To All The Boys I've Loved Before
2 Primeiro dia (não tão) incrível

Hoje seria o meu primeiro dia de aula no segundo ano do ensino médio. Ou seja, seria um dia conturbado, já que eu odeio primeiros dias. Na verdade, é bem difícil alguém gostar deles.
— Eu fiz panquecas de chocolate, suas favoritas. Então coma tudo! – meu pai disse ao notar que eu ainda não tinha dado nenhuma garfada na panqueca.
— Vou comer, só estava distraída. – e não era mentira. Nunca deixaria de comer as panquecas que papai faz. Ou melhor, acho que nunca deixaria de comer qualquer coisa que papai faça.
— Sempre no mundo da lua! – foi a vez do meu irmão mais velho, Kim, se pronunciar.
Kim e eu temos apenas alguns meses de diferença, então estudamos juntos na mesma escola, que fica há menos de uma quadra da nossa casa – e mesmo assim eu consigo chegar atrasada. Nossos pais tem uma padaria e nós trabalhamos ali de vez em quando, os ajudando. Daí vem o meu gosto e a minha habilidade para fazer todos os tipos de doce.
— Você também precisa comer, Alya e Nino vão chegar há qualquer momento. – meu pai alertou e Kim deu de ombros.
Alya era a minha melhor amiga, nos conhecemos no primeiro dia de aula do primeiro ano do ensino médio – acho que uma das únicas coisas boas que um primeiro dia de aula me trouxe –, e Nino era o namorado dela.
Nino e eu costumávamos ser amigos na infância e não demorou muito para que eu começasse a gostar dele, daquele jeito. Porém a paixão passou e depois de um tempo, ele e Alya começaram a sair e no fim estavam namorando.
Estaria mentindo se dissesse que não senti nada quando eles começaram a namorar. Não que eu gostasse de Nino, mas aquele sentimento reprimido de anos atrás ainda estava ali. Mas eu nunca faria nada para atrapalhar o romance deles, Alya é uma das pessoas mais importantes pra mim. Fazer algo em relação aos meus sentimentos por Nino, estava completamente fora de questão.
Então eu escrevi uma carta para Nino, mas obviamente não enviei. É que eu costumava fazer isso quando gostava tanto de um garoto, que esse sentimento me sufocava. Depois de escrever, parecia que o peso saia do meu corpo e ficava dentro do envelope cor-de-rosa que eu usava para colocar a carta. A de Nino e dos outros quatro garotos de quem já gostei.
— Bom dia amiga, animada pro primeiro dia? – Alya adentrou o cômodo, toda empolgada, seguida por Nino.
— É, mais ou menos. – eles riram.
— Então se anime, pois eu estou sentindo que esse ano vai ser incrível!
— Eu espero.
***
— Ok, se eu convidasse a Bridgette pra sair, você acha que ela aceitaria? – Adrien surgiu do meu lado, enquanto eu terminava de pegar as coisas do meu armário.
Se a pergunta tivesse sido feita há um ano atrás, eu certamente morreria. Pois me apaixonei por Adrien Agreste no primeiro dia – mais uma coisa boa em um primeiro dia – de aula do primeiro ano do ensino médio – ou seja, sim, uma das minhas cartas era pra ele.
Chloé colou um chiclete na minha cadeira e Adrien estava tentando tirar quando eu entrei na sala e vi. Imaginei que tinha sido ele, então nosso primeiro encontro não foi tão legal. Mas no final da aula, estava chovendo, e quando ele se desculpou e me entregou seu guarda-chuva como uma oferta de paz, eu fiquei apaixonada.
Depois que escrevi a minha carta, superei a minha queda por ele. E acabamos nos tornando melhores amigos ao logo do ano, já que ele andava com Nino, eu com a Alya e os dois começaram a namorar. Desde então, eu e Adrien somos duas velas.
— Bom dia pra você também.
— Bom dia, Bugaboo. – sorriu de lado, me fazendo revirar os olhos pelo apelido idiota – E então, o que acha? Ela aceitaria?
— Não a conheço direito. – dei de ombros – O jeito é chamar mesmo pra descobrir. – ele bufou frustrado e fez uma careta – O que foi? O que você quer que eu diga?
— "Você não pode sair com aquela garota, porque eu e você, vamos nos casar, ter três filhos e um hamster. Seu garoto incrivelmente lindo!". – disse tentando imitar a minha voz. Soquei o seu braço. – Ei! Brincadeira, ok? – o loiro levantou as mãos em sinal de rendição. Comecei a caminhar em direção à sala de aula e Adrien veio ao meu lado. – Mas bem que você podia sentir um pouco de ciúmes do seu melhor amigo.
— Eu sentiria se você dissesse que quer chamar a Bridgette para ser a sua melhor amiga.
— Hum! – ele murmurou. Olhei na direção dele e bem na hora bati meu ombro em outra pessoa, por sorte não derrubei os meus livros.
— Olha por aonde anda! – disse em um tom completamente oposto do amigável. E só pela fala, eu sabia perfeitamente quem era.
— Olha você, imbecil! – respondi Félix e Adrien segurou o meu braço, como se eu fosse avançar no garoto. Só porque aconteceu uma vez, não significa que vá acontecer novamente.
E pensar que uma das minhas cartas era para Félix... O que eu tinha na cabeça? Ah, já sei. Eu era viciada em Crepúsculo e a aparência e jeito frio de ser que Félix tem, me lembravam um vampiro. E por isso eu fiquei "apaixonada".
Eu sei, idiotice total.
— Diz pra sua amiga que a imbecil, é ela. – Adrien revirou os olhos.
— Tem medo de falar na minha cara?
— Marinette, vamos pra aula. – meu melhor amigo começou a me puxar.
— Claro que não, você quer que eu fale para qual delas? – Félix sorriu de lado e eu senti uma raiva enorme subir dentro de mim. Saltei na direção dele, porém Adrien agarrou minha cintura e me ergueu do chão.
— Me solta!
— Não, vamos pra aula. Tchau, Félix. – o outro deu um sorriso convencido, enquanto Adrien me carregava para a sala – Meu primo e minha melhor amiga se odeiam, olha que incrível! – ironizou ainda me carregando.
— Desde quando ficou tão forte?
— Por quê? Quer sentir os meus músculos? – suspirei.
— Deixa pra lá. – ele riu e finalmente me colocou no chão, em frente à classe que eu normalmente sentava.
— Admita, nós seríamos o casal perfeito. – Adrien sentou na cadeira ao lado e escorou o queixo na mão – Você toda fofa e irritada e eu lindo e perfeito. – comecei a rir.
— Você esqueceu do "modesto".
— É, tem razão.
Não demorou muito para Alya e Nino chegarem na sala e sentarem perto de nós dois.
A aula começou e eu tentei ao máximo prestar atenção. Mesmo sendo o primeiro dia de aula, os professores não se importam de começar a passar conteúdo. O que, de certa forma, não é tão ruim. Pior é quando inventam de fazer gincanas mirabolantes. Eu nunca participo delas.
***
No final da aula, estava descendo as escadas para ir embora, quando tropecei nos meus próprios pés e quase fui. Mas antes, alguém me segurou.
— Opa!
— Obrigada! – suspirei aliviada.
— Não há de quê. – Luka sorriu, me fazendo ficar derretida.
Luka Couffaine, o último garoto para quem eu tinha escrito uma carta – sim, a do mês passado. Ele é o irmão mais velho da minha amiga e colega, Juleka. Enquanto ele está no terceiro ano, eu estou no segundo. Ele toca numa banda, é fofo, gentil e incrivelmente lindo.
Achei que tinha superado a minha queda por ele depois de ter escrito a carta. Mas pelo visto, não. Literalmente.
— Está tudo bem? – perguntou, porque provavelmente notou eu paralisada babando por ele.
— A-Aham. Claro. – sorri e ele fez o mesmo, matando meu pobre coraçãozinho ainda mais.
— Preciso ir agora. Mas a gente se vê. – Luka depositou um beijo na minha bochecha e eu quase caí da escada de vez – Tchau, Marinette.
— Tchau, Luka. – acenei com um sorriso largo.
Assim que ele foi embora, suspirei. Acho que vou precisar escrever mais uma carta.
***
— Ouvi dizer que você quase bateu no Félix hoje. – Kim disse com um sorrisinho e minha mãe me encarou incrédula, enquanto servia comida em seu prato.
— Como assim, Marinette?
— Eu não "quase bati" nele. Eu só me irritei com ele e acabei discutindo. – dei de ombros. Minha mãe balançou a cabeça em negação, mas eu sabia que ela não tinha ficado brava.
Comi e fui para o meu quarto. Precisava escrever outra carta para Luka e tirar esse sentimento do meu coração o mais rápido possível.
Depois que terminei de escrever, a coloquei no envelope e selei. Fui até o meu armário e procurei a caixa de chapéus, mas estranhamente não a encontrei.
— Ué? – tateei o local e nada. Revirei o meu guarda-roupas e nada. – Não, não! – O desespero já estava tomando conta de mim, quando minha mãe apareceu na porta.
— Algo de errado, filha?
— Sim. A senhora por acaso viu uma caixa de chapéus cor-de-rosa com bolinhas brancas? Você me deu há muito tempo atrás, na venda de garagem da Sra. Lahiffe. – minha mãe negou – Eu não a encontro, estava no meu guarda-roupas!
— Não colocou por acidente na caixa de doações? – arregalei os olhos. No fim do ano, separei algumas roupas para doar no Natal. Mas eu não podia ter cometido o erro gigantesco de ter colocado a minha caixa, poderia? – Se quiser eu posso ir no abrigo e ver se eles ainda a tem.
— Por favor. – ela sorriu e saiu, enquanto eu me jogava no colchão, com o rosto afundado no travesseiro.
Eu não acredito que fiz essa burrada! Espero que ao menos tenham colocado as cartas fora. Por mais que elas sejam meus bens preciosos, se elas fossem enviadas, seria um completo desastre.
Senti um peso sobre mim, era Tikki a minha gata. Deixei que ela ficasse ali deitada nas minhas costas, enquanto eu refletia a minha existência.
Por que eu tive que ser tão descuidada?
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