Titan Attack - O Desespero
2 Capítulo 2 - Porque Tive Coragem Oh Tropa?
Notas iniciais
Se, a princípio, a ideia não é absurda, então não há esperança para ela.
Os passos pesados poderiam ser ouvidos em qualquer lugar, eram inúmeros, ecoando pela construção fazendo cada pelo no corpo de Luigi se arrepiar. E cada passo parecia ser o último que ouviria, o som fazia o som do próprio coração se tornar inaudível mesmo que estivesse batendo forte. O escuro era uma paz maligna que retirava sua mascara ao se quebrar o silencio mostrando o verdadeiro terror que espreitava o exterior da construção. O som do choro volta e meia começa e parava, não queriam ser ouvidos por aqueles monstros no exterior, mas queriam mostrar seu desespero, deixar as lagrimas caírem.
Luigi estava encolhido embaixo da escrivaninha junto a outros dois amigos da patrulha. Podia sentir o braço fino de Rosemary tremer freneticamente encostado ao seu e seus espasmos de medo a cada passo no exterior da sala. As janelas estavam fechadas e o escuro reinava ali. Não saber o que estava acontecendo trazia um medo gigantesco: o que os olhos não veem a mente imagina sangrentamente. E assim estava sendo.
Rosemary tinha cabelos avermelhados e se encontrava mais assustada que qualquer um dos dois sob a mesa. Desde o momento em que por acaso se reuniram naquela sala ela repetia parar as mesmas palavras “sangue, dente, morte, fim, sangue, dente, morte, fim...” quase que como um mantra ou uma narrativa do que conseguiu ver anteriormente.
A cada passo que podiam ouvir eles imaginavam um de seus amigos sendo mortos. Nada poderia ser feito. No escuro não há o que preencher sua mente, tudo o que lhe vier primeiro a mente se torna real e tudo que lhes vinha a mente era sangue. Sangue e morte. E a verdade é que isso era tudo que conheciam sobre o encontro entre um humano e um titã.
Luigi já estava em seus vinte e cinco anos quando decidiu lutar contra os titãs, mas, nunca imaginou que seria assim. Até algum tempo atrás nenhum deles, ou melhor, 99% da população humana na terra, havia tido contato direto com um titã. Todos já haviam ouvido falar sobre como eram terríveis, mas antes do terrível ocorrido com o titã gigantesco ninguém conhecia o terror que era encarar um.
O medo fazia Luigi suar cada vez mais frio, seu cabelo loiro encharcava-se de suor e os lábios sangravam ao serem pressionados pelos dentes afiados em uma tentativa de espantar o medo. A pele branca estava suja de poeira por causa da fuga. Poderia ser só mais um dia comum na patrulha, mas não era.
Luigi estava na equipe de abastecimento de gás quando o local foi invadido por titãs. Eles tentaram lutar a inicio, mas o número de monstros só aumentava e na primeira mancha de sangue vista todos se desesperaram. Ele ainda podia ver aquela cena se repetindo em sua mente, um pequeno filme se desenrolava mostrando a calma e os risos dos amigos trabalhando.
A luz do sol entrava pelas pequenas janelas e pelas frestas entre os tijolos, era uma construção antiga, mas ninguém ligava. Estavam trabalhando como sempre, abastecendo e ajudando os outros com seus equipamentos com defeito. Todos chegavam com caras devastadoras, mas ali dentro eles estavam seguros. Volta e meia alguém falava algo engraçado e todos riam. “como nós pudemos dar risada em meio a uma guerra, talvez esse tenha sido nosso maior erro” Luigi pensava enquanto lembrava-se do primeiro passo ouvido.
Em um minuto as portas estavam no chão e aquele sorriso apavorante estava se aproximando. Como esquecer aquele sorriso, vermelho escarlate sobre placas amareladas, algo escorria por entre um dos dentes e Luigi orou para não descobrir o que era. Em seguida outros começaram a entrar, mais e mais. Eles se aproximaram pouco a pouco e na primeira tentativa de resistência o sangue preencheu o chão. Luigi ainda conseguia ouvir os gritos atormentadores de um dos patrulheiros sendo arrastado por aquela mão rosa, ele se debateu com força até que o som de seus ossos sendo quebrados ecoou pela sala.
Ali, sob a mesa do escritório, eles nem sabiam como os outros estavam, talvez já tivessem morrido, talvez se conseguissem sobreviver encontrariam apenas sangue do lado de for, “sobreviver?” ele se perguntou “quais chances há disso acontecer?”, era só uma questão de tempo para fazerem parte da chacina.
Como codornas que fugiam do cão de caça, se escondendo no escuro para tentar sobreviver a uma morte certa. Mais um passo do exterior e aquilo foi demais, um barulho de construção sendo destruído muito próximo. Luigi levou as mãos ao rosto para se proteger dos destroços automaticamente, mas não era o prédio onde estavam, não dessa vez.
Não havia esperanças em ficar ali, Luigi se encheu de coragem. Se permanecesse ali seria morto mais cedo ou mais tarde. Um arrepio subiu por sua espinha ao imaginar os dentes de um titã separando suas pernas da parte superior do corpo. Ele moveu a cabeça lentamente para fora do esconderijo apertado para ver grande janela do outro lado. Teve medo de olhar diretamente para um olho gigante os obsevando ou uma boca faminta esperando por fome. . Não havia nada lá.
Ele se levantou para sair de baixo da escrivaninha quando foi para pela mão de sua amiga. Pode sentir o quão assustada ela estava ao sentir o toque da sua palma no seu braça, estava fria como um cubo de gelo e tremia excessivamente. Ele afastou a mão dela e continuou a se levantar.
- Não, é perigoso... – Ela disse quase em um sussurro. Não saberia dizer se ela disse isso para ele ou simplesmente estava repetindo as palavras para ela mesma. Em seguida ela continuou sua psicose. – sangue, dente, morte, fim, sangue, dente, morte, fim... – infinitamente.
- Aqui não é seguro também. Devíamos sair, tentar fugir, talvez eles já tenham ido embora. – Luigi mentiu, sabia que eles ainda estavam lá fora, Titãs não desapareciam assim, enquanto houvesse chance de comer alguém eles estariam lá.
- Não tente bancar o herói, não é o momento pra isso. – Deren falou sem retirar o rosto de entre as pernas. – Você é só uma refeição da tarde, assim como nos.
- Eu não vou ficar aqui e morrer sentado, tremendo e chorando. Eu vou sair. – “é, eu vou sair, eu vou sobreviver.” Ele disse pra si encorajando-se.
Ele moveu-se lentamente para fora da escrivaninha, estava escuro, podia ver uma palma a frente do seu nariz, às vezes um pouco mais, porém ainda se sentia um cego tateando o caminho. Arrastou-se tentando fazer a menor quantidade de barulho possível. Os soluços de Rosemary estavam mais audíveis que seus movimentos. Em um minuto chegou a porta.
Sua mão passou pela maçaneta e imagens terríveis de um corredor ensanguentado lhe vieram a cabeça. Não havia escolha. Ele tinha que fazer isso. Desceria até o andar inferior pra pegar um equipamento. Não seria visto ou ouvido. Não tentaria abater um titã se quer. Desceria, pegaria o equipamento e voltaria. Poderia quebrar a janela e usar o equipamento para chegar a outro prédio e a outro e a outro até um lugar seguro.
O início de um grande projeto consiste na descoberta de seu desejo por ele
Ele deslizou pelo corredor com a respiração presa, cada brisa que entrava, cada minúsculo inseto que tocava em sua pela, cada som, tudo parecia um titã pronto para lhe entregar a uma morte cruel. Quando chegou ao fim do corredor encontrou a escada que levava ao andar de baixo.
O cheiro da carnificina no andar de baixo chegou a suas narinas, o cheiro de sangue embrulhou seu estomago e em um minuto estava vomitando todo o seu horror pelo que encontraria. O liquido grosseiro escorreu de seus lábios pelos degraus parando ao chegar ao terceiro. Ainda assim o cheiro de sangue continuava a atordoa-lo.
- Eu vou fazer isso, eu posso fazer. Eu vou viver. – Pensou, até em seu pensamento sua voz saía como um sussurro com medo de chamar atenção.
Ele deslizou pelos degraus como um rato tentando chegar ao queijo de uma ratoeira. A diferença era que um rato não tinha que se preocupar com a ratoeira correndo atrás dele. No andar abaixo haveria dezenas de Titãs prontos para atacar a qualquer sinal de vida.
Pouco a pouco ele foi descendo os degraus rastejando, até começar a ver o andar de baixo. O cheiro de sangue era tão forte que poderia jurar que estava saindo dele mesmo. No final do ultimo degrau já era possível ver as primeiras manchas de sangue, um vermelho vivo que parecia brilhar como rubis derretidos sobre o piso.
- Agora já está quase lá. – ele tentou se motivar.
Permaneceu no chão, se esgueirando pelo sangue. Na primeira vez que sua pele tocou no liquido vermelho sobre o chão ele sentiu vontade de vomitar outra vez. Não conseguia ver uma mancha de sangue no chão sem pensar em quem poderia ser o dono dela. Aquela grande poderia ser do Toren quem sempre esteve com ele, que contava piadas tentando descontrair, ou talvez fosse de Lenalee, a menina doce que dava duro no trabalho, ou do velho Baron, um homem já de idade que vivia dando sermões em todos enfatizando o quão serio era aquele trabalho.
- Todos mortos, todos. – ele pensou sentindo uma lagrima quente brotar em seus olhos. – Mas eu vou permanecer vivo. Eu vou viver.
Luigi se escondeu atrás de uma caixa grande cheia de laminas. Por um momento tinha esquecido o som dos passos pesados lá fora, mas o barulho alto próximo a parede onde estava havia o lembrado. Lá dentro era silencioso, não ouviu um passo se quer, nem um mínimo ruído, como se estivesse vazio, como se estivessem mortos ou tivessem ido embora depois de devorar todos. Porém, não poderia se arriscar a acreditar nessa possibilidade, continuaria escondido até ter certeza.
Retirou uma lamina da caixa e a segurou firme, se fosse atacado poderia usa-la para se defender, mas, o que precisava de verdade estava ainda há alguns metros, na parede oposta do grande salão. Se ele se arrastasse por entre as caixas permanecendo na escuridão em silêncio tinha grande chance de conseguir terminar sua missão com sucesso e um dia isso seria apenas uma historia para contar, uma horripilante historia para contar ou talvez para se esquecer.
Luigi voltou a se arrastar pelo salão em direção ao estoque de equipamento mantendo a lamina na boca enquanto usava os braços para puxar o corpo. As sombras atrás das caixas o escondiam, mas as manchas de sangue permaneciam visíveis. Em um vislumbre por sobre os ombros ele viu um titã parado do outro lado do salão. Um arrepio subiu por sua espinha, e seus músculos congelaram instantaneamente. Ficou parado ali. O suor começou a brotar de seu rosto e escorrer gelado em seu rosto.
Depois do primeiro ele começou a ver outros, um seguido do outro. Eram grandes, não eram os maiores possíveis, mas, eram enormes assim mesmo. Grandes monstros vermelhos, com aparência humana e pele vermelha sangue, com dentes sangrentos e do tamanho de pessoas.
Luigi se esqueceu de tudo que havia planejado, só queria sair dali, voltar para o escritório e permanecer escondido embaixo da mesa e orar por socorro, mas, não conseguia nem se quer se mover alguns metros a frente , voltar seria ainda mais difícil. A loucura tomou conta de sua mente, em um minuto pode ouvir vozes de seus amigos vindo do sangue no chão. Gritos de socorro e de dor ecoavam em sua mente. Os gritos de Madlyn, de Otelo, de Bartolomeu, de Jon, de Sayk e do encrenqueiro Thor. Gritos de desespero.
Ele estendeu sua mão tentando voltar a sair do lugar, mas, nada acontecia, estava travado pelo medo. Olhou novamente para as figuras nas sombras e ainda estavam lá imóveis com seus sorrisos assustadores. Luigi voltou os olhos para a caixa seguinte, ali estava a salvação.
Mas tudo se desfez em um segundo. Uma hora a esperança voltara e na outra escapuliu por entre seus dedos. O som da vidraça quebrada veio do andar de cima, algo tinha acontecido. “um titã, foi isso, um titã está atacando pelo segundo andar.” O pensamento é a pior armadilha para uma pessoa. Para Luigi não foi diferente. Pensar naquilo aumentou seu medo.
Desesperado ele esqueceu seu plano inicial, pôs se de pé e começou a correr em direção a caixa de materiais que poderia ser sua salvação. Retirou um dos equipamentos, lutou com o equipamento para coloca-lo.
- Eu vou viver, eu vou viver, com certeza, não importa o que eu tenha que fazer, eu vou viver. – Ele começou a murmurar baixinho para si.
Encaixou o equipamento no lugar correto, largou a lamina extra que havia pegado em qualquer lugar e deu a volta para sair dali. Congelou de medo, Um rosto gigante estava observando-o a menos de um metro.
Olhos arregalados e um sorriso assustador. Em um instante Luigi pensava em algo para fazer e no outro ele estava cercado por dedos gordos. Vozes vieram do segundo andar, sua imaginação deveria estar lhe pregando uma peça mais uma vez. Ouviu a voz de Mikasa e de Armin e de vários outros companheiros, mas, eles não poderiam estar ali, estavam lá fora lutando e o mais provável é que estivessem mortos a essa altura.
O halito quente soprou contra ele quando o Titã abriu a boca e tudo o que ele pode fazer foi fechar os olhos e sentir as lagrimas escorrerem dolorosas em seu rosto. Tudo estava acabado, a esperança poderia até ser a ultima a morrer, mas isso não significava que ela não morreria.
Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer.
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