Titanium - O Que Resta Da Monarquia
8 Paixão Segundo São Mateus
Notas iniciais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=leX2Qs8qqwc
Eles foram separados nos dias em que o julgamento ocorreu, estiveram em salinhas frias, completamente sozinhos após as instruções de uma Vivian agitada. John estava nervoso, nunca havia passado por uma situação como aquela, ser questionado, acusado, ironizado, tudo era muito estranho para ele, sempre fora um “bom moço” como Mrs. Hudson costumava se referir a ele.
Sherlock mantinha sua corriqueira postura entediada, olhando para um ponto fixo em uma das paredes da pequena sala em que o “prenderam”, como ele achou.
No julgamento eles foram pressionados pelo promotor que fazia as acusações, mais John do que Sherlock, já que ele era o humano. Essa foi a descrição que o promotor dele: humano, e isto segundo ele, teria sido a razão de seu suposto auxilio aos crimes cometidos por Sherlock Holmes. Sua amizade por ele o teria feito acobertar e participar da armação do suicídio.
Por um milagre e depois do enorme sermão de John nos dois dias anteriores ao julgamento, Sherlock não desdenhou do promotor, do júri ou do juiz, comportou-se bem, para alivio de Vivian que temia os possíveis comentários ou demonstrações de suas deduções.
Ela apresentou uma prova forte da inocência dele diante das circunstancias, uma gravação de toda a conversa que teve com Moriarty no telhado do St. Bartholomew's feita em seu iPhone, que claramente o inocentaria das acusações a respeito dos crimes anteriores ao seu suicídio falso.
Molly também foi ré, já que ela assinara o atestado de óbito de Sherlock e liberara o corpo de Jim como sendo seu. Atendendo a um pedido de John, Vivian pedira que um dos advogados do escritório de seu pai a defendesse e a conta seria paga por Holmes, segundo o médico. Ela duvidava, mas resolveria isso depois.
No dia seguinte foram chamadas as testemunhas de defesa e acusação, Mrs. Hudson, Lestrade, a psicóloga de John e Donovan, Anderson e Mycroft – para surpresa de todos – respectivamente.
Vivian tentou humanizar Sherlock em cada questionamento, principalmente o de Mrs. Hudson, que chegou a chorar, falando de seu menino, como referira-se à ele.
E quanto a John, era só preciso atestar o tamanho do sofrimento pelo qual passara, que não havia como fingir um luto de tamanhas proporções com o testemunho de sua psicóloga.
O promotor usou Donovan para coisificar o detetive, usando o termo aberração durante a pergunta que fizera a ela, sendo protestada por Vivian veementemente. Mycroft ao contrário do que o promotor achara, não deu espaço para interpretações sobre o que dizia, era inteligente demais para prejudicar seu irmão naquilo, apesar de suas rusgas.
Após o intervalo para almoço, Vivian, o advogado de Molly e o promotor fizeram suas oratórias, cada uma com mais de duas horas de duração. O júri deveria deliberar sobre se eles deveriam ser inocentados ou condenados e apresentar a deliberação na manhã do dia posterior.
No outro dia, o júri apresentou o veredicto e o juiz leu a sentença. John foi inocentado, porém Molly e Sherlock foram condenados a alguns meses de reclusão, que foram revertidos à prestação de serviços comunitários. Ele não gostou nada da ideia mas o que poderia fazer, foi o que Mrs. Hudson perguntou.
Foram comemorar o resultado do julgamento no 221A, a senhoria preparou um belo jantar para eles, Vivian, Lestrade e Molly.
Mycroft não compareceu, alegou estar muito ocupado para frivolidades e ouviu os gritos de Sherlock e John pela maneira que falou com a senhora. Desculpou-se com ela e foi embora do tribunal.
Foi servido sausage rolls (pães de massa folhada com linguiça, temperado com erva-doce e parmesão) de entrada e peito de frango com mostarda inglesa ao molho de alho poró e vinho branco como prato principal. Vivian ficou encantada com o prato e Mrs. Hudson garantiu que era facílimo de preparar e ensinaria-a. Estavam todos à mesa quando a campainha tocou e John se ofereceu para abrir a porta.
— Boa noite, John. – Emma disse mostrando uma garrafa de vinho branco francês antigo, safra de 1946. – Espero que não seja de mau tom aparecer assim e me juntar a comemoração.
— Não Emma, entre! Se não fosse você para colocar Vivian no nosso caso, não sei o que seria de nós! – John olhou para Vivian e Emma percebeu algo no ar, assim como Sherlock revirando os olhos. – Me deixe te ajudar. – Disse oferecendo-se para guardar o casaco, bolsa e scarf dela.
— Obrigada. – Emma sorriu entregando as coisas à ele e entrando no flat de Mrs. Hudson que levantou para cumprimenta-la. – Seu flat é realmente adorável, Mrs. Hudson.
— Ora, não precisa dizer isso, é só um flat de uma pobre velha.
— Então de quem a senhora é inquilina? – Emma sorriu e a senhoria sorriu em resposta a gentileza.
— Venha, sente conosco, vou colocar mais um prato para você. – A senhora buscou um prato, talheres e um guardanapo para Emma.
Sentou-se entre Vivian e Sherlock, que juntamente com John encabeçavam a mesa em lados opostos, de frente para Mrs. Hudson, Lestrade e Molly, pousou a garrafa de vinho no móvel e pôs as mãos sobre o colo. Foi apresentada ao detetive inspetor que engasgou um pouco mas foi simpático, sorriu estendendo-lhe a mão por cima da mesa.
Molly aparentou estar intimidada com sua presença e retraiu-se, sem deixar de ser educada e tentar sorrir.
— Acho que a família real britânica não tem os mesmos modos de outrora. – Sherlock falou.
— Sherlock! – Mrs. Hudson o repreendeu batendo em seu braço com o guardanapo. – Você que não tem modos, como pode dizer isso para ela? Peça desculpas! – A senhora realmente exercia o papel de mãe.
— Desculpe. – Disse a contragosto.
— Não me senti ofendida.
Sherlock apertou os olhos e John pigarreou.
— Vamos jantar em paz, por favor?
— Eu gostaria de fazer um brinde. – Lestrade disse.
— Oh Deus, não. – Sherlock tinha sua mão pousada na testa.
— Sherlock! – Dessa vez foi John que o repreendeu. – Não ligue para ele Greg.
— Um brinde a liberdade, mesmo que com serviços comunitários, dos meus dois amigos. Eles agora estão completos, juntos, agora poderão ser felizes sem a sombra de Moriarty. Poderão sair por aí de mãos dadas, correndo pela noite, como um casal apaixonado em fuga.
Lestrade estava ficando alto devido ao vinho que tomara antes e o que Emma trouxera. Agora era John que estava com a mão na testa, visivelmente constrangido. “É isso que as pessoas falam, mas precisava dizer na frente dela?” pensou referindo-se à Vivian.
Greg levantou sua taça e Emma apressou-se para levantar a sua, seguida de Vivian, que o fez após ser cutucada pela amiga. Mrs. Hudson demorou para assimilar o brinde mas o fez, Molly juntou-se a eles com os olhos arregalados e John levantou sua taça relutantemente ainda com a mão no rosto. Sherlock não brindou, apenas olhava fixamente para Emma, que sorria com seu braço erguido.
Passado este constrangimento, o jantar seguiu sem mais surpresas, todos conversando entre si e rindo enquanto comiam e bebiam. Sherlock só comia porque Mrs. Hudson observava-o, ela praticamente obrigara-o a comer. Após a sobremesa ser servida, tortinhas doces, Lestrade e Molly se retiraram, ela se certificaria de que ele chegasse em casa bem, tomariam um táxi.
Vivian e John ajudavam Mrs. Hudson na cozinha, enquanto Emma enviava sms sentada em uma poltrona diante da lareira.
— Então, como anda o sono? – Ele estava de pé, ao lado da lareira.
— Muito bem, obrigada. – Emma sentiu sua coluna travar. – Porque tanto interesse, Mr. Holmes?
— Por nada. – Sherlock deu um meio sorriso.
— Realmente não entendo seu interesse pela minha vida sexual. – Disse digitando uma mensagem.
— Não estou interessado, apenas estou observando.
— Você observa demais. – Emma disse levantando-se e indo despedir-se de John e Mrs. Hudson, que pediu que Sherlock a acompanhasse. Vivian disse que logo terminaria e pediu que a esperasse na escada.
Sherlock andava na frente, com seu caminhar austero, fechando o botão de seu paletó. Emma vinha atrás, vestindo seu casaco, alertou-a sobre o tapete mas ela não teve tempo para desviar e seu salto prendeu-se nele, jogando-a para frente.
Seu corpo se chocou contra o dele que amparou-a passando os braços ao redor de sua cintura, sustentando-a e ele bateu suas costas na parede ao lado da escada.
A proximidade entre eles era tamanha que a tensão era palpável, eles se olharam fundo nos olhos, respirando em sintonia, até que ambos aproximaram-se unindo seus lábios em um beijo longo e quente. Emma sentia seu corpo inteiro queimar, sentindo o calor que emanava do corpo dele. Suas mãos em suas costas faziam-na arder e sua boca, sua língua, deixavam-na dormente. Ele apertava-a de maneira possessiva e ela retribuía da mesma forma, empurrando-o contra a parede. Até que ouviram alguém esbarrando em outro alguém, separaram-se e viram John e Vivian encarando-os.
Emma afastou-se de Sherlock, dizendo até logo para Watson, chutando o tapete de volta para o lugar e saindo pela porta. Vivian fez o mesmo e ao passar por Holmes cumprimentou-o sem jeito, saindo para a rua. John conseguiu ouvir a porta do carro bater e elas irem embora.
— O que foi isso? – John perguntou com os olhos arregalados.
— Deduza. – Respondeu subindo as escadas para o 221B.
— Sherlock.
— John.
Sherlock entrou em seu flat, atravessou a sala, pegou seu violino e pôs-se a tocar Paixão Segundo São Mateus de Bach.
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