Tiro Livre Direto
1 único
Quarenta e cinco minutos do segundo tempo. 2 x 2.
O juiz prorrogou o jogo por mais quatro minutos devido às muitas interrupções de faltas, expulsões e trocas de jogadores. Era uma disputa conturbada, ele tinha que admitir. Como era a final, nada mais natural que a tensão se instalasse em toda a arquibancada de torcedores que lotaram o estádio naquele fim de tarde. E nos jogadores também, afinal, era ganhar ou ganhar. Não dava para simplesmente perder.
Metade do estádio estava vestida de verde, e a outra, de vermelho.
A parte onde Grimmjow se encontrava usava diversas camisetas vermelhas. Ele, inclusive, usava a camiseta de seu time. Havia um copo de plástico em sua mão que já havia sido completamente destruído – ele preferiu isso a acabar quebrando o MP3 o qual usava de rádio para ouvir a narração do jogo.
Estava tão tenso com aquele maldito empate que nem conseguia se aguentar no lugar. Nem ele, nem o restante da torcida; estavam todos de pé. Boa parte cantava para incentivar o time, e a outra – que o incluía – xingava os jogadores do outro time.
Quarenta e seis minutos.
O volante avançou pela esquerda e fez o passe para o atacante. Este mesmo correu um pouco, driblou um e tentou chutar, mas errou. Uma avalanche de palavrões veio de todos os lados no mesmo instante em que a bola passou direto por cima da trave. Maldito atacante de merda, só faz isso da vida e ainda me erra o chute?!
Até o goleiro pegar a nova bola e ir pro tiro de meta, já eram quarenta e sete minutos.
A torcida desistiu de cantar e passou a incentivar o time de outra maneira, embora fosse o adversário que estivesse com a posse de bola. “VAI!” “TIRA ESSA MERDA DAÍ”, dentre outros, eram as únicas coisas que Grimmjow ouvia, até porque, já havia desistido de tentar escutar o que o cara da rádio falava. Quando o atacante do outro time errou o chute, que resultou num novo tiro de meta, o goleiro do time vermelho foi mais ágil e chutou a bola de uma vez.
Avançaram e logo chegavam ao centro do campo, avançando para a área.
Foi uma complicação geral com os zagueiros do time de verde, que estavam atentos e violentos. E então uma falta seguiu. Novos palavrões e xingamentos seguiram-se até que o melhor cobrador de faltas do time de vermelho foi para chutar a bola. A distância dele para o gol era razoável e quem sabe ele conseguisse acertar.
Claro que conseguiria, maldição.
Quarenta e oito minutos.
O juiz apitou e o jogador preparou-se para chutar. Fez um charminho e correu para a bola como se simplesmente soubesse que ia fazer aquele gol.
E fez.
E o estádio todo tremeu quando a torcida infinitamente vermelha comemorou o gol da virada. Era a salvação do time, era o título de campeão!
O jogo prosseguiu, mas ninguém prestava atenção porque nem precisava, jamais daria tempo de o outro time fazer outro gol.
Como Grimmjow havia ido sozinho para o estádio, nem tinha com quem comemorar aquela alegria toda de ver seu time ganhar o campeonato, mas havia uma pessoa qualquer ao seu lado. E essa pessoa acabou sendo puxada pelos braços do rapaz, que gritava palavrões de felicidade. Tudo bem, era de alegria, então podia.
Não que ele não xingasse quando estava irritado também, mas enfim.
Ele só percebeu que tinha alguém estranho apertado contra seu corpo quando essa pessoa segurou-lhe pelo pulso. Grimmjow a soltou e virou os olhos azuis para identificá-la. Não era ninguém conhecido, mas tinha aqueles cabelos vermelhos... Tão vermelhos quanto a cor da camiseta de seu time, e a cor que estava o rosto do indivíduo.
– Foi mal, eu nem vi o que eu estava fazendo.
– Ah... Tudo bem, acho que é normal... – Ele abanou uma das mãos e virou o corpo de novo para frente, ambos percebendo que o jogo havia chegado ao fim.
– Mas é claro, somos campeões, porra!
O time comemorava debaixo de infinitos papeizinhos metálicos, com a taça na mão e medalhas, toda essa parafernália de finais de campeonato de futebol. Grimmjow mal podia acreditar que depois de todo o sofrimento e agonia que havia passado durante a boa parte do jogo em que os times ficaram empatados, haviam conseguido virar e agora eram campeões.
Ele sentou-se de volta na arquibancada porque ia esperar um pouco que o pessoal fosse embora; detestava sair com todo mundo junto. E ademais, teriam que ficar mais tempo no estádio uma vez que a outra torcida teria que sair primeiro.
Aquele indivíduo ruivo ao seu lado continuava de pé, olhando lá para o campo. Grimmjow olhou-lhe as costas por uns instantes e depois, chamou-lhe a atenção pegando em seu antebraço.
O outro olhou para baixo.
– Qual o seu nome?
– Renji. – Disse o ruivo e só então que Grimmjow reparou nas tatuagens enormes que ele tinha nas entradas do cabelo vermelho. Franziu a sobrancelha e ficou de pé. O olhou bem nos olhos castanhos e estreitou os próprios, fazendo Renji olhá-lo com suspeita. – Que é?!
– Como você vai voltar pra casa?
– Quê?!
– É...
– Vou pegar o ônibus.
– Ah... Posso te dar uma carona?
– Eu já te perdoei por ter me agarrado. – Renji disse com um tom de ironia bem suave. – Não precisa.
– Eu não estou oferecendo carona por causa disso...
– Tá me estranhando, cara? – O ruivo fez uma expressão amarga e virou o rosto, mas ele estava com o rosto vermelho de novo. Ah, para de mentir, né. De repente o título de campeão de seu time nem era mais tão importante assim; aquele cara tatuado parecia muito mais interessante.
– Não. – Retrucou imediatamente, abrindo então seu mais do que conhecido sorriso felino e atiçado. – Eu só gostei bastante dos seus cabelos...
Renji nem soube o que responder. Apenas olhou todo atormentado para o outro rapaz e cerrou os dentes com força. E Grimmjow reparou nos ossos da mandíbula saltando ao lado do rosto e aumentando a intensidade dos traços do ruivo.
– E acha que isso é um bom motivo pra você me dar uma carona pra casa? Nem te conheço.
– Vamos tomar uma cerveja no bar do estádio então... Pra comemorar o título.
– Você é bem insistente, hein? – Renji revirou os olhos e percebeu que o pessoal estava saindo do estádio, justamente porque a torcida já havia sido liberada. Aproveitou a deixa e subiu pela arquibancada, mas foi seguido. – Não vai rolar, cara!
– Você tá todo vermelho, para de fingir.
– Nem sei seu nome!
– Grimmjow. Pronto. – Ele sorriu. – Agora me dê a honra, vamos, Renji-san.
– Uma cerveja, Grimmjow-san. – O ruivo ressaltou o sufixo.
– Certo. Eu tenho certeza que ao final da noite o meu nome vai ter mudado completamente...
– Não seja tão apressadinho. É só uma cerveja.
– É o bastante pra mim.
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