Notas iniciais
Outra one shot escrita há um bom tempo atrás. Gostei de como ficou a narração e apesar de tão curta e personagens sem nome realmente foi uma das melhores coisas que já escrevi. Está aí para quem quiser ler.

— A cerimônia vai começar em pouco tempo, eles podem sentir nossa ausência. — um homem disse com a voz rouca por entre os beijos que dava no pescoço esguio.

- Não se preocupe, é tradição a noiva se atrasar. — a mulher disse com um sorriso satisfeito enquanto abraçava-o, tomando cuidado para não amassar o longo vestido.

Aquelas palavras ainda ecoavam em sua mente.

Por entre uma pequena fresta na porta, esquecida destrancada, ele vira a cena. E, no entanto, recusava-se a acreditar. O dia que deveria ser o mais feliz se dissolvera bem diante dele. Aqueles que trocavam carícias não eram seu melhor amigo e a que, em pouco tempo, seria sua esposa...?

Ficou parado diante da porta, completamente em choque. Não conseguiria descrever aquelas sensações que o preenchiam cada vez mais. A decepção era por demais sufocante, o ódio que começara a sentir daqueles dois, o ciúme quase doentio que ele pensava não ter. Eram como uma mistura, e perigosa.

Ouviu risos. Risos de prazer, risos quase alegres, risos que pareciam zombar dele. Eles estavam se divertindo muito, sem se importar se aquilo estava ou não ferindo alguém. Sentiu seu coração ser dilacerado por completo.

Naquele momento, não conseguia pensar em mais nada a não ser em se vingar daqueles que o fizeram de idiota, talvez por muito tempo. Levou as mãos à cabeça, tentando controlar os impulsos selvagens que estava tendo. Em vão.

Iludido por sua raiva, anestesiado pelo pensamento de que ambos deveriam pagar, tomado pela loucura, caminhava vagarosamente pelos corredores. Com as vozes ainda ecoando, dirigiu-se para o quarto que antes estivera se arrumando feliz. Entrou, já não havia mais ninguém lá.

Abriu a primeira gaveta da escrivaninha e após remexer alguns objetos, encontrou-a no fundo, onde a escondera. Com olhos vidrados, fitou-a reluzir à luz que entrava pela janela. Ela jamais lhe parecera tão atraente e indispensável.

Não havia contado a ninguém que mantinha aquela arma. Nem mesmo a ela, a mulher para quem nunca guardara segredos. Com a crescente onda de violência, tivera medo que algum marginal pudesse surpreendê-los um dia. Então a comprara para se proteger. Mas sua intenção agora era totalmente o contrário, e iria concretizá-la de qualquer maneira.

Saiu e voltou o mais rápido que pôde até o local que antes estivera observando o casal. Fitou-os pela pequena fresta novamente e apertou-a em sua mão. Não conseguiu mais se conter.

Irado, chutou a porta e esta bateu contra a parede, num estrondoso barulho. O casal parou e olhou-o surpreso. Em seu olhar brilhava uma intensa chama de ódio. Os dentes apertavam-se uns contra os outros e ele parecia rosnar baixinho. Observou-os se afastar e tentar ajeitar suas roupas. Diziam coisas do tipo “Não é o que está pensando.” ou “Posso explicar.”

Não, eles não podiam explicar. Eles não precisavam explicar. Já havia entendido tudo. Quando ela tentou se aproximar, arfante e com o rosto vermelho, sentiu-se enojado. Quantas vezes a amara sem saber que outro talvez tivesse feito isso um pouco antes...?

Gritou, com todas as forças que tinha. Um grito vindo do fundo dos seus sentimentos menosprezados. A noiva se afastou assustada. Ele levou novamente as mãos à cabeça, aflito. Estava completamente descontrolado, mas no fundo queria parar. No fundo, queria ser novamente enganado por ela e poder ser feliz ao seu lado.

Quando ela tocou seu ombro, com medo, novamente foi tomado pelo nojo. Acertou-lhe um tapa no rosto delicado e ela foi jogada para trás, chocando as costas contra o chão. O outro homem, que tentava manter a calma na situação, revoltou-se com aquele ato. Tentou investir contra ele, mas parou assustado.

Ele o tinha bem na mira e apontava-lhe a arma. Um tiro daquela distância seria fatal. Recuou alguns passos, engolindo em seco. A noiva levantou-se e se assustou com aquele objeto que ela não sabia onde ele poderia ter arranjado. Tentou falar com ele novamente, mas ele a interrompeu com outro grito.

O outro homem tentou novamente acalmá-lo, mas viu nos olhos verdes que ele não iria parar. Fitou a mulher mais uma vez, engolindo em seco.

Um disparo.

Sentiu a forte dor em seu abdômen e uma força que o impulsionou para trás. Um último suspiro. O corpo agora sem vida caiu com um forte baque no chão. O sangue banhava sua roupa e escorria pelo carpete.

A noiva gritou aflita ao ver aquilo. Tremia sem parar enquanto as lágrimas vinham aos seus olhos. O noivo apenas abaixou o braço e olhou o corpo com as mesmas emoções de antes. Depois de alguns segundos de um silêncio cortado por soluços, a jovem mulher pareceu voltar a si e levantou-se desesperada. Quando tentou correr para a porta, sentiu uma mão segurar-lhe o pulso e puxar-lhe para trás. Quase caiu ao pisar no longo vestido que usava.

Voltou seu olhar para seu antes noivo, e este lhe apontava a arma. O suor escorria pelo seu corpo trêmulo enquanto a olhava angustiado. Ainda a amava demais, mas o que fizera não poderia ficar impune, ele não deixaria que ficasse impune. Mesmo sob o olhar amedrontado, sob as lágrimas que continuavam a cair, o ódio falou mais alto.

Mais um disparo.

Logo que fora atingida, tudo que ela conseguiu fazer foi tentar recuperar o ar que lhe fugira dos pulmões, mas não conseguia. O pequeno orifício formado começou lentamente a derramar sangue. A jovem mulher caiu de joelhos com a mão sobre o peito, tentando impedir que o líquido escorresse, em vão. Ergueu o rosto e olhou-o mais uma vez, com dor, movendo os lábios numa tentativa de dizer algo. Mas logo seu corpo perdeu as forças e ela caiu, sem vida, sobre o próprio sangue.

Silêncio novamente.

Os olhos verdes contemplavam a obra que seu dono fizera. Tanto do líquido vermelho fora derramado que ele já tocava-lhe os sapatos. Aos poucos, a razão começou a voltar e aquilo foi sendo processado em sua mente. Naquele momento, não sabia discernir mais nada, não conseguia ver sentido algum. Continuava a olhá-la, imóvel, descrente no que fizera.

A arma escorregou lentamente de sua mão. Sua expressão era um misto de confusão e impassividade. Devagar, aproximou-se do frágil corpo ensanguentado e, num movimento delicado, apoiou-a em seus braços. Tirou uma mecha de cabelo de seu rosto e observou-a mais uma vez.

A expressão em seu rosto estava amenizada agora. Os olhos sem brilho pareciam vidrados e as lágrimas já haviam secado. Os lábios, com o batom vermelho manchado, ainda possuíam a natural sensualidade e a pele estava levemente quente. Era como se em uma boneca a morte tivesse lhe transformado. De certa forma aquilo lhe caíra bem. Mas logo sentiu um aperto em seu peito.

Observou o outro corpo caído cujo sangue ainda se derramava. Aquele que antes fora seu melhor amigo e que o traíra de forma amarga. Sim, ele sempre tivera má fama. Talvez a tivesse seduzido, fazendo-a acreditar que não era errado uma pequena aventura. Como queria acreditar nisso, acreditar que ela era a mesma inocente de seus pensamentos...

E mesmo tentando crer que aquela era a forma de ambos lhe pagarem, o arrependimento apenas crescia. Levou as mãos ao rosto em desespero, manchando-o mais ainda com a culpa. Por mais hedionda que aquela traição tenha sido, seu ato irracional fora pior. Fora uma violação à vida, ao amor que sempre jurara. Maculara as próprias mãos com algo que jamais pensara em fazer. E iria pagar cedo ou tarde.

Ouviu uma agitação do lado de fora. Provavelmente as poucas pessoas que os aguardavam no hall de entrada, e que ouviram os disparos. Sua aflição multiplicou-se. Sim, sua vida estava condenada agora. O que fizera jamais ficaria impune ou o deixaria em paz.

Então uma sombra de compreensão passou por sua mente. Só havia uma saída para ele, sim, apenas uma. Ele precisava, devia fazer isso. Um preço igual a se pagar pelas vidas que tomara e o sangue que derramara.

Aflito, apanhou novamente o revólver jogado e molhado pelo sangue. Encostou-o na parte de trás de sua cabeça, mas hesitou por alguns segundos. Tinha medo, muito medo da morte, mas sabia que ela ainda estava ali, esperando para levá-lo ao inferno também. E o peso insuportável em sua consciência não o deixava pensar em mais nada. Não podia mais esperar.

Apertou o gatilho pela terceira vez naquela noite.

Logo sua vida se esvaiu, e seu próprio sangue começou a jorrar abundante. Seu corpo tombou ao lado do de sua amada, deixando próximos seus rostos. Apesar do que passara, apesar das traições, havia ali um sentimento verdadeiro. Aquele sentimento os uniria novamente de alguma forma. Um elo tão forte não poderia ser quebrado nem mesmo pela morte.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!