Todo Está Al Revés
1 Poco creíble.
Notas iniciais
Se eu soubesse que tentar colocar um prego na parede me traria tantos problemas, teria deixado o trabalho para Olga ou Ramalho. Quando entrei no escritório de papai e vi com que olhos ele me encarava, já tive certeza do que estava por vir.
Respirei fundo e comecei.
— Como eu ia saber que tinha um cano exatamente ali?
Aquilo tudo era ridículo. Foi um acidente.
Certo, quando se tratava de mim e Jade, era difícil de se pensar que o ocorrido foi totalmente sem querer. Não era novidade para ninguém que eu não a suportava, e mesmo com a fachada de boazinha que ela fazia na frente do meu pai, eu tinha absoluta certeza de que ela também não gostava nada de mim.
Entretanto, daquela vez, eu era inocente. Não tinha a mínima explicação lógica para eu ter feito aquilo de propósito. Como eu poderia saber exatamente onde ficavam todos os canos da casa?
— Eu tenho uma grande empresa de construção. – Meu pai suspirou. – Não tem porquê você pegar um martelo.
Claro, papai, eu preciso da melhor equipe que você tem na empresa só para colocar um maldito prego em uma parede.
— Eu queria pendurar uma foto da mamãe, pai. Será que eu posso?
O semblante dele murchou. Já sabia que isso aconteceria. Quando o assunto era mamãe, ele sempre ficava nervoso. Parecia nunca saber ao certo o que dizer. Era só o nome “Maria Saramego” ser citado que a conversa era mudada imediatamente. Como se uma maldição caísse sobre nós todas as vezes que alguém pronunciava essas duas palavras.
Não era justo, mas às vezes eu chegava até mesmo a me perguntar se ele realmente a amara. Por que, afinal, se ele de fato a amou algum dia, não há nada dela guardado em nenhum canto da casa? Por que não se pode escutar suas músicas, ou mesmo cantar uma simples canção de ninar em voz alta? Por que ela não podia ser lembrada?
— Sim, sim, claro que pode. – E então, como eu acabara de prever, mudou a conversa. – Acontece, Vilu, que eu realmente não te entendo. Você briga com a Jade, briga com a Elsa, briga comigo. Está impossível!
Eu já estava exausta e irritada demais com aquela situação.
— É que ninguém me escuta, pai! — Era quase um grito — Você também não me escuta. Me leva daqui pra lá como se eu fosse uma mala.
Papai se sentou.
Parecia estar tão cansado quanto eu e, para ser honesta, eu o entendia. Não era fácil conviver comigo. Não era surpresa para ninguém que eu estava, digamos, “impertinente” demais nos últimos tempos.
Não era mentira que eu sujara Elsa de propósito no aeroporto e, apesar de o bolo de chocolate ter sido um acidente, eu poderia muito bem ter feito aquilo por vontade própria. E se pudesse, faria da vida de Jade um inferno.
Por outro lado, papai tampouco era um doce. Sim, ele fazia um grande esforço para estar sempre comigo e me ajudar como pode. Acontece que eu não pedira por isso. Não pedira para ser auxiliada o tempo inteiro. Não pedira para ser cuidada como se fosse de porcelana.
— Violetta, pra mim, o que mais importa nesse mundo é a sua felicidade.
— Com esse papo de fazer tudo por mim, está me sufocando.
Seus olhos pareceram tão tristes que por um segundo me senti culpada. Repeti para mim mesma que o que falei era verdade. E por mais que não admitisse, ele sabia disso.
— Não, não fale assim, filha. — Suplicou.
Papai levou a mão ao meu rosto.
— Não. Me solta, pai. — Recuei bruscamente.
Sai de seu escritório, fechando a porta com força. Aquela casa já estava me deixando claustrofóbica, e tínhamos acabado de chegar. Eu precisava sair dali o quanto antes.
Olhei em volta. Apesar da voz de Jade e seu irmão ao longe, o andar de baixo parecia estar vazio. Dei uma olhada na sala de jantar e na cozinha, só para garantir. E quando tive certeza de que não havia ninguém por perto, andei a passos rápidos até a porta dos fundos, decidida a sair.
Mas então, já com a mão na maçaneta, alguns pensamentos me vieram à cabeça.
Se eu saísse daquele jeito, provavelmente papai chamaria à polícia. Ficaria louco de preocupação. E apesar de papai ser superprotetor, ciumento e absurdamente controlador, eu o amava, e ele não merecia ter ainda mais problemas.
Além do mais, a última coisa que queria naquele momento era ficar conhecida na cidade — cujo eu acabara de chegar — como fugitiva. Já tinha dificuldade em fazer amigos com todas as mudanças que fazíamos o tempo inteiro. Depois disso, então, seria praticamente impossível.
Inspirei forte e dei meia-volta. Foi nesse exato momento que Olga apareceu.
— Violetta! O que você está fazendo aqui? – Questionou, desconfiada.
Dei uma risada nervosa e abri um sorriso para ela. Sabia que amoleceria um pouco com isso.
— Pensei em tomar um ar fresco no jardim, mas mudei de ideia. – Foi a desculpa mais convincente que encontrei.
— Que bom que não saiu! Está para chover, e você sabe como seu pai fica quando você está resfriada.
Revirei os olhos só de pensar. Olga balançou a cabeça, em concordância. Sorri para ela. Apesar de me tratar como criança, não conseguia imaginá-la fora da minha vida.
Escutamos uma batida no vidro da porta. Lá estava um entregador, com uma cesta cheia de sacolas em mãos. Olga abriu para ele e analisou os produtos dentro do plástico.
— E o azeite? – Perguntou, encarando o rapaz.
— Não está aí? – Ela negou com a cabeça. – Então deve ter ficado no caminhão.
— Ora, mas então vá buscar, homem! – Ordenou, alterando o tom de voz. Olguinha sempre se irritava muito fácil. Não pude deixar de sorrir. – Será possível!
O homem se retirou apressado, deixando a porta entreaberta, ao passo que Olga entrou na despensa.
Comecei a andar em direção ao meu quarto, quando escutei os passos de alguém. Achando que era o entregador outra vez, não me virei. Quando já estava na soleira da porta, porém, escutei uma voz feminina.
— Oi? Oi? Olha, eu não invadi. A porta estava aberta.
Uma mulher loira e alta estava na cozinha. Parecia ter uns vinte e poucos anos. Estava meio perdida, e até um pouco nervosa. Franzi o cenho.
Pensei em ignorar, mas poderia ser importante.
— Quem é você?
Ela olhou em minha direção, e por alguns momentos, pareceu ficar petrificada. Não moveu um músculo, não falou uma palavra. Apenas me encarou. E, quando pareceu recobrar a consciência, seu semblante ficou totalmente radiante. Um sorriso enorme se formou em seu rosto.
A estranha correu em minha direção e me envolveu em um abraço apertado.
— Violetta! – exclamou.
Me esforcei para me desvencilhar dela. Seria alguma amiga de papai da qual eu não me lembrava? Era improvável, já que eu não conhecia muitas. Quem seria, então? A mulher parecia me conhecer muito bem.
Em um lampejo de memória, Elsa me veio à cabeça. E tudo fez sentido.
— Candidata a governanta, não? – Torci os lábios. – Olha, tente convencer a papai, não a mim. É sempre ele que decide, no final das contas. – Sua expressão ficou confusa. – E, de qualquer maneira, eu não gosto de gente forçada.
A loira ignorou meu discurso e recomeçou a falar.
— Violetta, eu estive esperando tanto tempo por esse momento! Eu...
— Do que você está falando? Olha, vou chamar meu pai.
Comecei a andar até o escritória, mas a mulher segurou meu braço. Estava pronta para reclamar, gritar, espernear, qualquer coisa que fizesse com que ela mantivesse distância de mim, mas então pude perceber a determinação em seus olhos. Tive a impressão de que aquela pessoa de fato me conhecia, e tinha algo bastante importante para me falar.
Fiquei de boca fechada, e aguardei o momento em que ela dissesse alguma coisa.
— Violetta, eu... – Ela engoliu em seco e respirou fundo. Parecia estar tomando coragem. – Eu me chamo Angie. Angeles Carrara.
Não consegui deixar de soltar uma risada.
— Olha, esse nome não me diz nada.
Ela deixou passar minha arrogância.
— Sou Angeles Carrara... — continuou — Irmã de Maria Saramego. – Ela fez uma breve pausa. – Sou irmã da sua mãe, Violetta.
Enquanto minha cabeça tentava processar as informações, a tal Angeles me observava com ansiedade, como se temesse minha reação. Senti minha visão aos poucos ficar turva, e a toda a cozinha pareceu girar. Fechei os olhos com força. Me recompus.
— O-o que você está dizendo? – Consegui dizer.
Por que eu estava escutando aquilo, de qualquer maneira? Não fazia sentido. Não fazia o mínimo sentido. Papai sempre dissera que minha mãe não tinha família. Ramalho e Olga confirmavam tudo o que ele dizia. Aquilo não podia ser verdade.
— Você só pode ser louca. – Concluí por fim, quase aliviada. – Deve ter sido uma fã da minha mãe e quer se infiltrar na casa dela. Talvez queira roubar alguns pertences dela. Eu não tenho paciência para gente como você. Vou pedir ao meu pai que te tire imediatamente daqui. – Meu tom de voz aumentava paulatinamente ao decorrer da pronúncia de cada palavra. – Isso é uma falta de respeito, você deveria se envergonhar.
Angeles não pareceu se abalar com minha acusação. Ao contrário: Parecia ainda mais convicta. Ela segurou minhas mãos com força, e não tive forças psicológicas o suficiente para me desvencilhar dela outra vez. Estava começando a ficar seriamente desconcertada.
— Eu entendo que você pense isso. – Sua voz se mantinha o mais calma possível. – Provavelmente te fizeram acreditar nisso a vida inteira. Mas você precisa acreditar em mim, Violetta. Eu e minha mãe estivemos te procurando por tanto tempo...
— Sua mãe? – Indaguei. Minha voz mal passava de um sussurro.
— Sim, minha mãe, a mãe de Maria. – explicou. – Ela se cruzou com seu pai em Madrid algumas semanas atrás e ele veio para cá o mais rápido que pôde. Não vou permitir que ele faça isso de novo. Você tem direito de conhecer toda sua família, Violetta. – Ela levou uma das mãos a meu rosto. – Sei que é muito para digerir, mas você tem que acreditar em mim...
Parei de escutar. Meu cérebro parecia estar entrando em colapso. Vários detalhes da minha vida, desde minha infância até minha adolescência, passavam rapidamente em minha cabeça, como um show de slides. E então, aos poucos, tudo começou a fazer sentido.
O fato de mamãe não ter família era mesmo surreal. Como pude acreditar em uma mentira tão esfarrapada como essa? Não tinha sentido. Ela tinha que ter deixado alguém para trás. Mamãe não tinha vindo ao mundo do nada. Mesmo que seus pais já estivessem mortos, mesmo que não possuísse irmãos, ela muito provavelmente teria primos, tios, quaisquer pessoas com o mínimo grau de parentesco com ela.
Papai escondera uma tia e uma avó de mim esse tempo todo. Partes da minha mãe que ele não poderia substituir mesmo que se esforçasse ao máximo para isso. Eu sentia que aquela mulher estava falando a verdade. Não tinha para onde fugir. Lágrimas encheram meus olhos e rolaram em meu rosto.
Escutei algo parecido com o som de uma porta do escritório se abrir e me esforcei para sair de meu torpor. Papai saía de seu escritória e vinha em nossa direção, confuso. Ouvi Angie arfar. Ele encarou a loira por alguns instantes, todavia não mostrou qualquer sinal de reconhecimento.
— Violetta, quem é essa? E por que está chorando, filha? – Seu rosto era só preocupação mesclada com confusão.
Não fui capaz de responder. Não havia nada a ser dito. Meu pai mentira. Germán Castillo era um mentiroso. Mentiu na minha cara durante todos esses anos. Me enganou. Todas essas viagens que fizemos ao longo dos anos... Certamente algumas tinham a ver com o trabalho, mas algo na minha mente agora me dizia que a maioria delas havia ocorrido na tentativa de me esconder daquelas pessoas. Eu nunca iria perdoá-lo.
Sem pensar duas vezes, corri.
Abri a porta dos fundos como se fosse feita de papelão e passei como uma rompante pelo entregador que finalmente trazia o azeite. Ultrapassei a porta da frente já aberta e continuei a correr em uma direção aleatória. Tudo o que eu queria era sair dali.
A chuva caía torrencialmente. As gotas batiam em meu rosto como adagas afiadas, geladas e cruéis. No entanto, eu não sentia frio. Eu não sentia nada. Só queria sumir. Só queria nunca mais aparecer.
Não sei por quanto tempo corri. Não sei por quem passei. As paisagens eram borrões irreconhecíveis para mim. Poderia muito bem ter saído dos limites da cidade, e sequer perceberia.
Depois de algum tempo relativamente curto minhas pernas já começaram a protestar, doloridas pela falta de exercício nos últimos tempos. Minha respiração estava ofegante e, minhas roupas, assim como meus cabelos, pingavam. O vento fazia com que algumas mechas molhadas ricocheteassem em meu rosto, e a região atingida ardia. As palavras trocadas momentos anteriormente rebobinavam em meu cérebro, como uma fita arranhada.
Avistei um estabelecimento. Um bruxulear das mais diversas cores emanava dele. Vozes riam, exclamavam, até gritavam. Podia ver algumas silhuetas se movimentando. Provavelmente era uma escola, um restaurante, qualquer local que geralmente recebia muita gente. Não me importei com isso. Não estava nem aí para as pessoas que estavam lá. Só iria ultrapassá-las, e que se dane o que achariam de mim.
Minha vista estava tão embaçada que nem notei que alguém estava à minha frente. Nos chocamos com força no ato, e fomos ao chão.
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