmo sem se dar conta disso.
Ele usa um meio topete e seus cabelos são de um louro escuro, quase castanhos. Seus olhos são escuros, mas quando expostos a claridade ficam cor de avelã. Sua pele é branca, levemente bronzeada. E quando ele fica com vergonha ou muito tempo no sol, ele fica vermelho. Pode ser que poucas vezes eu o tenha visto sorrindo, mas sei que seus dentes são perfeitamente alinhados e brancos. Seus traços são delicados e ele parece muito mais novo do que de fato é.
Mas o que realmente adoro nele é a pintinha, ou melhor, o sinal de nascença que ele tem na bochecha. Um pouco abaixo do olho esquerdo. É tão charmoso. Eu preciso me controlar para não tocar seu rosto.
Eu não quero assustá-lo.
Uma garota como eu poderia ter qualquer garoto. Eu poderia escolher a dedo, qualquer um, em qualquer lugar, mas eu, Bianca Vasconcelos, a mais popular do colégio, fui me apaixonar justamente por Felipe Medeiros, o nerd da turma, o caladão e o esquisito.
A vida realmente gosta de pregar peças na gente.
Eu não consigo nem me lembrar qual foi a última vez que eu ouvi o som da voz dele. Felipe raramente abre a boca para falar, nem ser quer responde a chamada, ele apenas levanta o braço para se identificar. Ele é quieto, tímido, observador e calado. Aliás, eu nem sei se ele sabe falar de fato.
Não importa. Eu preciso tirá-lo da cabeça a qualquer custo. Ele nem ser quer liga pra mim, mesmo que a gente faça parte do mesmo grupo de amigos. Ninguém poderia saber que eu gosto dele. Nada nunca vai acontecer entre nós, eu não deveria dar tanto importância a isso. Alguém como eu não pode ter alguém como ele. É um romance impossível, que só acontece na minha imaginação. Fora dela seria loucura. O que as pessoas diriam?
Quando a aula termina ele é um dos primeiros a sair da sala. Pego minhas coisas e sou uma das últimas. Não estou nem um pouco afim de ter aula de Matemática agora. Não é como se eu pudesse fazer alguma coisa para evitar. E depois tenho aula de Física. O que mais poderia ser pior que isso?
No intervalo sento-me com as meninas, na nossa mesa de sempre, bem no meio do refeitório. Alguns dizem que elas, as minhas colegas, são minhas súditas. Mas não é nada disso. A maioria delas só querem se aproveitar da minha fama ou querem ser como eu, por isso me seguem para todos os lados.
Posso parecer boba, mas eu realmente sei quem gosta e quem não gosta de mim.
— Bia, você não vai comer nada? – pergunta Luiza baixinho, sempre tão preocupada comigo. Ela é um amor. A melhor. Meu braço direito. A unica a quem posso confiar verdadeiramente. Nada disso teria graça se não fosse pela Luiza. — Você mal tocou no seu lanche.
— Não estou com fome, Lu. – faço uma careta para ela, colocando o bandejão de lado. — Se quiser pode ficar com a minha sobremesa.
Eu sou assim. Raramente sinto fome. Eu preciso manter a forma. Não posso cometer nenhum deslize. Por mais que digam que meu corpo magérrimo e perfeito. Nem sempre estou satisfeita comigo mesma.
Após a uma hora da tarde nós temos o tempo mais livre, com aulas complementares a nossa escolha. Aqui tem de tudo: artes, luta, política, danças em geral, culinária, jardinagens, ginástica, natação, computação, música e teatro.
Fazendo o que cada um gosta, o tempo passa mais rápido. E quando menos se espera já são quatro da tarde: hora de ir embora.
— Ei, ei. – ouço Luiza me gritar de longe. Ela vem correndo na minha direção. Marcel já está me esperando no carro. — Posso ir com você hoje?
Entramos no carro e Marcel dar a partida.
— O Pedro quer que a gente vá à casa dele hoje mais tarde. – explica Luiza, olhando para mim com seus olhos castanho-esverdeados. — Uma festinha particular. Você vai?
Pensei por um momento antes de responder.
— Não tenho nada melhor para fazer... Eu vou sim.
E melhor: ainda posso encontrar o Felipe por lá.
Entro em casa são quatro e meia. Sei que meus pais estão no trabalho, por isso a casa parece tão vazia. Ouço apenas o barulho da louça vindo da cozinha, acompanhado pelo cheiro maravilhoso do jantar sendo preparado.
— Lídia, cheguei. – grito, subindo para o meu quarto.
Eu moro em duplex no Jardim Paulista, em São Paulo, há muito tempo.
O apartamento é inteiramente decorado por um Design de Interiores bastante conhecido, que por sinal é amigo dos meus pais. Uma mistura de branco, preto e vermelho. É visível a luxuria pelos quatro quantos. Coisas que meus pais pouco aproveitam, pela falta de tempo. Eu passo a maior parte do meu tempo aqui, sozinha, sem nada muito interessante para fazer.
E é por isso que eu saio por aí, sem dar explicações. Detesto me sentir sozinha. Não é como se meus pais realmente se importassem comigo.
Antes de tomar um banho para sair, fico deitada na cama com o meu laptop no colo. Verificando minhas redes sociais, que são inúmeras.
— Bianca, você não vai comer nada? O jantar está pronto.
Lídia entra no meu quarto após o meu consentimento.
— Não, Lídia. Obrigada. Eu já estou de saída.
Para a ocasião optei por um jeans Skinny preto, blusinha branca e sapatilhas vermelhas. Peguei minha bolsa preta de couro e saí.
Fiquei de me encontrar com a Luiza lá em baixo, na portaria do prédio, para que fôssemos juntas de táxi a casa do Pedro e da Gabriela.
Eles moram a algumas quadras dali. Mas como já está ficando tarde, o céu está escurecendo depressa, achei ser arriscado irmos andando.
Luiza é sempre pontual e apareceu as seis e meia em ponto, usando uma saia azul-celeste, blusinha branca e sapatilhas pretas. Seus longos cabelos castanhos emolduram seu rosto, destacando os olhos claros.
Em menos de quinze minutos chegamos a casa do Pedro e da Gabriela, já que eles são irmãos. O que é uma pena. O Pedro é super legal, já a Gabi é insuportável. Pelo menos comigo. Eu e a Luiza entramos sem antes tocar a campainha. Eles moram numa casa simples, em um bairro nobre da cidade, onde as ruas são bastante arborizadas e as casinhas parecidas.
Estavam todos lá, sentados sobre o carpete da sala.
Os pais deles não estão presentes aquela noite.
Rafael está largado sobre a poltrona, com uma cerveja entre as pernas enquanto ele joga no celular. Parece interessante. A Natália está rindo de uma bobagem qualquer que a Gabriela acabou de dizer. As duas estão fumando distraidamente. O Pedro também tem uma cerveja nas mãos e ele está abaixado ao lado do Felipe, mostrando-lhe uma revista em quadrinhos.
Pronto. Agora o time está completo.
— Ufa, ainda bem que vocês duas chegarem. – Gabriela levanta-se. Ela é sempre tão amostrada. Seus cabelos castanhos-avermelhados sempre desgrenhados me dão calafrios. Será que nunca apresentaram a ela uma escova de cabelos não? — Eu estou faminta! Vou pedir pizza.
Rafael comemora ao ouvir a notícia, tirando os olhos finalmente do celular. Ele parece bem melhor hoje, diferentemente da noite passada. A qual ele se meteu em briga novamente. Quando ele me vê, vem correndo na minha direção para me abraçar com um largo sorriso.
O Rafael é lindo, deixa qualquer garota babando. Ele é alto, forte, ombros largos, porte atlético, seu rosto tem traços fortes, seus olhos são verdes-escuro e os curtos cabelos castanho escuro. Seu sorriso é estonteante. Além de ser o garoto mais popular do colégio, o mais desejado entre as garotas, o mais cafajeste e o mais safado também. Ele não perde uma oportunidade.
Nós formaríamos o casal perfeito. Se pelo menos gostássemos um do outro pra valer. O Rafa não é do tipo que se amarra em alguém por muito tempo. Mas acima de tudo somos amigos e não posso dizer que não tenho uma quedinha por ele, porque tenho. Nós também chegamos a ficar algumas vezes, mas é só isso. Coisa de momento, sem qualquer tipo de envolvimento afetivo.
Sento-me em um dos sofás vazios. Pedro me oferece uma cerveja, que eu aceito, por puro tédio. E também porque uma revista de quadrinhos parece muito mais interessante para o Felipe do que eu.
As pizzas que a Gabriela pediu não demoram a chegar e vamos todos para a cozinha. Onde sobre a mesa ela reparte os pedaços.
— Ah não, obrigada. Mas eu não quero...
Todos olham para mim surpresos.
— Não quer? Como não?
— Só não quero, Gabi. Não quero!
Ela sorri diabolicamente.
— Relaxa aí, loirinha. Ninguém aqui vai te forçar a nada. Todos nós sabemos que você tem horror a gordura. Mas será que custa muito você sair da dieta por pelo menos uma noite? Um pedaço de pizza não vai te engordar.
O maior problema dessa garota é que ela adora me confrontar na frente das pessoas. Ela faz questão de me provocar e me tirar do sério.
E isso eu não posso suportar.
Não que eu a odeie, mesmo ela sendo tão infantil e imatura. Nós só não nos damos muito bem, por sermos tão diferentes.
— Tá legal. Eu vou comer só um pedaço.
E como um pedaço, para que todos vejam o quanto ela está errada tentando colocar palavras na minha boca. Passo o resto da noite observando meus amigos se divertirem entre um gole de cerveja e uma mordida no pedaço gordurento de pizza. Só de ver a cena sinto náuseas.
— Vou lá fora fumar um cigarro. – anuncio, mas estão todos tão entrosamentos que nem ser chegam a me ouvir.
Não vou fumar um cigarro lá fora coisa nenhuma. Eu vou às pressas ao banheiro mais próximo e tranco-me lá dentro. Ajoelho-me diante do vaso sanitária e enfio dois dedos na garganta. Colocando a seguir tudo pra fora.
Olhando-me no reflexo no pequeno espelho a minha frente, lavo minha boca e minhas mãos. Sinto-me bem melhor agora e não me arrependo.
Saio dali antes que percebam e realmente vou lá fora, fumar um pouco para relaxar. A noite está fresca e há estrelas no céu escuro.
— Tá fazendo o que aqui sozinha?
— Nada, só fumando mesmo.
Rafael acende também um cigarro, acompanhando-me calado.
— Rafa, você me acha gorda?
— O quê? Não! De jeito nenhum, Bia.
Sorrio para ele, satisfeita. Trago meu cigarro.
— Você é linda, Bia. A mais bonita do colégio e de toda a cidade.
— Não exagera, Rafa. – eu consigo rir.
— Estou falando sério, poxa.
Ele joga seu cigarro de lado antes mesmo de terminá-lo após apaga-lo, pisando em cima. Rafael se aproxima de mim, abraçando-me por trás. Sinto seus braços fortes e musculosos em volta do meu corpo magro e fraco.
Fecho os olhos ao sentir os lábios dele no meu pescoço. Ele está tentando me provocar, como faz com tantas outras. E está funcionando. Pois começo a sentir os pelos do meu corpo se arrepiarem.
Viro-me de frente para, dando-me por vencida. O envolvo pela cintura, puxando-o para mais perto. Sorrimos um para o outro em meio ao silencio. O Rafael é mais alto, por isso precisa inclinar-se um pouco para beijar-me. E é exatamente o que ele faz, selando nossos lábios finalmente.
Beijamo-nos lentamente.
— Rafa?
— Hum?
— Você gosta de ficar comigo?
— Mas é claro que eu gosto, Bia. Você é a melhor!
— Não mente.
— Eu juro. Você é a melhor!
Como se para me convencer, ele começa a sussurrar no meu ouvido, dizendo milhares de vezes que sou a melhor e a mais bonita.
Sou insegura, admito. Fraca e muitas outras coisas também.
Mas ouvi-lo dizer que sou a melhor e mais bonita é exatamente o que eu preciso ouvir para me convencer disso. Pelo menos por uma noite.
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