Todas as cidades em que não fiquei

2 Capítulo 1 — A mulher que estava de passagem


Roma, outubro de 2026.

Aurora tinha vinte e sete anos, três idiomas no currículo, dois cartões de crédito perigosamente próximos do limite e uma capacidade impressionante de convencer as pessoas de que sabia exatamente o que estava fazendo da própria vida.

Era, provavelmente, sua habilidade mais desenvolvida.

Naquela quinta-feira, por exemplo, havia passado quarenta minutos discutindo por e-mail com um engenheiro saudita sobre a localização de uma tubulação de ar-condicionado. Quarenta minutos, em inglês, sobre um tubo que aparentemente havia adquirido vida própria e decidido atravessar um móvel planejado no terraço de uma residência em Jeddah.

A situação seria menos ofensiva se o engenheiro não tivesse respondido, pela terceira vez, com uma planta que ignorava absolutamente todas as observações anteriores.

Aurora encarou a tela do computador, apoiou o queixo na mão e releu a mensagem.


Dear Aurora,

We believe the proposed duct position should not interfere with the furniture layout.


Ela estreitou os olhos.

Ah, vocês acreditam? Que interessante.

Abriu o arquivo tridimensional do projeto. Girou a perspectiva. Conferiu as medidas. Ampliou a região do móvel. O tubo continuava exatamente onde não deveria estar, atravessando uma estrutura que alguém, em algum momento da história, precisaria construir.

Aurora respirou fundo e começou a escrever.


Dear Mr. Hassan,

As previously mentioned...


Parou.

Apagou.


As clearly indicated in our previous communications…


Apagou novamente.

Olhou para o teto, buscando uma paciência que suspeitava não possuir desde a adolescência.

O celular vibrou ao lado do teclado. Era uma mensagem de Manu, enviada no grupo de suas amigas.


As seis contra o bom senso

Manu — 16:42: Gente, esse vídeo é muito a cara da Aurora.

Era um meme de uma mulher sorrindo educadamente durante uma reunião, enquanto a legenda dizia que ela estava escolhendo mentalmente qual colega sacrificaria primeiro.

Aurora soltou uma gargalhada.

Aurora — 16:43: Estou literalmente vivendo isso agora.

Valen — 16:43: Sacrifica o mais inútil.

Bel — 15:43: Gente, que violência. Ele é bonito pelo menos?

Aurora — 16:44: É um engenheiro que acha que um tubo pode atravessar um armário.

Ceci — 16:44: Mas não pode?

Aurora — 16:44: Cecília.

Ceci — 16:45: Nossa, nome completo. Perdão, arquiteta.

Vicky — 07:45: Acabei de acordar e já tem ameaça de homicídio aqui?

Manu — 16:45: Aurora, você comeu hoje ou tá funcionando à base de cafeína e ódio?

Aurora — 16:45: As duas coisas não são mutuamente excludentes.

Manu — 16:46: Isso não foi uma resposta. E olha esse.

Outro meme. Dessa vez, um cachorro de óculos diante de um computador, acompanhado da frase: Eu fingindo maturidade emocional enquanto penso em largar tudo e criar cabras.

Aurora riu alto o suficiente para chamar a atenção de Matteo, que trabalhava na mesa ao lado.

— Tutto bene? (Tudo bem?) — ele perguntou, sem levantar completamente os olhos do monitor.

— Benissimo. (Perfeitamente.)

— Non sembra. (Não parece.)

— Sto valutando nuove opportunità professionali nell’allevamento di capre. (Estou avaliando novas oportunidades na criação de cabras.)

Matteo tirou os óculos.

In Brasile?

(No Brasil?)

Ovunque non ci siano impianti di climatizzazione.

(Em qualquer lugar onde não existam sistemas de ar-condicionado.)

Ele começou a rir, e Aurora voltou ao computador com um sorriso satisfeito. Gostava de Matteo. Era um dos poucos colegas capazes de reconhecer quando ela estava prestes a perder a paciência e, mais importante, sabia não fazer perguntas desnecessárias.

Havia aprendido italiano durante os anos que passara no país, mas seu sotaque brasileiro continuava evidente, especialmente quando estava cansada ou irritada. Matteo costumava dizer que conseguia identificar seu humor pela velocidade com que ela misturava palavras em português às frases italianas. Aurora considerava aquilo uma habilidade útil, embora ligeiramente invasiva.

Voltou ao e-mail e, dessa vez, escreveu tudo até o fim. Explicou as interferências, indicou as medidas, anexou a planta e incluiu duas imagens do modelo tridimensional. Revisou o texto cuidadosamente, retirou uma frase que poderia ser interpretada como uma ameaça diplomática e apertou enviar.

Depois se recostou na cadeira.

— Vaffanculo. (Vai se foder.)

— Aurora! — Matteo exclamou, rindo.

— Scusa. Era un commento tecnico. (Desculpa. Era um comentário técnico.)

O relógio marcava dezesseis e cinquenta e dois. Ainda precisava finalizar uma elevação, revisar uma apresentação e responder à cliente sobre algumas opções de madeira. Havia chegado ao escritório pouco depois das nove, almoçado um sanduíche diante do computador e tomado café suficiente para justificar uma intervenção médica preventiva.

Aos vinte e sete anos, Aurora já tinha aprendido que arquitetura era uma profissão muito diferente daquela que imaginara quando criança.

Na infância, desenhava casas com janelas enormes, jardins desproporcionais e quartos que pareciam saídos de filmes americanos. Na faculdade, apaixonara-se pela história dos edifícios, pela relação entre espaço e memória e pela maneira como uma cidade conseguia contar histórias sem pronunciar uma única palavra. Depois vieram os trabalhos, os prazos, os clientes e a descoberta de que uma carreira construída ao redor da beleza também exigia uma quantidade considerável de paciência com planilhas.

Ela gostava do que fazia. Gostava mesmo. Havia uma satisfação particular em transformar uma ideia em algo que pudesse ser construído, em resolver problemas que ninguém mais parecia enxergar e em descobrir soluções elegantes para situações complicadas. O problema era que, ocasionalmente, preferia discutir a composição de uma fachada do século XVI a explicar pela quinta vez por que não era recomendável colocar uma tubulação dentro de um armário.

Matteo se levantou e apontou para a cozinha.

— Vado a prendere un caffè. Ne vuoi uno? (Vou pegar um café. Quer um?)

Aurora olhou para a xícara vazia.

— Você acha que cinco cafés num dia é demais?

— Dipende. Vuoi dormire stanotte? (Depende. Você quer dormir esta noite?)

— Não tenho grandes planos.

— Allora vieni. (Então vem.)

Ela o acompanhou até a pequena cozinha do escritório. Enquanto a máquina aquecia, Matteo começou a falar sobre o fim de semana, mencionando um jantar com amigos e uma exposição que gostaria de visitar. Aurora ouviu com atenção, interrompendo-o apenas para reclamar do preço dos ingressos de alguns museus e defender, com uma convicção quase pessoal, que certos espaços culturais italianos deveriam oferecer descontos permanentes a arquitetos emocionalmente exaustos.

Matteo entregou-lhe o café e se apoiou na bancada.

— A proposito, hai deciso cosa farai nei prossimi mesi? (A propósito, já decidiu o que vai fazer nos próximos meses?)

Aurora soprou a superfície da bebida.

— In che senso? (Em que sentido?)

— Rimani a Roma? (Vai ficar em Roma?)

Ela demorou uma fração de segundo a mais do que gostaria para responder.

— Non lo so ancora. (Ainda não sei.)

Matteo assentiu. Sabia que a situação profissional de Aurora estava passando por mudanças e que ela considerava algumas possibilidades no Brasil. Não era um segredo, embora ela preferisse não transformar suas incertezas em assunto recorrente no escritório.

— Spero di sì. Sei brava, sarebbe un peccato perderti.(Espero que sim. Você é boa no que faz, seria uma pena perder você.)

Aurora sorriu.

— Lo so. (Eu sei.)

Matteo gargalhou.

— Soprattutto modesta. (Principalmente modesta.)

— Matteo, a modéstia não paga aluguel.

Ele balançou a cabeça, divertido, e voltou para a sala.

Aurora permaneceu alguns segundos na cozinha, segurando a xícara quente entre as mãos. A pergunta continuava incomodando, embora não pudesse dizer exatamente por quê.

Você vai ficar em Roma?

Parecia uma coisa simples. Uma pergunta sobre trabalho, residência e planos para os meses seguintes. Mas, nos últimos tempos, Aurora começara a detestá-la.

Não porque não gostasse da Itália. Pelo contrário. Gostava tanto que às vezes sentia uma irritação absurda por não conseguir transformar aquela vida em algo mais previsível. Havia estudado, trabalhado, conhecido pessoas, feito amigos, aprendido a se movimentar por cidades desconhecidas e adquirido uma familiaridade quase íntima com certos lugares. Ainda assim, existiam dias em que tudo parecia depender de um contrato, de um documento ou de uma resposta que demorava demais a chegar.

Antes de se mudar, imaginava que morar na Itália significaria viver rodeada de arquitetura extraordinária, tomar café em pequenas praças e visitar museus nas tardes livres.

Tudo aquilo realmente acontecia.

Só que também havia ônibus atrasados, apartamentos úmidos, proprietários inconvenientes, burocracias intermináveis e a necessidade de explicar sua situação migratória a pessoas que frequentemente pareciam compreender menos sobre o assunto do que ela.

Roma era mais bonita do que imaginara. E mais difícil também.

Aurora gostava de pensar que as duas coisas podiam coexistir.

Terminou o café e voltou ao trabalho.

Não resolveria o futuro naquela quinta-feira.

Tinha um tubo para vencer primeiro.

Quando finalmente saiu do escritório, já passava das dezoito e trinta.

O ar de outubro estava fresco, com aquele começo de frio que ainda permitia usar um casaco leve, mas já anunciava o fim das noites quentes. Roma parecia particularmente bonita ao entardecer. As fachadas ganhavam sombras mais profundas, as vitrines começavam a iluminar as calçadas e os bares se enchiam de pessoas que tratavam o aperitivo como uma obrigação civilizatória.

Aurora gostava daquele momento do dia. Havia algo reconfortante em observar uma cidade tão antiga continuar vivendo situações absolutamente comuns: alguém correndo para pegar um ônibus, um casal discutindo diante de uma farmácia, uma senhora arrastando um cachorro que claramente não desejava voltar para casa.

Passou por uma pequena igreja e diminuiu o passo para observar a fachada. Já havia passado por ali dezenas de vezes, mas naquele fim de tarde reparou na maneira como a luz iluminava os relevos próximos à entrada. Parou por alguns segundos, tirou uma fotografia e a enviou para uma pasta do celular onde guardava referências arquitetônicas que provavelmente nunca conseguiria organizar.

O celular vibrou quase imediatamente.

Era uma mensagem de Vicky.


Vicky — 09:38: Amiga, preciso de uma atualização da sua vida. A última coisa que sei é que você queria matar um engenheiro.

Aurora — 18:38: Continuo querendo, mas de maneira profissional.

Vicky — 09:38: E o trabalho? Alguma novidade sobre ficar aí?

Aurora continuou caminhando enquanto pensava na resposta.

Aurora — 18:39: Nada definitivo ainda. Estou vendo algumas possibilidades.

Vicky — 09:39: Tá. Só não aceita qualquer coisa por medo de mudar de novo.

Aurora — 18:39: Bom dia pra você também, minha psicóloga de Los Angeles.

Vicky — 09:40: De nada. A consulta é grátis porque te conheço desde que você comia cola na escola.

Aurora — 18:40: EU NUNCA COMI COLA.

Vicky — 09:40: Essa é exatamente a reação de quem comia cola.

Aurora começou a rir no meio da calçada.

Vicky tinha sido sua primeira amiga na escola. Aos seis anos, quando as duas ainda confundiam algumas letras e acreditavam que adultos sabiam o que estavam fazendo, sentaram-se próximas numa sala de aula e descobriram que compartilhavam um talento igualmente impressionante para conversar durante as atividades. Não demorou para que outras meninas se aproximassem e, aos poucos, surgisse o grupo que sobreviveria a praticamente todas as transformações da vida adulta.

Manu, Bel, Valen e Ceci vieram depois. Não exatamente ao mesmo tempo, nem da mesma maneira, mas cedo o suficiente para que Aurora tivesse dificuldade de lembrar como era sua infância antes daquelas cinco mulheres.

Cresceram juntas. Mudaram de escola, brigaram por coisas ridículas, dividiram segredos, organizaram festas, apaixonaram-se por pessoas questionáveis e passaram anos jurando que, quando fossem adultas, morariam todas perto umas das outras.

A vida, naturalmente, não respeitou o plano.

Vicky estava em Los Angeles havia mais de oito anos. Bel vivia em Portugal, trabalhando com o que lhe permitisse pagar as contas e aproveitar os dias livres na praia. Aurora tinha ido para a Itália. Manu, Valen e Ceci permaneciam no Brasil, embora isso nunca tivesse significado que suas vidas fossem menos movimentadas.

Manu era a mais próxima de Aurora em mensagens. Tinha uma disciplina admirável para exercícios físicos, uma preocupação genuína com a saúde mental e um repertório de memes que parecia aumentar a cada hora. Conseguia enviar um vídeo completamente idiota e, dois minutos depois, perguntar alguma coisa tão precisa sobre os sentimentos de Aurora que a fazia suspeitar de espionagem.

Bel tinha um talento particular para transformar qualquer cidade em cenário de uma nova aventura. Trabalhava em hotéis, cuidava de crianças quando aparecia uma boa oportunidade e parecia genuinamente feliz com uma vida que não exigia grandes explicações. Gostava de praias, liberdade e homens italianos, não necessariamente nessa ordem.

Valen era a mais difícil de impressionar. Tinha respostas rápidas, pouca paciência para dramas amorosos e um humor que podia mudar radicalmente entre duas mensagens. Aurora confiava profundamente nela, embora soubesse que pedir uma opinião significava correr o risco de receber uma verdade pouco confortável.

Ceci era provavelmente a mais intensa do grupo. Havia se formado em Biologia, trabalhado com design, e-commerce e tatuagem, mudado a cor do cabelo tantas vezes que Aurora já não sabia qual fotografia usar como referência e vivido romances suficientes para abastecer uma série de televisão por pelo menos seis temporadas. Sua casa era o ponto de encontro das amigas quando estavam no Brasil. Era onde chegavam sem cerimônia, abriam a geladeira, ocupavam o sofá e permaneciam por horas, mesmo quando não tinham nada importante para dizer.

A pequena flor de seis pétalas tatuada abaixo do ossinho do tornozelo de Aurora era uma lembrança concreta daquela amizade. Ceci havia feito as primeiras quatro tatuagens na inauguração de seu antigo estúdio: a própria, a de Manu, a de Valen e a de Bel. O estúdio já não existia, mas a lembrança daquela noite continuava rendendo histórias. Aurora e Vicky completaram o grupo algum tempo depois, quando, por uma coincidência rara, voltaram ao Brasil na mesma data e finalmente fizeram as suas.

As seis nunca tinham estado juntas para fazer a tatuagem.

Aurora gostava especialmente desse detalhe.

Era uma flor que havia levado algum tempo para ficar inteira.

Enquanto caminhava, puxou discretamente a barra da calça e olhou para o pequeno desenho junto ao tornozelo. Sorriu antes de continuar.

Sentia saudade delas com frequência. Não exatamente aquela saudade paralisante que a fazia querer comprar uma passagem no mesmo instante, mas uma ausência cotidiana que aparecia em situações inesperadas. Quando via alguma coisa engraçada na rua e precisava decidir para qual das cinco enviaria primeiro. Quando recebia uma boa notícia e calculava o fuso horário antes de ligar. Quando encontrava um bar particularmente bonito e imaginava como seria ocupar uma mesa inteira com todas elas.

Por outro lado, gostava da liberdade que havia conquistado vivendo longe. Gostava de saber que podia chegar sozinha a uma cidade desconhecida, encontrar um apartamento, resolver documentos e construir uma rotina. Havia algo profundamente satisfatório em descobrir que era capaz de fazer coisas que, anos antes, pareciam assustadoras.

O problema era que independência e solidão às vezes se pareciam mais do que ela gostaria.

Aurora guardou o celular e olhou ao redor.

Não estava com vontade de voltar para casa.

Seu apartamento ficava em Monte Sacro, longe o suficiente do centro para transformar qualquer saída noturna em uma pequena operação logística. Aurora gostava do bairro, da sensação de ter uma rotina menos turística e da possibilidade de encontrar estabelecimentos onde ninguém parecia particularmente impressionado com o fato de estar em Roma.

Mas naquela noite queria ficar mais um pouco no centro.

Tinha passado o dia inteiro resolvendo problemas e estava determinada a fazer alguma coisa que não envolvesse uma planta técnica.

Considerou ir ao cinema. Gostava de ir sozinha, principalmente porque assim podia comprar uma quantidade indecente de pipoca sem precisar negociar com ninguém. Conferiu os horários, mas não encontrou nenhum filme que realmente a interessasse.

Pensou em ligar para uma amiga italiana, mas desistiu. Queria companhia, talvez, mas não necessariamente uma conversa planejada com dias de antecedência.

Acabou entrando em uma pequena livraria perto de uma praça movimentada.

Passou quase quarenta minutos entre as estantes, examinando títulos de história da arte, arquitetura e literatura. Saiu com um romance italiano e um livro sobre patrimônio arquitetônico que definitivamente não precisava comprar.

Olhou para o relógio.

Dezenove e dez.

Ainda cedo.

A ideia de voltar para casa, tomar banho e assistir a mais um episódio de Brooklyn Nine-Nine parecia perfeitamente agradável, mas havia alguma coisa na temperatura daquela noite que a fazia querer permanecer na rua.

Talvez fosse a luz. Talvez o cansaço. Talvez simplesmente estivesse com vontade de tomar um spritz.

Abriu o mapa e procurou um bar nas proximidades.

Encontrou um pequeno estabelecimento numa rua lateral. Não era particularmente famoso, não aparecia em nenhuma lista importante e parecia ter mesas pequenas demais para pessoas que precisassem de espaço pessoal.

Aurora gostou.

Entrou.

O interior tinha luz quente, paredes em tons escuros e uma mistura agradável de música baixa e conversas. Algumas pessoas ocupavam o balcão; outras se distribuíam em mesas próximas às janelas. Um garçom atravessava o salão carregando dois pratos de aperitivos, desviando de cadeiras com uma habilidade que provavelmente exigia anos de treinamento.

Aurora encontrou uma mesa pequena junto à parede. Havia duas cadeiras, uma delas vazia.

Tirou o casaco, colocou a bolsa ao seu lado e pediu um spritz.

Enquanto esperava, abriu novamente o WhatsApp.


As seis contra o bom senso

Ceci — 19:24: Meninas, acho que vou pintar o cabelo de novo.

Valen — 19:24: Faz quinze dias.

Ceci — 19:24: E?

Bel — 18:25: Apoio. A vida é muito curta pra ter o mesmo cabelo.

Manu — 19:25: Eu acho que você devia primeiro tratar o cabelo que sobrou.

Ceci — 19:25: Manuela, você acabou de me ofender e mandar um cachorro dançando.

Manu — 19:25: Equilíbrio emocional.

Vicky — 10:26: Qual cor agora?

Ceci — 19:26: Tô pensando num ruivo mais aberto.

Aurora — 19:26: Cecília, pelo amor de Deus, você já é ruiva.

Ceci — 19:26: Você não entende nada de cabelo.

Aurora — 19:27: Sou arquiteta. Entendo de composição cromática.

Valen — 19:27: Não acredito que ela usou o diploma pra discutir tinta de cabelo.

O garçom chegou com seu spritz. Aurora agradeceu, tomou um gole e considerou que a bebida merecia nota sete e meio. Talvez oito, dependendo da qualidade dos aperitivos.

Era um hábito que desenvolvera desde que chegara a Roma: experimentar spritz em bares diferentes e classificá-los mentalmente. Os critérios eram pouco científicos. Incluíam sabor, quantidade de gelo, ambiente, preço e a possibilidade de permanecer sentada por mais de uma hora sem sentir que o garçom desejava expulsá-la.

Tinha alguns favoritos, mas continuava procurando o melhor.

Aurora gostava de fazer coisas sozinha. Museus, cinema, cafés, pequenas viagens. Às vezes, as pessoas reagiam com pena quando descobriam que ela havia ido jantar sem companhia, o que considerava um absurdo. Não entendia por que uma mulher adulta deveria precisar de autorização social para apreciar uma boa refeição.

Naquela noite, estava particularmente satisfeita com a própria companhia.

O celular vibrou novamente.

Bel tinha enviado uma fotografia de um homem.


Bel — 18:32: Meninas, preciso de uma opinião sincera.

Valen — 19:32: Não.

Bel — 18:32: Você nem viu.

Valen — 19:32: Justamente.


Aurora soltou uma gargalhada.

— Scusa, è libero? (Desculpa, está livre?)

Levantou os olhos, preparada para responder automaticamente, e esqueceu por um instante o que deveria dizer.

A mulher à sua frente era bonita. Não de uma maneira particularmente discreta, dessas que exigem alguma observação antes de serem percebidas. Era bonita de um jeito inconveniente, com cabelos escuros, olhos atentos e uma boca que parecia saber perfeitamente o efeito que poderia causar se resolvesse sorrir.

Ah, puta que pariu.

Aurora olhou para a cadeira vazia. Depois voltou a olhar para a desconhecida, tentando recuperar uma expressão minimamente civilizada.

— Sì, certo. Accomodati. (Sim, claro. Fica à vontade.)

A mulher agradeceu com um sorriso e se sentou, apoiando a bolsa no encosto da cadeira. Usava um casaco comprido, um colar delicado e tinha as unhas pintadas de um vermelho escuro que Aurora percebeu quando ela afastou uma mecha de cabelo do rosto.

A desconhecida chamou o garçom, pediu um spritz e começou a procurar alguma coisa no celular.

Aurora voltou à conversa das amigas, embora tivesse perdido completamente o interesse pelo assunto.

Muito bem, Aurora. Agora você vai agir como uma pessoa normal.

Tomou outro gole.

Esperou aproximadamente quinze segundos.

— Posso farti una domanda? (Posso te fazer uma pergunta?)

A mulher virou o rosto.

— Certo. (Claro.)

— Secondo te, le zebre sono bianche con le strisce nere o nere con le strisce bianche? (Na sua opinião, as zebras são brancas com listras pretas ou pretas com listras brancas?)

A desconhecida ficou imóvel, como se estivesse tentando determinar se havia compreendido corretamente a pergunta.

— Scusa? (Desculpa?)

Aurora sustentou a expressão séria.

— È una questione importante. Sto cercando di capire se posso fidarmi di te. (É uma questão importante. Estou tentando entender se posso confiar em você.)

A mulher começou a rir. Não uma risada educada, mas uma gargalhada espontânea que fez Aurora sorrir antes mesmo de conseguir evitar.

— Ma sei sempre così? (Mas você é sempre assim?)

— Dipende. Di solito sono anche peggio. (Depende. Normalmente sou ainda pior.)

— Povera me. (Coitada de mim.)

— Eh, ormai è troppo tardi. (É, agora já é tarde demais.)

A mulher balançou a cabeça, divertindo-se, e estendeu a mão.

— Comunque, io sono Emma. (De qualquer forma, eu sou Emma.)

— Aurora.

Emma repetiu o nome com a pronúncia italiana. Aurora gostou, embora decidisse guardar essa informação para si.

— Aurora. Che bel nome. (Aurora. Que nome bonito.)

— Grazie. Anche il tuo non è male. (Obrigada. O seu também não é nada mal.)

Emma apoiou o cotovelo sobre a mesa, examinando-a com um interesse que Aurora percebeu imediatamente.

— Posso chiederti una cosa anch'io? (Posso te perguntar uma coisa também?)

— Prego. (Por favor.)

— Di dove sei? Non sei italiana, vero? (De onde você é? Você não é italiana, certo?)

Aurora ergueu uma sobrancelha.

— Così evidente? (Tão evidente assim?)

— Hai un accento. (Você tem um sotaque.)

— Un brutto accento? (Um sotaque feio?)

Emma sorriu.

— No. Anzi, è adorabile. (Não. Pelo contrário, é adorável.)

Aurora inclinou a cabeça, satisfeita.

— Adorabile? Interessante. (Adorável? Interessante.)

— Allora? Di dove sei? (Então? De onde você é?)

— Sono brasiliana. (Sou brasileira.)

O rosto de Emma se iluminou.

— Ah, ecco! Adesso capisco. (Ah, então é isso! Agora entendi.)

Aurora estreitou os olhos.

— Che cosa capisci? (O que você entendeu?)

Emma deu de ombros, sorrindo.

— Sei così solare. Sorridi sempre, hai questa energia... (Você é tão solar. Sorri o tempo todo, tem essa energia...)

Aurora colocou a mão sobre o peito, fingindo emoção.

— Emma, ci conosciamo da cinque minuti e mi stai già facendo dei complimenti. Almeno offrimi da bere prima. (Emma, nos conhecemos há cinco minutos e você já está me elogiando. Pelo menos me paga uma bebida antes.)

Emma soltou uma gargalhada.

— Ma sei incredibile! (Mas você é inacreditável!)

— Lo so. È un problema con cui convivo da ventisette anni. (Eu sei. É um problema com o qual convivo há vinte e sete anos.)

Emma levou o copo à boca, mas continuou sorrindo.

— E cosa ci fa una brasiliana così sfacciata a Roma? (E o que uma brasileira tão atrevida está fazendo em Roma?)

Aurora poderia ter respondido de muitas maneiras. Poderia falar do trabalho, da arquitetura, da paixão pela história da cidade ou das circunstâncias que a haviam levado à Itália. Poderia explicar que ainda não tinha certeza de quanto tempo ficaria, que sua vida profissional andava complicada e que, às vezes, sentia estar improvisando o próprio futuro.

Mas aquela mulher tinha acabado de chamá-la de atrevida com um sorriso perigosamente bonito.

E Aurora tinha prioridades.

— In questo momento? (Neste momento?)

— Sì. (Sim.)

Ela se inclinou ligeiramente para a frente.

— Sto cercando di capire se una certa italiana sta flirtando con me o se è semplicemente molto gentile. (Estou tentando descobrir se uma certa italiana está flertando comigo ou se é simplesmente muito simpática.)

Emma não desviou os olhos. Pelo contrário, aproximou-se um pouco também.

— E a quale conclusione sei arrivata? (E a que conclusão você chegou?)

Aurora olhou brevemente para a boca dela, antes de voltar aos seus olhos.

— Non ho ancora abbastanza informazioni. (Ainda não tenho informações suficientes.)

Emma sorriu de canto.

— Allora dovresti continuare la ricerca. (Então deveria continuar a pesquisa.)

Aurora soltou uma risada baixa.

Ah, essa mulher vai me dar trabalho.

Pela primeira vez naquele dia, o projeto inacabado, os e-mails e as dúvidas sobre seu futuro não lhe pareceram particularmente urgentes. Pediu outro spritz e guardou o celular na bolsa, decidida a descobrir até onde aquela conversa poderia chegar.

Emma pareceu aprovar o gesto.

— Quindi, Aurora, che lavoro fai? (Então, Aurora, com o que você trabalha?)

— Sono architetta. (Sou arquiteta.)

— Davvero? (Sério?)

— Sì. E prima che tu lo chieda, no, non posso ristrutturarti casa gratis. (Sim. E antes que você pergunte, não, não posso reformar sua casa de graça.)

Emma caiu na risada.

— Non stavo per chiederlo! (Eu não ia perguntar isso!)

— Lo dicono tutti. (Todos dizem isso.)

— E ti piace? (E você gosta?)

Aurora pensou por um instante.

— Molto. Anche se oggi ho passato quaranta minuti a discutere con un ingegnere di un tubo dell'aria condizionata. (Muito. Embora hoje eu tenha passado quarenta minutos discutindo com um engenheiro sobre um tubo de ar-condicionado.)

Emma arqueou uma sobrancelha.

— Una vita piena di emozioni. (Uma vida cheia de emoções.)

— Non immagini quanto. (Você não faz ideia.)

Conversaram sobre trabalho durante alguns minutos. Aurora descobriu que Emma também tinha uma rotina intensa, embora a italiana parecesse muito mais habilidosa em estabelecer limites entre o escritório e a vida pessoal. Emma, por sua vez, descobriu que Aurora tinha uma relação quase emocional com edifícios antigos e era capaz de interromper uma conversa para observar a fachada de uma igreja.

— Quindi sei una di quelle persone che guardano sempre in alto quando camminano? (Então você é uma daquelas pessoas que estão sempre olhando para cima quando caminham?)

— Esatto. (Exatamente.)

— Deve essere pericoloso. (Deve ser perigoso.)

— Solo per i pedoni davanti a me. (Só para os pedestres na minha frente.)

Emma riu.

A conversa seguiu com uma facilidade que surpreendeu Aurora. Normalmente, os primeiros minutos com alguém exigiam alguma negociação: perguntas previsíveis, histórias sobre trabalho, comentários sobre o clima e aquela tentativa coletiva de parecer interessante sem revelar informação demais.

Com Emma, os assuntos surgiam de maneira desordenada. Começaram falando de zebras, passaram para arquitetura, discutiram sobre a qualidade do spritz, desviaram para cinema e acabaram numa conversa sobre as diferenças entre italianos e brasileiros.

Emma tinha um humor rápido, mas menos espalhafatoso. Gostava de provocar com pequenas observações, muitas vezes acompanhadas de um sorriso discreto. Aurora percebeu que ela sabia sustentar o olhar por tempo suficiente para transformar uma pergunta inocente em outra coisa.

Era uma característica que apreciava profundamente.

Em determinado momento, Emma perguntou havia quanto tempo Aurora morava na Itália.

— Da un po'. Ho vissuto anche a Bologna, prima di trasferirmi a Roma. (Há algum tempo. Também morei perto de Bolonha antes de me mudar para Roma.)

— E ti piace vivere qui? (E você gosta de morar aqui?)

— Sì, moltissimo. (Sim, muito.)

— Ma? (Mas?)

Aurora sorriu.

— Ma cosa? (Mas o quê?)

— C'è un ma. L'ho sentito. (Tem um mas. Eu percebi.)

Aurora a observou com interesse.

— Sei sempre così attenta? (Você é sempre tão atenta?)

— Quando qualcosa mi interessa. (Quando alguma coisa me interessa.)

Aurora sentiu o sorriso surgir antes de conseguir controlá-lo.

Boa resposta.

Tomou um gole de spritz e decidiu ser um pouco mais sincera.

— Mi piace Roma. Però vivere all'estero non è sempre facile. A volte mi manca il Brasile, altre volte penso che non vorrei andare via da qui. (Eu gosto de Roma. Mas morar fora nem sempre é fácil. Às vezes sinto falta do Brasil, outras vezes penso que não gostaria de ir embora daqui.)

Emma assentiu.

— Immagino. E pensi di tornare? (Imagino. E você pensa em voltar?)

Aurora girou lentamente o copo entre os dedos.

— Forse. Dipende da tante cose. (Talvez. Depende de muitas coisas.)

— Dal lavoro? (Do trabalho?)

— Anche. (Também.)

Emma não insistiu. Aurora gostou disso.

Havia perguntas que aceitava responder a uma desconhecida bonita depois de dois spritz. Outras exigiam uma intimidade que ainda não existia.

— E tu? Hai sempre vissuto a Roma? (E você? Sempre morou em Roma?)

Emma contou sobre sua infância na cidade, sobre a família e sobre a vontade ocasional de experimentar morar em outro país. Aurora ouviu com atenção, descobrindo pequenos detalhes que começaram a dar forma à mulher diante dela. Emma falava da mãe com uma mistura de carinho e resignação, como se estivesse acostumada a receber opiniões muito específicas sobre todas as suas decisões. Mencionou uma amiga chamada Giulia, responsável por boa parte das histórias mais constrangedoras de sua juventude, e confessou que gostava de viajar, embora adorasse voltar para casa.

Aurora percebeu que Emma falava de Roma como quem conhecia seus defeitos há tempo suficiente para não precisar defendê-la.

Aquilo lhe pareceu bonito.

— Sai qual è il mio problema con Roma? (Sabe qual é o meu problema com Roma?) — Aurora perguntou.

— Uno solo? (Um só?)

— Sei già molto spiritosa. (Você já está muito engraçadinha.)

Emma sorriu.

— Dimmi. (Me conta.)

— Mi fa innamorare ogni volta che penso di averne abbastanza. (Ela faz eu me apaixonar toda vez que acho que já tive o suficiente.)

Emma apoiou o queixo na mão.

— Interessante. (Interessante.)

— Perché? (Por quê?)

— Sembri una persona che si innamora facilmente. (Você parece uma pessoa que se apaixona facilmente.)

Aurora ergueu uma sobrancelha.

— Ah sì? (Ah, é?)

— Sì. Delle città, delle cose belle... (Sim. Das cidades, das coisas bonitas...)

— Delle donne belle? (Das mulheres bonitas?)

Emma sorriu.

— Questo non lo so ancora. (Isso eu ainda não sei.)

Aurora se inclinou ligeiramente para a frente.

— Potresti scoprirlo. (Você poderia descobrir.)

Emma sustentou o olhar.

— Potrei. (Poderia.)

Por alguns segundos, nenhuma das duas disse nada. Não foi um silêncio desconfortável. Pelo contrário. Havia uma espécie de curiosidade compartilhada naquele intervalo, uma consciência crescente de que a conversa já havia ultrapassado o território da simples cordialidade.

Aurora gostava de flertar. Gostava do jogo, das provocações, da maneira como duas pessoas podiam transformar frases aparentemente inocentes em pequenos desafios. Mas havia algo particularmente estimulante em encontrar uma mulher que não apenas entendia suas intenções como parecia disposta a devolvê-las com a mesma facilidade.

Emma olhou para o relógio.

— Oddio, è già così tardi? (Meu Deus, já está tão tarde?)

Aurora consultou o celular.

Vinte e uma e cinquenta e três.

Tinham passado mais de duas horas conversando.

Havia mensagens acumuladas no grupo das amigas e uma de Manu perguntando se ela tinha chegado em casa.

Aurora respondeu rapidamente.


Aurora — 21:54: Ainda não. Tô num bar.

Manu — 21:54: Sozinha?

Aurora olhou para Emma.

Aurora — 21:54: Mais ou menos.

A resposta veio acompanhada de um sticker de um gato olhando desconfiado para a câmera.

Manu — 21:54: Explique-se, jovem.


Aurora começou a rir.

— Che c'è? (O que foi?) — Emma perguntou.

— Le mie amiche. Sono convinte che io abbia bisogno di supervisione adulta. (Minhas amigas. Estão convencidas de que preciso de supervisão adulta.)

— E hanno ragione? (E elas têm razão?)

Aurora guardou o telefone.

— Dipende da quanto sarai pericolosa per me. (Depende do quanto você vai ser perigosa para mim.)

Emma inclinou a cabeça, divertindo-se.

— E secondo te lo sono? (E você acha que sou?)

Aurora observou-a por um instante. Havia alguma coisa muito agradável naquele sorriso, na tranquilidade com que Emma aceitava suas provocações e no fato de que a italiana parecia não ter nenhuma pressa de encerrar a conversa.

— Non lo so ancora. (Ainda não sei.)

Fez uma pequena pausa.

— Ma mi piacerebbe scoprirlo. (Mas eu gostaria de descobrir.)

Emma levou o copo à boca, escondendo um sorriso que Aurora já havia percebido.

— Allora forse dovremmo rivederci. (Então talvez devêssemos nos ver de novo.)

Aurora tentou manter uma expressão neutra.

— Forse. (Talvez.)

Emma começou a rir.

— Solo forse? (Só talvez?)

— Dipende. (Depende.)

— Da cosa? (Do quê?)

Aurora apoiou o cotovelo sobre a mesa.

— Da quanto sei brava a baciare. (Do quanto você beija bem.)

Emma parou com o copo a meio caminho da boca.

Por uma fração de segundo, Aurora teve a satisfação de perceber que finalmente havia conseguido surpreendê-la.

Mas Emma se recuperou depressa.

Apoiou lentamente o copo sobre a mesa, inclinou-se um pouco e sorriu de um jeito que fez Aurora esquecer a própria linha de raciocínio.

— Beh, questo dovresti scoprirlo di persona. (Bom, isso você deveria descobrir pessoalmente.)

Aurora soltou uma risada baixa.

Ah, puta que pariu. De novo.

Havia conhecido mulheres bonitas antes. Mulheres interessantes também. Algumas sabiam flertar, outras preferiam deixar que Aurora conduzisse a conversa. Emma, entretanto, parecia particularmente confortável naquele território intermediário entre a provocação e a promessa.

E isso era perigosamente atraente.

O garçom se aproximou para perguntar se desejavam mais alguma coisa. Emma pediu a conta, e Aurora se ofereceu para dividir.

— Posso offrirti io da bere. (Posso pagar sua bebida.) — Emma disse.

Aurora levantou uma sobrancelha.

— Ah, quindi era davvero un appuntamento? (Ah, então isso era mesmo um encontro?)

— Non lo so. Tu cosa ne pensi? (Não sei. O que você acha?)

Aurora fingiu refletir.

— Penso che sia stato un ottimo primo appuntamento per due persone che non sapevano di averne uno. (Acho que foi um ótimo primeiro encontro para duas pessoas que não sabiam que estavam tendo um.)

Emma começou a rir.

— Su questo sono d'accordo. (Nisso eu concordo.)

Dividiram a conta mesmo assim.

Quando saíram, Roma estava mais fria. As mesas externas dos bares continuavam ocupadas, e o movimento nas ruas havia diminuído apenas um pouco. Aurora vestiu o casaco e colocou a bolsa sobre o ombro. Emma ficou ao seu lado, observando a rua como se tentasse decidir para onde ir.

— Da che parte vai? (Para que lado você vai?) — perguntou.

— Devo prendere l'autobus. Abito a Monte Sacro. (Preciso pegar o ônibus. Moro em Monte Sacro.)

Emma abriu um sorriso.

— Ah, quindi abiti dall'altra parte del mondo. (Ah, então você mora do outro lado do mundo.)

— Praticamente. Serve il passaporto per tornare a casa. (Praticamente. Precisa de passaporte para voltar para casa.)

As duas riram.

Caminharam juntas até a esquina, conversando sobre o transporte público romano e sobre o fato de que Aurora considerava a distância entre Monte Sacro e o centro uma violação dos direitos humanos.

Quando chegaram ao ponto em que precisariam seguir direções diferentes, Emma parou.

— Mi ha fatto piacere conoscerti, Aurora. (Gostei de te conhecer, Aurora.)

Aurora sorriu.

— Anche a me. (Eu também.)

Emma colocou as mãos nos bolsos do casaco.

— Magari potremmo bere qualcosa insieme un'altra volta. (Talvez a gente pudesse beber alguma coisa juntas outra vez.)

— Magari. (Talvez.)

Emma estreitou os olhos.

— Ti piace proprio questa parola, eh? (Você gosta mesmo dessa palavra, hein?)

— Mi piace mantenere un po' di mistero. (Gosto de manter um pouco de mistério.)

— Non mi sembri una persona misteriosa. (Você não me parece uma pessoa misteriosa.)

Aurora levou a mão ao peito.

— Che offesa. (Que ofensa.)

Emma riu e pegou o celular.

— Allora dammi il tuo numero, donna misteriosa. (Então me dá seu número, mulher misteriosa.)

Aurora ditou os números, observando Emma salvá-los no telefone. Alguns segundos depois, seu próprio celular vibrou.

Uma mensagem.

Emma — La ragazza delle zebre. (A garota das zebras.)

Aurora começou a rir.

— Davvero? (Sério?)

— Così ti ricorderai di me. (Assim você vai se lembrar de mim.)

Aurora guardou o celular no bolso.

— Credo che me ne ricorderei comunque. (Acho que me lembraria de você de qualquer maneira.)

Emma pareceu gostar da resposta.

Por um instante, as duas ficaram paradas diante uma da outra. Aurora percebeu que poderia se aproximar. A distância entre elas era pequena, e Emma havia deixado claro, de maneiras bastante criativas, que o interesse era recíproco.

Mas decidiu não beijá-la.

Ainda.

Havia alguma coisa divertida em prolongar aquela expectativa. Além disso, gostava da ideia de ter um motivo bastante convincente para encontrá-la novamente.

Emma, entretanto, pareceu ter outros planos.

Aproximou-se e tocou delicadamente o braço de Aurora antes de beijar seu rosto, muito perto do canto da boca.

— Buonanotte, brasiliana. (Boa noite, brasileira.)

Aurora sentiu o perfume dela, uma mistura discreta de alguma coisa floral com algo mais quente que não conseguiu identificar.

Quando Emma se afastou, Aurora precisou de um segundo para recuperar a capacidade de formular frases.

— Buonanotte, italiana.

Emma sorriu e começou a caminhar.

Aurora acompanhou-a com os olhos por alguns instantes, antes de se virar na direção do ponto de ônibus.

Olhou para o celular.

Vinte e duas e vinte e sete.

Havia passado mais de três horas naquele bar.

Três horas que tinham começado com um spritz e uma conversa idiota sobre zebras.

Sorriu sozinha.

Depois abriu o grupo das amigas.


Aurora — 22:28: Meninas.

Bel — 21:28: Fala.

Ceci — 22:28: O que aconteceu?

Aurora — 22:28: Conheci uma italiana hoje.

Bel — 21:28: Tem amigo solteira?

Valen — 22:29: Lá vem.

Vicky — 13:29: Quem é? Quero detalhes.

Manu — 22:29: Pera. A italiana que você me mandou mais cedo? Aquela bonita?

Aurora — 22:29: Outra. Mais bonita.

Ceci — 22:29: Meu Deus, Aurora. Conta tudo.

Aurora — 22:30: Ela é linda. Engraçada. E sabe flertar.

Valen — 22:30: Três problemas.

Bel — 21:30: Nenhum problema. Uma oportunidade.

Vicky — 13:30: E você gostou dela de verdade ou só achou gostosa?

Aurora parou de caminhar.

Olhou para a pergunta.

Pensou em Emma sorrindo no bar, na conversa sobre Roma, no jeito como pronunciara seu nome e na facilidade com que haviam passado de um assunto para outro.

Depois pensou no beijo perto da boca.

Sorriu.


Aurora — 22:31: Sim.

Valen — 22:31: Resposta de quem vai fazer merda.

Manu — 22:31: KKKKKKKKK. Mas você tá feliz?


Aurora observou a tela por alguns segundos.

Estava cansada. Precisaria acordar cedo no dia seguinte, revisar uma apresentação e provavelmente voltar a discutir com o engenheiro saudita sobre o tubo. O ônibus ainda não havia chegado, e a possibilidade de passar mais quarenta minutos atravessando Roma não lhe parecia particularmente atraente.

Mas estava sorrindo.

E não conseguia parar.


Aurora — 22:32: Tô.


Guardou o celular, ajeitou o casaco e continuou caminhando até o ponto.

Não sabia se voltaria a encontrar Emma.

Não sabia se a italiana realmente mandaria uma mensagem ou se aquela conversa permaneceria como uma das muitas histórias divertidas que acumulava vivendo fora do Brasil.

Também não sabia quanto tempo ainda ficaria em Roma.

Havia decisões profissionais a tomar, possibilidades a considerar e uma parte de sua vida que continuava sem forma definida.

Mas, naquela noite, não sentiu necessidade de pensar em nenhuma dessas coisas.

Seu celular vibrou novamente.

Uma mensagem de um número recém-salvo.


Emma — 22:34

Comunque, ho cercato su Google. (De qualquer forma, pesquisei no Google.)

Aurora franziu a testa.

Aurora: Cosa? (O quê?)

Emma: Le zebre. (As zebras.)

Aurora começou a rir sozinha.

Emma: Pare che siano nere con le strisce bianche. (Parece que são pretas com listras brancas.)

Aurora: Quindi avevo ragione. (Então eu estava certa.)

Emma: Non ricordo che tu abbia dato una risposta. (Não me lembro de você ter dado uma resposta.)

Aurora: Mi piace avere ragione anche quando non mi esprimo.(Gosto de estar certa mesmo quando não me manifesto.)

A resposta demorou alguns segundos.

Emma: Sei davvero insopportabile. (Você é realmente insuportável.)

Aurora sorriu.

Aurora: Eppure mi hai chiesto il numero. (E mesmo assim você pediu meu número.)

Emma enviou uma mensagem de áudio.

Aurora colocou o telefone perto do ouvido. A voz dela surgiu baixa, divertida, com aquele italiano natural e a entonação levemente provocadora que Aurora já começava a reconhecer.

— È vero. E credo proprio che ti chiederò anche di uscire con me. (É verdade. E acho mesmo que vou te convidar para sair comigo.)

Aurora ouviu o áudio duas vezes.

Na terceira, começou a rir de si mesma.

Meu Deus, que ridícula.

Tinha vinte e sete anos. Já havia morado em diferentes cidades, trabalhado em projetos internacionais, aprendido a lidar com situações profissionais complicadas e tomado decisões que exigiam uma quantidade razoável de maturidade.

E estava ali, parada num ponto de ônibus em Roma, ouvindo três vezes a voz de uma mulher que conhecera havia poucas horas.

Respondeu com outro áudio, em italiano:

— Beh, Emma, penso che potrei trovare un po' di tempo nella mia agenda molto impegnata. (Bom, Emma, acho que poderia encontrar um tempinho na minha agenda muito ocupada.)

Fez uma pausa, antes de acrescentar:

— Ma solo perché hai degli occhi davvero belli. (Mas só porque você tem olhos realmente bonitos.)

Enviou.

O ônibus apareceu no fim da rua.

Aurora guardou o celular e entrou, encontrando um lugar perto da janela. Enquanto a cidade passava do lado de fora, pensou que provavelmente deveria estar preocupada com alguma coisa. Com o trabalho, com o futuro, com a permanência na Itália.

Mas não estava.

Naquele instante, sua maior preocupação era descobrir o que vestir num possível segundo encontro com uma italiana que tinha olhos bonitos demais para o bem-estar da população.

O celular vibrou uma última vez.

Emma: Allora cercherò di non deluderti. (Então vou tentar não te decepcionar.)

Aurora encostou a cabeça no vidro, sorrindo.

A cidade continuava iluminada do lado de fora. Roma, com todos os seus defeitos, parecia ter decidido oferecer-lhe uma noite particularmente agradável.

Ela ainda não sabia, mas aquela seria a primeira de muitas vezes em que Emma apareceria em seus pensamentos sem pedir licença.

Por enquanto, porém, era apenas uma quinta-feira de outubro.

Uma noite comum.

Uma mulher bonita.

Um encontro inesperado.

E Aurora, que havia passado o dia inteiro tentando descobrir onde estaria dali a alguns meses, estava finalmente interessada em uma coisa muito mais simples.

Onde estaria no próximo sábado.


Notas finais
Espero que tenham gostado! - Aurora.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.