Tiros e Espadas
1 Capítulo Zero - Prólogo
Notas iniciais
Ele era tão prisioneiro quanto eu, tão solitário quanto eu, tão desejado quanto eu. Mas ele tinha mais garra, ele lutaria até a última chance, sem jamais se deixar abater pelas quedas. Se acaso o destino não lhe sorrisse, ele riria do destino, com pena de sua tristeza.
Eu não achei que ele fosse durar muito tempo sem as amarras que o prendiam a este triste e pútrido lugar onde me encontro. Não acreditei que ele fosse enfrentar o acaso que tentaria derrubá-lo. Nunca achei que ele seguiria um caminho tão nobre. Mas, sobretudo, nunca achei que ele se lembraria de voltar para me resgatar. Aquele destino era dele, não meu. Ainda assim ele me abençoou com a liberdade.
Liberdade para mim era um sonho distante e inalcançável em vida naquela prisão imunda. Mas não fora sempre assim. Houve um tempo — do qual muitos ainda lembram, mas poucos se atrevem a falar – em que a liberdade poderia ser plenamente aproveitada, um tempo sem a Autarquia. Ou, seria mais certo dizer, sem Essa Autarquia.
Autarquia é um orgão de controle onde quem detém o poder são os cidadãos, um orgão que descentraliza o poder e o dirige para os concidadãos, e ela era assim, até que veio a mais negra das guerras em nosso mundo.
O continente de Parlot, único conhecido em nosso mundo, tinha o costume de ter um clima pacífico e ameno, sem grandes crises ou guerras. Ele era governado pelo Estado, orgão supremo de monitoramento de poder. Abaixo dos Estados existiam as Autarquias de cada reino, sujeitas aos mandos e desmandos do Estado.
Isso não era ruim, por incrível que pareça. O estado não era totalitário ou corruptível, ele apenas geria a sociedade com o mínimo de esforço para manter a ordem. Isso era necessário pois mesmo em uma terra de paz existem pessoas que são contra o bom andamento das coisas, estas pessoas eram “cuidadas” pelo Estado.
Muitos diziam que estas pessoas que desapareciam sob o julgo do estado eram mortas, mas sempre havia um clima de dúvida no ar, pois ninguém achava corpo ou vestígio de existência dessas pessoas. Alguns até tentaram se aventurar no centro do Estado, mas ninguém retornou.
Dizia-se que a sede do Estado era a cidade mais poderosa de todas, Jyrand era um verdadeiro pólo industrial moldado a ferro, fogo e carvão. Mas isso era também necessário pois era onde mais se encontravam os Esperes.
Esper é o nome dado á uma criatura mágica, uma besta que se modificou e fugiu do natural. Essas criaturas normalmente são mais fortes e ágeis que qualquer besta selvagem. Toda cidade costuma ser protegida por um grupo de heróis contratados pelas Autarquias, mas Jyrand era protegida pela própria guarda real do Estado.
Eu era um dos membros dessa guarda real, um homem treinado para usar armas de fogo, elas eram raridades na época, difíceis de manejar e mais ainda de adquirir, mas extremamente úteis nas mãos de uma pessoa capacitada, eu era capacitado.
Minha especialidade era usar os longos e poderosos fuzis, cujo alcance e precisão eram inigualáveis. E minhas habilidades costumavam ser muito bem empregadas contra os Esperes. Mas então surgiram seres ainda mais fortes e capacitados do que eles. No começo ninguém sabia o que eram, mas dada sua forma semelhante á misturas de vários animais e suas capacidades semi-humanas, elas foram conhecidas como Quimeras.
Não se sabia de onde elas vinham, e os boatos que corriam eram todos díspares, até que um boato surgiu em um pequeno vilarejo ao sul de Jyrand, um vilarejo chamado Talar, onde uma mulher atacada por uma Quimera jurava ter ouvido nela a voz de seu filho, e ter visto nela o rosto dele. Todos sabíamos que isso era apenas uma alucinação. Todos menos o Concílio das Autarquias.
Sob a desculpa de que as Quimeras eram supostamente as pessoas que haviam sido raptadas pelo Estado, o Concílio das Autarquias encaminhou ao Lorde do Estado uma petição formal de que o Estado fosse derrubado e o Concílio assumisse o poder.
Obviamente tal petição foi recusada, mas o Concílio jamais pensara que esta seria aprovada, ele via naquilo a possibilidade de mobilizar uma guerra, e derrubar o Estado manualmente.
Então começou a Grande Guerra Heróica, uma guerra que em nada honrava ao nome. Os campeões da Autarquia se mobilizavam contra os do Estado em um número de dez para um. Pode parecer injustiça, mas os campeões do Estado estavam realmente vencendo no começo, nós éramos a elite da elite, os que realmente mostraram seu valor ante o Estado.
Assim a guerra praticamente se definiu para o Estado, mas o Concílio ainda não mostrara sua carta na manga. Membros do Concílio se infiltraram no Estado, e planejaram um Coup D’etat. Eles capturaram o Lorde e o usaram como refém, destruindo a estrutura de poder que defendia Jyrand por dentro. A guardia se desorganizou, e logo os portões da cidade caíram, o estado estava tomado, a era da Autarquia estava prestes a começar.
Assim que a cidade sucumbiu, os membros sobreviventes da Elite foram considerados traidores políticos, e nossa cabeça foi colocada a prêmio. Sem ter onde nos escondermos, fomos forçados a Fugir para os limites do mundo conhecido. Para os limites de Parlot.
Na época, achávamos que estaríamos a salvo lá, mas não demorou até que a Elite Autárquica começasse a mandar incursões atrás de nossas cabeças. Então um de meus companheiros, Lauren, teve uma brilhante idéia: Construir um navio para margear o reino conhecido. Óbvio que isso não seria fácil, mas com a força de mais de sessenta homens e mulheres, conseguimos a façanha.
Não havia realmente como avaliar o tempo que demoramos, mas quando o navio finalmente ficou pronto a Incursão Autárquica de Reconhecimento e Apreensão (IARA) estava batendo á nossa porta. Então nós partimos para o mar e procuramos nos afastar o máximo possível da praia, para então contornar Jyrand por mar e atracarmos onde jamais nos encontrariam e poderíamos nos organizar.
Foi então que encontramos um pequeno conjunto de ilhas a Leste da Sede do Antigo Estado. Estas ilhas, desconhecidas até então, foram chamadas por nós de Resistência do Estado. Nós não conhecíamos suas dimensões, mas lá estaríamos prontos para nos organizar e reunir mais forças.
Mal sabíamos nós que havia um traidor entre nossas linhas. Até hoje não conhecemos seu rosto, mas sabemos que um delator entregou nossa localização, e que alguns dias depois de nos instalarmos, a IARA localizou uma das ilhas daquele pequeno arquipélago e aprisionou a todos, eu fui uma destas vítimas.
Desconfio que as demais ilhotas tenham sido poupadas, pois nunca tive notícias de ninguém durante os anos em que fiquei preso dentro do Quartel da IARA (QIARA), soube apenas que mais um rebelde havia sido aprisionado, desta vez em uma cela privativa. Fora isso nunca mais tive notícias da Resistência
Dentro da QIARA conheci e dividi cela com um importante homem da época do Estado, seu nome era Carlo, e ele fora Secretário de Segurança do Estado, basicamente: Ele comandava a pessoa que me comandava.
Contei a ele sobre a força de resistência e sobre tudo o que havia acontecido, apenas para ouvir dele o que já sabia. O estado não tinha relação alguma com as Quimeras, e as pessoas que sumiam eram cremadas, para que ninguém visse fraqueza no maior orgão do país. Para manter a ordem, certas vezes, é necessário que medidas drásticas sejam tomadas.
Durante mais de quatro anos eu dividi cela e conversei com Carlo, ele se tornou quase um irmão para mim. Mas enquanto eu abandonei meus sonhos de liberdade, ele não o fez. Ele continuou lutando e bradando o poder que a liberdade tinha, continuou defendendo seus ideais, até que chegou o fatídico dia de sua execução.
Não permitiram que eu saísse de minha cela para ver o ritual, mas eu ainda acreditava que Carlo conseguisse se salvar. Se havia algum deus dentro daquelas prisões, ele ouviu minha voz. Pouco depois deles saírem uma grande desordem se formou no QIARA, e antes que eu pudesse analisar o que houvera os boatos me alcançaram. Houvera uma rebelião, Carlo havia fugido, com vida.
Ele era tão prisioneiro quanto eu, tão solitário quanto eu, tão desejado quanto eu. Mas ele tinha mais garra, ele lutaria até a última chance, sem jamais se deixar abater pelas quedas. Se acaso o destino não lhe sorrisse, ele riria do destino, com pena de sua tristeza.
Eu não achei que ele fosse durar muito tempo sem as amarras que o prendiam a este triste e pútrido lugar onde me encontro. Não acreditei que ele fosse enfrentar o acaso que tentaria derrubá-lo. Nunca achei que ele seguiria um caminho tão nobre. Mas, sobretudo, nunca achei que ele se lembraria de voltar para me resgatar. Aquele destino era dele, não meu. Ainda assim ele me abençoou com a liberdade.
Liberdade para mim era um sonho distante e inalcançável em vida naquela prisão imunda. Mas não fora sempre assim. Houve um tempo — do qual muitos ainda lembram, mas poucos se atrevem a falar – em que a liberdade poderia ser plenamente aproveitada, um tempo sem a Autarquia. Um tempo com o Estado.
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