Por que essa era a pior situação possível? Um: as asas de Kaique eram um ponto muito frágil em seu corpo. O mais frágil! Se a mínima batida, se apenas ao puxar uma pena, já doía extremamente, imagina a mordida de um zumbi? Segundo: Não, Kaique não ia virar um zumbi. Aqui na cidade de Gousti nenhuma pessoa se transformava caso fosse mordida por outra criatura. Mas a mordida de um zumbi era algo diferenciado nesta cidade, e poucas pessoas já tinham sentido (já que os zumbis tinham cérebros frescos em casa e não precisavam sair mordendo por aí), ao morder algum saia um líquido roxo do local mordido e a dor era excruciante.

Automaticamente, Kaique desmaiou. Pedro ria e percebia-se por seus olhos que ele estava dominado pela loucura. Ele chutou Kaique pela cachoeira, que caiu com um forte estrondo lá embaixo. Em seguida ele pulou, como se nada tivesse acontecido.

...

Ao chegar na água Pedrou meteu o louco e fingiu que nada tinha acontecido. Os outros meninos estranharam porque Kaique tinha caído na água de uma maneira muito estranha, bateu muito forte na água e ainda não tinha retornado para a superfície. Todos estavam preocupados e então Lucas pulou na água rapidamente. A água ficou roxa por um instante, com a transformação da sua cauda. Ele nadou e todos o perderam de vista. Em alguns instantes, ele voltou e trouxe Kaique nos braços. Com as asas ainda abertas, molhadas e moles (como se estivessem machucadas). Lucas nem se importou que alguém pudesse vê-lo com sua cauda, só pensou em salvar Kaique.

Estavam todos em volta deles, quando Jessie chegou correndo, desesperada. Marcabeth vinha logo atrás dela.

— Kaique!!! Pelo amor de Deus, o que aconteceu? – Jessie gritava, desesperada.

Eles explicaram que ninguém sabia o que tinha acontecido. Jessie passou rapidamente os olhos pelo corpo de Kaique para ver se estava tudo no lugar. Quando ela olhou para a asa ela viu uma mordida. As pessoas que passaram por sua cabeça foram Douglas, Miguel, Alexandre e Pedro, os únicos que podiam ter mordido ele. Mas logo ela percebeu um líquido roxo e soube que foi Pedro, já que só podia ter sido uma mordida de zumbi. Ela olhou para Pedro e notou que sua expressão de “preocupação” era um tanto quanto falsa. Para não alarmar ninguém, principalmente Marcabeth, ela resolveu não contar sobre a mordida e sobrou as asas de Kaique, de uma forma que não machucasse ele mas que também ninguém poderia ver a mordida.

— Ele precisa ir pro hospital. – nesse momento as outras meninas do grupo chegavam, correndo. Marcabeth e Jessie tinham corrido na frente tão desesperadas que ninguém conseguiu acompanhá-las e ainda as tinham perdido de vista. – É melhor eu levá-lo, acho que voando é mais rápido.

— Eu te ajudo. – disse Alexandre. Ele criou asas nas costas.

— Eu também. – falou Júnior, abrindo suas asas, que não eram tão grandes quanto as de um anjo, porém ele também conseguia voar rápido.

Os três pegaram o corpo imóvel de Kaique e se prepararam para levá-lo. Antes de voar, Jessie deu uma longa encarada em Pedro, para demonstrar que ela sabia quem era o culpado. Ele fez uma expressão impassível.

Júnior, Alexandre e Jessie saíram voando com o corpo de Kaique.

...

Como as meninas tinham aparecido do nada? Por algum motivo as meninas do Bem tinham decidido caminhar no parque hoje. Aluria decidiu chamar as amigas Más, que se recusaram a ir. Mas Jessie falou que estava a fim de espairecer depois da faculdade e que mesmo se as outras duas não fossem, ela ia sozinha com as Boas. Por fim, todas foram.

Elas andavam pelo parque, meio afastadas, quando viram a multidão de meninos. Automaticamente reconheceram seus amores/frustações/namorados/crushes. Estavam todos juntos e elas não entendiam como ou porque.

Elas se afastaram e continuaram caminhando pelo parque, tentaram agir como as antigas amigas que eram, apesar de não funcionar muito bem. Por fim, elas passavam pela cachoeira, quando viram que os meninos iam fazer um campeonato.

— Óbvio que meu boy vai ganhar. – disse Jessie, bem baixinho.

— Óbvio que meu irmão e eu acabamos com todos vocês juntos num piscar de olhos. – disse Luisia.

Todas concordaram e elas decidiram sentar no chão e assistir ao campeonato dos meninos, de longe. Tudo ia muito bem, até que Kaique caiu de uma forma completamente desengonçada na água. Luisia levantou na hora, pois ela sentiu que aquela queda não podia ter feito bem. Jessie já estava no ar quando deu por si e Marcabeth estava correndo. Todas correram atrás delas, mas como estavam um pouco distante da cachoeira, demoraram alguns minutos para chegar. Não tinham visto o que Pedro fez, só viram que ele pulou logo em seguida.

Então Jessie e Marcabeth chegaram e viram o corpo de Kaique, desacordado.

...

Enquanto os três voavam com Kaique, eles tentavam entender o que tinha acontecido na queda. Perguntaram para Pedro, já que ele era o último lá em cima, o único com Kaique.

— Acho que ele escorregou. – Pedro disse. Marcabeth estava tão nervosa que nem conseguia ouvir o que Pedro falava, ele achou melhor não ir consolá-la porque seria muita hipocrisia (e ela eventualmente descobriria que foi ele o culpado da queda). Penton notou que ele mentia, o olhou procurando por reações. Pedro não a olhou de volta. Matheus encarou os dois seriamente. Ficou nervoso e começou a tremer, mas Caio o ajudou a manter a calma. Então ele chegou perto de Penton e pegou em sua mão (só ela conseguia acalmá-lo) e ela não se afastou.

Aluria ficou numa certa distância. Ela via que Caio estava sendo um ótimo amigo para Matheus e gostava verdadeiramente disso. Ele chegou perto e eles conversaram um pouco. Miguel se afastou dos dois.

Luisia correu para os braços de Douglas. Os dois se abraçaram e beijaram e conversavam, preocupados. Luisia olhava para Ricardo, que estava sozinho em um canto. Ela sentiu pena dele, mas achou que seria desagradável deixar seu namorado para ir conversar com um boy que ela já pegado várias vezes e ela não escondia de ninguém que achava maravilhoso... Ela achou melhor ficar na dele e torceu para que alguém fosse falar com Ricardo.

Mostich, Veliria e Lucas conversavam preocupados. Seus amores tinham saído voando para ajudar Kaique e agora só restava encontrá-los no hospital e torcer para tudo dar certo.

Mostich viu Joaquim mas não foi conversar com ele. Na verdade ela nem sabia se ele lembrava dela. Ela o observou de soslaio e ele também olhou para ela, fixamente.

Veliria reparou em Rafael. Ele veio conversar com ela e eles trocaram algumas palavras. Surpreendentemente, ele não foi grosso nenhuma vez. Acho que ele sabia que não era momento pra isso. Mas ele comentou que estava realmente surpreso que ela fazia parte daquele grupo, já que ele tinha ido parar ali por acaso.

Lucas estava preocupadíssimo com Jessie. Eles não estavam mais juntos mas tudo o que ele queria era estar com ela agora, apoiando-a. Ele sabia o quanto ela era ligada no irmão e o quanto aquilo devia estar acabando com ela. Uma lágrima caiu de seus olhos, tamanha era a preocupação.

Marcabeth tentava ser forte. Eduardo chegou perto dela, segurando em sua mão e tentando acalmá-la. O fato de Jessie estar tão nervosa ele entendia, já que Kaique era a família dela, mas por que Marcabeth estava assim? Ela tremia e se segurava para não chorar. Eduardo não sabia que ela era apaixonada por Kaique. Marcabeth deixou ele segurar sua mão, que parou de tremer um pouco, mas ela só pensava em Kaique e em quanto precisava saber se ele estava bem.

Roberto estava confuso. Quando ele viu Jessie chegar voando, linda e maravilhosa, pegar o corpo daquele moleque metido (que agora que ele tinha se ligado, tinha asas! Portanto, só podia ser irmão dela) e sair toda preocupada para levá-lo pro hospital, tinha vários “que porra é essa?” “o que caralhos está acontecendo aqui?” se passando por sua cabeça. Nem ler a cabeça de ninguém ali ajudaria ele a entender. Foi uma baita coincidência ele encontrar esse grupo, e ser justamente dos amigos da Jessie. Quando as meninas chegaram correndo, ele viu aquela loira de roupas rosas que ele tinha beijado na festa semana passada... E tudo começou a fazer sentido. Ela era amiga da Jessie, só podia ser ela que tinha crush nele! Ele ficou feliz, porém momentaneamente preocupado com ele. Ele não dava a mínima para o moleque estirado no chão, mas se ele realmente era irmão da Jessie, ela ia estar péssima e provavelmente precisando de um ombro amigo... Ou algo mais. Ele sorriu.

...

Júnior e Alexandre conversavam, preocupados. Jessie tinha entrado na sala junto com Kaique. Júnior soltava brilhinhos vermelhos pelo corpo, tamanho seu nervosismo. Ele pensava em Veliria lá longe, sentia falta dela agora. Alexandre já tinha retornado a sua forma original, sem asas. Ele pensava em Mostich, que também devia estar morrendo de preocupação. Os dois queriam ver suas namoradas, suas irmãs e seus amigos. E principalmente queriam notícias de Kaique.

Jessie saiu da sala do médico, secando o rosto.

— Novidades, Jess? – disse Alexandre.

— Ele tá bem? – falou Júnior. – Conta logo, pelamordedeus!

— Ele está razoavelmente bem. Sua asa está um pouco machucada mas com o tempo vai curar. Ele deve acordar amanhã. – ela suspirou e limpou outras lágrimas que caíam. – Obrigada pela força, manos. Podem ir pra casa agora e depois eu dou notícias.

— Mas... eles não sabem o que aconteceu? — perguntou Júnior.

— Pois é, será que ele realmente caiu sozinho? Ele teria que ser muito desastrado né! – disse Alexandre.

— Eles sabem sim... – Jessie respondeu. – Eu já tinha as minhas desconfianças, mas o médico confirmou. Ele levou uma mordida.

— Cacete meu... Mas então só pode ter sido o... – exclamou Alexandre.

— Sim, o Pedro. Foi uma mordida de zumbi, o resquício de líquido roxo na asa dele confirmou. E também Pedro era a única pessoa com ele naquele topo de cachoeira, só ele poderia ter feito algo. Mas quando eu pegar esse moleque...

— Foi o Pedro? – disse uma voz vinda da entrada do hospital, que eles reconheceram ser de Marcabeth. – Eu ouvi direito, você disse que foi o Pedro?

Todas as meninas foram até o hospital. Veliria e Mostich correram para abraçar seus namorados/irmãos. Todos os meninos tinham se separado, cada um ido para um canto. Com exceção de Lucas, que tinha ido com elas.

Lucas foi em direção de Jessie, para mostrar seu apoio. Ele a olhou com aquele olhar firme que só ele dava e pegou em sua mão. Marcabeth tremia de nervoso. Penton também não estava exatamente bem.

— Então Marc... eu desconfiei lá no parque. Vi uma mordida com líquido roxo. Só pode ter sido ele.

— Só pode ter sido ele. Eu não acredito nisso. Eu não acredito que ele faria algo assim... – Marcabeth colocava as mãos no rosto, desesperada. Luisia e Aluria estavam do seu lado, tentando acalmá-la. Penton socou uma mesa.

— D-desculpa. É só que... eu to bem surpresa. E eu não tô- não tô muito bem.. – Penton caiu no chão, desmaiada. Por sorte elas estavam em um hospital, então logo conseguiram acordá-la. Marcabeth tomou calmantes e tinha parado de tremer.

Jessie avisou que Kaique ia acordar amanhã e não adiantava que todos eles ficassem ali a noite toda. As meninas foram para casa... Marcabeth foi para a casa de Penton, as duas consolando uma a outra, mas óbvio que Marcabeth estava pior.

Ninguém pensava em confrontar Pedro no momento, só queriam o bem-estar de Kaique.

Lucas ficou com Jessie no hospital.

...

Quando já era madrugada, um grupo de 5 homens com roupas lilás caminhavam pelas sombras. Na frente, estava seu líder, Jhonatan. Eles foram até a casa de Pedro e Marcabeth e entraram, sem incômodo algum.

Pedro dormia no quarto e Jhonatan pediu para os seus companheiros o esperarem na sala.

Ele subiu e chutou a cama de Pedro, que acordou assustamente, mostrando os dentes e seus olhos vermelhos transformados.

— Quem diabos é você? Que porra você tá fazendo na minha casa? – seus olhos voltaram ao normal. – Por que você é tão velho?

— Ótimas perguntas, meu caro. Apenas duas delas serão respondidas no momento. Só queria te informar que eu estava de olho em você hoje e vi o que você fez.

— Ai, lá vem o sermão... – disse ele, colocando o travesseiro sobre o rosto.

— Nananinanão. Muito pelo contrário. Vim te dar os parabéns.

Pedro se surpreendeu. E se interessou na conversa pela primeira vez.

— Sério? Hum... tá.

— Eu fiquei muito contente com suas atitudes hoje. Achei que seu grupo todo estava perdido, mas a ideia de juntar todos em um passeio e sair por aí foi ótima. Não foi sua, é claro. Mas Kaique também tem seus méritos. E depois disso... Muitas ameaças são feitas no seu grupo mas nenhuma é cumprida. As pessoas são Más mas não tem atitudes que condizem com o grupo, ai ai... – disse Jhonatan, revirando os olhos. Como se ele tivesse essa mesma conversa mil vezes por dia. – Mas agora, você me surpreendeu garoto! Adoro quando cartas novas entram no jogo. Você desencadeou algo no grupo, as atitudes de cada um daqui pra frente irão nos surpreender... E tudo graças a você, meu querido Pedro!

— Eu estou bem confuso hehe mas acho que foi daora da minha parte né? Mas enfim, é isso ai. Agora vou ficar mais sozinho do que nunca, já que meu grupo todo vai se afastar. Pelo menos ninguém mais vai atrapalhar meus filmes querendo sair de rolêzinho...

— Não! Seu grupo não vai te desprezar. Relaxa que eu cuido disso, rs. Só vim aqui te parabenizar. Se você continuar com essas atitudes surpreendentes você com certeza vai se dar muito bem por aqui, Pedro. – Jhonatan se levantou da cama.

— Espera... e quem é você? Como é seu nome?

— Olha, falha a minha! Você não me conhecia ainda, eu esqueci. Eu sou o Jhonatan. Representante da Base. Acho melhor você não comentar com ninguém nossa conversa, eles reagiram melhor se tudo for uma grande surpresa... Tenha uma boa noite.

Jhonatan caminhou até a porta do quarto e saiu, Pedro foi atrás dele mas ele já tinha sumido da casa.

...

Os 5 homens se dirigiam agora para o hospital.

— Leny, peça para que todos no hospital durmam. Exceto Kaique Carvalho, esse eu quero que eles acordem.

Leny fez um telefone e antes deles chegarem no hospital, um gás tinha sido expelido por toda a construção. Todos estavam dormindo, eles viram Jessie e Lucas dormindo abraçados no sofá. Jhonatan olhou longamente para Jessie e depois seguiu sozinho para o quarto de Kaique.

— Olá, olá. – ele disse abrindo a porta com um chute.

Kaique estava com os sentidos bagunçados, já que tinha acabado de acordar.

— Quem está ai?

— Apenas Jhonatan, o representante da Base. – Kaique engoliu em seco. Nunca ninguém importante tinha falado com ele e ele sabia – mesmo estando meio grogue – que se tinha um dos fodões ali falando com ele pessoalmente era porque o lance era sério. – Você vai ficar bem em breve, relaxa. Essa mordida que você tomou tem uma cura simples, eles já têm aqui no hospital há muito tempo..

Kaique o olhava, curioso.

— Precisamos ter uma conversa séria. Você não pode acusar o Pedro pelo que ele fez.

— O quê? Por quê??? Ele me atacou sem motivo aparente.

— Não importam os meus motivos. – ele olhou sério para Kaique, que se assustou e se encolheu. – O que importa é que eu não quero que os seus amigos o desprezem e é exatamente isso o que vão fazer se souberem que ele te atacou sem motivo. Inventa alguma coisa, diga que o provocou, diga que estavam brincando e ele caiu ou sei lá, só não deixe jogarem a culpa nele.

— Eu não estou entend...

— Caso você não tenha entendido, é uma ordem. Uma ordem direta da Base e haverá consequências sérias se você não segui-la. – Jhonatan sorriu amigavelmente. – Não estou pedindo para vocês se relacionarem, você nem precisa falar com ele nunca mais se quiser, mas os seus amigos, principalmente Marcabeth, Penton, Jessie.... tem que interagir com ele. No futuro você saberá porque.

Kaique balançou a cabeça, concordando.

— Espero que você tenha entendido. – ele chegou perto da asa mordida de Kaique, a olhou com curiosidade e colocou as mãos em cima do machucado, mostrando que era só fechá-las e Kaique sentiria uma dor tremenda. Kaique se remecheu na cama, com medo. – Ninguém precisa sair machucado.... É só você obedecer, certo? J

— Sim senhor.

— Ok então, boa noite. Amanhã você estará beeem melhor. Tenho certeza que o hospital vai te atender como um príncipe, eu mesmo garanti isso. Pena que não posso conversar mais... Até breve, Kaique. Ainda tenho várias visitas similares para fazer esta noite. – Ele deu um sorriso calmo, que era assustador. Kaique congelou de medo até a espinha. Jhonatan saiu da sala cantarolando, calmamente. Se encontrou com seus homens no corredor e seguiram em direção à rua, para outra casa.