Notas iniciais
Mais uma One-shot da diva da minha vida!!!
Espero que gostem. Boa leitura.
"Jesus receive my soul; O Lord God have pity on my soul."

Torre de Londres, Inglaterra. 19 de Maio de 1536.

Lady Rose não sabia como havia conseguido chegar ali. A execução não seria aberta ao público, e nem todas as pessoas estavam autorizadas a assistir. Talvez fosse porque ninguém imaginava que uma garota como ela pudesse atrapalhar em alguma coisa; Provavelmente seria por isso.

Estava mais frio do que o normal naquela manhã, e, apesar de ser um pouco mais de nove horas, o Sol ameaçava continuar escondido por entre as nuvens pelo resto do dia.

Ela – assim como era esperado do resto da Corte – havia se levantado mais cedo do que o normal, e a primeira coisa que fez quando sua criada adentrou o quarto foi ordenar que lhe preparasse seu vestido. Ela havia escolhido um modelo francês (já que ela não sabia quando teria a chance de vestir a moda francesa novamente depois desse dia), com a anágua verde musgo sob a saia e o corpete de mesma cor. O capelo, decorado com pérolas e safiras, segurava seu cabelo castanho trançado e repartido ao meio, e combinava com a dupla de colares que ela escolheu usar – um rente ao pescoço, e o outro descia até abaixo do seu colo. Era uma provocação, Rose sabia disso, já que todos conheciam o gosto pessoal da rainha por vestir verde e usar pérolas, mas ela iria à execução assim mesmo.

Por todos os lugares onde ela andava as pessoas estavam cabisbaixas, silenciosas e pesarosas. Não se viu sinal nem do Rei, nem de sua preciosa Jane Seymour, e para Lady Rose isso era muito bom, ela resolveu que não estava com paciência para aqueles dois hoje.

A Rainha também havia acordado bem cedo, pelo menos era o que diziam. Assistiu sua ultima missa e permanecera calada e calma toda a manhã (muito diferente de seu comportamento ora crises de choro, ora um silêncio aterrorizante dos outros dias). Lady Rose especulava sobre o que estaria passando na cabeça da mulher essas horas.

Agora, parada sobre o chão frio de pedra da Torre de Londres, ela apertou os braços ao redor dela para tentar amenizar um pouco do frio que sentia. A maioria das pessoas que passava por ali lançava olhares curiosos para ela, provavelmente por sua escolha ousada de roupa, ou até mesmo estavam curiosos do por que uma dama como ela estaria ali.

A multidão começou a se aglomerar na frente da Torre Verde, com um grupo de pessoas formando uma espécie de corredor ao redor da pequena porta de madeira na parede. Rose seguiu para onde a estavam empurrando, e quando viu estava espremida entre uma senhora gorda que assuava o nariz com um lenço e um homem alto e opulento que arranhava os dentes com as unhas. Ela suprimiu o enjoo em seu estômago e respirou fundo. Apoiada na ponta dos pés, Lady Rose se virou para a multidão calorosa atrás dela. Não mais do que cem pessoas estavam ali hoje, uma massa de chapéus empenados e capelos ingleses, todos ansiosos para o grande fim de Ana Bolena.

Fofocas e sussurros vinham de todo o lado até onde Lady Rose se encontrava, tornando o ambiente muito maior do que ele realmente era. Algumas conversas eram de como o dia estava frio demais hoje, já outras vinham de senhoras que comparavam o tamanho do seu anel com o da outra. Mas uma conversa em particular chamou sua atenção. O homem ao seu lado e o outro na frente dele falavam sobre a Rainha, mais especificamente sobre a escolha do carrasco que iria fazer o serviço.

– Dizem que a demora em o carrasco chegar foi o Rei se arrependendo do que fez com a Rainha. – O homem ao seu lado disse.

– Também ouvi essa estória. – O homem na frente de Rose respondeu. Ele era baixo, quase chegando à altura dela, e mantinha uma barba loura que cobria p quase todo o seu rosto. – E de que a escolha da Rainha de ser um carrasco francês e não um inglês foi só uma artimanha para conseguir tempo e tentar convencer Sua Majestade, o Rei, a mudar de ideia sobre a execução.

– Pois eu ouvi que sua escolha foi porque ''Uma Rainha da Inglaterra não curva a cabeça para ninguém e em nenhuma situação''. Corajosa, eu tenho que admitir.

– Que seja. – O homem louro balançou a cabeça. – O importante é que hoje alguma justiça pela pobre Catarina, que Deus a tenha, seja feita.

Lady Rose apertou forte suas mãos no tecido do vestido. Como ousam falar assim da Rainha?

– Olhem! – O homem ao seu lado disse e ergueu o dedo. – A bruxa está ali.

Rose sentiu uma vontade enorme de virar e dar um soco bem no meio da cara daquele homem desprezível, mas seu olhar se direcionou para a mulher parada na porta de saída da Torre Verde.

Ana Bolena parecia mais uma criança com medo de ficar sozinha do que uma adulta, estando parada enquanto se apoiava com uma mão na parede. Sua expressão era de terror e pânico enquanto encarava a multidão. Pareceu uma eternidade quando ela finalmente se desvencilhou da Torre e começou a andar em passos lentos até o cadafalso, atrás delas seguiam quatro damas de companhia vestidas de preto dos pés à cabeça. Gritos e preces se intensificaram e Rose só conseguiu um vislumbre do corpo magro da Rainha antes que braços erguidos e cabeças se movimentando a atrapalhassem.

Quando Ana já estava a poucos passos da Torre Branca, Rose levantou a saia e apertou o passo para não acabar ficando por ultimo e não conseguir ver nada. Parou em frente à estrutura de madeira – construída bem na frente da Torre, grande e opulenta como o palco de um teatro – lutando para conseguir respirar, seu espartilho parecia ter ficado mais apertado. Poucos segundos depois, a multidão já estava em sua volta novamente. Mais ao seu lado esquerdo ela notou que estavam o Duque de Suffolk, Charles Brandon, e seu filho, o pequeno Frances Brandon. Na frente de Rose havia mais quatro pessoas, enquanto do seu lado uma mulher gorda com um vestido horrível preto fungava o nariz sem parar.

Com passos lentos e firmes, Ana Bolena subiu no cadafalso e andou até o meio dele, ficando de frente para a multidão. Lady Rose não sabia se eram seus olhos tão expressivos ou sua postura calma e confiante, mas em questão de segundos todas as vozes e choros cessaram.

Olhando para a rainha agora em cima do cadafalso encarando a multidão de cabeça erguida, Lady Rose podia afirmar que Ana Bolena nunca havia sido tão linda. Era como se ela não estivesse ali para morrer, e sim, para discursar em público sobre algum feito. Ela estava com seu icônico colar de pérolas com o pingente B de ouro, e seu cabelo estava repartido ao meio e preso – para a surpresa ou não de todos – por um capelo inglês; talvez, pensou Lady Rose, essa fosse sua forma de mostrar que ainda era a Rainha da Inglaterra. Trajava uma saia vermelha sobre um vestido cinza escuro de damasco, e, para completar, um manto de arminho. Aquele vestido era tão bonito. Bonito demais para ser sujado de sangue e estocado num caixão para sempre. E o pior era que nem em um caixão a pobre Ana seria enterrada. Nem isso o Rei se deu o trabalho, Rose pensou, mas logo tapou sua boca com a mão. Se ela tivesse falado isso alto e alguém ouvisse, logo seria ela ali em cima no cadafalso também. Com o canto do olho, ela avistou a caixa de flechas, vazia, com a tampa também de madeira, apoiada ao lado no chão. Pobre Ana, pobre Ana...

Rose se lembrava de quando Ana e o rei se conheceram. Ela estava lá. Viu como o rei não conseguia tirar os olhos da bela dama que havia acabado de chegar da Corte da França, com seus costumes e gostos tão diferentes da dos ingleses. Haviam sido longos anos e escândalos depois daquilo. Ela suspirou alto. E pensar que ela já quis um romance como o deles, mas quem imaginaria que esse seria o fim, afinal de contas.

As damas de companhia da Rainha se aplumaram no canto esquerdo do cadafalso, enquanto o carrasco estava ao lado direito, com seu rosto coberto – o que já era um costume – e suas mãos enluvadas abaixadas ao lado do corpo. Mas... Onde estava a espada?

Ana Bolena pareceu trincar o maxilar enquanto seu peito subia e descia rápido no espartilho apertado. Estava ali parada em cima do cadafalso encarando a todos como se estivesse decidindo com quais palavras começaria seu ultimo discurso. Apesar da cabeça e os ombros erguidos, Ana Bolena parecia estar com mais medo e dor do que nunca; e seus olhos, Rose amargurou-se, seus olhos estavam tão tristes.

– Good Christian people, — Ela disse, sua voz tão fina e fraca como se estivesse doente, mas então limpou a garganta e respirou fundo – I am come hither to die, for according to the law, and by the law I am judged to die, and therefore I will speak nothing against it. – Sua voz ainda era doce e suave, mas com um tom autoritário que Rose nunca havia ouvido antes. – I am come hither to accuse no man, nor to speak anything of that, whereof I am accused and condemned to die, but I pray God save the king – algumas pessoas exclamaram ''Vida Longa ao Rei'' e até mesmo ''Deus salve o Rei'', enquanto Ana parecia se contorcer por dizer aquilo – and send him long to reign over you, for a gentler nor a more merciful prince was there never, and to me he was ever a good, a gentle and sovereign lord. And if any person will meddle of my cause, I require them to judge the best. – Ela terminou acenando para suas damas que se aproximaram, com lágrimas nos olhos, para ajuda-la com o resto. Uma das senhoras retirou seu capelo e cobriu sua cabeça novamente com uma touca branca de linho, enquanto a outra retirou o colar e o manto de arminho. Elas voltaram aos seus lugares e o carrasco se aproximou e se ajoelhou perante Ana.

– Madame – ele disse, e Rose notou uma certa comoção da parte dele. – Perdoe-me pelo que estou prestes a fazer.

A Rainha sorriu de leve e estendeu seu braço em direção a ele, entregando-lhe algo que Rose não havia visto até então; uma pequena bolsa com moedas.

– Alegremente. E aqui está seu pagamento. – O carrasco aceitou a bolsa, prendeu em seu quadril e se levantou.

Ana Bolena se recompôs e olhou novamente para a plateia.

– And thus I take my leave of the world and of you all, and I heartily desire you all to pray for me. O Lord have mercy on me, to God I commend my soul. – Então ela se ajoelhou, segurando suas mãos sobre o peito.

Para surpresa de Rose, todas as pessoas também se ajoelharam – até os que ainda a pouco a condenavam, agora estavam lá, de olhos marejados, rezando por ela. Rose mal percebeu suas pernas dobrarem, e apenas soube quando seus joelhos foram prensados no chão duro. O Duque de Suffolk e seu filho foram os únicos que não se ajoelharam, o que não a surpreendeu nem um pouco, já que fora ele quem começou espalhar as falsas acusações contra Ana, para início de conversa.

Jesus receive my soul; O Lord God have pity on my soul. – A Rainha sussurrou, mais para ela mesma do que qualquer outra pessoa, sua voz tão suave como uma flor – Jesus receive my soul; O Lord God have pity on my sou, Jesus receive my soul; O Lord God have pity on my soul...

Sua bochecha já estava molhada, mas Rose se negava a soluçar ou até mesmo abrir a boca para respirar com mais facilidade. Ela não queria deixar de ouvir nem um segundo a menos da voz da rainha. Ela não se perdoaria se fizesse isso.

Por todo lado tudo que se ouvia era a voz suave da Rainha, junto com as preces sofridas da multidão a sua volta.

O único problema era que a Rainha não parava de virar sua cabeça em direção ao carrasco, ela queria ver de onde a espada iria vir. Rose ficou tensa. O corte não doeria, mas apenas se ela não me move-se. Ela precisa ficar quieta, ela precisa ficar quieta...

– Garoto! – berrou o carrasco – Pegue minha espada!

Então Ana Bolena virou sua cabeça em direção ao único garoto presente ali, Frances Brandon, concentrando seu olhar nele. Rose prendeu a respiração. Ela sabia o que viria a seguir, e não queria olhar, não queria olhar.

O golpe veio rápido como um trovão. Lady Rose sentiu o ar se esvair de seus pulmões – assim como o chão embaixo dela – enquanto via o brilho prateado descer e dançar no ar. Num segundo era um silêncio sufocador, e no outro era uma multidão de berros e choros. O corpo caiu inteiro, duro ao chão, e só ao tocar na superfície de madeira é que a cabeça se descolou e tombou para o lado.

As outras damas que estavam ali em cima se inclinaram para enrolar o corpo num pano e o colocar dentro da caixa de flechas. Rose até viu uma delas fungar o nariz e apertar os lábios para não chorar.

Foi quando o carrasco abaixou a lâmina – agora toda ensanguentada – e ergueu com a outra mão a cabeça de Ana Bolena. Uma senhora na frente de Rose desmaiou, e precisou ser amparada pelo cavalheiro ao seu lado. Ela ouviu mais gritos surpresos e horrorizados e até suspiros cansados.

E foi ao olhar para a cabeça pendurada pela mão do carrasco que ela realmente se assustou. Lady Rose já havia visto algumas execuções em sua vida, mas nunca havia visto nada parecido com aquilo. Os olhos de Ana Bolena estavam abertos, um lado piscava rapidamente enquanto o outro permanecia arregalado, e por Deus, seus lábios ainda mexiam. Eles ainda se mexiam.

Notas finais
Eu ainda tenho planejado mais duas One-shots sobre Ana Bolena, e planejo postá-las em breve (uhuuuuuuu).
OBS:
Eu quis deixar o discurso final da Ana da mesma forma que ele foi dito, em inglês, porque sim.
Apesar de estar na classificação ''The Tudors'', eu me baseei em como realmente aconteceu para escrever esse conto (porque sim, nas série tem muita coisa errada).
Beijinhos da Lady e até a próxima! ♥ ♥ ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!