Todo o Tempo do Mundo

1 Todo o Tempo do Mundo


O inverno chegou novamente de maneira inesperada, surpreendendo toda a Vila de Santa Fé durante a noite. Quando a claridade chegou era fosca, resultado da neve branca se acomodando nas janelas das casas. Os grossos e pesados casacos foram apanhados, e pouco do rosto das pessoas era visível.

Na casa da família Falcão, apenas uma pessoa ainda dormia, para a surpresa de todos. Gina estava enrolada em seu cobertor, ressonando como um anjo, enquanto o pai e o marido já haviam saído de casa há mais de hora. Dona Tê subia e descia as escadas, os dedinhos enluvados impacientes, a cabeça cheia de caraminholas.

“Ora, Dona Tê, se aquiete. A Gina deve estar apenas cansada.” Comentou Juliana, bebericando seu chá quente.

Mai cansada di quê, Juliana? Cansada di quê, se ela num vai pra roça mai o pai tem mai de semana. Vive durmindo até mais tarde.” A mais velha parou ao batente da porta, os olhos fixos do no topo da escada. “Será qui é bom chamá a Mãe Benta?”

“Não creio que haja necessidade.” A professora sorria compreensiva, já suspeitando do que a amiga tinha, assim como Dona Tê. Sabia que isso não tardaria a acontecer, tão logo a filha e Ferdinando se casassem.

“Como se faz um filho nessa vida? Como se faz um filho nesse mundo? Ará, e em otra vida é diferente?” Lembrava com precisão desse diálogo, travado tão logo os dois se casaram, quando ela foi perguntar novamente para a filha se ela sabia ‘essas coisas da vida’. “Se aquiete mãe, eu e o Nando tamu fazendo tudo do jeito que Deus diz que deve di sê nesse mundo.”

E agora, quase um ano depois, as duas mulheres suspeitavam que isso estava se concretizando.

“Dia mãe, dia Juliana.” Gina entrou na cozinha com cara de sono, fazendo a amiga rir. “Acho que perdi a hora otra vez.”

“Seu pai e o dotô Nando já saíram tem mais de hora.” Repreendeu Dona Tê, lhe entregando uma xícara quente.

“O Nando inté me acordô, mas tava tão gostosinho na cama, enroladinha no cobertor, que ieu num quis sabê de levanta.” A moça deu um sorriso avoado, olhando para o nada. “Tava tendo uns sonhos tão bão, tão gostoso...”

“Ai meu Deus...” Dona Tê saiu murmurando consigo mesma, deixando Juliana aos risos, enquanto observava Gina ainda presa aos sonhos.

“Gina, hã, está tudo bem com você?” A professorinha chamou a atenção da amiga, que lhe encarou curiosa. “Você dormido bastante ultimamente.”

I num é? To tendo um sono que inté parece de otro mundo.” Concordou a ruiva, bebericando o chá e fazendo careta. “Ará, que diacho é isso?”

“Ora, o mesmo chá que nós bebemos todos os dias de manhã.” O sorriso de Juliana só aumentava, enquanto via Gina colocar a xícara para o lado.

“Pois tá amargo por demais, deu até um negócio no estômago.” A geniosa levantou, indo até a pia e jogando água na boca.

“Gina, posso fazer uma pergunta um tanto indiscreta?” Juliana ia atrás da amiga, um sorriso indisfarçado.

Ará, e algum dia ocê precisou de permissão?” A geniosa rebateu, se escorando no balcão e cruzando os braços, enquanto Juliana a analisava.

“Você está atrasada?”

Pro trabaio? Claro que to, né Juliana.”

“Não, Gina, eu digo suas regras estão atrasadas.” A moça riu da ruiva.

Ocê diz, aquelas coisas de todo mês?” Ela assentiu. “Num sei, pra fala a verdade procê. Nunca botei muito reparo em quando elas vinha ou deixava de vim. Pur quê?

“Gina, corrija-me se eu estiver errada, mas você anda com muito sono, correto?” a moça assentiu. “Não é a primeira vez que eu te vejo reclamar do gosto de algo, quando par todos estava bom. E se você parar para pensar, deve fazer mais que um mês da última vez que você teve suas regras.”

“Ô Juliana, dá pra larga mão de rodeio e desembuchar de uma vez. Qué que ocê tá pensando aí na sua cabeça?” Mandou Gina, irritada.

“Gina, você já pensou na possibilidade de você estar grávida?” Juliana perguntou, assustando a amiga.

“Tá maluca, é Juliana? Ieu, grávida?”

“Você sim. A senhora sabe muito bem que os bebês não vêm do pé de couve e nem da cegonha, mas sim das coisas que faz a noite com o doutor Ferdinando.” A professora se aproximou, segurando as mãos da amiga. “Vamos Gina, pense por um minuto e você vai ver que não é nenhuma besteira o que estou lhe dizendo.”

A ruiva saiu para o lado, andando lentamente, a cabeça maquinando tudo que Juliana havia lhe dito. Realmente estava dormindo mais que a vida toda, e vira e mexe andava com o estômago revirando a toa. E não lembrava quanto tempo fazia que suas regras estavam desregradas, mas sabia que era um tempo razoável.

E se fosse bem honesta, havia engordado um pouco, mas acreditava que isso se devia ao fato de não estar indo mais para a roça com o pai, enquanto seu apetite só crescia.

“Coloca seu casaco.” A provável gestante mandou, rumando para as escadas.

“Por quê?” Perguntou Juliana, confusa.

Nois vai no posto do doto Renato, fala Mãe Benta. Aí ela vai dizê se eu to ou não to embuchada.”

~G&F~

Ferdinando e Pedro Falcão vinham conversando animadamente, os olhos do primeiro ainda brilhando intensamente. O sogro refletia a felicidade e ansiedade do rapaz, ambos loucos para contar as novas para Gina.

“Mãe, ô mãe.” Pedro entrou gritando, e logo Dona Tê apareceu da cozinha. “A Gina já levanto?”

“Já sim, pai. Mas ela e a dona Juliana saíram logo dispois, e não deram as caras mais.”

“E onde que elas foram, a senhora sabe?” Perguntou Ferdinando, curioso.

“Sabe, eu num sei. Mas ela disseram que vortava pro almoço.” Contou a mais velha, enquanto voltava para a cozinha, deixando os dois homens sozinhos.

Ará, o que essa jaguatiricaaprontando dessa vez?” Resmungou o engenheiro, começando a caminhar sob o olhar atento do sogro.

Num deve de nada, fio. Vem, bebe um trago mais eu, e logo se aquieta.” O homem caminhou até a garrafa de bebida, mas Ferdinando negou polidamente.

“Eu prefiro estar... Bem, quando for dar a notícia para a Gina, se o senhor me entende.” Explicou o rapaz, tomando seu assento usual.

Craro, craro, tá certo.” O fazendeiro virou o copo, deixando a bebida de lado. “lhe acompanhá, puque tô loco pra vê a carinha de alegria dela quando ocê conta a novidade.”

Começaram a conversar amenidades, enquanto suas cabeças viravam periodicamente para a porta, a fim de ver se Gina e Juliana entravam por ela. Quando já estavam estralando os ossos, não mais aguentando fazer o movimento repetitivo, a porta foi aberta, trazendo o frio e a neve, além das duas mulheres agasalhadas pesadamente.

Finarmente, já tava ficando preocupada.” Dona Tê veio correndo, já trazendo dois cobertores. Ajudou as mulheres a tirarem os casacos, as envolvendo com os cobertores aquecidos.

“Bom dia seu Pedro, Nando.” Juliana foi a primeira a vê-los, os cumprimentando com um sorriso.

“Dia, dona Juliana.” Pedro cumprimentou a moça, mas Nando não prestava atenção. Seus olhos estavam, como sempre, na diaba da bicha braba pela qual havia se apaixonado. Adorava ver seu rosto no frio, a pele tão clara contrastando com o rubor extremo no nariz e nas bochechas.

Mas algo o incomodou e deixou aflito: o semblante da sua onça brava, estava mais para o de um bezerro assustado.

“Algo errado, meu amor?” Perguntou, se aproximando e passando os braços ao redor do cobertor.

Ieu to com frio, Nando, só isso.” Garantiu a ruiva, mas sem olhar nos olhos dele. “E com um bocado de fome. O armoço tá pronto, mãe?”

“Tá sim, fia, vou servir já.” A matriarca correu para a cozinha, sendo seguida pelo marido e Juliana, deixando marido e mulher a sós na sala.

“Eu tenho uma surpresa procê.” Contou o engenheiro, segurando o rosto da esposa. “Mas só dispois que a gente almoçar.”

“Então porque aviso agora? Ará.” Resmungou a moça, fazendo Nando rir.

“Pra te deixá bem curiosa, assim ocê vai ficar bem feliz quando ver o que é.” Ele acariciou o queixo dela com carinho. “A propósito, bom dia meu amor.”

“Bom dia, frangotinho.” O sorriso dela se iluminou ao dizer aquilo, fazendo Nando rir também.

“Vem, menininha, vamô almoça, que eu quero lhe contar sua surpresa logo.”

~G&F~

O almoço acabou e toda a família estava conversando amenidades à mesa. Gina havia acabado de voltar do banheiro, após sair as pressas.

Ará, já falei que tava apertada, num precisa se apreocupa.” Resmungou a ruiva, quando a mãe e o marido começaram o falatório.

“Ferdinando, conta logo sua supresa Gina.” Pediu Pedro, o rosto ansioso.

“Ah é, ocê disse que tinha uma surpresa. Conte logo.” Pediu Gina, tentando desviar as atenções de sua fuga repentina.

“Gina... Eu construí uma casa, para nós dois.” Contou ele, vendo os olhos da esposa brilhando. “Lembra aquele pedaço da terra do seu pai, que num brotava nada nem por decreto?”

Ocê construiu uma casa pra nois, lá?” O rapaz assentiu, sendo abraçado. “Mai como? Quando?”

“Eu contratei uma construtora na Cidade das Anta e disse: quero essa casa pronta, e logo.” Ele contou, com todo o carisma e charme que possuía. “E pronto. Dois meses depois, nossa casa tá pronta.”

“E vai mora só ocê mai eu, né?” Ele estranhou a pergunta, mas concordou. “Ará, eu quero conhecê ela então.”

“Mais tarde nós todos vamos...”

“Que mai tarde, eu quero é í agora.” Ela levantou da mesa, pegando a mão dele. “E só nois dois.”

“Oxe, mai puqueocês?” Reclamou Pedro, cruzando os braços em frente ao corpo.

Ará, porque a casa é nossa, né pai?” Rebateu a ruiva. “Mai tarde ocês aparece por lá, mai agora vai só eu e o meu marido.”

“Deixe os dois, seu Pedro. É um momento importante para eles.” Juliana tentou apaziguar a situação, já sabendo por que a amiga queria ir sozinha com o marido. “Nós três comemos a torta que a dona Tê fez, e mais tarde vamos visitá-los. Que tal?”

“Isso. Eu pega a torta gorinha mesmo.” A matriarca saiu correndo, enquanto a filha e o genro se encasacavam. “Ocês num querem comê nem um pedaçinho antes?”

“Só o cheiro dessa torta tá me revirando o estômago.” Resmungou Gina, indo para a porta. “Dispois, tarvez.”

E saiu puxando Nando, sem dar tempo para ele responder. Pedro coçou a barba algumas vezes, antes de virar para a esposa.

“Ela assim, toda enjoada e resmungona... Isso é bom ou ruim?”

“É bão, pai. Muito bão.

~G&F~

As pegadas eram fundas na grossa camada de neve, enquanto Ferdinando guiava Gina pelo caminho que ela conhecia tão bem, os dois abraçados para tentar espantar o frio intenso que fazia.

Os olhos de Gina brilharam ao avistar a casa, um pouco menor que a dos pés, mas tão bonita e imponente quanto.

“É linda.” Sussurrou, recebendo um sorriso de volta.

“Quis fazê parecida com a dos seus pais, porque eu sei que ocê ama aquele lugar.” Eles subiram os poucos degraus da varanda, parando em frente à porta. Nando puxou a chave de um bolso, destrancando a maçaneta. “Seu castelo, minha primeira dama.”

A ruiva entrou tremendo, ouvindo a porta se fechando e sentindo o lugar se aquecer depressa. Observou o marido ir até a lareira, alimentar o fogo já aceso, na certa para que o lugar estivesse aconchegante quando chegasse.

Ferdinando tirou seu casaco, observando Gina fazer o mesmo. Deixaram as roupas de frio em um canto, enquanto ela caminhava pelo local, observando que era bem diferente da casa dos pais.

“Tem três quartos lá em cima, e fiz um pequeno aqui embaixo, pra meu escritório e biblioteca.” Ele contou, parando ao pé da escada. “Qué vê?

“Na verdade, ieu queria fala cocê.” A ruiva começou a apertar o cinto, nervosa.

“Pois então fale, meu amor.” Ele se aproximou, observando o nervosismo dela. “Gina, algo errado?”

Num sei se errado, se bom... Ará, num sei o que isso é.” Ela se virou, ficando de frente para ele. “Nando, eu to esperando um fio teu.”

“É o quê?” Ele arregalou os olhos, surpreso.

“To grávida, prenha, embuchada... Ará, o dotô formado é ocê, num preciso explica.” A moça se irritou.

“E por que isso não seria bom, Gina, meu amor?” Os olhos brilhavam intensamente, provavelmente de lágrimas. “Gina, essa foi a melhor notícia que ocê podia me dado nessa vida, meu Deus do Céu...”

“Então, ocê tá feliz?” Ela perguntou, um pouco temerosa.

“Feliz? Gina, eu to nas nuvens.” Ele a abraçou apertado. “Uma oncinha braba pra eu domar.”

Ela suspirou aliviada, abraçando o marido com força. Fechou os olhos, se deixando envolver no momento e no sentimento de felicidade pura que parecia emanar de Ferdinando. E na felicidade que ela mesma descobriu sentir naquele momento, celebrando que o fruto daquele amor tão puro crescia em seu ventre.

“Vem comigo.” Nando quebrou o silêncio após alguns instantes, puxando Gina pelas escadas. “Seu pai troxe isso, dizendo que ficasse aqui. Foi a maneira dele de pedir que déssemos isso à ele depressa.”

O rapaz abriu uma das portas, revelando no meio do cômodo, um bercinho de madeira. Gina sorriu, caminhando até o móvel e acariciando.

“Era meu, quando eu nasci.” Contou a ruiva, com um sorriso enorme. “Num credito que a mãe guardô tudo esse tempo.”

“Guardou. E agora, vai ser da nossa filha.” Nando se aproximou, abraçando Gina pelas costas e colocando a mão sobre a barriga dela.

Mai para de fica falando que é menina. Por que ocê qué tanto que seja menina?” Ela virou, ficando de frente para ele.

“Porque eu quero que nossa filha seja iguarzinha ocê, minha menininha.” Com isso, Gina se desarmou. “Eu lhe amo, sua onça braba.”

“Eu tamém lhe amo, covardão.”

E foi só o que disseram, antes de suas bocas se encontrarem em um beijo apaixonado e repleto de emoção. Ferdinando começou a puxar Gina para fora do quarto, a guiando no corredor até outra porta.

“Nando, meus pais e a Juliana...”

“Eles esperam.” Garantiu o rapaz, a guiando para a cama. “O mundo ispera nois dois... Ou melhor, nós três.”

Ará, me beija logo.” Pediu a ruiva, puxando o marido pela gola da camisa.

E lá embaixo, Pedro, dona Tê e Juliana batiam à porta, sem resposta, e assim seria por muito tempo. Porque aquela pequena família tinha todo o tempo do mundo para si.

Notas finais
Depois de tanto "de onde vêm os bebês", cheguei a conclusão que Gina e Ferdinando mereciam um bebê. Então, bolei essa história.
Espero que tenham gostado.
Abraços peanuts.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!