Um sorriso poderia ser visto em meus lábios, as chamas e a fumaça pareciam me abduzir. Meus olhos brilhavam e a sensação era incrível. O colégio estava vazio, era apenas eu e ele, eu e o fogo unidos como um só. Acendi o isqueiro e peguei uma das provas em cima da bancada a queimei e repeti com os outros papéis que ainda não haviam sido pegos pelo fogo que queimava graças ao incêndio que antes havia se formada por minha culpa. A situação agora saía de controle, o fogo parecia estar contra mim e a fumaça parecia invadir meus pulmões. Eu estava totalmente soada e tossindo, mas ainda assim o fogo não me parecia menos fascinante. O alarme soou e em meia hora o lugar estava lotado. O diretor estava lá e os bombeiros apagavam o fogo, matavam a minha paixão.

- NÃO! – Gritei enquanto acabavam com ele, me levaram dali e então se foi a minha alucinação.

•••

Uma semana de suspensão. Ótimo! Só não sei como não chamaram a policia e fizeram interrogatório como das outras vezes. Porque não me expulsavam logo daquele lugar? Quando chegamos em casa minha mãe estava a beira de um ataque, o que não era novidade, já que ela estava quase sempre assim.

– Hannah, precisamos conversar. – Ela veio até mim com o tom autoritário que eu tanto odiava.

Tá, era ela quem mandava ali, mas e daí?Ignorei totalmente suas palavras, subi as escadas sem a fitar. Eu tinha acabado de provocar um incêndio. Estava suja, cansada e louca para chegar no banheiro e tomar banho.

– Olha, sabe o que poderia ter acontecido se não soubessem o que você tem? Pior, sabe o que poderia ter acontecido se não chegassem lá?

Eu ri e me voltei a minha mãe, a sua expressão preocupada e a de raiva do meu irmão que acabara de chegar ali me fez cessar.

– Eu não tenho nada, tá bom? E não ia acontecer nada se não chegassem lá, mãe. – Dei de ombros e me virei, continuando meu caminho ao banheiro.

Aquela história de piromania estava me irritando. Tudo bem que as vezes eu fazia sem pensar, mas dessa vez foi com consciência, minhas notas estavam baixas e eu queria fazer uma outra prova, ou acusar o colégio por displicência e fazer com que dessem um belo 10 a todos, mas haviam me pego e talvez para minha sorte acreditavam naquela história que eu achava vir da cabeça de minha mãe. Só os funcionários daquele colégio para não rever os fatos e ver que a sala dos professores pegou fogo bem quando todos tínhamos notas baixas.

– Acabamos a conversa quando eu voltar, está bem?

Não, não estava nada bem, mas ela não iria me escutar se eu respondesse então segui meu caminho ao banheiro. Minha cabeça dolorida parecia pesar 10 vezes mais que o normal e nem o banho gelado que tomei fez com que aquela dor diminuísse, como eu pensei que seria. Droga, devia ter tomado um banho quente... Vesti o roupão e segui pela casa.

- MÃE? — Gritar nunca tinha doído tanto, levei a mão a cabeça, amaldiçoando a mim mesma.

Ninguém respondeu, ela tinha mesmo saído. Talvez não tivesse ninguém, nem mesmo o energúmeno de meu irmão. Dei de ombros e me dirigi a cozinha, meu estômago era mais um dos que reclamavam. Desci as escadas e sem reparar em mais nada cheguei a cozinha. Peguei biscoitos e uma latinha de refrigerante, voltando então a sala. Adam estava lá, eu devia saber. Ele era silencioso demais, tanto que era difícil notar sua presença. Ele lia um livro, bufei ao ver que era Romeu e Julieta.

- Qual a graça de ler esse livro? Todo mundo sabe o que acontece nessa história, você já o leu mais de mil vezes e os personagens principais morrem no fim.

Eu nunca gostei do romance de Shakespeare. Para mim Romeu não amava Julieta, nem mesmo a Rosalina. Como ele podia tão facilmente ter esquecido de uma e se apaixonado por outra? Para mim Romeu era apenas um jovem como todos os outros que corriam atrás de um rabo de saia. Não, não era por isso que eu não gostava do livro, eu até admirava Romeu, mas julieta era uma tola em acreditar em suas palavras falsas. Eu nunca fui muito de acreditar em amor, mas se ele realmente existe e é lindo como falam tem de ao menos ser duradouro, não é verdade? Agora voltemos aos fatos. Se Romeu não amava Julieta por que ele tinha se matado então? Não sei, mas não fora por ela. Minha teoria era que ele se vira perdido. Não queria viver fugindo e queriam matá-lo de todo o jeito... Ou então ele era um rapaz com tendencias suicidas, se for, o admiro por sua coragem. Dei de ombros a meus próprios pensamentos. O motivo de Romeu ter se matado não era de minha conta. Mas eu sabia que meu irmão tinha seus motivos. Ele gostava de uma moça, a Beatrice. Ela era obrigada por sua mãe a se casar com outro homem, um que ela dizia amar, Stewart eu acho. Eu não a entendia, eu simplesmente a odiava por fazer meu irmão de tolo. Ele a via como a Julieta, com seu amor impossível. Eu achava que ela estava mais para Romeu e meu irmão era a tola Julieta. Ou Roméia e Julieto se preferem assim. Meu irmão me observava com uma expressão estranha. Esperei que ele não comentasse sobre as novas. Ele sabia que eu era maluca, mas eu não queria ouvir o que ele diria sobre as brincadeiras com a minha maior paixão, o fogo.

– O que foi? – Perguntei voltando-me ao biscoito e a coca, era sempre assim ,eu sempre fazia de conta que nada havia acontecido.

- Hannah — ele começou, colocando o livro de lado. Eu sabia que não viria coisa boa daí. — Você já pensou no que o diretor da escola disse? Quem sabe procurar um psicólogo não seja uma boa solução?

Eu bufei, estreitando as sobrancelhas, indignada.

— Uma boa solução pra que, Adam? Meu irmão calou-se, e o silencio dele era pior pra mim. Ele sempre o fazia para não me machucar e isso me afetava ainda mais. Eu jamais liguei para que os outros pensavam ou saíam dizendo de mim, mas com meu irmão as coisas era mais complicadas, ele era diferente. Podia até dizer que era o único com quem eu sempre me importei. Saber que ele também me considerava com problemas psiquicos não era nada bom pra mim.

— Eu não tenho nada, valeu? — Levantei-me, largando ali o lanche que antes comia e um irmão que não sabia o que dizer.Subi as escadas, caminhando ao meu quarto. Geralmente as conversas com Adam me faziam sentir-me melhor, mas dessa vez não obtive o resultado desejado. Eu estava cansada, e isso só piorara, não sei por quanto tempo fiquei pensando em mim mesma e outras coisas idiotas antes de pegar no sono.

A semana passara rápido demais, eu alternava meu tempo entre comer e dormir. Danna havia viajado então eu não tive como me divertir. Grande sorte, ser suspensa logo quando não se tem nada para fazer. Duvido que o fizessem se eu tivesse com o que me divertir. Docentes gostam de tortura, sempre funcionou e sempre funcionará assim. A minha mãe não voltara a falar comigo sobre o assunto da minha suspensão, acho que a pedido de meu irmão. Acho que começou com um coelho. É, um coelho. E aí eu estava atrás dele. Sim, vocês podem me chamar de retardada, mas eu perseguia o coelho afim de saber onde ele ia. Até que ele parou bruscamente e virou-se a mim, me dando uma sacodidela. É, foi isso, uma sacodidela.

— Hannah? — O coelho tinha a voz de meu irmão.Eu o fitava incrédula. Não por ele falar, isso pra mim era até normal, os animais tinham de se revelar um dia, não é? Mas por sua voz ser idêntica a de Adam

- Hannah? — Ele me chamava mais uma vez, mas eu não conseguia responder.

Morria de rir por que o coelho além da voz começava a ter a face idêntica a de meu irmão.

-HANNAH!

Eu abri os olhos, me lamentando por ter perdido o coelho de meus sonhos justamente quando consegui alcança-lo, teria batido em Adam por ele ter gritado se não estivesse com sono demais para isso. Arr, um sonho. Eu tinha que parar de assistir filmes idiotas.

— Eu estava bem dormindo, sabe?

Ele cruzou os braços pronto para me dar um sermão por eu ter feito alguma coisa, eu conhecia aquela expressão que fora várias vezes repetida, mas eu continuei antes que ele falasse algo.

- Tinha um coelho e ele tinha a voz igual a sua, eu gostava do coelho.

Parei ao perceber que meus sonhos não interessavam a ele, eles eram só meu. Adam me fitava esperando que eu parasse com meus delírios, devia saber que isso era impossível. Tudo bem, agora sou eu quem estou admitindo meus problemas psicológicos, mas esses eram divertidos. Eu me sentei na cama e bati para que ele sentasse a meu lado, ele ignorou o convite.

- Lembra que hoje tem aula?

Eu revirei os olhos, havia esquecido daquele colégio idiota. Eu odiava a escola, a matéria e qualquer coisa que tivesse relação a isso. Sim, eu queria vender cachorro-quente na pracinha. Algum problema com isso.

— Anda, levanta! -

Adam saiu do quarto. Eu já disse que odeio essa pose autoritária? Pois bem, se disse não me custa repetir.

Vinte minutos e eu estava pronta. Sei que reclamei de ter ficado em casa sem fazer nada, mas é muito melhor que ter que ir ao colégio. Escola é um saco, e isso é um fato, não tem o que discutir. Bem, a não ser que você seja uma espécie de nerd, daquele tipo que lembra a professora quando todos estão animados por ela ter esquecido o trabalho que passou. Esses são uns babacas, e não me importa se você se ofende com isso. Se a carapuça serve, saci...

-HANNAH! -Uma Danna escandalosa correu até mim assim que cheguei no pátio da escola.

Só estávamos sem nos ver a 2 semanas, e ela agia como se fosse uma eternidade. Faltava agora a típica frase de “como você cresceu” e eu a compararia as “amiguinhas”de minha mãe, as que iam tomar chá lá em casa. Clube da luluzinha, pois é. Não se tocavam que estavam velhas demais para isso, faltava construir uma casinha na arvore, ia ser lindo.

- Danna! — Eu, é claro, não seria a estraga prazeres, não hoje.

- Tenho boas novas. — Disse ela animada, após todo aquele cumprimento nada-formal que ela sempre fazia. O que inclui abraços e pulos, eu a estranhava as vezes.

E foi aí que o vi. Brian Haner. O garoto que todas desejavam ter, mas nenhuma realmente conseguia. E pra não querer mostrar toda a perfeição, direi apenas que seu corte de cabelo chamava muita atenção. Sim, estou de sacanagem com você.

- O meu primo começa a estudar aqui hoje, o nome dele é... — Danna interrompeu a sí mesma ao perceber que já nos conhecíamos.

— Você não disse que tinha BOAS novas, Danna? — Comentei em um visível tom de desprezo.

- Qual é, sentiu tanto assim minha falta, Hannah? O sarcasmo dele me irritava. A unica pessoa sarcastica que eu era capaz de aturar era eu, e olhe lá...Revirei os olhos a seu comentário, e uma Danna que nada entendia nos olhava boquiaberta, em um pedido silencioso de explicação.

- Falo contigo depois, sem a presença de energúmenos. — Olhei para Brian, com um bom ênfase em “energúmenos”, este piscou de volta, me deixando ainda mais irritada.

Girei os calcanhares e caminhei para a sala, aproveitando o sinal que já soara. Matemática era o pior jeito de recomeçar as aulas. Eu odiava ter de lidar com numeros, odiava os tais de "x" e "y" e odiava Olga, a professora. Ela era a típica baixinha que usava sempre óculos e uma vareta na mão e adorava perseguição a alunos. Duas aulas seguidas de pura tortura.

Agradeci quando o sinal tocou, e continuei na sala durante o intervalo e todas as outras aulas. Preferi ficar e evitar comentários idiotas, aquela altura todos já deveriam saber do que eu fizera. Acredite, essas pessoas eram as mais falsas, eram bem pior que cobras. Se tudo tivesse dado certo, eles estariam me levando em um trono, mas como eu fora pega eu passaria uma semana como a garota estranha do colégio, e só então eles voltariam a falar comigo.

- Fiquei sabendo que gosta de brincar com fogo. — Tive o desgosto de topar com o garoto perfeito, opa, o energumeno do Brian na saída. Continuei andando, tentando não dar atenção a suas palavras. Eu devia saber que ele me seguiria. — Gosto disso, é bem quente! — Ele riu com seu próprio trocadilho.

Eu tive vontade de bater nele.

- Olha só, garoto. — Comecei, tentando manter o tom de voz normal, não queria que ele soubesse que me deixa irritada, isso é ridiculo. — Eu sei que tenho uma grande força de atração. — Era minha vez de subir o ego, não? — Mas a sua de repulsão é muito mais forte, então da licença?Virei e continuei com meu caminho.

Achei que Brian estivesse se tocado, mas ao olhar pra trás percebi que uma garota havia o parado. Ashley Lions. Líder de torcida, fresca, puta. Dei de ombros e continuei meu caminho. Com quem ele conversava não me dizia respeito. Tudo o que eu queria era distancia, eu ficava bem no quadro de 300 metros dele, obrigada. Mas o que ele tinha de errado?

Ah, não me faça perguntas difíceis.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.