Toda garota precisa de um melhor amigo
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Eu continuava boquiaberta com a revelação que havia saído dos meus próprios lábios. Porém, Mari não esboçava sequer uma expressão de surpresa. Nada.
— Amiga. – falou ela segurando o riso. – Isso é óbvio.
— O que é óbvio? – perguntei distraidamente, completamente pasma, com os pensamentos girando na minha cabeça.
— Anna, acorda! Que você ainda o quer. Isso é óbvio.
***
Nem mesmo a água caindo nos meus ombros, massageando-me a cabeça, fazia com que eu relaxasse. Eu nem ao menos havia parado pra pensar sobre aquilo, e de repente, sai em alto e bom som da minha boca. Eu o queria de novo.
O que aquilo significava?
Analisei por alguns segundos.
Eu gostava dele...?
Minha expressão agora estava pensativa.
Será?
*Flashback on*
O garoto de quinze anos suspirou.
— Anna...
— O que foi, Luiz? – perguntei docemente, com as mãos agarradas aos joelhos.
Estávamos sentados num montinho, nos arredores do farol. Estava escuro e a lua parecia muito maior do que de costume.
Éramos amigos há apenas alguns meses, e já muito implicantes um com o outro. Tanto que há poucas horas, havíamos brigado por qualquer bobagem. Vendo como eu ficara furiosa, ele me arrastou até o lugar que, de acordo com ele, era o seu favorito.
Não ficava muito longe das casas dos nossos pais, então fomos a pé. Era uma das coisas que eu simplesmente amava sobre o interior. Tudo era tão perto. As pessoas eram mais amigáveis. Eu me sentia em casa. Aquele era o meu lar.
— Desculpe-me por aquilo. – suspirou mais uma vez, olhando para frente. – Às vezes eu me esqueço de que você é só uma garota boba.
Sorri, fitando-o.
— E é assim que você pede desculpas?
Cruzei os braços.
— É. – falou secamente.
— Tudo bem... – passei um braço por cima de seu ombro. – Desculpa por ter gritado com você. E ter te chamado de idiota. E estúpido.
Ele riu.
— Alguma coisa me diz que você continuará fazendo isso.
Com uma mão, encostou minha cabeça em seu ombro e ficamos lá, com o olhar perdido no horizonte. Desde aquele momento eu soube que ele seria um grande amigo.
*Flashback off*
— Anna! – Mari bateu na porta. – Anda, ou a gente vai se atrasar! Tenho aulas importantes hoje. – gritou.
— Já vou! – respondi, enrolando-me à toalha.
Saí do banheiro e fui até o quarto pra me trocar. Mari esperava na cama, concentrada no celular apenas até me ver.
— Até que enfim! – exclamou ela. – E então, o chuveiro clareou suas ideias?
— O que você acha?! – sorri – Claro que sim, até cheguei a uma conclusão.
— Ah é? – animou-se. – E qual foi? Você o ama? Está planejando o casamento? Quero ser a madrinha, ein! Nada de escolher aquela Luana, foda-se se ela é sua prima. Ai, Anna, estou até vendo!
Seus olhos brilharam enquanto contemplava o nada.
Tossi instintiva e repetidamente.
— O quê?! Tá louca, Mari? – falei entre tosses, com uma mão no peito.
Ela cruzou os braços.
— Não? – perguntou decepcionada, caindo dramaticamente no sofá. – Já havia até pensado no nome do bebê. – queixou-se.
Ergui uma sobrancelha pra ela, soltando uma gargalhada em seguida.
Sentei-me ao lado dela, curiosa.
— Ah é? Qual? –
— Hum... Lurdes!
Fiz uma careta.
— Credo, Mari, a pobre da minha filha não vai nascer com oitenta e dois anos.
Mari bufou.
— Depois, que não vai ter casamento nenhum. – completei a informação.
— Não? – fez bico. – Mas eu queria tanto... Desde o dia em que o Luiz arranjou aquela namorada, a Patrícia... – revelou.
Olhamos para cima ao mesmo tempo, lembrando-nos da tal Patrícia.
—É. Ela era tão nojenta.
— E fresca. – acrescentou Mari.
Rimos juntas.
— Ainda não entendo o que ele viu naquela doida, sério. – prosseguiu. – Ela só me serviu pra duas certezas: um, Luiz é meio idiota quando se trata de escolher namoradas. Dois, você que é a garota perfeita pra ele.
Levantei-me, pensando a respeito.
— Mari... Você nunca falou tanta porcaria em toda a sua vida.
— Ai, Anna, sua teimosa... – falou entre um suspiro. – Mas, me conta, qual foi a sua conclusão?
— Amiga, o Luiz é um gostoso, você sabe.
Ela riu, concordando.
— Por acaso eu comecei a sentir desejo por ele, mesmo já tendo noção da sua gostosice há muito tempo.
— Espera! Você tá dizendo que tudo o que quer é apenas transar com ele de novo?
— Sim! E então, tudo isso vai passar, e voltaremos a ser bons amigos como antes.
Mari não parecia concordar muito com a ideia.
— Não sei não, Anna...
— Shh. É perfeito. Só preciso fazê-lo voltar a falar comigo.
— Só?! Do jeito que o Luiz é orgulhoso, bem capaz que ele não te perdoe tão cedo.
— Eu sei... Mas tenho um plano. Eu acho.
Mari abriu a boca pra falar algo, quando meu toque a interrompeu.
Arregalei os olhos. Corri para pegar o celular, que estava – por milagre – em cima da mesa. Surpreendi-me ao ver a foto na telinha.
— O que foi, menina? – Mari perguntou ao ver minha expressão.
Mostrei o celular rapidamente a ela, e em seguida atendi.
— Amor?
— Você já foi pra faculdade?
— Ainda não... Acabei de sair do banho. Por quê?
Marcelo ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você ainda tem tempo? Preciso falar com você.
Havia algo estranho em sua voz, mas não reconheci o que era.
— Claro. Aconteceu alguma coisa?
— Estou chegando aí.
E desligou.
— Mas que porra foi essa? – resmunguei para o aparelho.
— O que houve? – perguntou Mari, preocupada.
— Não sei, ele não me disse. Só disse que estava vindo aqui.
— Eita! É hoje que rola as tretas, tuts tuts quero ver. – cantarolou, com direito a rebolados e tudo.
Era um assunto aparentemente sério, mas eu estava rindo. Eu tinha um imã que atraía gente louca, só pode.
— Mari! – balancei-a pelos ombros, lembrando-me de repente de um detalhe. – Será que ele descobriu sobre o Luiz?
Mari parou de rir.
— Será? – levou uma mão à boca.
— Droga. E agora? O que eu faço? – perguntei desesperada.
Mari olhou as horas no relógio e balançou a cabeça negativamente.
— Ai, amiga. Não sei se você percebeu, mas eu estou realmente louca pra saber no que isso vai dar. Porém, infelizmente, eu tenho que me mandar agora, nesse minuto. – suspirou inconformada.
— Caramba, Mari, você vai me abandonar? – choraminguei. – Ai... Tudo bem, vai pra aula. Eu te encontro lá.
— Mas espera, como você vai? – perguntou enquanto era arrastada até a porta.
— Peço pro Marcelo me deixar. Vou de ônibus, sei lá. Você está atrasada, tchau.
Abri a porta pra que ela saísse. Mari havia deixado o portão aberto quando chegou.
Demos de cara com Marcelo. Um punho fechado no ar prestes a bater na porta, e um olho roxo.
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