Titanium - O Que Resta Da Monarquia
40 Promessa
Notas iniciais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=k-IxT0UqFIA
(Coloquem pra carregar e deem play quando começar a parte do John e Vivian)
— Ah Sherlock, como você pode ser tão ingênuo? Eu nunca imaginei que você, justo você, acreditasse em contos de fadas. – Mycroft dizia com uma pitada de ironia que fez Mrs. Holmes bufar. – Sinceramente, Cinderela não combina muito com você.
— Quem?
— Você esqueceu não é? – Perguntou nitidamente ignorando o questionamento de seu irmão mais novo. – Dormer House.
— Eu não sou mais um adolescente.
— E mesmo assim mantém o comportamento de quando era.
— Mycroft, não diga isso. Nunca mais repita isso! – Violet falou com as mãos nos braços do filho. – O seu irmão... meu Deus, ele não teve culpa de nada que aconteceu. – Disse com a voz tremendo.
— Ele está repetindo as mesmas coisas mãe, eu já vi isso acontecer antes.
— Não me diga que você gosta da Emma. – Sherlock falou de pronto, nunca havia notado algo de diferente no modo como seu irmão tratava-a e vice versa, mas pensar nisso fez sua boca secar, nunca gostou de dividir, ainda mais com ele.
— Você não passa de um serzinho microscópico. – Juntou a ponta do polegar e do anelar, apertando-os com tamanha força, fazendo com que seu sangue sumisse do local, surgindo duas pontas de dedos pálidos por trás das unhas bem cortadas. – Um parasita. Só o que você quer é alguém para sugar o que você precisa, sem se preocupar com o que pode acontecer à elas.
— Tão sentimental, irmãozinho.
Violet estava acostumada a apartar as brigas de seus filhos, por isso, conseguia reconhecer bem os sinais corporais que cada um dava, pôs-se entre eles como muitas vezes já havia feito.
— Sherlock, fique calado. É melhor vir comigo, filho. – Falou e puxou Mycroft pelo braço, que esticou-se para alcançar sua pasta.
Viu sua mãe sair arrastando o segundo ruivo da família e fechar a porta atrás de si. Pressionou o controle da cama, fazendo-a elevar-se de modo a apoia-lo sentado e ruminou a discussão com o irmão.
Não tivera culpa do que aconteceu na Dormer House, realmente não. Deixou aquelas lembranças escondidas em algum canto remoto de seu mind palace e nunca, em mais de 13 anos, voltou lá.
O pânico na voz de Violet reverberava em seus ouvidos, a fala tremida parecia entranhar-se nas paredes do quarto do hospital e morfina era só do que ele precisava e o que queria. Aumentou a dosagem da medicação no soro e deixou a cabeça cair lentamente no travesseiro.
“Quando acordar já terei compartimentado e socado isso em algum lugar do meu palácio mental”. Falou pensando consigo.
*****
Enquanto esteve entre a consciência e a falta dela, teve a impressão de ouvir um par de vozes que eram-lhe familiar, não conseguiu discernir de quem se tratava mas uma sensação de alívio percorreu todo o seu corpo antes de perder os sentidos novamente.
Teve pequenos vislumbres de um homem loiro ao seu lado durante o que pareceu-lhe uma lavagem gástrica, mas não sentiu a sonda percorrendo sua garganta, só o que sentia era a sua mão entre as mãos quentes de alguém.
Assim que abriu os olhos, desta vez despertando de verdade, Vivian pôde ver John tortamente sentado em uma cadeira velando a cabeceira de seu leito, pelo menos era isso que ele deveria ter feito até cair no sono desajeitadamente, com a cabeça sobre uma das palmas enquanto a outra mantinha-se unida a dela. Chegou então a conclusão de que não havia imaginado aquela sensação, ele esteve lá durante todo o tempo. Teve medo de mover-se e acabar acordando-o, parecia cansado, os olhos cobertos pelas pálpebras pesadas, manchas arroxeadas surgindo abaixo delas, a respiração pesada e um claro desconforto nas costas.
Sentiu-se imediatamente culpada por qualquer incômodo que ele poderia ter experimentado até aquele momento, John poderia ter ido deitar-se no pequeno sofá que havia no quarto para acomodar os acompanhantes mas não, preferiu não sair de seu lado, guardou seu sono e ainda permanecia ali, mesmo depois de tê-lo deixado sem explicação no 221A. Reparou algo diferente com seu cabelo, viu apenas as pontas e não acreditou no que viu, mesmo com a visão embaçada por falta dos óculos e excesso de miopia, eles estavam em um tom de castanho claro, quase loiro, que jamais havia visto neles em toda a sua vida, assustou-se e por impulso pegou uma mecha com a mão livre, porém, esqueceu-se que estava ligada ao soro e o movimento fez o cabide sacudir, bater seus três pés no chão e o barulho metálico despertar Watson em um salto.
— O quê? – Perguntou olhando ao redor.
— Fui eu, desastrada... Oi. – Disse timidamente.
— Amor! – Falou, depois pareceu arrepender-se ou envergonhar-se e assumiu o papel de médico e pegou sua maleta. – Vivian, como está se sentindo?
— Aparentemente bem. – Respondeu enquanto ele verificava seu pulso e pedia que abrisse a boca.
— Ponha a língua pra fora. – Com uma paleta e uma lanterna examinou sua boca e garganta. – Alguma dor? Tontura? Enjoo?
— Não que eu sabia, pelo menos nada até agora. O que houve?
— Você foi envenenada. – Colocou o esfigmomanômetro ao redor de seu bíceps. – Lembra de comer uma frutinha negra? – Pôs as olivas do estetoscópio nos ouvidos, o auscultador na dobra do braço dela e começou a aferir sua pressão arterial.
— Lembro... um homem me fez comer.
— Era beladona.
— Beladona? Jesus Cristo! – Vivian sussurrou apertando os olhos com força, agradecendo mentalmente por estar viva enquanto ele recolhia tudo e guardava.
— Sherlock e eu conseguimos te encontrar antes de... – Ele pareceu pensar em quais palavras usar. – o tempo acabar. Tudo certo contigo. Vou chamar seu médico.
— Não é você?
— Não trabalho aqui, só não gosto de deixar os meus na mão de outros médicos... eu já volto.
Poucos minutos depois um médico de ascendência indiana entrou no quarto, apresentou-se e examinou-a da maneira mais cuidadosa que já vira e com uma educação excepcional, por fim disse que ela estava significativamente melhor mas que precisaria ficar em observação por mais um dia, exames precisavam ser feitos e de acordo com o resultado deles, teria alta.
Watson voltou ao quarto e tirou um par de óculos do bolso do casaco que estava pendurado na cadeira, entregando-a com cuidado.
— Obrigada. Mesmo. – Ela falou colocando-os.
— Não há de quê.
— Não só por isso... por me salvar.
— Eu vou avisar seus pais que você acordou.
— Por favor, ainda não. Nós temos que conversar. – Falou ajeitando-se na cama para olha-lo com clareza.
— Vivian... eu... – Lembrou-se de Sherlock dizendo que ela poderia não ser mais sua namorada. Sentando-se, esfregou os olhos com o polegar e o indicador da mão direita, em seguida fechando-a em punho sobre a boca e apoiando o cotovelo no braço da cadeira de metal. – me sinto tão culpado por como as coisas aconteceram. Se eu não tivesse tentado nada, você teria ficado e nada teria acontecido.
— Nada é culpa sua. Uma hora ou outra isso aconteceria, ele iria me usar para atingir Emma de qualquer forma. Eu só queria ter adiado isso por tempo suficiente para Sherlock pega-lo. Preciso te explicar o que aconteceu, o que me fez reagir daquele jeito.
— Você não precisa explicar nada. – Falou apertando-lhe a mão, não faria-a reviver o que houvera com ela aos dezesseis anos novamente. – Só me ouve. – Encarou o silêncio dela como uma aceitação e prosseguiu. – Eu nunca quis te fazer mal, te forçar a nada, você é importante demais pra mim. Entenda, eu não soube como reagir na hora, me afastei porque achei que era o que você queria. Fui burro e indelicado, mal educado até, vou entender se acabar agora, não vou insistir e te tirar o sossego, só preciso contar de uma vez que você é a pessoa que eu mais me importo, tenho carinho e que amo nesse mundo. Vou continuar te querendo bem e vou estar pronto pra te ajudar se precisar de mim, no que quer que seja...
— Não é isso que eu quero. – Interrompeu-o. – Eu fui tão impulsiva. Não deveria ter saído daquela maneira, deveria ter ficado e conversado com você, explicado o que aconteceu comigo.
— Você não precisa. Por favor, você não precisa me dizer nada.
— Eu fui embora e no fundo, quis voltar assim que eu entrei no carro mas deixei o orgulho tomar conta de mim. Desde que acordei naquele lugar eu chamei por você, rezei pra você me buscar, me tirar dali e me levar pra longe. – Fechou os olhos deixando as lágrimas correrem livremente por seu rosto. – E você foi.
— Eu não consegui te buscar antes, eu iria se soubesse onde estava.
— Mas no final você foi. – Vivian inclinou a cabeça um pouco para a esquerda, o que deixou-a com a expressão mais doce e chorosa que John já havia visto em sua vida. – Como eu poderia não amar alguém assim e te mandar pra longe?
Watson sentou-se na cama ao lado dela e tocou-lhe o rosto, viu-a fechar os olhos por trás dos óculos e mais lágrimas lavarem-lhe a face, inclinou-se para frente e uniu seus lábios aos dela, que agarrou a manga de sua camisa e puxou-o para um beijo doce, longo, apaixonado e salgado.
— Juro que vou pegar esse cara. A ideia de nunca mais te ver, dele te manter tão distante que eu não poderia te ver nem de longe... ele tentou tirar o amor da minha vida e isso nunca vai ter perdão. – Disse coçando o nariz, nitidamente prendendo o choro.
— Eu nunca fui o amor da vida de ninguém.
— Mas pode ser da minha, não?
— Você também pode ser...
— Eu também nunca fui o amor da vida de ninguém. – John sorriu tomando-lhe as mãos, até mesmo a que mantinha o acesso para o soro. – Escuta, eu sei que essa não é a situação perfeita e nem era desse jeito que eu queria fazer isso mas fiz uma promessa de que faria assim que tivesse você de volta.
— O quê?
— Isso que aconteceu serviu pra abrir meus olhos, você não é mais uma que eu vou simplesmente deixar que passe pela minha vida, isso é pouco... e eu consegui ver que não consigo me ver sem você. Não importa quanto tempo precise esperar, pode ser um mês, um ano ou até dez... você vale a pena. Sempre valeu.
Ela baixou a cabeça e os cabelos claros caíram como uma cortina por seus ombros, aparentemente já havia entendido onde ele queria chegar com todo aquele discurso.
— Ainda é cedo, eu sei disso mas também tenho certeza de que não posso deixar ir a mulher mais maravilhosa que já passou pela minha vida, se ela me quer, nem me dar ao luxo de te perder e não passar uma vida inteira com você. Eu pensei muito em como te dizer tudo isso e espero que tenha saído da maneira certa ou que eu não tenha passado vergonha com as coisas que eu falei, pelo menos. – John respirou fundo e soltou o ar rapidamente pela boca. – Vivian, você quer casar comigo?
Viu-a erguer a cabeça e encara-lo em silêncio, sentia suas mãos tremerem nas dele enquanto procurava a voz no fundo da garganta.
Inclinou-se para ele e beijou-o novamente, desta vez mais docemente do que antes, se é que isso era possível.
— Isso é um sim?
— Sim, John Watson. É um sim. – Falou e abraçou-o com um dos braços.
— Meu Deus, eu nunca tive tanto medo na minha vida. – Disse com a boca nos cabelos dela. Não diria nada mas não gostou da mudança, preferia-os negros. Ouviu-a rir dele daquela maneira que ele gostava, baixo, depois mais alto e baixo de novo. – Eu prometo que não vou te decepcionar ou te deixar sozinha.
— Não precisa prometer, eu sei.
— Eu ainda vou fazer isso direito, vou pedir sua mão aos seus pais e te comprar um anel, nem que eu passe a vida toda pagando, você vai ter um anel digno de atriz de cinema.
— Não precisa disso, nem de anel, nada. – Riu dele mais uma vez. – Tem uma coisa que você precisa saber sobre mim, – John franziu a testa encarando-a. – eu sou católica.
— Nós casamos na igreja católica, não tem problema. – Beijou-lhe os lábios mais uma vez, mesmo sendo anglicano, casaria com ela em qualquer lugar, de qualquer maneira, até em uma cerimônia budista.
Emma estava do lado de fora do quarto a tempo suficiente para ver o pedido de John pela janela e mesmo sem conseguir ouvir, soube exatamente o que havia acontecido lá, decidiu dar um pouco mais de tempo para os dois, incluindo convencer os pais dela a esperar do lado de fora por um pouco mais de tempo, enquanto eles conversavam e ela se preparava para entrar.
Não houveram palavras suficientes para explicar o quanto ela se sentia culpada pelo que aconteceu a sua amiga mas os pais dela sabiam que Emma fizera o impossível para livra-la.
— Oi? – Perguntou batendo na porta e colocando a cabeça para dentro do quarto.
— Emma! – Vivian olhou-a com um enorme sorriso no rosto.
— Graças a Deus você está bem.
— Estou. – Abraçou a amiga com força. – É muito arriscado isso que você fez.
— Nunca me perdoaria se algo te acontecesse, você é minha melhor amiga, Vivian. Mesmo isso não sendo saudável pra você. – Concluiu depois de uma pausa. – Não se preocupe, eu aguento o tranco do que vem pela frente.
— Pare com isso.
— Não te fizeram nenhum mal além do envenenamento e o cabelo não é?
— Por pouco. Vou ficar bem. – Olhou de relance para John que sorria para ela. – Como está Sherlock?
— Rabugento. – Disse sorrindo. – Como sempre, não é John?
— Você deveria visita-lo. – Falou olhando para o médico.
— Depois. Você é minha prioridade.
— Nós estamos noivos, Emma. – Vivian falou arrumando os óculos no nariz para disfarçar a timidez.
— Mas já? – Perguntou fingindo surpresa. – Parabéns! – Disse abraçando a amiga mais uma vez, olhando para John. – Vocês vão ser muito felizes juntos, tenho certeza.
— Você quer ser minha madrinha?
— Eu? Claro! Seria uma honra, o que você acha disso John? Posso trazer muita imprensa para o casamento, que já vai ter bastante.
— Você é a melhor amiga da Vivian e eu também faço questão que vá.
Emma abraçou-o felicitando-o e dizendo por entre dentes “É melhor você cuidar dela direito ou posso mexer uns pauzinhos e fazer com que te chamem de volta pro exército e te mandarem pro outro lado do mundo”.
Ficou lá ouvindo tudo o que havia acontecido com a amiga e ruminando o que faria assim que estivesse cara a cara com Henry (VIII) novamente.
*****
Molly.
Molly Hooper.
Hooper.
Só isso. Era desta maneira que ela se enxergava e nada mudaria isto. Ainda mais estando apaixonada por Sherlock Holmes, que nunca enxergou-a como nada além de uma amiga, isso conquistado no dia em que ele forjara sua morte e dissera-a que ela era quem mais importava.
Faria qualquer coisa por ele, todos sabiam, inclusive o próprio, o que tornava aquele amor incrivelmente patético. Ele estava apaixonado (mesmo que não quisesse dar o braço a torcer) pela princesa de contos de fadas, bonita, de família rica e tradicional, educada nos melhores colégios do Reino Unido, quem poderia ser Molly Hooper comparada à Emma, Princesa de Wessex? Como competir com isso?
Aquele amor estava fadado ao fracasso mas mesmo assim ela estava sentada no sofá do quarto do hospital em que ele estava internado e dormia tranquilo a base de muita morfina, como havia conferido.
Abriu a bolsa em busca de algo para comer e tirou de lá um pacote de batatas fritas industrializadas, lembrou-se do dia em que ele chamou-a para “almoçar” exatamente isso. Era incrível como não esquecia ou deixava passar nada relacionado a Sherlock. Abriu a embalagem o mais cuidadosamente que conseguiu para não fazer barulho.
— É proibida a entrada de alimentos no hospital. – Ele falou com os olhos fechados. A voz grossa e aveludada dele fez com que suas entranhas tremessem, amava aquela voz de barítono. – No necrotério não há problema mas aqui... você está vendo algum morto? – Abriu os olhos vermelhos e curiosamente divertidos e encarou-a.
— Não.
— Eu não pretendia acordar agora, você mexeu na morfina?
— Sim. Você recebeu alta, não precisa mais dela. – Falou apontando para o documento sobre a mesinha ao lado da cama.
— Morfina nunca é demais.
— Como está se sentindo? Eu não pude vir antes por conta do trabalho. – “Isso, dê explicações, ele não se importa!” pensou após falar.
— Mrs. Hudson me contou. Tudo ok com o St. Barts?
— Sim.
Ele arrancou a agulha em sua veia que “alimentava-o” com a morfina e tentou sentar, mas sem sucesso. Molly levantou-se para ajuda-lo e ele desceu da cama usando somente uma cueca samba canção, daquelas que são fornecidas pelos hospitais. Resmungou mentalmente que poderiam ser uma daquelas camisolas com abertura na parte de trás mas ok, a visão de Sherlock andando até o banheiro com os passos felinos dele foi o suficiente para fazê-la corar mas não tirar os olhos das duas covinhas que ele exibia acima do elástico da cueca.
Esperou-o tomar banho e voltar ao quarto, quando o fez estava usando somente a calça social, com o zíper erguido mas o botão aberto.
— Precisa de ajuda? – Ofereceu-se e ele aceitou. Calçou-lhe as meias e os sapatos, abotoou a calça (não sem encarar cada detalhe do peito e abdômen dele), precisou de toda a concentração do mundo para não deixar suas mãos tremerem quando juntou as partes da calça na cintura dele para fecha-la. – John pediu Vivian em casamento, você soube?
— É... ele me disse antes de ontem. – Respondeu mas nas palavras não conseguiu ver nenhuma animação.
— É uma coisa boa não é? Começar uma família, isso parece com ele.
— Sim, é a cara dele. – Falou com a expressão vazia e os olhos claros, a vermelhidão havia sumido.
O cabelo dele ainda molhado deixava escorrer algumas gotas d’água pelo peito, ombros e costas dele, Molly pegou a toalha para enxugar-lhe a cabeça antes que cedesse ao impulso de passar a língua onde se dava cada linha molhada.
Ajudou-o a vestir a camisa, tinha certeza de que ele sabia tudo o que se passava em sua cabeça, que via como olhava o tecido percorrendo os braços e os ombros dele mas uma coisa havia aprendido convivendo com ele, apenas continue e deixe que ele pense sozinho, enquanto não dissesse nada, estava tudo bem. Estava terminando de fechar os botões da camisa social de mangas compridas, que tinha um tom de marrom escuro que acentuava a cor dos olhos dele quando ouviu a porta abrir e viu-a entrar no quarto flutuando. Qual o problema dela? O chão é sujo demais para que seus pés Reais toquem-no?
Não odiava-a, não achava-a má pessoa, de modo algum, mas Emma tinha a única coisa que ela mais queria.
— Olá, Molly. Como vai? – Perguntou estendendo a mão para ela. Tinha certeza de que ficara com ciúmes. Em algum lugar começou a tocar We are the champions do Queen, mesmo que por alguns instantes.
— Bem e vossa alt... você? – Porcaria, nunca sabia como trata-la.
— Está tudo bem. – Emma lhe sorriu genuinamente simpática. Porque ela tinha que ser tão educada? – Como está? – Perguntou para Sherlock arrumando com os dedos o cabelo dele que Molly não tivera tempo de arrumar.
— Pronto pra ir pra casa.
— Conseguiu tomar banho e se vestir só com um braço? – Ela estava olhando para ele. Alguém havia aumentado o volume de Queen depois dessa.
— Molly me ajudou. – A cara de nada que ele deu foi o suficiente para a música ir murchando. – Quero ir pra casa.
— Não seja mal educado, você agradeceu pela ajuda? – Ela não esperou resposta. – Eu sei que ele não pediu. Muito obrigada Molly. – Inclinou-se na direção dela e abraçou-a.
Nunca havia sido abraçada por alguém da realeza e não soube bem como comportar-se, se abraçava de volta ou não, foi tão rápido que o não foi o que aconteceu. Ficou para ajudar a guardar as coisas dele e pedir uma cadeira de rodas no corredor, quando voltou viu-o com o braço livre ao redor da cintura dela, tão possessivo quanto ela já havia visto alguém, com os lábios unidos aos de Emma, que estava com as mãos nas coxas dele e os dois de olhos fechados. Nunca o chão pareceu-lhe tão convidativo e reconfortante, sentia um buraco abrir-se em seu estômago e lágrimas aparecendo em seus olhos, piscou rápido para dissipa-las e viu os pés de uma enfermeira empurrando a cadeira para ele.
Despediu-se deles no estacionamento, Emma insistiu em dar-lhe uma carona mas recusou-se com a desculpa de que encontraria um amigo que morava perto dali.
Não havia amigo nenhum, a não ser o vento gelado cortando-lhe o rosto e quase congelando as lágrimas que caiam em cachoeira de seus olhos enquanto andava pelas ruas meio sem rumo.
Viu-se meia hora depois sentada em um banco de um ponto de ônibus que ela não sabia como havia parado lá. Viu-o dobrando a esquina e enxugou as lágrimas com as costas das mãos enluvadas e levantou-se para pegar o coletivo até o St. Barts.
*****
Uma semana depois Emma estava na ONG ajudando com os novos alunos da creche, no começo era preciso mais gente para lidar com o choro dos bebês e ela foi obrigada a improvisar, a única pessoa disponível era Sherlock, que não daria aulas naquele dia. Mandou que chamassem-no e dividiu-se em três garotinhos de pouco mais de um ano.
Ele entrou contrariado na sala de brinquedos, conhecia bem aquela expressão, ele começaria a falar sem parar em alguns segundos.
— Sherlock, aqui. – Falou pondo o mais velho dos três garotos e mais falante no colo dele. – Esse é o Matt. Matt, esse é o tio Sherlock. – Ele encarou-a ao ouvir a palavra tio. – Ele vai ligar o DVD pra nós, olha que legal. – Falou sorrindo para o garotinho.
— Çeloqui ligá?
— Isso, ele vai ligar. – Apontou para onde ficava o DVD e empurrou-o pelas costas. – Sorria pra ele, Sherlock. – Mesmo de costas, conseguiu vê-lo mostrando os dentes (não era um sorriso) para o menino, que esticou as mãozinhas gordas até chegar a boca dele.
— Ligá! Ligá! Çeloqui ligá!
Não conseguiu não rir da situação, nem quando ele foi forçado a fazer a coreografia do vídeo, que consistia em girar, bater os pés, as mãos e balançar os quadris com as mãos na cintura.
Quem mandou forjar um suicídio?
Após as crianças dormirem, voltou para sua sala e encontrou uma das cartas de Henry dentro dela, havia sido empurrada por baixo da porta. Com a loucura lá embaixo, ninguém havia estado naquele andar até então.
Fechou a porta e rompeu o lacre para ler o conteúdo da carta.
“Minha querida Anne,
aguardo-te na corte para que entregues-te à nós. Não aflijas-te, nada há de faltar à ti, nós mandamos que os arranjos fossem iniciados para receber-te.
Estamos sem dormir a dias somente com a visão de ter-te aqui junto a nós, corras minha Anne, não te demores pois o coração desta Vossa Majestade que te escreves espera-te ansiosamente.
Amar-te-ei eternamente, se preciso for, venhas nas asas de um imponente falcão. Mandar-te-ei buscar o mais rápido que os nossos cavalos aguentarem.
Afetuosamente e com o majestoso coração em frangalhos por não aguentar esta distância.
HR”
Sentiu Sherlock envolver-lhe a cintura com os braços e beijar-lhe o rosto, não havia notado sua presença em sua sala.
— Eu vou resolver isso.
— Eu sei.
— Uma tragédia aconteceu.
— O que houve?
— Minha mãe te convidou para jantar.
— Essa é a tragédia? – Perguntou antes de soltar uma risada nervosa e carregada de preocupação, não pelo jantar, pela promessa naquela carta. E ele achava que conhecer a casa dos pais dele era grave, ah Sherlock...
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