Todas As Escolhas Erradas
1 Chocolates & Cigarettes
Notas iniciais
Gotas de água gelada escorriam no vidro da janela fechada. Seus olhos cor de uísque estavam perdidos em lugar nenhum. Em sua mente, nada mais do que pensamentos vagos e sem sentido. Palavras aleatórias. Exaustos devaneios.
Sua pele estava arrepiada pela baixa temperatura. Um cigarro aceso pendia entre dois dedos. Vagarosamente ela soltou a fumaça pela boca, tentando em seguida empurrar um pouco de ar puro para dentro dos pulmões. Seu nariz ardeu com o frio. Cheirava a chá irlandês.
Seus olhos piscaram uma vez. Inclinando a cabeça para frente lembrou-se de estar apenas de calcinha e camiseta puída. Estava sozinha. Não esperava ninguém, não tinha planos para o dia nem iria fazer nada. Por que trocar de roupa – ou colocar alguma – se espera passar o dia na companhia de ninguém em seu próprio apartamento?
Devagar ela virou a cabeça, apenas para ver de soslaio a barra de chocolate pela metade no meio dos lençóis brancos desarrumados em cima da cama. Desejou não ver mais do que um pedaço quadrado marrom e doce. Desejou que houvesse alguém com quem dividi-lo. Desejou que ele estivesse lá, olhando para ela com um sorriso sincero e aconchegante, com os olhos brilhando de volta todo o amor que ela sentia por ele.
Tão rápido quanto veio, sua imagem desapareceu, e ela fechou as pálpebras ao que posicionava o cigarro entre os lábios, tragando fundo como se pudesse ser de alguma ajuda. Não era, mas ela já era um caso perdido há muito tempo.
Os pés descalços deram três passos até alcançarem a mesa redonda. Uma mão pegou o cinzeiro e com mais quatro passos alcançou o balcão da cozinha. Quase que roboticamente apagou o cigarro e amarrou os cabelos desajeitados. Abriu uma caixinha de finas velas cor-de-rosa e cuidadosamente enfiou-as no topo de um pequeno bolo de chocolate. Com um isqueiro, acendeu-as.
Quantas vezes havia passado aniversários sozinha? Quantas vezes havia passado aniversários sendo perscrutada por olhares acusadores e expressões quase tão infelizes quanto as dela própria? Quantas vezes havia assoprado velas com apenas um desejo em mente: não ser a pessoa rebelde, estranha e descuidada que parecia sempre tomar as decisões erradas?
Quantas vezes havia desejado não tê-lo desapontado?
Quantas vezes o fez?
Feliz aniversário.
Seu semblante estava indiferente, um enorme contraste com o que acontecia em seu interior. Queria fazer tanta coisa... Gritar. Correr. Chorar. Fugir. Entretanto, tudo o que fez foi assoprar as três velinhas e repetir seu desejo como um disco arranhado.
– Sua vadia sem coração – murmurou enquanto cortava uma fatia de bolo para si e lambia a ponta do dedo indicador não propositalmente lambuzado de cobertura.
Na mesma tranquilidade ela pegou o cinzeiro e o isqueiro, indo sentar-se na beirada da cama. Mordeu um pedaço do bolo e acendeu de volta a metade do cigarro. Lá fora, enquanto o tempo passava, a chuva continuava a cair sem ter consciência de nada nem ninguém.
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