Toc - 2
4 4- Tornado
Cap. 4-
Quando voltamos para casa, Dot me abraça e pede desculpas. Estão todos jogados pelos sofás, mas pelo menos o vidro (e o sangue) foram limpos.
— Meu deus, são as férias da praia mais uma vez! — grito quando me deparo com aquela cena, lembrando de um acontecimento similar que ocorrera há alguns anos. — Levantem! Vamos sair para almoçar!
— Lily, você quase nos mata de preocupação, nos faz ficar de pé, e ainda quer que nós saiamos com você. Tão inocente, a pobre… — Taylor resmunga irônico do sofá, os pés sobre o colo do marido, que parecia bem menos “ressacado”, virando para mim e revirando os olhos.
— Vamos lá, pessoal. Amanhã vocês dois vão para casa.
— Tá bom, Lilianna. Vamos.
Todos se levantam e vão se trocar. Alguns minutos depois, estamos sentados em um restaurante perto dali. Queria aproveitar ao máximo meu tempo com aqueles dois, mesmo que Taylor ainda estivesse meio mal-humorado.
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— Lily, temos que ir para a Flórida. Agora. — Fazia um mês desde o meu aniversário e já estava morrendo de saudades dos meninos quando Danny entra correndo no apartamento. Dot ainda estava na escola. Tiro os olhos do livro e o encaro – Ligue a televisão.
Ele parecia tenso. Aperto o botão do controle e a tela do aparelho logo se acende, direto no noticiário. Danny senta ao meu lado. Chego mais perto dele, tocando seus ombros enquanto tentava me concentrar nas notícias como ele.
Um tornado. Na nossa cidade. Dos grandes. As imagens mostravam as casas destruídas, e tento a todo custo reconhecer algum lugar. Minhas mãos tremem enquanto disco os números. Espero alguns toques, já praticamente chorando.
— Alô? — alguém finalmente atende.
— Mãe! — ouço minha voz embargada, mas não há nada que possa fazer- céus, fiquei tão preocupada! Tudo bem com vocês? Alguém se machucou? E os bichos? E a casa?
— Acalme-se, filha. Está tudo bem conosco. Nada foi perdido. Recém passou por aqui, já saiu da cidade – Danny também falava com alguém no outro cômodo, mas não conseguia ouvir o que ele dizia ao telefone – Aliás, perdemos algumas telhas aqui em casa e algumas janelas no consultório, nada de mais. Já liguei para os Mc.Cullen também, tudo bem. Só falta ligar para os Lisset. Daniel já ligou?
— Acho que recém desligou. — caminho até o quarto, abrindo a porta devagar e o encontrando sentado na beirada da cama, olhando fixamente para o chão, sem mexer um músculo. — Mama, posso te ligar depois?
— Claro, amor. Beijão. A mãe e o pai te amam!
— Amo vocês. Beijo.
Desligo o telefone, o atirando para o lado. Toco as costas dele. Nada. Não acho nem que esteja respirando. Passo para a sua frente, perguntando o que tinha acontecido. Tinha que ser algo de muito ruim.
— Danny? Danny? O que foi? — estava praticamente gritando, e nem mesmo seus olhos se mexiam. Eu não sabia o que fazer, porque a falta de movimento do seu peito estava me apavorando. Agarro sua cabeça com as mãos e a puxo para cima, o obrigando a olhar para mim. Parece funcionar.
Ele afasta o rosto. A falta de movimento de antes foi compensada com uma agitação nervosa. Ele dá voltas pelo quarto, mudo. Seguro seus braços, o fazendo parar e falar comigo.
— Calma. O que houve? — o faço sentar. Parecia que ele iria chorar. — Me conta, por favor.
— Eu liguei pra casa, e a minha mãe estava desesperada, porque Alice…- sua voz falha por um instante – Alice tinha saído de casa. Tem muitos escombros ali perto. E ainda não tem nenhum sinal dela.
É suficiente para as lágrimas escorrerem de seus olhos, e dos meus também. Ele deita a cabeça em meu colo. Acaricio seus cabelos. Não tinha nada para dizer. Ouço o barulho da porta batendo e a voz desesperada de Dot ao telefone. Ela abre uma fresta da porta e espia ali dentro. Sinalizo com a cabeça para que saia, e ela o faz sem perguntar.
— Ei, eles vão achar ela, tá bom? Ela deve estar com alguma amiguinha. — ele assente, ainda escondido no meu peito.
Um pouco mais tarde, estamos os dois no aeroporto. Estava ridiculamente frio. Eu tremia mesmo debaixo de camadas e camadas de lã, mesmo enrolada nos braços de Daniel. Depois do que parecem horas, chamam nosso voo. Sento na janela. Não sei como vou parar em pé quando chegarmos, uma vez que estava acordada há vinte e quatro horas, sem contar as que passaríamos dentro do avião.
É claro que meu companheiro de viagem dorme em minutos, logo que as aeromoças entregam cobertores e travesseiros. Eu até tento, mas é perda de tempo. Assisto a alguns episódios de uma série qualquer até que finalmente chegamos.
É só sair do aeroporto que já podemos notar a intensidade. O táxi passa na frente da Honoria, nossa antiga escola, agora com o vasto estacionamento entulhado com árvores caídas e restos de construções arrastados pelo vento.
Na Europa, estava congelando, mas na Flórida a temperatura estava um pouco mais amena, ainda que gelada. Morávamos na cidade mais fria do estado. O motorista me deixa em casa primeiro. Me despeço de Danny, peço que ligue e saio do carro. Abro a porta de casa com a chave, encontrando meus pais sentados no sofá, assistindo televisão.
— Oi! — corro para abraçá-los, acariciando os cachorros que não param de pular em mim. — Tudo bem?
— Oi, filha! — minha mãe se levanta e me puxa para si.
— Oi, meu amor – papai beija minha testa com carinho assim que minha mãe me solta. Sentamos todos no grande sofá da sala para conversar. Conto (quase) tudo que andava fazendo ultimamente. Como nada grave acontecera a eles, não perdemos tempo falando de tragédia.
Ainda que eu adorasse a companhia dos meus pais, e falar com eles estava até me ajudando a relaxar, não conseguia deixar de prestar atenção a qualquer mísero barulho de celular. Eu estava muito preocupada com Alice. Apesar dela não ser minha irmã, tinha muito carinho por ela.
Estou morrendo de sono, então, depois de ligar trezentas vezes para os Lisset e não ser atendida, resolvo ir me deitar.
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