Tiptoe

1 Capítulo 1


-Eu não consigo fazer isso.

Meredith fez um som de impaciência. Estávamos sentadas na areia da praia, o papel de inscrição para A Seleção na mão dela. Seus cabelos louros chicoteavam em seu rosto devido à brisa marítima, mas isso não a impediu de me lançar um olhar irritado.

-Não seja ridícula, Nora. – disparou ela tentando inutilmente tirar o cabelo da cara – Essa será uma ótima oportunidade. É perfeito.

Lancei um olhar receoso para aquele papel que ameaçava sair voando da mão dela. Fazia horas que estávamos naquela mesma posição, naquele mesmo impasse. Eu não conseguia me convencer de que entrar na Seleção era uma boa ideia.

Quando o papel de inscrição chegou pelo correio naquela manhã, eu havia passado por ele direto, achando que era apenas mais uma conta para pagar. Só fui descobrir o que realmente era quando ouvi os gritos estridentes de minha mãe vindo da cozinha. Corri para lá, achando que ela tinha se machucado ou algo do gênero, mas a única coisa que eu encontrei foi ela abraçada num papel gritando de animação.

A Seleção não acontecia a anos, desde que a rainha America havia sido escolhida. Minha mãe contava de vez em quando histórias sobre a rainha, sobre como ela era corajosa e a favorita do povo e sobre como ela havia acabado com o sistema de castas.

E agora, anos depois, era a vez de o próximo príncipe escolher sua mulher. Eu já havia visto o príncipe James no Jornal Oficial e tinha que admitir que ele era realmente bonito. Seus cabelos eram escuros, mas os olhos eram azuis, iguaizinhos aos da mãe. Ele era estranhamente alto, porém seu porte atlético fazia sua altura parecer proporcional. Seu sorriso era fácil e não havia um momento em que eu não o visse rindo. Ele havia acabado de completar 19 anos e parecia extremamente ansioso para achar seu par.

As regras da Seleção haviam mudado desde que America Singer fora escolhida. Agora, a Seleção era uma escolha do príncipe, ele podendo decidir se queria que a competição ocorresse ou não. E as Selecionadas, ao chegar ao castelo, podiam escolher deixar o palácio independente da escolha de James. Honestamente, eu achava que as novas regras faziam o programa parecer bem menos sufocante.

Ainda assim, eu não conseguia me forçar a preencher aquele papel. A caneta estava na minha mão, sem a tampa, só esperando eu tomar uma decisão. Mas por algum motivo eu não conseguia escrever meu próprio nome. Eu não tinha certeza se queria fazer parte disso. Não tinha certeza se queria deixar minha família para trás. Não tinha certeza de que queria conhecer James Schreave. Eu não tinha certeza de nada.

Olhei para Meredith, minha única amiga. Ela me encarava com seus olhos castanhos cheios de expectativa enquanto batucava na areia com seus dedos longos e finos. Parecia esperar uma resposta.

-Eu não sei, Mere. – respondi fazendo um careta, o que rendeu um suspiro exasperado por parte dela – Ele pode ser bonito, mas e se ele for chato? E se ele cutucar o nariz como meu irmão?

Meredith me olhou horrorizada e fez um sinal da cruz.

-Nora Hathaway, nunca mais diga uma coisa dessas novamente. James Schreave é bonito demais para ser chato ou para cutucar o nariz. Existem leis contra isso. Não há justiça no mundo se James Schreave, com toda a beleza que o deus da beleza lhe concedeu, for um babaca.

Eu ri da reação dela e levantei os braços como se me rendesse.

-Nunca mais falarei sobre isso de novo, prometo. Nem cogitarei essa ideia.

Meredith riu. Depois lançou mais um olhar para a folha de inscrição em branco que segurava e se virou para mim, como se dissesse “vamos lá, Nora, você consegue fazer isso”.

Soltei um suspiro resignado e tomei o papel da mão dela, assinando meu nome nele. Ela soltou um gritinho de excitação e me abraçou.

-Eu sabia que você ia ceder! Ninguém resiste aos meus poderes de persuasão. – ela jogou o cabelo para trás e empinou o nariz.

-Sabe que só estou fazendo isso para me livrar de você.

-Isso é o que você diz.

Comecei pelas coisas básicas: nome, idade, província. Nora Hathaway, 18, Bankston. Nome do pai, nome da mãe, data de nascimento entre outras perguntas costumeiras. Eu hesitei um pouco nas perguntas sobre minha aparência, como sempre fazia. Nunca sabia dizer se meus olhos eram castanhos ou verdes, se meu cabelo era castanho ou meio ruivo.

-Já que você está com tanto medo de participar da Seleção – disse Meredith com um sorriso maldoso – coloque ai que você tem o cabelo crespo, olhos cor de vômito e que tem uma verruga no meio do nariz. Diga também que seu único talento é dormir o dia inteiro e comer que nem uma porca. Bem, essa última parte é verdade.

Coloquei o dedo nos meus lábios e fiz um sinal para que ela ficasse quieta.

-Vou colocar aqui que meu único talento é aturar Meredith Monroe. Isso tem que contar para alguma coisa. – disse enquanto preenchia as perguntas sobre minha escolaridade.

Meredith soltou uma gargalhada ruidosa.

-De fato, se isso não contar, eu não sei mais o que vai. – concordou.

Passamos o resto da tarde terminando de completar o formulário, Meredith me convencendo a colocar todo o tipo de coisa sobre mim. Em “talentos” eu estava prestes a colocar apenas dança, mas ela insistiu em acrescentar culinária e canto, entre outros talentos que eu nem sabia que tinha.

Quando a noite finalmente caiu, nós pegamos nossas coisas, sacudimos a areia da roupa e nos preparamos para ir embora. Seguramos os chinelos na mão e fomos andando, seguindo o mar. O silêncio era confortável e eu gostava de ouvir o barulho das ondas indo e vindo. Infelizmente, Meredith não apreciava a quietude como eu e me cutucou dizendo:

-Se você conseguir, Nora, vai ser muito bom para você.

-Como assim? – perguntei sem tirar os olhos do mar.

-Bem, para começar, você vai estar em Angeles. Lá é onde tudo acontece! Se você realmente quer entrar para a Companhia de Dança, estar lá vai tornar as coisas três vezes mais fáceis.

Eu não havia pensado nisso, e a perspectiva de conseguir realizar meu sonho fez a Seleção parecer uma escolha muito melhor. Tudo fazia sentido agora.

O sistema de castas podia até ter sido eliminado, mas minha família mantinha os empregos tradicionais de sua antiga casta. Meus pais foram Cinco, por isso eu fazia parte de uma família de artistas. Eu não sabia pintar, não me sentia confortável cantando em frente de muitas pessoas, não conseguia fazer uma escultura decente nem se minha vida dependesse disso e mal sabia tocar o piano. Sobrou apenas a dança. E ai estava algo que eu sabia fazer bem.

Eu estudava de manhã, treinava a tarde e trabalhava quando conseguia. Estudar para mim era algo que ficava um pouco de lado, pois meu foco era trabalhar. Eu precisava do dinheiro. Não só para ajudar minha família, que não vivia na melhor das situações, mas também para fazer o que eu mais queria: sair de Bankston e nunca mais voltar. A Companhia de Dança de Illéa era minha passagem para isso.

Eu dei de ombros.

-Eu não tinha pensado nisso. – falei — Essa coisa toda pode ser uma boa ideia no final das contas.

Meredith balançou a cabeça exasperada.

-Não é só por isso, Nora. Ainda há o dinheiro que as Selecionadas recebem. Com um mês desse dinheiro você pode pagar a cirurgia da sua mãe.

Eu desviei o olhar, evitando encarar Meredith. Eu havia pensado inúmeras vezes no dinheiro, e mais vezes ainda na possibilidade de ajudar a minha mãe. Eu só não queria ter esperanças demais, então mal me atrevia a pensar sobre a possibilidade de entrar na Seleção.

Mas se eu entrasse... Minha mãe poderia largar aquela bengala. Eu poderia pagar sua cirurgia, sua fisioterapia e ela... Ela voltaria a dançar.

-E – continuou Meredith – você poderia se livrar de August.

Eu ri. Esse seria um ótimo motivo para entrar na Seleção.

-Eu poderia, não poderia? – respondi ainda rindo – Seria um bônus muito bom.

August Winters era o motivo pelo qual eu ansiava em deixar minha província. Meses antes, eu me considerava perdidamente apaixonada por ele. Eu o adorava, a ponto de quase idolatra-lo. Ele era dois anos mais velho que eu, um antigo Dois e morava com seu pai em um bairro onde eu costumava a trabalhar, enquanto sua mãe e sua irmã mais nova moravam em outra província. Era bonito e charmoso, com cabelos castanhos e olhos cor de jade. Tinha uma voz macia e dinheiro o suficiente para conquistar qualquer menina da província. E eu certamente fui uma das conquistadas.

Não que eu tivesse me apaixonado pelo dinheiro dele. Eu gostava de como ele era gentil comigo, de como ele piscava quando me via saindo do estúdio onde trabalhava como assistente. Ele era simpático, bonito, doce e parecia ser alguém que meus pais iriam adorar. Eu não pude evitar, e quando vi estava apaixonada.

Mas isso tudo mudou muito rápido.

Um dia (provavelmente o pior dia da minha vida) juntei coragem e fui falar com ele. Puxei-o para um canto depois do trabalho e lhe disse tudo o que sentia. Ele não parecia surpreso, na verdade, parecia achar a coisa toda muito engraçada. E para o meu horror, ele me rejeitou. Não só me rejeitou como me humilhou. Disse coisas terríveis com uma voz suave, coisas que ainda ecoam na minha cabeça de vez em quando. Suas palavras me atingiram como faca, perfurando a carne e se estabelecendo em mim. Pessoas que passavam do nosso lado nem desconfiavam do que acontecia ali, pois ele sussurrava tudo o que dizia de forma maldosa ao pé do ouvido, e eu estava chocada e magoada demais para demonstrar qualquer emoção. Eu tentei esquecer tudo o que ele disse, aquelas frases horríveis, mas ele não permitiu. Depois daquele dia, August decidiu que seu novo passatempo favorito era fazer da minha vida um verdadeiro inferno.

Ele espalhou por toda a província boatos sobre mim que faz todos os meus vizinhos, antigamente amigáveis, me olharem torto. Quando eu o encontrava na rua, sempre acompanhado por seus amigos igualmente ricos e bonitos, ele jogava minha declaração de volta para mim, sempre com um sorriso cínico e um tom de zombaria. E uma vez, a única vez que nos encontramos sozinhos... Coisas ruins aconteceram.

E rápido assim, eu passei a odia-lo. Sair da província, deixar August para trás, era uma oportunidade que eu não podia deixar passar.

-Meredith. – chamei depois de alguns minutos em silêncio. Ela se virou para mim com um olhar preocupado e questionador – Você faria uma rainha muito melhor que eu. – Meredith bufou – Estou falando sério! Você é mais bonita, mais simpática e teve uma educação infinitamente melhor que a minha. Você seria tão melhor que eu. Por que quer que eu vença?

Ela suspirou pesadamente, mas depois sorriu.

-Porque você precisa da Seleção. Eu? Eu estou bem aqui em Bankston. Sou feliz aqui. E você não. Você só tem a ganhar indo para Angeles. Você precisa do dinheiro, da oportunidade, da paz. E você precisa desesperadamente conhecer alguém, Nor. Um príncipe seria uma ótima escolha. – ela riu baixinho, franzindo o nariz como sempre fazia.

Foi a minha vez de bufar.

-Ir para a Seleção seria ótimo, mas não por causa do príncipe. Eu não quero me apaixonar de novo. Não quero me aproximar de nenhum cara de novo. Não vou mais passar por isso.

-O príncipe não vai ser assim...

Levantei a mão, interrompendo-a.

-Você não sabe disso. E eu não pretendo arriscar. Eu estou me inscrevendo pela Seleção, mas não por vontade de conhecer um carinha bonito. Por pior que isso soe, eu estaria lá pela minha família e por mim. Ficaria tempo o suficiente para resolver minha situação e deixaria tudo para trás. E não pretendo deixar nada me distrair disso.

Minha voz não deu nenhuma abertura para discussão, por isso Meredith não disse mais nada. Continuamos caminhando em silêncio e dessa vez ela não o interrompeu.

Quando chegamos a porta da minha casa o silêncio havia se tornado sufocante. Meredith estava com as mão enfiadas no bolso, o cabelo caindo-lhe sobre o rosto como se estivesse envergonhada. De repente me senti mal por ter dito o que disse de forma tão dura.

-Ei, Mere, me desculpe. – pedi cutucando-a de um jeito desajeitado – Não quis ser grossa, você sabe como eu sou com esses assuntos.

Ela balançou a cabeça negativamente, tirando as madeixas loiras do olho.

-Eu que tenho que te pedir desculpas... Eu te pressionei e não devia ter feito isso. Eu sinto muito.

Dei de ombros.

-Está tudo bem. – disse dando um sorriso relaxado – Isso não importa muito, de qualquer forma. As chances de eu ser realmente escolhida são mínimas. Mais fácil eu ir de bicicleta para Angeles.

O sorriso antes rígido dela aumentou.

-Melhor eu preparar um lanche para você levar.

-Eu gosto de sanduíches de presunto e queijo.

Ambas rimos e eu vi a voz de meu pai ao fundo me chamando para entrar.

-As chances são mínimas. – repeti, tentando convencer a mim mesma. Eu não queria ter falsas esperanças.

-Mínimas. – concordou Meredith enquanto se afastava acenando.

-Mínimas. – murmurei fechando a porta.

Notas finais
Reviews ?