Tiros em Iowa
1 Only.
Estados Unidos, Iowa, 1993
“Querido Diário,
Estranho. Eu sei. Quanto menino você conhece, na América, que escrevem um diário? Pois é. Eu sou exceção. Não, não sou hipocondríaco. Não finjo meus problemas. Nem acho que a Lei De Murphy me persegue. Simplesmente não há ninguém que eu confie no planeta. Mamãe e papai estão sempre trabalhando, estressados e preocupados.
Qual foi o estopim para eu começar a desabafar para contigo, Diário? Apanhei hoje,de novo. Minhas roupas foram sujas novamente. Ouvi xingamentos horríveis, pela décima quarta vez na semana. As pessoas riam da minha cara. As meninas riam da minha cara. E niguém fazia nada. Ninguém ousava fazer nada.
-Seu corpo não é tão inteligente quanto a sua mente, seu “marica”?- Cannan falou, diferindo um chute na minha barriga, o que me fez contorcer de dor.
-Ergue a cabeça, preto!- Jason, alto, moreno, porte atlético, voz grossa e rodeado, sempre, pelas garotas mais belas do colégio disse. Eu não conseguia me mover, a dor era imensa. Minhas costelas estavam sendo trituradas por um rolo compressor. O rolo compressor da vergonha, do vexame, da humilhação.
Por que comigo? Ninguém pode ser negro, nem tirar notas boas na América mais? Ninguém pode ser diferente? Porque, Diário, pelo que eu saiba, o apertheid acabou há dois anos, na África do Sul. Que eu saiba, Martin Luther King deu a vida pela liberdade negra, aqui na América. Então por que diabos eu estava sendo humilhado e rebaixado nesta maldita escola?
-Olha quem está passando! Um pedaço de asfalto.- Jason tirava sarro da minha cara. Os outros só davam risada. Não era com eles, afinal. A humilhação não era deles. Era minha. Só minha.
Mas chegou a hora de eu por um fim em tudo isso. Um fim na minha dor psíquica e física. Um fim, digno de filmes de Hollywood para Jason, Cannan e sua trupe de valentões. Eu preparei minha vingança. Eu iria bebê-la quente, em um cálice de cristal, em um pupito. Onde eu iria dar meu último- e único- suspiro vitorioso. Depois disso, eu também teria meu fim. O meu fim seria mais digno do que o fim daqueles que me humilharam. Eles não iriam ter o gosto de me ver sangrar, nem cair. Eles não iriam ter o gosto que eu tive.
Boa noite Diário, até a outra reencarnação.”
Acordei na hora usual, seis e quarenta e cinco da manhã. Eu estava, diferentemente dos outros dias, extremamente corajoso. Tudo tinha que ser rápido. Quanto menos tempo, menos dor, menos chances de alguém interferir em meus planos. Fiz minha higiene matinal, me troquei e segui para a escola.
Todos me encaravam com olhar de deboche, como sempre. O sinal bateu. Caminhei, com o peito estufado, em direção à mesa onde Cannan e sua trupe se reuniam.
-Olha quem chegou, o amendoim.- só ouvi os risos. Minha mente estava dopada por pura adrenalina. Eu não raciocinava como sempre. A vingança me subiu a cabeça.
Sorri cínico. Tirei uma sub metralhadora da minha mochila e apontei para Cannan.
-Repete!
Um tiro certeiro, no meio da sua caixa torácica. Gritos das meninas que o rondava. Fiz um movimento semi circular, apertando o gatilho com toda a raiva que eu tinha. O pânico se instalou no refeitório. Um fim digno de filme. Para eles.
Caminhei em direção ao banheiro masculino. Ninguém ousava me parar. Eu era um negro armado. Eu tinha um doce sorriso vingativo depositado nos meus lábios.
Entrei no sanitário e me olhei no espelho. Aquele não era o Curtis altruísta, bondoso e solidário. Aquele era um monstro.
-Veja só no que te transformara...- falei, sorrindo cinicamente, fitando meu reflexo.
Retirei de um dos bolsos da minha mochila um canivete, que meu pai usara como chaveiro. Fitei meu reflexo no espelho, mais uma vez. Posicionei o canivete ativado em direção à minha pele do pulso esquerdo e o friccionei. Não senti sua lâmina gelada e afiada perfurá-la. A adrenalina não permitiu. Senti o sangue brotando da fenda, borbulhando a humilhação que eu tinha sofrido ao longo desses três anos. Só neste momento, a dor começou a me dopar, como um raio. Senti meu corpo cair, em um baque surdo e violento no chão e meu rosto se afundar na poça de sangue que se formava ao meu redor. Apaguei.
Notas finais
Primeira fic, espero que gostem. Esta fic, na verdade, era um trabalho de sociologia. Postei xD
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