Tirania - Illusion Life
6 Capítulo 6
Notas iniciais
- Vocês irão fazer o teste para os rebeldes – Aquele sorriso malicioso com a cicatriz ainda me dava medo...
Foi repentino, não imaginei que ele iria nos recrutar. Na verdade, parecia querer nos matar a qualquer custo, por isso, era melhor a gente tomar cuidado. Me levantei com algumas dores ainda, mas consegui andar com facilidade. Cheguei do lado de Marcela.
- Você quer fazer isso? – Sussurrei em seu ouvido.
- Vamos ver como é esse teste. Se der certo, bom. Se der errado, dane-se... não tava ligando para isso mesmo – enquanto ela falava, Leones aparecia no corredor com um homem de preto.
- Fillipo! Como você tá cara? – Nunca tinha visto o Leones tão nervoso e preocupado.
- Tô bem cara, não precisa se preocupar.
-Que bom, eles te deram um novo cerébro? Por que há de concordar que o seu é do tamanho do de um avestruz.
- Idiota, deixa eu me recuperar para você ver... vou arrancar o seu cerébro fora.
E de repente parecia que estávamos bem e que nada havia acontecido. As risadas coloriram a sala com uma alegria que eu nunca tinha sentido, ou já? Essa alegria que irradiava dos sorrisos de meus amigos se assemelhava ao clima daquela casa dos meus sonhos, pareciam a mesma coisa, o mesmo sentimento. Consegui ter a resposta de uma dúvida que tinha estacionado na minha mente desde a minha infância. Esses são meus verdadeiros amigos!
- Agora que estão juntos, sigam-me, vou levá-los ao teste – tinha uma expressão pouco decifrável, mas parecia satisfação.
Andamos durante algum tempo por um corredor tão longo que não dava para ver o fim. Tinha teto e paredes brancos com quadros de pintores que eu nunca tinha ouvido falar. Uma mulher sem sobrancelhas, um homem tentando alcançar a mão de outro que estava em cima de uma nuvem, e uma espécie de reunião com várias pessoas que pareciam espantadas com o homem que estava no centro da mesa que estava cheia de comida. Não sei se foi por minha lerdeza, causada pelas dores que ainda me assolavam, ou por que era realmente muito longo o corredor — talvez pelos dois – mas estava demorando muito para chegar ao fim. Eu estava ficando ansioso para saber como seria o teste.
Yerik e o homem que nos acompanhava pararam em frente a uma porta escura que parecia ser feita de terra ou pedras, bem diferente de tudo naquele corredor. Chegamos um pouco atrasado e pela feição de Yerik, era atrás daquela sala que ficava nosso teste. O homem encostou em um pedaço da parede e o afundou, fazendo um ruído de algo pesado se mexendo. A porta à nossa frente começou a se mexer e por baixo dela saía uma luz muito forte.
- Nosso teste é na rua? – Marcela foi a primeira a entender e tinha ficado indignada.
- Você realmente achou que iria entrar fácil para o nosso grupo? Eu falei a verdade a vocês e também não os matei. Querem mais o quê? Chupeta? – Disse nos enxotando.
- Espere, e se algum sentinela nos vir saindo daqui? – perguntei como se já não soubesse a resposta. A porta foi se fechando aos poucos e antes de se fechar completamente deu para ouvir uma última coisa. Yerik gargalhava “Eles não vão conseguir de jeito nenhum”.
A porta já havia fechado e se camuflado, e uma vez fechada era quase impossível achá-la novamente. Estávamos no pé de uma montanha, olhei para cima e percebi que a montanha era o Lep. Estava muito ensolarado, o sol estava em seu auge fazendo-nos pensar que seria aproximadamente meio-dia, mas... de que dia? Estávamos no Lep a séculos e lá dentro não tínhamos noção de tempo. Interrompendo meu pensamento levei um cutucão de Leones.
- Fillipo rápido, vamos fugir daqui, tem sentinelas vindo naquela direção – Leones tinha notado uns três homens que faziam uma ronda por ali. Estavam bem armados e vestido com cores de camuflagem em florestas e com um microfone preso em seu ouvido e acoplado a um fone. Era o típico uniforme de sentinela.
- Venham, naquela direção tem uma lanchonete aonde poderemos nos esconder por um tempo – Marcela apontou e correu na frente. Leones tinha colocado meu braço sobre seus ombros e me ajudava a correr.
Os sentinelas começaram a correr também e estavam rápidos, mesmo com o peso da arma e dos equipamentos. Já não aguentava mais correr, minhas pernas estavam doloridas até o osso e estava ficando sem ar. Leones do meu lado também, já tinhamos tropeçado algumas vezes. Marcela na frente tinha diminuído o ritmo e com isso os sentinelas chegavam cada vez mais próximos.
A montanha tinha uma curva, passamos por ela e logo na virada tivemos nossa gota de determinação. A lanchonete estava ali, aberta, e com a curva poderíamos despistá-los. Chegamos na lanchonete e abaixamos atrás de um muro de aproximadamente um metro, que separava a lanchonete do caminho de terra que tinha perto da montanha. Era arrumada e bem colorida mas estava vazia. Ninguém estava no balcão e nem comendo.
Descansamos um pouquinho e nos viramos para ver se o sentinelas tinham ido embora. Eles correram um pouco mais depois da lanchonete e entraram na mata que arrodeava a montanha do Lep. Um grito alto estremeceu da mata. Os sentinelas tinham saído segurando uma garota que se chacoalhava tentando se libertar, mas era inútil. Ela tinha uma estatura não muito alta e nem tão baixa, cabelos e olhos igualmente negros e uma pele clara, mas não pálida, com algumas pintas escuras no rosto.
Um barulho do meu lado fez chamar a atenção dos sentinelas. Eles se entreolharam e um deles entregou o braço da garota para o outro sentinela segurar. Apontava a arma para o muro.
- Quem está aí? – Tinha uma voz grossa. – Saía, ou eu atiro!
Uma pedra caíu ao seu lado, de reflexo ele se virou e apontou a arma para a montanha. Um outro sentinela mandou abaixar a arma e disse que não era nada de mais, apenas uma pedra. Ele então jogou a arma para trás e prendeu-a em seu suporte. Quando ele ia pegar novamente o braço da menina uma pedra grande, de aproximadamente 15 centímetros de diâmetro, atingiu em cheio sua nuca e ele caiu quase como instantaneamente.
Os outros sentinelas soltaram a garota, que estava dando alguns passos para trás, e tinha levantado as armas apontando para o meio do mato, foi de lá que veio a pedra. Senti Marcela segurando meu braço pelo pulso e quando fui olhar para o outro lado, Leones tinha saido do nosso lado, ele estava atrás de uma árvore com outra pedra na mão. Virou rápidamente e atirou denovo, acertando em cheio a testa do sentinela que estava a direita, o outro sentinela percebendo isso colocou o dedo no gatilho e apertou. As balas foram em direção ao chão pois o homem já estava desacordado, a menina que eles tinham capturado estava com um tronco – que havia quebrado na cabeça do sentinela – na mão.
Estavam esticados no chão aqueles três marmanjos todos ensanguentados. Parecia até irônico que 4 pirralhos tinham conseguido derrubar três sentinelas, apesar de os únicos que realmente fizeram alguma coisa foram o Leones e a garota fugitiva.
- Ei, você está bem? – Leones foi correndo ajudar ela, que estava com as pernas bambas e tremia muito, tinha atirado o tronco muito longe e caído sentada perto da montanha.
- Quem é você? Vai querer me prender também? – Ela estava com muito medo. Eu e Marcela saímos de trás do muro e fomos ajudá-los.
- Calma, eu só queria te ajudar, não aguentei ver esses bananas fazer mau a você – Leones tinha esticado a mão para ela conseguir se levantar.
- Quem são vocês? E o que estão fazendo por aqui, fugindo também? – Ela ainda estava nervosa, mas não estava mais com medo da gente.
- Eu sou Fillipo, Esse é Marcelo e o seu herói é o Leones – ela e o Leones tinham corado. – Quem é você?
- Eliza... obrigado por me ajudarem, mas eu não quero meter vocês em encrenca – Ela falou com uma voz fraca, e logo após, tinha começado a soluçar.
- Calma Eliza, nós vamos te ajudar, só precisa explicar para gente o que aconteceu... – Leones estava consolando-a
- Vamos sair daqui? Esses caras estão mortos, temos que ir embora o mais rápido possível – Marcela tinha razão, por isso, saímos dali muito rápido.
Sem saber para onde ir, ficamos vagando pelo Rio de Janeiro até acharmos uma praça que normalmente ficava meio deserta e não passavam muitos sentinelas. Próximo a ela tinha um supermercado, quando vimos aquilo, a nossa barriga roncou ao mesmo tempo. Conseguimos alguns biscoito e um suco e fomos para a praça e finalmente matamos a fome.
- Ahh, acho que nunca comi um biscoito tão gostoso – Leones estava rindo e mastigando o último pedaço de biscoito.
- Agora que já terminamos podemos conversar em paz. Eliza, o que aconteceu para você fugir dos sentinelas? – Estava curioso.
- Eu não cheguei a conhecer meus pais, eles me deixaram na casa de uma senhora muito rabugenta. Como eu não gostava dela – suas mãos tinham se fechado, como se estivesse com ódio – eu fugi. Desde então não tive aonde ficar e nem o que comer. Sempre tendo que roubar coisas para me alimentar, aprendi a fugir de sentinelas. Hoje de manhã, tentei roubar uma fruta da feira e os três sentinelas me viram e correram atrás de mim, só que dessa vez foi diferente. Eles me perseguiram incondicionalmente, e não pararam por nada. Tentei ir pro Lep, dizem que lá é assombrado – eu, Marcela e Leones nos entreolhamos – e pensei que lá eles não iriam me procurar. O resto da história, vocês conhecem.
- Nossa, vou te ajudar então, vou te levar para morar comigo – Marcela falou com muita naturalidade, como se elas fossem melhores amigas.
- Ei Marcelo, deixa a Eliza ficar comigo, eu vou cuidar dela tão bem quanto você – Leones estava meio encabulado.
- Leones, deixa a Eliza com a Marcela – ele tinha me olhado estranho, e só depois percebi que havia falado Marcela.
- Sim, não é Marcelo, é Marcela!
- Fillipo! – Marcela não entedia por que tinha feito isso...
- Calma, ele é nosso amigo, deve saber disso também. Leones, isso é um segredo e ninguém mais pode saber disso – Leones assentiu, ainda boquiaberto.
- Marcela né? Cuide bem da Eliza por mim então tá? – Leones estava muito vermelho.
A noite já estava se aproximando e o toque de recolher também. Logo não poderíamos mais estar ali na rua, então nos separamos e voltamos para casa. Eliza e Marcela foram para um lado, eu e Leones para o outro. Voltando para casa, a nossa exaustão parecia não deixar uma palavra sair de nossa boca. A casa de Leones vinha antes da minha. Chegamos nela e Leones foi logo entrando. Me virei e estava indo embora.
- Fillipo – Leones tinha me chamado antes de entrar em casa. – Eu sei que a gente não vai conseguir agora, mas daqui a alguns anos, você gostaria de voltar lá e entrar para os rebeldes?
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