Quando amanhece, já acordo agradecendo aos céus por termos trancado a porta. Dot está me chamando, esmurrando a madeira com tanta força que acho que vai abrir um buraco ali. Estou completamente nua, assim como Danny, que ainda dormia ao meu lado. Jogo um lençol por cima dele e procuro algo para cobrir o corpo. Encontro minha camisola atirada no chão. A visto por cima de nada e abro a menor fresta de todas, ficando cara a cara com a minha amiga.

— Bom-dia, dorminhoca. Já são dez horas, e preciso que você acorde o seu namorado para podermos sair- Dot empurra a porta na minha cara. Suas bochechas ficam vermelhas e ela cobre os olhos com as mãos ao se deparar com Danny seminu deitado na cama. Ela se vira e sai do quarto, rindo alto. Fecho a porta e vou atrás dela – mas você, hein, Lilianna. Sabia que tinha ouvido algo de noite…

— Cala a boca, Dot. Você faria a mesma coisa!

— Não nego. Só tentem ser silenciosos na próxima. Não preciso ficar imaginando.

— Meu deus! Vou te dar fones de ouvido, então. Agora, se me dá licença, vou fazer minha tarefa e acordá-lo. Se veste.- viro as costas e entro no quarto mais uma vez. Pulo na cama ao lado de Danny. — Bom-dia!

— Oi, Lil – eu adoro sua voz de sono. — Que horas são?

— Dez e pouco. Vamos?

— Tô indo. — ele levanta, veste uma bermuda e vai para o quarto. Coloco uma roupa decente e vou esperar na sala com Dot.

O dia passa rápido. A cidade é bonitinha e o sol brilhava, mas mesmo assim o vento era meio frio. Como acordamos tarde, não aproveitamos muito. No dia seguinte, iríamos a Londres. Estava ansiosa para ver Anelise, e claro, o bebê.

Quando chegamos lá, temos uma pequena dificuldade de encontrar o prédio. É uma construção bonita e chique, e acima de tudo, enorme. Subimos de elevador até o hall todo branco entre os apartamentos. Batemos na porta e quem atende é a própria Anne, em toda sua glória.

— Lily! Dotty! Que bom ver vocês! — ela nos abraça, animada- Entrem, entrem! Aguardem um momento, vou buscar alguém que quer muito conhecer vocês- ela some por alguns segundos no apartamento, e reaparece com uma menininha nos braços- Meninas, essa é a Emma. Emma, estas são a tia Lily e a tia Dot.

A menina é linda. Seus cabelos, já longos e encaracolados, são escuros como os da mãe, contrastando com a pele clara e os olhos tão verdes que pareciam folhas nas árvores. Era a cópia perfeita de Anelise.

— Meu deus, Anne, ela é linda! — chego mais perto, de joelhos sobre o quebra-cabeça de EVA – E igual a você!

— Não é? Todo mundo diz isso. Acho que deixa o Jasper louco de ciúmes, mas fazer o quê.

A criança é muito sociável. Depois de alguns minutos de timidez, já está gargalhando nos nossos braços. Olhando para Anne naquele momento, diria que, mesmo que tenha sido um “acidente”, Emma fora a melhor coisa que acontecera para ela. E acho que ela concordaria. Durante a longa conversa que tivemos depois que a pequena dormira, ela disse que, embora tenha sido muito cedo e difícil, ela não se arrependia nem um pouco de ter ficado com a filha.

Era estranho pensar que ela tinha apenas dezenove anos e lidava com aquilo tudo. Era a minha idade, e eu não sabia o que faria se ganhasse um filho assim, do nada. E olha que Emma já tinha dois anos.

Passamos apenas uma noite com elas. Jasper estava viajando naquele dia, e Anne teria uma reunião. Dot ficaria de babá por um dia, coisa que eu adoraria fazer, mas precisava ser educada e dar o ar da graça na casa da senhora Lisset, mãe do pai de Danny. Acho que meio que esqueci que teria que fazer isso, pois aparentemente não pus nenhuma roupa apropriada na mala. Na cara dura, pego um vestido de lã preta da mala de Dot e combino com as botas que estava usando. Acho que aquela era a única parente de Danny que eu não conhecia, e queria causar uma boa impressão.

Encontro o endereço com facilidade, já que não era muito longe do apartamento de Anelise. É uma casa enorme, como eu esperava, cercada de jardins. Toco a campainha, e ouço o som ecoando pelas paredes. Escuto passos apressados do outro lado. Uma mulher ainda mais baixa do que eu abre a porta e me manda entrar. Ela me guia por longos corredores, muito bem decorados com móveis e pinturas antigos. Finalmente, ela para na frente de uma sala aberta e cercada por janelas.

— Senhora Lisset, visita para a senhora.

— Ah, sim. Obrigada, Laurel. — a moça assente e vai embora, sumido nos corredores imensos. Sentados à mesa, estão Danny, de camisa de botão e gravata, e sua avó, que era assustadoramente parecida com o neto. O que tinha naquela família que só saía gente idêntica? A senhora faz sinal para que eu me aproxime. Obedeço rápido, porque estou tremendo de medo.

— E quem seria você? — seu sotaque é forte e soa elegante.

— Essa é a Lily da qual estava lhe falando, vó.

— Prazer, senhora Lisset – dou um sorrisinho amarelo, porque a cara dura da mulher não parece muito satisfeita.

— Ah. Essa é a tal? E por que está vestida assim? — o que tem de errado com as minhas roupas? Tá que eram de Dot, e estavam um pouco grandes, mas eram de ótimas marcas! — você não dá roupas para a moça, Daniel? Onde já se viu uma dama sair na rua assim?

— Não há nada de errado nas roupas dela, vovó.

— Claro que há! Chega mais perto, Lilian- me aproximo, nervosa. Olho de relance para Danny, que não poderia estar mais constrangido- Filho, olha que magrela! Ah, meu netinho, você poderia ter escolhido melhor, não acha?

— Vó! Para com isso!

— Mas, meu amor, olhe para esse rosto. É muito comum. Dá para achar iguais a esta, e mais bem-dotadas. Querido, um rapaz bonito e rico como você não pode sair com gente desse nível. O que você viu nela, afinal?

— Tudo o que eu procuro, e até mais.

— Ah, entendi. É porque ela também é…- a senhora abaixa o tom de voz, faz uma cara meio envergonhada e sussurra algo no ouvido do neto, que se afasta rapidamente. Noto com facilidade que ele está furioso, mas mantém o tom de voz o mais polido possível.

— Não! Vó, isso é ridículo. — ele parece enojado. Estou quase sentando em uma das grandes cadeiras da mesa, só esperando pela próxima patada.

— Faz sentido. Ou então Lilian é uma interesseira qualquer. E muda, ainda por cima!

— Meu nome não é Lilian.

— Oh! Ela sabe falar. Qual é o seu nome, então?

— Lilianna.

— Mesma coisa. Filho, encontre alguém à sua altura antes de vir me apresentar outra qualquer dessa.

— Vó, para com isso. Ela não é interesseira, não precisa de dinheiro dos outros. Nem é muda, e definitivamente não é uma “qualquer”. Se tem algué que podia ter escolhido melhor, é ela.

— Isso não muda nada. Ainda acho que essa menina é uma vagabunda aproveitadora. — meus olhos não poderiam ficar maiores. Aquilo era surreal. O que eu tinha feito de errado? Era tudo só porque tinha esquecido as roupas?

— Isso é extremamente deselegante, vó. Está ofendendo tanto a ela quanto a mim. Lily não é interesseira, pergunte o seu sobrenome.

— Qual seria o seu sobrenome, Lilian?

— Sollberger ou Vogelmann?

Parece que a senhora viu um fantasma. Acho engraçado e quase começo a rir, mas julgo muito inapropriado para aquele momento de tensão. Quero muito sentar em algum lugar, mas acho que não vai rolar. Ficamos alguns minutos ali parados, Danny encarando a avó, que encarava o bolo no centro da mesa, enquanto eu olhava para todos os cantos, tentando segurar as lágrimas e a risada.

— Posso falar com você a sós, Daniel? — é tão do nada que levo um susto. Ele assente e os dois levantam. Será possível que vão me deixar plantada de pé? — Sente-se, Vogelmann – ah, o meu sobrenome ela sabe, né? Sento na cadeira estofada, sentindo minhas costas relaxarem. Os dois se retiram e quase rezo para que falem baixo. Não tenho nada para fazer, então estudo cada detalhe dos arabescos complexos das janelas. É bonito, como tudo naquela mansão. Como não tenho sorte, logo ouço gritos irritados do cômodo ao lado. Faço o meu melhor para não entendê-los. Decido contar silenciosamente até quinhentos, bem devagar. Consigo completar duas vezes antes de Danny aparecer do nada, meio vermelho, sendo seguido de perto por sua avó.

— Vamos, Lily! — ele fala, bravo, praticamente me arrancando da cadeira. Levanto e o sigo, tentando acompanhar suas passadas longas.

— Daniel, espere um pouco!

— Não. Me procure quando souber respeitar a mim e aos outros!

Ele abre a porta, me puxando para fora com ele. Queria avisá-lo que a minha malinha tinha ficado dentro da casa. Não é necessário, pois Laurel aparece a carregando segundos depois. Ele segura a mala pela alça e caminhamos rápido demais até uma praça bonitinha.

— Me desculpe por isso, Lily – ele se joga num banco, atirando a cabeça para trás e esfregando os olhos com as mãos. — não sei o que deu nela.

— Ei, tudo bem – puxo seus cotovelos para baixo, também me sentando. Ele se endireita no assento e olha para mim, meio frustrado. — tudo bem?

— Tudo. Não acredite em nada do que ela diz, tá bem? É tudo mentira. Você é muito mais do que eu mereço, tá? Ela adora entrar na cabeça das pessoas. Não deixe. Você não acreditou, né?

— Não – ele me olha como se soubesse que estava mentindo. Reviro os olhos – só em algumas partes.

— Ela não sabe do que fala, Lil. — ele me abraça de lado, me puxando para perto. Deito a cabeça em seu ombro, ganhando um beijo na testa – não sabe de nada.