Titans Institute for Peculiar Teens
1 Terror crescente em Gotham High School
Notas iniciais
“Eu vejo aquele olhar em seus olhos
Que me faz ficar cego
Me cortam profundamente, estes segredos e mentiras
Tempestade no silêncio
Sinta a fúria chegando
As resistências estão se esgotando
Nenhum lugar para correr de todo esse estrago
Nenhum lugar para se esconder de toda essa loucura”
(Madness – Ruelle)
OS ENFERMEIROS entraram correndo com a maca. Minha família veio logo atrás correndo igualmente eufórica. Katherine, em cima da maca, estava entubada, abrindo e fechando os olhos frequentemente. Meus olhos se lacrimejaram com isso.
— Rápido, ela perdeu muito sangue — gritou um dos médicos de plantão. Meu coração começou a se disparar.
— Doutor, ela vai ficar bem? — perguntei, apreensiva. Fui ignorada. — Por favor, alguém pode me dizer se ela vai ficar bem?
— Por favor, não podem passar depois dessa porta. — Avisou uma das enfermeiras.
— Mas ela é a minha filha, eu sou a mãe dela! — protestou nossa mãe.
Minha cabeça doía e sentia meu peito arder. Como as coisas se desenrolaram daquela forma?
[...]
No dia em que minha vida mudou para sempre, eu amanheci normal.
Era apenas mais uma manhã comum naquele início de terceiro bimestre. Estávamos atrasadas para o primeiro período, quase não comparecemos naquele dia por causa disso.
Perdemos hora, o despertador nos deixou na mão, minha mãe, Christine, como de costume já havia saído para levar meu irmão mais novo, Killian, na escola, eu e Kathy, minha irmã gêmea, tínhamos a ideologia de sermos mais ecológicas e íamos até o colégio, que não ficava muitas quadras de onde morávamos, pedalando.
Vendo nosso atraso, nosso pai, George, que estava prestes a deixar a residência, nos deu uma carona para não nos encrencarmos com a mamãe. Mesmo sendo contra meus princípios, aceitei. Papai era um anjo, ainda mais tendo em vista que ele já havia nos acobertado naquela manhã, quando ela perguntou se nós já tínhamos ido pra aula ou não.
Cruzamos o portão de entrada da Gotham High School com quase vinte minutos de atraso, dava para recompensar. A professora de matemática, Stacey, torceu a boca com a nossa falta de pontualidade, mas nos permitiu entrar.
Ela era uma mulher baixa de meia-idade, com longos cabelos ruivos amarrados num coque frouxo. Suas roupas eram sempre formais e em tons de amarelo e laranja. Pele branca e lábios sempre lotados de batom vermelho.
Como havia poucos lugares disponíveis e a sala era dividida em duplas, Kathy se sentou junto a um garoto alto, cabeludo e de blusa azul. Apenas o conhecia por nome, Jonathan Kent. E eu, percebendo que havia apenas mais um lugar vago, me aproximei de um garoto de olhos verdes e penetrantes.
— Posso me sentar com você? — perguntei.
Ele tinha um ar sério, parecia constantemente me analisar.
— À vontade. — respondeu voltando a prestar atenção na professora.
Me sentei ao seu lado sem fazer muito barulho. Minha dupla parecia escutar a aula com um olhar cansado, descansando a cabeça na palma da mão. Ele vestia uma blusa vermelha de frio que parecia quente — me questionei como ele aguentava usar aquilo no calor — e seus cabelos estavam levemente bagunçados.
Depois de um certo tempo prestando atenção na professora inspirei cansada, não conseguia absorver nada das fórmulas que ela explicava com velocidade para nós.
— Com licença? — chamei o garoto do meu lado que resolvia uma sequência de fórmulas em sua apostila. — Poderia me emprestar suas anotações? É que eu estou um pouco perdida porque perdi metade da aula.
— Talvez… — disse sem tirar os olhos do papel, como se não estivesse dando a mínima.
— Talvez? — repeti piscando os olhos. — Tudo bem, garoto de poucas palavras, entendi…
Eu realmente era sortuda por tê-lo como minha dupla!
[...]
Tocou o sinal do intervalo, saí da sala e me dirigi ao meu armário, no meio do percurso me esbarrei com minha melhor amiga no corredor, Kay Challis, embora todos a chamassem de Crazy Kay, ganhou o apelido por causa de suas mudanças bruscas de humor. Havia momentos em que, de repente, ela pedia para ser chamada de Miranda e começava a falar quase só em espanhol, mesmo que sua família viesse de uma comunidade hispânica era estranho, pois, quando era a doce Kay, ela quase sempre preferia falar em inglês, falando com calma e leveza.
Às vezes, era como se ela simplesmente ficasse fora do ar por alguns instantes, era quase como se fossem… duas pessoas diferentes, no mesmo corpo. Sempre me perguntava se isso fazia o menor sentido, Deveria ser coisa da minha cabeça…
Nós nos conhecíamos desde o primário. Ela foi minha primeira amiga depois que saí do Brasil, meu país de origem, e vim morar em Gotham, nos Estados Unidos, como refugiada. Após o colapso climático global, países da América Central e do Sul, como o Brasil, tornaram-se inabitáveis devido às temperaturas extremas. Também foi a primeira coleguinha que teve paciência de me ajudar a me aperfeiçoar no inglês. Era bom tê-la por perto.
Infelizmente, ela sofria muito bullying das garotas ricas, brancas e mais velhas da escola. Eu a protegia o máximo que conseguia, ficava sempre por perto, tentando servir de escudo. Mas, quando mudamos para o fundamental, nos colocaram em turmas diferentes, e a situação só piorou para ela.
Me perguntava se ela conseguiria aguentar tudo aquilo, porque não sofria só na escola. Em casa, que deveria ser seu refúgio, também não encontrava paz. Enfrentava problemas com um pai bêbado e violento, somados aos problemas de uma mãe negligente e conivente.
Depois da oitava série, porém, algo mudou. Ela cansou de apanhar calada. Aprendeu a se defender sozinha, ficou mais forte, mais dura, quase impenetrável. Passou a se chamar de Hammerhead, como se tivesse criado uma armadura para si mesma. E, desde então, deixou de ser alvo. Agora, no ensino médio, ninguém mais ousava mexer com ela.
— Achei que não iria vir hoje. — comentou ela assim que me viu. Era de costume deixarmos nossas bicicletas presas lado a lado no bicicletário.
— Perdi hora, eu e a Kathy. Ela disse que o despertador não tocou, mas tenho quase certeza que ela esqueceu de programá-lo. — Nós duas rimos. — Aí nosso pai nos trouxe.
— Você tem sorte de ter pais tão presentes. — Ela olhou o chão meio triste. — Apesar de ter sido uma ajuda nada ecológica.
— Seu pai não veio te ver de novo? — Jane negou com a cabeça. — Sinto muito, mas saiba que quem está perdendo é ele. Você é incrível, garota.
— Tudo bem amiga, de boa. — Afastou-se e colocou as mãos nos bolsos da blusa de frio. — Me sinto mais segura com ele longe...
— Sinto muito por isso.
— Tudo bem. — Deu de ombros — Tenho boas notícias, estou praticamente namorando com um garoto que faz física com você. Ele é faixa preta em artes marciais, um colírio para os olhos e foi super cavalheiro comigo no nosso primeiro encontro. Nos conhecemos na aula de hipismo que meu pai me obriga a fazer, primeira coisa boa que ele me faz.
— Tem tantos garotos que fazem física comigo, por favor, seja mais especifica.
— Ele se chama...
Havia acabado de pegar meu lanche na cantina quando o alto-falante da escola começou a emitir uma voz… estranha e horripilante.
— Olá, olá, queridos estudantes de Gotham High, é com um enorme prazer que os informo que estão prestes a presenciar um espetáculo que transformará as suas vidas para sempre. — A pessoa, de voz masculina, parecia estar segurando uma gargalhada.
— O que é isso? — Kay perguntou assustada, abraçado ao meu braço. — Será que é alguma daquelas malditas anomalias?
— Eu não sei. — Olhei ao redor, em busca de Katherine.
De repente, uma onda de gritos, no andar de cima, era um som alto que fazia nossos ouvidos biparem. Uma explosão. Eu e Kay nos abaixamos institivamente.
O som da explosão ainda ecoava em nossos ouvidos quando a voz voltou ao alto-falante.
— Ah, que belo espetáculo! — A voz riu. — Mas não se preocupem, queridos estudantes, a diversão está apenas começando!
Eu e Kay nos levantamos, olhando ao redor. O corredor estava cheio de fumaça e os estudantes corriam em todas as direções, gritando. Eu podia ver o medo nos olhos de todos.
— Precisamos sair daqui. — Kay praticamente gritou, me puxando pelo braço. Mas estava paralisada, olhando para a fumaça.
— Não podemos… — Ela começou, mas eu a interrompi. — Tem a Kathy...
— Klívia, precisamos ir, agora!
— Pode ir se quiser, mas não saiu daqui até ver se a minha irmã está bem.
Kay olhou para trás, observando vários alunos correrem apressados perto de nós, quase esbarrando em nossos corpos, enquanto seguiam em direção à saída. Eu tinha certeza de que o portão principal deveria estar tomado pelo caos, com o desespero aumentando o risco de novos acidentes e pisoteamento.
— Tudo bem, eu não vou te deixar sopzinha nessa confusão. — Engoliu em seco. — Mas vamos ser rápidas, por favor.
— Ok, vamos ficar bem, eu prometo.
Começamos a correr em direção à sala de música, desviando dos estudantes que desciam apressados do terceiro andar. Era lá que Kathy costumava passar os intervalos, minha irmã sonhava em se tornar uma cantora famosa, como Taylor Swift ou Sabrina Carpenter. Naquele verão, ela até se arriscou e se inscreveu no X-Factor, para tentar a sorte.
Eu podia ouvir a risada estranha vindo do alto-falante, ecoando pelo corredor, misturada ao zumbido incessante em meus tímpanos. Ele se divertia com a nossa desgraça. Podia ver corpos começando a se empilhar no chão, feridos, alguns já sem vida, vítimas da fumaça tóxica. Rapidamente, tapei as narinas com um pano que sempre carregava na minha bolsinha, o qual usava para me secar após escovar os dentes no intervalo, como de costume, e molhei-o com um pouco de água da minha garrafinha. Kay havia feito o mesmo.
Ouvíamos algo ranger acima de nós. Enquanto corria, percebi algo me puxando para trás, dificultando minha velocidade. Era a Kay, que tossia muito e estava com dificuldades para se manter em pé.
— Está tudo bem? — perguntei, preocupada. Meu coração parecia que iria sair pela boca.
— Sim, só acho que essa fumaça está muito forte para mim.
— Olha, se quiser voltar, ainda dá tempo. Não precisa se meter nessa loucura comigo.
— Não, eu quero te ajudar e também quero ajudar a Kathy. Somos irmãs de alma, lembra?
— Ok. Vamos devagar. Eu te guio.
Finalmente, nos encontrávamos próximas ao corredor aberto que ligava os dois prédios. Olhei ao redor e vi a fumaça saindo das janelas.
— Você acha que ela… — Kay começou, mas eu a interrompi.
— Não sei, Jane. — Suspirei, olhando para a escola em chamas. — Eu espero que não.
Olhei para minha melhor amiga, meus olhos cheios de determinação, junto de algumas lágrimas que começaram a escorrer. Meu coração ainda muito acelerado e minha garganta seca.
— Eu só quero encontrar Kathy e sair daqui. — disse, minha voz firme.
Kay assentiu, apertando minha mão.
— Vamos encontrá-la, Klívia. Eu tenho fé. — Ela disse, e eu pude ver a determinação e lágrimas em seus olhos também.
Continuamos a correr, tentando ignorar os gritos e o caos ao nosso redor. Eu sabia que Kathy estava em algum lugar lá dentro, e eu não ia deixá-la sozinha! Não em um momento como aquele. Jamais! Mesmo assim, apenas conseguia fechar os olhos com força e rezar para que o pior não acontecesse.
Foi então que um estrondo alto veio de cima de nós. Senti algo forte partir no meu braço, na região da ulna e me jogar para frente. Olhei para trás, mas só a poeira entrou nos meus olhos. Tossi desesperada. Senti meus olhos arderem até a alma.
— Kay?! Kay?! Você está bem? — gritei com toda a força dos meus pulmões. Minhas mãos tremiam e as lágrimas começaram a jorrar, ofuscando mais minha visão. O zumbido no ouvido ficou mais alto.
Depois de alguns minutos, a poeira começou a baixar, e só via destroços ao meu redor.
— Kay?! Kay?! Por favor, responde. — Me agachei, olhei para meu braço e percebi que ele sangrava. Era quase como se estivesse esmagado.
Gritei assustada, o mais alto que eu pude.
Contudo, a dor não parecia nada diante do que eu sentia por dentro. Me sentia mal, achando que minha amiga provavelmente tinha morrido por minha culpa. Era como se meu coração estivesse quebrado em mil pedacinhos. E o pior era que eu ainda não havia encontrado Kathy. Ela também devia estar morta, e logo eu seria a próxima. Eu era uma fraude e tudo era culpa minha, droga!
— Kay, cadê você?! Por favor, me desculpa! Me desculpa... — Meu apelo saiu num sussurro estridente e doido. Chorava compulsivamente e soluçava bastante.
Então, ouvi um som distorcido, cheio de ruídos arrepiante, vindo de um dos rádios que ainda funcionava. Era uma risada, mas... não qualquer risada. Era uma gargalhada grotesca e viciosa que parecia vir das profundezas do mais puro mal. Ela se arrastava lentamente, como se estivesse impregnada de dor e insanidade, com ecos estridentes que reverberavam no fundo da minha mente. Cada riso soava como se fosse uma faca afiada cortando a minha sanidade, e a voz, ainda que distorcida, carregava uma essência de prazer insano, como se o próprio diabo estivesse se divertindo com meu desespero. Era algo selvagem, instável, alternando entre tons altos, estridentes e abafadas, como se uma presença monstruosa estivesse tentando se conter, mas não conseguisse.
A sensação era de puro pavor. E meus pelos se arrepiaram por inteiro, dos braços até as pernas. Aquele som parecia como se o demônio estivesse em êxtase com o meu sofrimento, contando os segundos com uma satisfação monstruosa, ansioso para me arrastar para o abismo, para o inferno.
Logo, arregalei meus olhos e senti meu corpo inteiro congelar de repente.
Aquele... aquele só poderia ser... O Coringa!
Ele era uma lenda, não da forma positiva. Todos os Gotham o temiam, um ser misterioso, parecendo ser uma entidade ou um espirito obsessor, que vagava pelas ruas com a boca rasgada, olhos arregalados, risada medonha e com um apetite grande de causar mal ao seu bem-estar físico e principalmente mental.
Escutei uma porta se arrastar com força em seus trilhos atrás de mim. olhei para trás, sentindo uma gota de suor escorrer pela lateral de minha testa. Em meio a fumaça escura, uma silhueta se aproximava e fiquei boquiaberta, respirando devagar e sentindo meus membros adormecerem.
Estava no meu limite. Parecia que iria infartar a qualquer momento. E aquilo era simplesmente horrível, nunca mais queria me sentir daquela forma em toda a minha vida!
Para minha surpresa, quando a figura se aproximou mais e a poeira se dissipou. Ao invés de dar de cara com o meu exício, suspirei fundo, aliviada, ao ver os olhos castanhos de minha irmã.
— Klí? — Ela chamou, com dificuldade.
— Kathy! — Sorri.
Sua roupa estava toda rasgada, manchada pela fumaça, e sua pele marrom, agora coberta de fuligem, parecia ter sido atingida pela própria escuridão. Seu cabelo encaracolado, de tom chocolate, estava completamente bagunçado, como se tivesse saído direto de um filme pós-apocalíptico. Sabia que não devia estar muito diferente dela.
Corri até ela, abraçando-a apertado.
— Eu estou aqui, Kathy. — garanti, sussurrando em seu ouvido com a voz trêmula.
— Maninha, eu fiquei tão assustada! — Ela soluçava em meu ombro, e eu acariciava seus cabelos, tentando confortá-la, enquanto meu próprio coração ainda batia forte.
— Eu estou aqui com você, ok? Vamos ficar bem...
Ela assentiu, limpando as lágrimas que escorriam pela sua face e se afastou um pouco. Então, seus olhos se arregalaram ao perceber meu braço, e tampou a boca com as palmas das mãos, visivelmente chocada.
— O que aconteceu com seu braço?
— Isso? Não se preocupe, não é nada sério. — respondi, tentando disfarçar a dor.
— Deve estar doendo muito... — ela insistiu, olhando-me com preocupação.
— Só um pouco. — disse, tentando sorrir, mas a dor era insuportável.
— Precisamos fazer um torniquete. — Ela disse, com urgência, enquanto olhava em volta.
— Vai por mim, não temos tempo para isso. Precisamos sair daqui, rápido. Mas antes... — comecei, com um fio de voz, hesitante. — A Kay... Ela...
De repente, um desespero crescente tomou meu peito. Ouvimos o som de outra bomba sendo ativada. O que ainda restava do teto do corredor começou a desabar em nossa frente, bloqueando nossa passagem. Olhamos em volta, desesperadas, e vimos uma janela aberta no final do corredor.
— Vamos por aqui! — Kathy gritou, me puxando.
Enquanto corremos em direção à janela, a risada do Coringa ecoou pelos alto-falantes.
— Ah, a doce sinfonia do caos! — Ele riu, sua voz cheia de deleite malicioso. — É música para os meus ouvidos!
— Tem certeza de que é uma boa ideia? — perguntei, exasperada. Pontuando mentalmente as chances de termos sequelas terríveis com a queda.
— Você quer morrer?
— Não, mas...
— Sem mais! Infelizmente, essa é a única maneira que estou vendo de sairmos vivas daqui — respondeu, perto do parapeito.
O som da explosão ficou cada vez mais alto atrás de nós. Ela pulou primeiro, sem aviso prévio.
— Kathy? — gritei, mas já era tarde demais. — Que pirralha imprudente! — praguejei.
Evitei olhar para a janela. Aquilo definitivamente era uma péssima ideia, mas, sinceramente, eu tinha alguma escolha? Comecei a pensar que talvez fosse melhor morrer assim do que ser despedaçada em mil pedaços.
Subi no parapeito, sentindo o ar quente contra meu rosto. Ele estava cortante e trazia um pouco de fumaça consigo. Senti os pelos do meu corpo se arrepiando e, senti lágrimas invadirem meus olhos, me lembrando de Kay...
Mas aquela não era chora para chorar.
Então, pulei. Por mim e por ela.
Mas, no instante em que saltei, outra explosão ecoou.
Uma rajada forte de vento atingiu meus ouvidos enquanto caía. Minha cabeça girou, e fiquei tonta.
Senti meu corpo cair sobre algo que amenizou o impacto, mas, ao mesmo tempo, uma dor aguda e um frio cortante invadiram minhas costas. Ainda com os olhos fechados, percebi a estrutura macia, que deduzi ser um arbusto, embora estivesse molhado e com alguns galhos pontiagudos. Tateei meu corpo, me preparando para o pior, mas, para minha surpresa, estava bem. Apesar dos arranhões, agradeci pôr a queda não ter sido tão alta e por ter caído em um local que parecia seguro.
— Estou viva! — gritei. — Sobrevivemos! Aaah, Kathy, isso foi irado! Não foi? — Olhei ao redor, em pânico. Nenhum sinal dela, além de um rastro de sangue. Engoli em seco. — Kathy? Kathy?
Segui o rastro com o olhar. Senti meu estômago se revirar.
Corri até ela, com dificuldade, sentindo uma dor crescente no meu braço, pois a adrenalina começava a desaparecer do meu corpo. A peguei no colo, sentindo o peso do seu corpo inerte. Ela estava desacordada, e percebi que um fio de sangue escorria de sua boca. Além disso, notei uma contusão grave na parte de trás de sua cabeça. Com isso, concluí que o impacto com chão de concreto fez com que Kathy caísse com muita força.
— Mana! — gritei, olhei para trás e a escola estava em chamas.
Em meus braços, Kathy sangrava muito. Não queria ser pessimista, mas precisaríamos de um milagre!
— Socorro! Precisamos de ajuda aqui! — Comecei a gritar a plenos pulmões. — Por favor alguém me ajuda, minha irmã precisa de ajuda, socorro! Kathy! Katherine! Dá um sinal de vida, caralho!
— Ah, a tragédia da perda... — A voz do Coringa soou novamente, cheia de falsa simpatia. — Mas, como dizem, o show deve continuar! Por favor, senhora e senhores, não me entendam mal. Sabe, eu diria que agora é um bom momento para um momento de reflexão, não?
— O que a merda desse palhaço está tramando agora? — Trinquei os dentes.
Ele suspirou, antes de prosseguir:
— Ah, como a vida é curta, não é mesmo? Cheia de problemas, desafios, e acidentes... Acidentes, meus queridos, que fazem uma limpa, como se estivéssemos pisando em insetos!
Ele riu, debochado. Senti meu sangue ferver.
— Gotham, essa bela cidade, engole os fracos sem sequer hesitar. — Ouvi ele batendo o punho com força na mesa. — Mas não se preocupem com isso, oh não! O som da dor, o sabor do sofrimento... Isso é um banquete maravilhoso para mim, um verdadeiro manjar dos deuses. Um banquete que faz até o mais insano dos corações bater mais forte! Haha! Eu sei, eu sei... momento ruim, mas garanto que um dia vocês vão entender. Eu tenho um antigo provérbio, “Basta um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático”, ah, isso não faz tanto sentido agora, não é? Um dia vocês vão entender. No fim, ninguém de fato nessa cidade liga para vocês, nem para o seu núcleo mais promissor. Pobres jovens gênios que perderam a vida...
Hipócrita!
— Um dia, meus queridos jovens, pelo menos os que ainda respiram, vão se ajoelhar a mim e me agradecer por abrir os olhos de vocês para a verdade! E, para os que ainda têm esperança, uma pergunta... Onde está o Batman para intervir nesse espetáculo?
Consegui imaginar ele abrindo um sorriso largo ao terminar de falar aquilo. Porém, logo em seguida, identifiquei som de vidro sendo quebrado com o grunhido de lutas físicas. A transmissão fora interrompida de forma abrupta.
Nem sabia o que pensar naquela altura do campeonato.
— Ali! — ouvi um dos bombeiros dizer e apontar. Suspirei em alívio e sorri com as últimas formas que me sobravam.
Segurei Kathy com firmeza em meus braços, apesar da dor pulsante no punho direito, tentando confortá-la. Fechei os olhos com força e comecei a chorar, desejando que tudo aquilo não se passasse de um pesadelo. Mas não era.
Mal tive forças para parar de pé quando os bombeiros chegaram e fizeram os primeiros socorros em minha irmã. Nesse momento, notei a poça de sangue estampada em meu uniforme. Meu sangue. Por um momento desejei morrer junto de Kay, mas teria que continuar.
Quando os paramédicos vieram me socorrer, eu desmaiei.
[...]
Minha cabeça ainda latejava com intensidade. Eu e minha família estávamos na sala de espera, aguardando, com angústia, que os médicos tivessem piedade de nós e nos dessem mais informações sobre a situação de Katherine. Havia acabado de voltar do atendimento: engessaram meu braço direito e disseram que, por muito pouco, eu não o perdi. Recebi ordens estritas de repouso absoluto pelos próximos três meses.
Na sala, meu irmãozinho, Killian, distraía-se jogando um game infantil no celular, enquanto meu pai mantinha o olhar fixo na pequena televisão de tubo no canto da sala, absorvido pelas notícias desastrosas que o The Gotham News transmitia. Minha mãe, por outro lado, andava de um lado para o outro, nervosa, abordando a primeira enfermeira que aparecesse, na esperança de conseguir qualquer informação sobre Katherine.
Eu, sentada em um canto, roía as unhas compulsivamente. Minha ansiedade era tanta que acabei machucando as bordas dos dedos, arrancando pequenos pedaços de pele até fazerem brotar sangue.
— Por favor, pare com isso. — Minha mãe pediu, ela balançava a perna impaciente. — É um hábito nojento!
Revirei os olhos e soltei o ar pela boca. Ela nunca deixaria de ser irritante...
— Ei garota! Não revirei os olhos pra mim não! — Ela elevou o tom de voz e apontou o dedo na minha cara.
Abri a boca para rebater, mas meu pai foi mais rápido:
— Querida, por favor, se acalme. — Ele interveio, passando o braço direito pelos ombros de minha mãe.
Aproveitei o momento para me levantar e ir beber água. Enquanto enchia o copo no bebedouro elétrico fixado na parede, meu pai se aproximou.
— Não liga, ela está estressada — Ele sussurrou.
— Pergunta genuína: quando ela não está?
Ele suspirou, com um semblante cansado.
— É que sua mãe já estava passando por muita coisa antes disso tudo acontecer. Agora, ela está simplesmente uma pilha de nervos. — explicou.
— E nós também não estamos?
— Sim, mas com sua mãe é diferente. Sabe? Ela sempre foi mais emotiva, mais sensível. Por favor, não fique com raiva dela.
— Não estou com raiva, pai — respondi, antes de dar um gole na água. — Só estou cansada de ser tratada desse jeito. Eu quase morri hoje, e ela parece nem ligar. Na verdade, ela sempre pareceu gostar mais da Kathy do que de mim. Parece que não vai com a minha cara.
— Não diga isso. Ela ama vocês três igualmente — Ele rebateu com firmeza, mas o tom tinha um quê de cansaço.
Suspirei, sentindo o peso do dia inteiro nas costas.
— Se você diz...
— Vou voltar lá — anunciou, colocando a mão no meu ombro por um momento breve, mas reconfortante. — Esfria a cabeça um pouco. Sei que seu dia hoje foi muito estressante.
— Você nem imagina o quanto... — murmurei, mais para mim mesma.
Descartei o copinho na lixeira próxima e estava prestes a retornar para minha família quando algo me chamou a atenção. Numa sala de espera adjacente, vi uma senhora sentada em um canto, quase invisível para quem não prestasse atenção. Era baixinha, com longos cabelos pretos tingidos de fios brancos, e uma pele pálida marcada por rugas profundas, as quais pareciam contar histórias de uma vida difícil.
Ela vestia um casaco de lã cinza que parecia grande demais para ela, calças jeans desbotadas e um par de chinelos de borracha vermelhos. Uma bolsa lateral amarela repousava em seu colo. A bolsa, de aparência desgastada, tinha um pequeno rasgo no canto inferior e estava enfeitada com bordados de flores coloridas e uma borboleta na alça, como se alguém tivesse tentado dar um toque de alegria a algo tão simples.
Reconheci aquela mulher imediatamente.
Diane Challis.
Por um instante, pensei em me aproximar, mas hesitei quando dois policiais entraram na sala. Um deles, um homem negro de expressão séria, e a outra, uma mulher ruiva com olhos cansados. Eles caminharam até Diane, suas expressões pareciam alertar que não traziam boas notícias
— ¿Usted es la señora Diane Challis? — O homem perguntou, com a voz firme.
— Sí. — Diane se levantou apressadamente, agarrando sua bolsa amarela com as duas mãos. Sua postura, curvada e tensa, parecia a de alguém prestes a ser esmagado pelo peso da realidade. — ¿Descubrieron el paradero de mi Kay? Por favor, díganme que encontraron a mi hija.
Os dois policiais trocaram olhares silenciosos. Foi um momento breve, mas carregado de um significado doloroso. Um frio percorreu minha espinha e senti meu coração se apertar.
— Señora… — Começou a policial ruiva, hesitante. — Lamentablemente, su hija… fue hallada sin vida; quedó atrapada y aplastada bajo los escombros del edificio…
— ¡No! — O grito de Diane ecoou pela sala, cortando como uma faca. Ela desabou sobre si mesma, arqueando o corpo enquanto soluçava incontrolavelmente.
Com as mãos trêmulas, ela puxou um lenço branco do bolso e escondeu o rosto molhado de lágrimas. Meu peito apertou ainda mais ao reconhecer o bordado delicado no tecido: flores e pequenas estrelas, um trabalho meticuloso que só podia ser de Kay. Ela sempre teve aquele talento para bordar, e era impossível não reconhecer sua assinatura no mundo.
Diane apertava o lenço contra o rosto como se fosse um frágil escudo contra a dura realidade que acabava de desabar sobre ela. Mas não havia escudo, não havia barreira capaz de protegê-la daquela dor. Ela parecia tão pequena, tão quebrada, e cada soluço que escapava de seus lábios ecoava em meu peito, reverberando como se fosse minha própria agonia. Permaneci imóvel, incapaz de me mover ou desviar o olhar, sentindo cada lágrima dela como se fossem minhas também.
Minha melhor amiga estava morta! Por minha causa!!! Morta! Por causa da minha teimosia. O peso da culpa me esmagava, uma verdade amarga que eu não podia negar. E agora minha irmã podia muito bem encontrar o mesmo destino. Eu falhei. Falhei com elas. A dor dessa realização era quase física, como se mil estacas perfurassem meu corpo ao mesmo tempo, me arrancando o fôlego.
Sem conseguir suportar aquilo por mais um segundo, corri até o banheiro mais próximo. Fechei a porta de uma das cabines com força e me agachei no chão frio. Minhas mãos tremiam descontroladamente, como se tivessem vida própria. Meu peito subia e descia rápido demais, cada tentativa de puxar o ar parecia insuficiente, como se o oxigênio estivesse fugindo de mim. Senti uma pressão crescente no peito, como se um peso invisível esmagasse meu coração. Minha visão começou a embaçar, e um zunido tomou conta dos meus ouvidos.
Minha mente estava uma bagunça, os pensamentos caóticos se atropelando. Era como se um filme de cenas desconexas estivesse sendo projetado em alta velocidade dentro da minha cabeça: o rosto da Kay sorrindo, a expressão de dor da Diane, o sangue no meu uniforme... minha irmã inconsciente... meu pai tentando parecer forte. Era demais. Muito, muito demais.
Agarrei meus joelhos com força, tentando me ancorar na realidade, tentando parar o turbilhão que me puxava para um lugar escuro e sufocante. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e incessantes. Meu corpo tremia inteiro, meu estômago revirava, e tudo o que eu queria era desaparecer, apagar aquele dia como se ele nunca tivesse acontecido.
— Por favor... — sussurrei, com a voz quase inexistente, como se estivesse implorando para o universo ouvir. — Que esse dia de merda acabe logo...!
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