Notas iniciais
Rio de Janeiro, 28 de setembro - tempo indeterminado - do ano de 62 NWO.

- Eu sabia que vocês voltariam. Lembram do que aconteceria caso o acordo fosse desfeito? – Soltou uma gargalhada amarelada.

Dei um último suspiro e pensei em como tinha sido burro em trazer eles dois. Meus amigos podiam ter sobrevivido, se não fosse essa minha vontade idiota de descobrir a verdade. Sabe qual é a verdade? Eu vou morrer e ainda vou matar meus dois amigos, essa é a verdade! O homem, novamente, levantou aqueles dois dedos e subitamente os abaixou.

De repente, luzes vinham de baixo da montanha. Eram dois helicópteros de sentinelas que estavam indo verificar a movimentação que estava acontecendo no Lep. As lanternas dos homems que miravam na gente tinham chamado a atenção deles, e agora estavam apagadas. Enquanto alguns gritavam “Alerta vermelho!” outros corriam feito loucos, conseguia sentir um desespero vindo deles. Percebi uma ótima chance para fugir dali.

- Rápido, venham por aqui – Virei. Leones parecia estatizado de costas para mim, dei um empurrãozinho. Marcela virou-se e eu segurei sua mão. Quando comecei a correr, algo me segurou pelo gola da blusa.

- Vocês são meus prisioneiros – Sua voz me estremeceu, aquele homem tinha segurado a Marcela também e agora estava nos erguindo. Leones conseguiu correr por mais alguns metros até que um cara armado pegou ele.

A luz dos helicópteros estavam surpreendentemente forte, logo estariam no topo da montanha. Uma demora infernal, eles poderiam salvar a gente mais rápido... Uma venda cobriu meus olhos. Primeiramente, estava mal posicionada e consegui ver todos correndo para dentro da ruína que continha a passagem secreta, vi Leones e Marcela também vendados, me amordaçaram, mas dessa vez não tinha nada na mordaça. Ajeitaram a venda em meus olhos e a partir daí não consegui ver mais nada. Balancei e tentei sempre me soltar, impossível, me seguravam com tanta força que parecia que iriam me trucidar. Com uma força incrível, sou arremessado.

Um chão úmido e congelante me deixava completamente desconfortável. Não conseguia ficar em uma posição boa, aquelas correntes que tinham colocado no meu pé dificultavam meus movimentos. Depois de pouco ou bastante tempo – não tinha mais a noção do tempo — tiraram minha venda, era um homem alto e vestido de preto, naquela luz branca da sala dava para ver que tinha um colete a prova de balas. Depois de mim, tirou também a da Marcela e a do Leones.

Minha visão ainda estava fraca, mas aos poucos foi se recuperando. A sala tinha paredes mal embolsadas e também mal pintadas de branco, era mais ou menos na metade da parede onde a corrente estava presa, o chão era de terra batida e por isso tanto desconforto. Já estava com a bunda dormente quando o homem da cicatriz entrou na sala.

- Vocês são umas pestes mesmo né? Armaram contra mim, vocês vão se arrepender – Dava para sentir sua raiva corroendo as palavras que saíam daquela boca dilacerada. Estalou os dedos, e quase que automaticamente, entra um homem e tira as nossas mordaças, bate continência e sai da sala. O Homem voltou a falar – O que diabos vocês querem de nós?

- Primeiramente, quem é você? – Marcela estava tranquila?!

- Hum, vejo um engraçadinho... Me chamo Yerik e vocês são Fillipo, Leones e Marcelo correto?

- Como você sabe disso? – o som saiu estrondoso por que todos falamos ao mesmo tempo.

- Esqueçam, vocês vão morrer aqui, mas antes quero saber tudo o que vocês sabem. Qual é o setor de vocês? – Chegou bem perto de mim e fitou meus olhos.

- N-não sei do que você tá falando!

- Vocês são sentinelas infiltradas, confessem!

- Nós não somos nada! Se fôssemos, você não acha que já teriam vindo nos buscar? – Marcela disse, parecendo a única entre nós três que ainda possuía um pingo de raciocínio.

- E você acha que seus amigos nos achariam aqui? – Yerik tinha se virado para ela e agora estava bem próximo de seu rosto, fitando-a.

- E aonde exatamente é aqui? – Marcela era provocante, acabaria nos matando assim.

Aquilo fez Yerik gargalhar e o som fez um eco sinistro naquela sala fechada. Estalou os dedos de novo. Entrou o mesmo homem, primeiro foi a mordaça, depois, a venda – Nos veremos novamente mais tarde – foi a última coisa que ouvi. E Tudo ficou escuro por bastante tempo.

Depois de muito tempo me revirando, dormi e sonhei. Não sei se foi por muito tempo, mas o sonho pareceu longo. Se passava em um lugar estranho, parecia o Rio de Janeiro, só que bem velho e acabado, haviam nomes escritos com tinta preta nas paredes de várias casas que pareciam acabadas e destruídas. Carros velhos e empoeirados que estavam caindo aos pedaços ficavam jogados pela rua. Poucas pessoas estavam ali próximo, parecia que estava bem tarde, muito depois do toque de recolher. Andei mais um pouco e consegui ver uma casa com luzes coloridas na frente, parecia que acontecia alguma festa. Consegui entrar e me deparei com uma cena que não dava para acreditar. Mesmo com um lugar tão nojento em volta, dentro daquela casa estava lotado de gente dançando e pulando, bebendo e beijando. Elas pareciam felizes. Elas pareciam livres... Como era possível?

O Rio de Janeiro de hoje é uma cidade igual as outras, com a zona central mais industrializada aonde não podia haver nenhum morador, apenas operários. E ao arredor do centro estavam as residências, comércios e serviços, a localidade da casa em relação à zona central indicava sua condição, quanto mais próximo do centro mais pobres eram as pessoas. Era assim em quase todas cidades do mundo depois da nova ordem. As excessões eram as cidades completamente industriais, ou seja, não existia a zona residêncial. E as cidades agrícolas, na qual a zona residêncial constituía toda a cidade, com a pequena diferença de que cada casa possuía um campo enorme para plantação.

No meu Rio de Janeiro eu nunca tinha visto tantas pessoas felizes igual às pessoas daquele sonho. Aqui elas pareciam acorrentadas a alguma coisa, não sei, ninguém podia fazer muitas coisas. O Poder Supremo Universal mantinha tudo em ordem, e com isso tinha instalado postes com câmeras a cada 5 metros nas ruas, e sentinelas faziam rondas vinte e quatro horas por dia. Tinha também o toque de recolher, era um sino que badalava três vezes às seis horas da tarde, com intervalo de dez minutos entre cada badalada, a última badalada indicava que não poderia haver mais nenhuma pessoa na rua depois disso sem autorização do governo. Caso acontecesse uma vez de a pessoa estar na rua após o toque, ela era interrogada e levava uma advertência. Já na segunda vez, a pessoa desaparecia e ninguém nunca mais ouviria falar dela.

Acordei com um chute na minha costela, tirou minha venda, era o guarda que tomava conta da nossa sala – que a essa altura, já poderiamos chamar de cela – Tirou minha mordaça, pensei que iria me torturar...

- Solta a gente cara, o que vocês vão ganhar? Não somos ricos, vocês não vão ter recompensa se nos sequestrar – pensei que poderia ser isso que eles queriam.

Ele continuou tirando as correntes que me prendiam, foi estranho, meus braços e pernas pareciam mais leves, aquelas correntes pesavam uns 50 quilos.

- Levanta, pivete – Ele tinha uma voz grossa e que caía sobre nossos ouvidos como se fossem bigornas. Me pus de pé com grande dificuldade, minhas pernas estavam bambas e dormentes. Quando estabilizei o equilíbrio Yerik já tinha entrado na sala.

- Está consciente? – Perguntou-me parecendo preocupado.

- Sim

- Porra, vou ter que sujar a mão – Não consegui ver seu movimento, só senti seu punho fechado na minha barriga. Uma vontade enorme de respirar fez com que abrisse a boca, porém, era como se eu não estivesse na terra, não tinha nenhum ar para puxar. Com a boca aberta, começou a escorrer sangue pela minha lingua, caíram algumas gotículas no chão, a visão foi ficando escura e o chão parecia estar se movendo.

- Leve-o para a máquina – Disse Yerik para o guarda. O guarda colocou o ombro na minha barriga e me ergueu. Fui carregado até uma sala, apesar de não conseguir enxergar muito bem — ainda estava tonto pelo soco, e tinha me forçado a não desmaiar – consegui distinguir como era a sala, que parecia bem mais arrumada que a outra, as paredes eram brancas e lisas, com o teto de gesso e o chão com um piso preto com detalhes em dourado. Possuía alguns computadores e uma cadeira grande com um capacete erguido acima dela.

Fui colocado na cadeira, com as mãos e pés dentro de umas meia-luas de aço gelado. Automaticamente as meia-luas se fecharam e viraram uma espécie de algema, me prendendo a cadeira. O capacete, desceu lentamente e encaixou perfeitamente na minha cabeça, tinha umas brocar de ferro pontiagudos apontadas para alguns pedaços da minha cabeça. Um barulho de furadeira me fez gelar, as brocas se moveram em direção a minha cabeça.

Um gota de sangue caiu das minhas têmporas.

Notas finais
Obrigado por ter lido!