Titanos
8 Porque eu vou fazer você lembrar o meu nome
Notas iniciais
Continuo andando ao lado de Maven, com ele me mostrando a escola. Tenho certeza de que nunca decorarei onde fica cada coisa aqui. Paro assim que vejo um enorme corredor com fotos em quadros pretos perto do teto. Todas as diretoras que essa merda já teve. Começando com fotos em preto e branco, uma mulher completamente assustadora, com a mesma tiara de Elara. Reparando melhor, todas usaram essa coroa, menos uma... Ela tinha cabelos escuros que eu já tinha visto antes... Um olhar igual ao de alguém. O nome embaixo era "Corianne Jacos". Por que ela não usava tiara? Se estava ali, tinha sido diretora. Seus olhos exaltavam ternura, gentileza. Estava sorrindo, diferente de absolutamente todas naquele corredor. Sua foto descansava antes da foto penetrante de Elara. Seus olhos te seguiam para todo lugar que fosse.
— Essa é a ex diretora, mãe do Cal. — Maven murmura. — Ela...
— Morreu. — Completo. Ele já havia me falado dela.
— Ia dizer que reinou por pouco tempo.
— Por que não usava a tiara?
— Odiava aquilo, pelo que me contam. Significa tudo para nós, esses amuletos. E pra ela era um pedaço de metal feio. — ele sorri, e eu também. Acho que me daria bem com ela, parecia ser uma boa pessoa, como Cal. Completamente diferente de todos ali. — Chefes das casas têm os amuletos, ou quando você assume algo, como Coriane assumiu a diretoria daqui sem ser chefe de casa.
— Ela parecia ser ótima.
— Não conheci. — Ele dá de ombros, e sai andando depois de fitar os olhos da foto da mãe. Ah, é claro, se Elara o pegasse falando bem dela, seria sua morte. Ela devia odiar a pobre Coriane.
— O que aconteceu com ela? — Ele me fita, hesitante. Aí tem coisa.
— Assassinato. — Ele sussurra como se alguém fosse ouvir.
— Quem?
— Não falamos disso, Mare. — Assim como não falam de Deus. Que gente chata dos infernos.
(...)
— Putz. — Digo, ficando de frente para a parte de trás da escola, onde era a área de educação física. Era uma construção fora do castelo, toda carcada de grama. Era coberto, parecia um daqueles depósitos onde guardavam aqueles aviões particulares da tv. Era uma comparação aleatória, mas aquilo era absurdamente grande, e tinha o chão de mármore ainda presente.
Descíamos o escadarão enorme, e a primeira coisa que víamos era um ringue dentro de uma parte mais funda no chão, também cercada de escadas. Atrás, uma enorme quadra de basquete, e ao seu lado uma de Vôlei, e ao lado uma de tênis... Respectivamente, todos os esportes que eu nem imaginava estavam ali. Esgrima, patinação, ginástica... Todos eram preto ou prata, destoando das paredes de ferro branco.
Tudo ficava em "buracos" no chão, fazendo uma boa arquibancada de escadas de mármore ao redor. Pareciam arenas. Pra guerra.
— Chamam aqui de aeroporto. Sei lá porque, mas é isso.
— Nossa. Nossa. Caramba. — Balbucio, olhando ao redor freneticamente. Eu devia estar parecendo uma idiota, mas eu NÃO PODIA EVITAR.
— É muita coisa... No meu primeiro ano no fundamental eu surtei.
— Eu não vou aguentar. — Suspiro, e ele me encara.
— Tem que aguentar. — Maven diz, de frente pra mim. Nos encaramos por alguns segundos. — Quer ver o resto?
— Resto? — Arregalo os olhos. Ai. Meu. Deus. Eles não gostam, mas é isso, AI MEU DEUS.
Ele segura meu pulso, como se eu fosse me perder feito uma criança — era provável -, me conduzindo pela parte alta da escadaria até uma porta, saímos de novo no caminho de pedra preta cercado por grama, e continuamos andando, contornando o enorme "aeroporto", e vejo um campo de grama super verde e bem cuidada, com aqueles "Y" dos jogos de futebol americano que passam no telão da cidade. Ao redor, tinha uma enorme pista de atletismo, e finalmente via o muro preto de novo. As malditas espadas. Maven me vê o observando, e fica sério.
— Só de pensar em tocar naquele muro, ele te frita num choque de 5000 volts.
— Não vou fugir, Mavey. — Toco seu ombro, voltando pelo caminho, e ele apressa o passo para me seguir.
(...)
— Cal. — Maven o chama, e ele se vira, parando de observar os troféus e conduzindo sua atenção a nós. — Mamãe está me chamando, pode levar Mare ao quarto dela?
— Claro. — Ele dá um sorriso que dizia "tchau" e o outro irmão se coloca ao meu lado. — Gostou do castelo?
— Odiei. — É em parte verdade. Ele faz uma careta.
— Vai aprender a gostar. — Ele sorri, e começa a falar sobre a rotina, enquanto caminhávamos. — Acordamos as cinco, tomamos café. Temos corrida, depois luta, e logo algum esporte, tipo esgrima, ou basquete. Depois vem as aulas, o almoço, e a tarde livre. "Livre", entre aspas, porque dependendo do dia, vai ficar estudando até morrer.
— Que delícia. — Cruzei os braços, sentindo meu estômago revirar, e ele não parece notar.
— As festas daqui são incríveis, disso você vai gostar.
— Festas?! — Arregalo os olhos. Eles faziam festas? Aqui? Festejar o que? Minha nota horrível em todas as matérias?
— Aqui é muito rígido. Muito mesmo, mas tem as partes legais. Eles nos deixam fazer coisas no fim de semana, e duas vezes por mês saímos e podemos ir para a cidade, voltando as dez.
— Parece... Empolgante. — Talvez assim ficasse mais suportável, tempo para eu ficar sozinha sem fazer nada. Dormir. Que sonho.
— É sim, você verá. É meu último ano, estou ansioso. — Ele me olha, e vê minha cara de terror. — Olha, vai ser difícil, você vai ter muitos problemas para se adaptar, e talvez não se adapte. Vai chorar, vai surtar, e...
— Cal. É pra me fazer chorar, mesmo? — Ele ri.
— Não. Queria chegar na parte positiva: você vai se acostumar a sofrer. — Cal me olha, e eu gargalho, negando com a cabeça. Mais do que sofremos nas Cidades Vermelhas? Acho que não. Só de ter comida pra comer torna isso um sonho.
Seguimos pelos corredores em silêncio, até chegarmos numa escada bem larga, e subimos nela. Cal diz que o segundo andar eram só salas de aulas. E o terceiro e o quarto eram os aposentos de alunos, e nas torres tinham clubes, sala dos professores e outras coisas. Meu quarto é no quarto andar.
Fomos andando por portas e portas intermináveis, e ele para de frente para uma porta branca onde jazia o número "444".
— Esse é seu quarto. — Ele abre a porta para mim, e eu entro antes dele.
Era um quarto tanto quanto luxuoso. Não é muito grande, tem o tamanho de um quarto normal, mas as paredes brancas e o lustre no teto davam um toque mais... prateado.
Uma cama bem arrumada no centro, um guarda roupa grande, e a janela enorme tinha cortinas pretas combinando com o resto do quarto até o chão. Aquilo parecia um tabuleiro de xadrez, todo preto e branco, e eu odiei.
No canto, uma enorme mesa de estudos abrigava um computador brilhante que logo me atraiu. Fui até lá, notando a prateleira vazia ao seu lado.
— Isso é para colocar seu material, e o computador pra estudos. — Cal explica. — Sabe usar?
— Nem em sonho. — Murmuro, olhando o redor.
— Vai aprender. — Ele diz, com o olhar perdido nos porta retratos vazios. — Bem, amanhã vamos sair para comprar o material necessário... E uma criada vai te ajudar a escolher roupas. Depois Elara vai te passar o horário, cronogramas e regras...
— Regras. Posso sobreviver. — Ele solta uma risada fraca.
— Bem, vou te deixar descansar. — Cal diz, saindo, e fecha a porta atrás de si.
Respirei fundo.
Que merda. Apenas... fique viva.
Fui até a pequena bolsa com alguns pertences meus que trouxeram de casa, e despejei tudo na cama. Fotos.
Eu e Shade em um porta retrato. Eu, Trammy, Bree e Gisa em outro. Minha mãe, meu pai, Gisa e eu em mais um, e uma foto da minha casa, pendurei no quadro com taxinhas.
Okay, agora aquele lugar parecia mais meu.
Tirei as botas, deitei na cama, enrolada com as colchas, e deixei as lágrimas escorrerem.
Fale com o autor