Todo Azul Do Mar
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Atena fechou os olhos e se permitiu um sorriso quando a brisa do mar fez as lágrimas secas de seu rosto esfriarem-se contra sua pele.
"Você é impossível, sabia disso?" Ela deu uma pequena risada quando Poseidon tomou forma a seu lado.
"Claro que sabia, já que você nunca cansa de me lembrar." O deus abriu um sorriso que fez com que Atena se sentisse aquecida. "O que aconteceu, minha querida?"
A deusa olhou para ele com o canto do olho e estava prestes a fazer algum comentário sarcástico quando as memórias do recém ocorrido evento invadiram sua mente e ela se pôs a chorar.
Poseidon ficou estático. Nunca havia visto Atena chorar. Por Hades, ele não sabia que ela era capaz disso. Sempre tão altiva, superior, o símbolo da Grécia, a deusa da paz, ele achava que não havia nada que pudesse atingir Atena. Mas ali estava ela, debulhando-se em lágrimas que desciam por seu rosto e manchavam sua quase transparente toga.
"Atena..." Ele começou, mas sua voz falhou. O deus limitou-se a passar um de seus fortes braços ao redor dos ombros da donzela e puxá-la para si.
E para Atena aquilo foi mais eficaz que um milhão de palavras.
A deusa aspirou o aroma do mar e depois de alguns minutos entrelaçada com o deus, finalmente se recompôs.
"A Biblioteca, Poseidon." Ela se afastou do deus e cravou seus olhos no horizonte, ainda sendo capaz de ver as chamas da destruição. "A Biblioteca de Alexandria. Destruída. Milênios de aprendizado e informações. Queimados." Seus olhos cinza tempestuosos brilharam com lágrimas.
Os olhos do deus dos mares se arregalaram. A Biblioteca ficara perto do mar, ele ouvira alguns de seus súditos falarem sobre isso, mas não dera muita importância.
Mas ali estava sua amada (por Hades, e como ele a amava!) reduzida a lágrimas, e Poseidon sabia que teria que fazer algo sobre aquilo.
"Foram ordens de guerra, Poseidon. De guerra. Não é a primeira vez que queimam bibliotecas após conquistas, mas aquela?" Sua voz tremia com tristeza e raiva.
"Nada foi salvo?" Ele perguntou com um tom de voz baixo, como se ele próprio também estivesse de luto pela destruição.
Atena balançou a cabeça negativamente e pôs-se a chorar novamente.
Poseidon trincou os dentes. Odiava não poder fazer nada por aquela situação. Mas...
"Foi um incêndio? As paredes de pedra certamente caíram no mar que havia em volta quando as vigas de madeira queimaram-se, certo?"
Atena olhou para ele timidamente, assentindo com a cabeça.
"Existe a mínima possibilidade de alguns desses escritos terem caído no mar?"
"Sim, mas uma parte ínfima deles, e seria praticamente impossível restaurá-los."
O deus riu e encarou a donzela.
"Minha amada, tenho um trabalho urgente a fazer, você importaria-se de esperar por algumas horas?" O deus levantou-se e Atena o encarou com uma expressão confusa (nem ela mesmo sabia se a confusão era por causa do 'minha amada' ou pelo 'urgente trabalho').
"... Eu acho que não."
O deus sorriu largamente enquanto se transformava em brisa e mergulhava no mar.
* * * * * *
"Poseidon, aonde Hades você está me levando?!" A deusa perguntou pela quarta vez depois que ele havia voltado ao lugar onde se encontraram e tapado seus olhos. "E por que está tão frio?!"
"Para a deusa da estratégia e sabedoria você é bastante impaciente, Atena." Ele bufou, mas sorriu.
"Não gosto de não saber o que está acontecendo."
"Só mais alguns instantes..." Poseidon retirou sua mão dos olhos da deusa e sorriu triunfante. "Pronto."
Atena não acreditava no que estava vendo. Era impossível.
"Não tenho muito poder acima da superfície, então fiz o melhor que podia aqui embaixo."
Era surreal. Eles estavam no fundo do mar, e o frio que Atena sentia era derivado das correntes marítimas, e ao redor dela erguia-se uma construção de pedras de mármore e outras que ela desconhecia recheada de obras de arte e livros.
"Esses não são..."
"Os escombros da Biblioteca de Alexandria, sim. As pedras de mármore são as que caíram no mar, e as mais escuras são pedras daqui de baixo. Eu poderia colocar algumas da mesma cor, mas queria que as reais pudessem ser distinguidas. A grande maioria dos livros que enchem as estantes são do meu próprio acervo, mas depois de uma vasta busca, meus súditos conseguiram juntar uma quantidade pequena de originais da Biblioteca." Ele segurou a mão da deusa (que ainda olhava em volta maravilhada) e flutuou até uma estante separada das demais onde uma estátua da própria Atena estava posicionada, como uma guardiã dos últimos resquícios de sua tão amada Biblioteca.
Atena libertou-se do deus e passou sua mão gentilmente sobre a estante de mármore.
"Como... Como você conseguiu fazer tudo isso, Poseidon?"
Ela olhou em volta mais uma vez. A biblioteca reluzia com o dourado do ouro, o branco do mármore e as variações de azul e verde que o fundo do mar tinha. Ela reluzia em todas as cores, e milhares de livros enchiam suas prateleiras.
"Com muita ajuda, devo admitir." Ele riu. "E em caso você esteja se perguntando como você poderá vir aqui embaixo, a resposta é simples: apenas venha. Não importa em qual oceano, em qual mar, assim que você encostar no mar, eu saberei. E enviarei um transporte rápido que a traga até aqui. Sempre."
Atena o encarava com seus olhos cinzentos que brilhavam de lágrimas.
"Você... É impossível." Ela riu.
"Como você nunca falha em me lembrar." O deus riu de volta.
"Eu te amo."
O sorriso morreu nos lábios de Atena quando ela se deu conta do que havia acabado de falar. σκατά, ela xingou. A deusa da sabedoria falando o que não devia, você deveria estar se sentindo orgulhosa, Atena. Seus pensamentos continuavam a lutar entre si quando ela viu os lábios de Poseidon se moverem.
"Eu também te amo."
E foi após chocar seus lábios com os do deus dos mares que Atena teve certeza de que aquela fora a primeira vez que seu coração havia falado mais alto que seu cérebro.
E ele havia falado a verdade.
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