Tiros no Escuro
1 Capítulo 1 - Seu Destino Lhe Pertence
Notas iniciais
Obrigado a todos que se interessaram pela história. Espero que gostem !
Já se passaram 4 anos desde o dia que ela morreu. Lara, 21 anos, dona de uma confeitaria. Não tinha quem provasse daqueles bolos e dissesse que não gostou. Aquele doce que era levemente partido com os dentes, o sabor sendo aproveitado pela língua até a última partícula e engolidos, para a boca dar lugar a outro pedaço ou porção. Mas quando o primeiro amor da sua vida morre em um afogamento, não é sempre que você tem um sono tranquilo. O que surge em sua mente são imagens da agonia e sofrimento que a pessoa teve antes de fechar os olhos pra nunca mais acordar. Não é fácil suportar, mas quando se trata da morte, que escolha temos ?
Eu levanto. Esqueci de dizer que adoro o ar gelado que entra pela janela pela manhã. Arrepia os pêlos curtos e loiros do braço, me fazendo sempre respirar fundo e aproveitar lentamente o ar entrando pelas minhas narinas dando uma leve dor no meio dos olhos. O silêncio reina no cômodo até o momento que o som dos carros buzinando desesperados para ir ao trabalho às 7h da manhã entra em meus ouvidos e tira o resto do sono prazeroso sono que a segundos atrás eu sentia. Faço um café e sento na minha poltrona acolchoada vermelha. Sempre adorei a forma que ela dobrava aquelas coxas grossas e lisas na sua costumeira camisola azul-do-céu-noturno e dizendo a cor da gravata que ela queria que eu usasse em determinado dia. Eu não sabia dar nó em gravata, mas ela fazia tanto que acabei aprendendo. Ela tinha o costume de deixar seus cabelos ruivos e ondulados apoiados no ombro esquerdo, que realçava seu rosto triangular e branco, e colocava um vestido de seda até o joelho. Hoje, segunda-feira,ela usaria o azul-escuro. Termino de tomar meu café matinal, e logo o telefone toca. É novidade receber um telefonema esse horário. 7:10h da manhã e o primeiro contato humano que terei é por um telefone. Patético. Retiro o aparelho da parede e o coloco em meu ouvido. — Alô? Troy? Ah, esqueci de me apresentar. Meu nome é Troy. Troy Mackenzie. Sou tenente do 14º DP de Londres. Também tenho 27 anos, gosto de café, mas também aprecio uma bebida alcoolica. Aliás, quem é que não gosta de tomar uma pinga em dias de depressão? Apoio o telefone em meu ombro,e enquanto respondo, retiro um cigarro do meu maço L.A. e acendo com o isqueiro que sempre deixo em cima do balcão do lado do aparelho. — Alô? Parker? — Sim, seu idiota, sou eu, seu parceiro, Parker Sera. Parece que depois de quase um ano como dupla você não conhece minha própria voz. Olha, temos um caso aqui na Ludgate Hill. Preciso de você aqui. — Está bem, estou indo. Parker sempre foi um bom parceiro. Em nossos trabalhos contra o crime, ele nunca me decepcionou e nem me deixou frustrado, embora ele tenha entrado na corporação depois de mim e tive que ensinar bastante coisa a ele. Visto meu paletó cinza de trabalho, pego minhas chaves, tranco o apartamento e desco para o meu carro. Pois é, essa é outra coisa que esqueci de mencionar : moro em um apartamento modesto, mas não é pequeno. Do jeito que Lara gostava. E eu também. Tenho vontade de ter um gato, mas eu duvido que ele suportaria o meu cheiro de humano todos os dias. Não demora muito tempo até chegar no local. O corpo estava coberto por um saco preto e o espaço dele estava fechado com cones e barricadas de madeiras, coisa que só a polícia de Londres tem. Mostrei meu distintivo ao primeiro policial que vi mais perto do corpo e fui até ele. Em pé ao lado do corpo, estava meu parceiro e médico-legista da corporação. Ele tem o trabalho mais nojento do mundo, colocando a mão dentro de corpos mortos e na maioria das vezes tem que suportar o cheiro da decomposição que eles liberavam. Nunca consegui ficar mais do que 10 minutos no laboratório dele. Como será que ele aguenta comer lá dentro ? Porque ele nunca sai da frente daquela mesa. Enquanto retira o saco de cima do morto, ele diz : — A vítima é uma mulher chamada Louis Bane. Balconista do Month Bar a dois quarteirões ao oeste daqui. 37 anos, solteira, assassinada a 2h13min atrás. Quem nos contatou foi o garçom da pizzaria em frente. — Neste segundo pego meu bloco de notas. — Então pegue isto e faça as perguntas ao garçom. — Dou o bloco de notas ao Parker, que me olha como se fosse dizer " essa função deveria ser sua ", mas por educação realiza o meu pedido. Ele nunca negou um pedido meu em trabalho, por incrível que pareça. Mas não dá pra negar que sempre quis solucionar um crime do próprio jeito. Observo o corpo atenciosamente. A mulher parecia nova demais pra ter 37 anos, mas hoje em dia os novos estão parecendo muito mais velhos, e o contrário acontece também. Estamos no século XXI, isso já é mais comum do que usar farinha de trigo pra fazer um bolo. Encontro no pescoço da morta um pequeno furo. Não era mais largo do que um palito de fósforo. Esse tipo de marca se assemelha a seringa usada em locais que se testam vacinas em animais para depois testarem nos humanos. Sempre senti pena das cobaias desses infelizes. Um incontável número já morreu em cima da mesa de testes, e ainda dizem que é aquela vacina que vai salvar alguém de, por exemplo, uma Varíola. Ao julgar pela quantidade de sangue derramado abaixo do corpo, o assassino sabia o que estava fazendo. Morte rápida e quase indolor. Não havia sinais de violência, o corpo se machucou levemente com a queda ao chão. Ele definitivamente sabia aonde precisava atacar. Mas aquele sobrenome... Não... Não poderia ser. O mundo está cheio de coincidências, esta só pode ser mais uma. Não existem poucas pessoas que confundem um coelho com uma lebre, não é ?
Depois de quinze minutos de perguntas e longas respostas, Parker volta com duas folhas do bloco de notas repletas de anotações. Em todos esses meses eu não sabia que ele conseguiria tanta informação de uma pessoa só. — Toma. Olhe bem as informações. — Eu pego o bloco e começo a ler. "Homem de olhos claros, casaco longo e marrom, chapéu de cowboy..." É meio difícil não notar um cara com um chapéu desses por aqui. "... Carregava uma maleta prateada e um guarda-chuva..." Estava chovendo antes. Eu dormi e não ouvi o som da chuva, que desperdício. "... atacou a mulher pelas costas ; em menos de um minuto caiu morta em cima do próprio sangue." Virei para a próxima página do bloco. " Da próxima vez, mexa suas pernas e pergunte você mesmo." Parker, esse idiota ! Queria entender o que me trava de acertar uma bala naquela cabeça quadrada ! Parker aparece tranquilamente em minha frente depois de alguns instantes, como alguém que não acabou de debochar da minha cara usando o meu próprio bloco de notas, e segurava três saquinhos com objetos dentro. Ele me deu um a um. O primeiro era um relógio de bolso. Folheado a ouro e, por sinal, não valia menos que cinco mil. Não é surpresa vindo de uma mulher com casaco vermelho que tem a grossura da pele de um urso. O segundo era um anel dourado com uma pedra triangular de rubi sobreposta sobre minúsculos ganchos que o prendiam. Esse deveria custar uns 15 mil. E o próximo objeto.... Ah, o próximo. Um colar. Um colar que mexeu comigo. Aquele colar me lembrava Lara. Era muito parecido com o colar que dei a ela no nosso casamento. Ela nunca mais o tirou. Outra coincidência ? Era o que realmente parecia. Aquilo me deu a impressão que eu passaria por algo que não iria querer vivenciar, mas o meu trabalho é ir a fundo dessas coisas. Logo após, alguém me trouxe um bilhete. Um dos policiais veio até mim com o papel, dizendo : — Acho que você deveria ver isto. — Eu pego o papel e abro. Cada palavra mais perplexo. Isso era a última coisa que ele esperava."Eu sabia que você iria investigar um caso como esse. E lendo estas palavras, sei que vai querer ir mais a fundo do que qualquer um. Você deve estar pensando que é uma coincidência. Mas no fundo, você lembra dela. Você lembra bem quando acordava ao lado dela sentindo o delicioso cheiro daqueles cabelos em seu rosto, quando ela se virava para você e dizia 'bom dia' seguido do seu nome. Agora você sabe que não pode parar. Essa mulher foi apenas a primeira. E a segunda está à sua frente. E a terceira em breve vai aparecer. Vá para casa e aguarde o próximo chamado. Lá, você encontrará as respostas para as possíveis perguntas que tenha. Ass.: O Anônimo."
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