Notas iniciais
Obrigada à todas pelos comentários e pelo carinho. Capítulo narrado por Regina. Músicas do capítulo: Bleeding Love - Leona Lewis, Sun - Sleeping At Last e Chasing Cars - Snow Patrol. Boa leitura.

Meu namoro com Emma estava decolando gradativamente, assim como toda nossa relação. Ela permanecia parcialmente ocupada por causa do estágio com o pai, do qual Emma reclamava muito para mim, e eu me ocupava com muito estudo e com sessões de terapia, que passaram a ser semanais.

Uma das obrigatoriedades de um estudante de psicologia e psicólogo é que ele também faça psicoterapia, pois se ele não se auto conhecer o suficiente, não será capaz de aplicar terapia nas outras pessoas. Mas eu não fazia terapia só por isso, eu realmente gostava. Era um espaço único onde eu podia compartilhar tudo, inclusive podia falar de Emma.

A faculdade ficava cada dia mais difícil. Era muito conteúdo para ler e assimilar, além de que o curso que eu fazia exigia de mim uma carga emocional fora do normal para lidar com coisas que as pessoas "normais" não dariam conta. Os meus estágios de atendimento clínico não haviam começado, mas as visitas às instituições sim.

Lembro-me claramente de uma quarta-feira, à primeira vez que pisei em um hospital psiquiátrico, o principal de Storybrooke. Eu e minha turma fomos com meu professor de psicopatologia e passamos algumas horas lá. O que eu vi naquele lugar jamais me abandonaria pelo resto da vida e faria com que eu resignificasse tudo que considerava importante. Lá no hospital conheci pessoas com transtorno de personalidade, inclusive de personalidade antisocial. Falei com pessoas que sofriam das mais diversas doenças que acometiam a memória, me assustei quando uma moça com transtorno bipolar se aproximou de mim, pois estava muito nervosa e falava coisas desconexas, mas nada se comparou ao que senti vendo um rapaz gritando e chorando enquanto os enfermeiros o seguravam para lhe aplicar medicação, pois o mesmo estava em surto psicótico.

Aquele dia foi bem difícil e pesado, tanto que liguei para Emma me buscar e ela foi correndo com seu adorável fusca amarelo. E sem razão, chorei durante muito tempo em seus braços, recebendo o melhor consolo possível.

Emma e eu estávamos ainda mais próximas que antes, se é que era possível e em algumas ocasiões em que minha mãe não se encontrava, Emma foi até minha casa conversar com meu pai, pois ele a adorava. Tomávamos chá os três e conversávamos bastante até se aproximar o horário da chegada de mamãe, então íamos embora.

E por falar em mamãe, nossa relação desandava cada vez mais. Nós nem sequer conversávamos. Ela estava me tratando com indiferença, talvez fosse uma tática para ver se eu iria tentar ir atrás dela, e aí ela poderia fazer chantagem emocional e exigir que eu me afastasse de Emma, mas eu não faria nenhuma das coisas: nem ir atrás dela e nem largar Emma.

Mesmo com toda felicidade de novo casal, eu notava que Emma estava abatida e mais introspectiva que o normal e deduzia que isso devia ao fato de seu pai a pressioná-la cada dia mais, exigindo dela o que ela não poderia dar.

David queria que Emma se empenhasse mais, que aprendesse a lutar e atirar e começasse atender chamados da rua ao seu lado, como uma policial, mas ela não queria isso. E eu também não queria, porque além de ser perigoso, não era o que Emma sonhava para si e eu a apoiava fosse qual fosse sua decisão.

Como se fosse uma grande coincidência do destino, no mesmo dia eu e Emma tivemos uma briga feia em nossas casas. Eu com minha mãe, e ela com seu pai. E por razões parecidas: nós não eramos o que eles queriam que nós fossemos.

Minha mãe esperava uma filha sofisticada e arrogante, que se casasse com um homem, de preferência muito rico. E David esperava que Emma fosse uma policial destemida, e não uma artista. Ambos estavam frustrados e descontavam isso em nós da forma que podiam.

"But nothing's greater than the rush

Mas nada é melhor que a agitação

That comes with your embrace

Da sensação que vem com seu abraço

And in this world of loneliness

E nesse mundo de solidão

I see your face

Eu vejo o seu rosto

Yet everyone around me

Entretanto, todos ao meu redor

Thinks that I'm going crazy

Acham que eu estou ficando louca

Maybe, maybe

Talvez, talvez."

— Vamos fugir? — Emma sugeriu para mim no telefone. Havia me ligado àquela noite e conversávamos justamente sobre as brigas que tivemos. — Não pra sempre, mas por um final de semana? Vamos pegar nossas coisas e cair na estrada por um final de semana para esquecermos os problemas e curtirmos?

— Você diz... Fugir mesmo? Ir sem avisar ninguém? — perguntei meio hesitante, debruçada na sacada do meu quarto, observando a lua.

— Sim! Nós simplesmente juntamos algumas coisas e caímos na estrada. Eu tenho carro e algum dinheiro, e é só por um final de semana.

— E para onde iríamos?

— Tem uma praia deserta maravilhosa na cidade vizinha de Storybrooke, aquela de nome engraçado... Como chama mesmo?

— Floresta Encantada?

— Isso mesmo! — Emma estava empolgada e eu comecei a me empolgar também. — A praia de lá é linda, a areia bem branquinha... Pensei que poderíamos acampar.

— E quando nós iremos? — perguntei super excitada.

— Amanhã depois da aula?

— E quando voltamos?

— Na segunda-feira. Pensei em amanhã nós irmos para a faculdade normal, como se não fossemos fazer nada. Você leva umas mudas de roupa e o que tiver aí que sirva para um acampamento, eu faço o mesmo. Ninguém vai desconfiar. Vamos para a aula e nos encontramos meio dia na saída e metemos o pé na estrada! Que você acha?

— Acho uma ideia louca e perigosa — disse com sinceridade — Mas irresistível!

— Isso quer dizer que você topa?

— Claro que sim, meu amor! Nada me fará mais feliz do que desaparecer com você por três dias. Vamos fugir dessa realidade louca, pelo menos por um final de semana.

— Você está ficando bem corajosa, ein — falou toda risonha — Estou gostando de ver, leitora de mentes!

— Estou aprendendo com minha namorada... Sabe, ela é muito corajosa, toda audaciosa, faz coisas inimagináveis.

— Essa sua namorada parece ser bem legal — entrou na brincadeira, fazendo-me rir baixinho.

— Ela é linda e adorável, mas louca, completamente louca.

— Ela deve ter ficado louca por você...

Suspirei e ficamos em silêncio por alguns instantes.

— É melhor eu ir dormir, pois estou bem ansiosa e amanhã preciso acordar cedo para nosso plano dar certo — falei.

— Sim, eu também vou. Boa noite, linda.

— Boa noite, Emma.

Silêncio novamente, nenhuma de nós desligou. Ambas suspiramos e ficamos um longo tempo na linha, compartilhando um silêncio de apaixonados, até que tomei a iniciativa e desliguei, indo dormir ansiosa para nossa viagem.

Contei apenas para Belle da minha fuga com Emma, e ela ficou toda empolgada por mim, desejando-me uma boa viagem. Passei a manhã toda ansiosa, sequer prestei atenção na aula até o momento de me encontrar com Emma e meter o pé na estrada.

Já no caminho eu sentia a felicidade latente em meu interior, conforme olhava pela janela a linda praia que nos aguardava.

Emma estacionou o fusca em cima de uns matos, na área florestal próxima a praia. Nos livramos de nossos tênis e meias e descemos do carro. Emma dobrou sua calça jeans até metade das panturrilhas e saímos correndo pela areia fofa até a beira da praia, molhando nossos pés.

Pulei em cima de Emma, lhe agarrando pelo pescoço e ela riu, me segurando com firmeza contra si, num abraço apertado. Nos beijamos apaixonadamente e logo começamos a rir.

"But I don't care what they say

Mas eu não me importo com o que dizem

I'm in love with you

Eu estou apaixonada por você

They try to pull me away

Eles tentam me afastar

But they don't know the truth

Mas eles não sabem a verdade."

— Não acredito que fugimos! — falei espantada — E viemos para esse lugar lindo...

— Está arrependida? Ainda dá tempo de voltar atrás...

— Claro que não, sua boba! — passei a mão pelo seu lindo rosto perfeito e Emma sorriu para mim. — Eu estou muito feliz de estar aqui com você. É como se de repente o mundo fosse só nós duas.

— E agora ele é. Não existe faculdade, não existe sua mãe ou o meu pai, nem ninguém. Só existe eu e você! — apertou-me com mais força em seus braços.

— Isso, só você e eu...

Nos beijamos novamente de forma apaixonada e logo em seguida me soltei de Emma, afastando-me alguns passos até que ela me olhou confusa, pois eu estava com uma cara bem de sapeca.

— Duvido você me pegar! — gritei antes de sair correndo, deixando Emma para trás com cara de boba.

Emma correu atrás de mim por alguns minutos até que me alcançou, agarrando-me por trás e me puxando para dentro do mar, nós duas acabamos caindo, nos molhando inteira. Quando subimos para a superfície encharcadas, Emma riu da minha cara.

— Problemas com a água, Doutora?

— Está muito gelada! — resmunguei, batendo os dentes e ela gargalhou, abraçando-me com força.

— Como você é fracote, ein.

— Eu não sou fracote! — falei ofendida, jogando água em seu rosto. — E aposto que nado bem melhor do que você.

— Duvido!

Eu e Emma nadamos um pouco mais para o fundo da praia, onde não haviam ondas e ficamos brincando e namorando, trocando vários beijos.

Emma inclusive me pegou no colo e me fez deitar, como se estivesse boiando, por um longo tempo. A sensação de estar em seus braços no oceano, era inexplicável.

Depois de muito tempo brincando na água, voltamos para a areia. Sentamos na beira do mar e resolvemos construir um castelo de areia e me surpreendi novamente com as habilidades artísticas da minha namorada, que construiu um belo e sólido castelo.

Lavamos as mãos e fomos até o fusca pegar nossas coisas e levá-las à praia. Emma ficou quase uma hora para conseguir montar uma simples barraca, o que me arrancou vários risos e a deixou meio brava, inclusive recusou minha ajuda.

Depois de finalmente montá-la e ajeitar nossas coisas lá dentro, pegamos alguns gravetos e acendemos uma fogueira, pois já estava perto do entardecer. Emma havia levado marshmallows, sanduíches de todos os tipos, sacos de biscoito, garrafas de água e caixinhas suco, maçãs, saco de pão integral, algumas caixinhas de toddynho, goiabinhas, queijo polenguinho, sacos de miojo e até mesmo uma panela para cozinharmos.

— Você pensou em tudo mesmo, né? — falei, sorrindo, sentada de frente para a fogueira.

— Claro! Não podemos passar fome e nem frio... Aliás, o que vamos jantar hoje?

— Sanduíche de pasta de amendoim!

— Ótima escolha, leitora de mentes — piscou para mim enquanto pegava os sanduíches e duas caixinhas de suco de laranja, jogando uma para mim.

Emma veio e sentou ao meu lado, entregando-me meu sanduíche. Começamos a comer enquanto olhávamos para o horizonte e víamos o Sol se pôr.

— É que eu não podia chamar atenção, porque senão, teria feito uma torta de maçã para nossa viagem — comentei, de boca cheia.

— Torta de maçã? — Emma olhou-me de cenho franzido — Você cozinha?

— Claro que eu cozinho e muito bem por sinal. Por quê?

— Não poderia imaginar que você cozinhasse... É toda mimadinha! — falou com um sorriso debochado e eu a olhei indignada.

— Mimadinha? Aonde? Mimadinha são aquelas garotas frescas da faculdade que ficam desprezando os outros por causa de dinheiro! Eu não sou mimadinha! — resmunguei.

Emma caiu na gargalhada.

— Não, você não é mimadinha mesmo, mas se ofende tão facilmente que acabo não resistindo em provocá-la... — mostrei a língua para ela.

— Trouxa!

— Mas sério, levando em conta a mãe que você tem e o lugar onde você mora, é de se esperar que eu não desconfiasse dos seus dotes culinários, né?

— É, vou te dar um crédito por isso.

Terminamos de jantar e Emma foi desenhar. Ela havia levado alguns papéis de desenho e grafite. Ficou desenhando perto da fogueira, e eu deitada ao seu lado em cima de um lençol.

— Posso ver o seu desenho, grande artista? — perguntei de bruços, com o rosto apoiado em minhas mãos.

Emma me olhou sorrindo depois de encerrar o desenho e me mostrou. Ela havia desenhado a praia onde estávamos. Suspirei.

— Ficou lindo... Você desenha tão bem...

E de repente um pensamento incomum me ocorreu relacionado aos seus desenhos e pinturas. Emma percebeu que algo se passou em minha cabeça, mas não me perguntou nada, respeitando meu silêncio e reflexão. Ainda não era o momento para eu dizer o que pensei.

Emma guardou seu desenho em sua bolsa e veio deitar ao meu lado, encostando seu braço no meu. Ficamos encarando o céu estrelado e ela começou a descrever os desenhos que enxergava.

"We are the dust of dust

Nós somos o pó da poeira

We are the apple of god’s eye

Nós somos a menina dos olhos de Deus

We are infinite as the universe we hold inside

Somos infinitos como o universo que temos dentro."

— Eu não consigo ver nada além de estrelas — comentei — Você é muito criativa.

— Não é só questão de criatividade... — virou-se de lado e eu me virei também, lhe encarando. — Se você acreditar que são só estrelas, não conseguirá ver nada além de estrelas, mas se você pensar que não são só estrelas, então você conseguirá ver além.

Abri um sorriso ao ouvir sua explicação. Emma era intuitiva, sonhadora e criativa como uma criança, e eu adorava isso. Deslizei meus dedos em seu rosto.

— Você é tão adorável, Emma. A cada instante me sinto mais apaixonada por você — declarei-me com um sussurro e ela sorriu para mim.

— A recíproca não poderia ser mais verdadeira.

Puxou-me pela cintura e nossos lábios se encontraram num beijo doce que em poucos instantes se tornou tórrido e avassalador. Emma me cobriu com seu corpo forte e ela mordia meus lábios, o que me deixava enlouquecida. Ergui uma perna automaticamente e ela ficou encaixada ali, sobre mim. Minhas mãos deslizaram por suas costas nuas, pois ela estava apenas de sutiã e short. Passei as unhas levemente pela sua lombar, mas acho que o toque foi suficientemente poderoso para atiçar Emma, pois ela desceu a boca em meu pescoço, dando-me beijos intensos que me arrancaram suspiros e naquele momento notei que o centro de minhas pernas pulsava, úmido, o que me deixou assustada e com o rosto corado.

— Emma... — coloquei as mãos sobre seus ombros, detendo-a — Precisamos parar...

Ela ergueu a cabeça, encarando-me toda ofegante, com seus cabelos bagunçados. Tão linda e irresistível...

— Não me sinto preparada ainda — falei envergonhada, fugindo o olhar.

Emma tocou meu rosto e eu tive que encará-la. Ela sorria para mim toda apaixonada e logo estava beijando todo meu rosto lentamente.

— No momento certo, nós faremos isso — sussurrou, roçando seu nariz no meu e eu a abracei pelo pescoço. — Minha linda... Eu gosto tanto de você, Regina — seu "tanto" veio carregado de sentimentos, o que fez meu coração disparar.

— Eu também Emma, eu também... Vamos dormir? — perguntei meio sonolenta.

— Vamos sim!

Apagamos a fogueira e adentramos a barracada, que era aconchegante e cabia muito bem nós duas ali. Emma havia levado travesseiros e um cobertor grande e bem gostosinho.

Eu usava uma blusa larguinha e um short jeans, assim como Emma, mas ela não vestiu nenhuma blusa. Nos deitamos da forma que estávamos e nos enfiamos em baixo do cobertor juntas. Virei-me de lado e Emma se encaixou atrás de mim, me abraçando fortemente numa conchinha que aqueceu todo meu corpo e fez com que eu me sentisse protegida. E assim adormeci em seus braços.

"Infinity times infinity

Infinito vezes infinito

Infinity times infinity times infinity

Infinito vezes infinito vezes infinito

Infinity times infinity times infinity times infinity

Infinito vezes infinito vezes infinito vezes infinito

Let there be light, let there be light, let me be right

Que se faça a luz, que se faça a luz, deixa-me viver."

No dia seguinte acordei com a ausência de Emma. Esfreguei meus olhos e vi um desenho ao meu lado, era um desenho meu dormindo. Sorri e sai da barracada com o desenho em mãos, bem a tempo de ver Emma voltando do mar, só de calcinha e sutiã, toda molhada, o que fez meu coração disparar.

Sentei em cima do lençol e Emma se aproximou, parando em pé um pouquinho longe de mim, para não me molhar.

— Bom dia, linda. Dormiu bem? — perguntou sorridente.

— Bem demais! E você ein? Que horas acordou para ter me desenhado?

— Ah, acordei bem cedo, quando o Sol estava nascendo e não resisti em te desenhar...

Sorri ao ouvir aquilo, peguei uma maçã e dei uma mordida.

— Adoro seus impulsos.

— Sabe o que eu pensei? — Emma sentou ao meu lado depois de pegar sua toalha e por em cima dos cabelos. — Que hoje, mais tarde, nós podemos ir passear pela cidade, comer em algum quiosque... O que acha?

Ela pegou a maçã da minha mão e deu uma mordida generosa, devolvendo-me em seguida.

— Por um acaso você consegue ter alguma ideia ruim? — ela riu da minha pergunta. — Mas olha, só aceito se nós formos comer camarão! Eu estou louca para comer camarão!

— Hmmm... Camarão é bom mesmo, então fechado. Mas agora vamos explorar mais a praia antes de irmos passear...

Terminamos de comer a maçã e lá fomos nós "brincarmos" como duas crianças pela praia novamente. Corremos na beira dela e Emma chutava a água em mim, molhando minha roupa. Caminhamos juntas até alguns rochedos ao sul da praia e ali ficamos sentadas nas pedras olhando para o mar durante bastante tempo, trocando beijos e carícias.

Eram umas quatro da tarde quando desmontamos nossa barraca, recolhemos nossas coisas e as enfiamos no fusca. Nos secamos, trocamos de roupa e fomos explorar a cidade.

Floresta Encantada era minúscula em relação à Storybrooke, mas ainda assim tinha o seu charme. Além de praias lindíssimas, a cidade era repleta de moradores hospitaleiros e simpáticos que te cumprimentavam em todos os lugares com sorrisos afáveis.

Passamos por várias lojinhas e Emma me comprou uma correntinha linda de cisne, pondo-a em meu pescoço e eu jurei que não a tiraria nunca mais.

No final da tarde fomos para um quiosque grande e movimentado. Nos entupimos de camarão e coca cola enquanto conversávamos e ríamos alto, chamando atenção das pessoas ao redor. Eu e Emma estávamos em estado agudo de felicidade, onde nada no mundo externo parecia ser capaz de nos atrapalhar.

Depois disso, fomos passear de mãos dadas no calçadão e logo avistamos um movimento grande na praia, havia música alta e conforme nos aproximamos, percebemos que se tratava de um luau. E pelo visto era uma festa livre, pois as pessoas iam chegando de todos os cantos, à vontade.

Resolvemos participar. A maioria das pessoas ali pareciam ter a mesma idade que nós. A música era alta e gostosa de dançar. Haviam mesas com várias garrafas de bebida e todo mundo parecia feliz, dançando sem parar.

Eu e Emma pegamos algumas bebidas e confesso que acabei me empolgando. Eu era fraca para bebidas, não estava acostumada a beber, mas mesmo assim me entupi de vodka e toda empolgada puxei Emma para dançar. Eu me remexia toda, feito uma louca, balançando e jogando os cabelos e acho que isso me foi prejudicial, pois a bebida subiu mais rápido para minha cabeça.

— Chega de beber, né? — Emma disse, tirando das minhas mãos um outro copo de bebida. — Acho que você já está bem "animada".

— Acha que eu vou passar mal? Pois saiba que eu nunca passei mal! — falei toda orgulhosa, pondo as mãos na cintura. — Não sou mulher de dar vexames, senhora grande artista.

Emma riu do meu jeito, balançando a cabeça.

— Eu imagino que não, minha leitora de mentes linda, mas a bebida é algo perigoso e que assume o controle de nós com facilidade. Só quero preservar seu bem estar.

— Tá legal, tá legal. Mas vamos voltar a dançar então, tá?

Agarrei sua mão e a puxei para pista. Emma ria muito de mim e da minha performance, mas parecia se divertir tanto quanto eu. Em dado momento, ela me disse estar muito apertada para fazer xixi e por isso foi até o mar, deixando-me num cantinho para esperá-la.

Fiquei parada olhando em sua direção, esperando que voltasse e nem me dei conta de uma lésbica bem estranha e masculina se aproximar de mim. Ela era bem alta e tinha uma aparência um pouco assustadora. Começou a falar várias coisas perto do meu ouvido, e eu só ria, porque não estava conseguindo lhe entender e a bebida me deixava ridiculamente abobalhada.

Emma voltou praticamente correndo e não parecia nada contente com o que via.

— Que está acontecendo aqui? — perguntou.

— Amor, que bom que você chegou... — falei meio tonta.

— Estava batendo um papo com a gata — a sapatão estranha disse.

— Com a gata? Essa gata tem namorada, caso você não tenha percebido — Emma trincou os dentes.

— E aonde tá essa namorada? Não vejo ninguém — ela debochou e eu alternava o olhar entre as duas, confusa com aquela conversa.

— Não vê ninguém? — Emma deu um sorrisinho — Vamos ver se você enxerga agora!

Emma acertou um soco certeiro no olho da sapatona, que caiu no chão. Gritei em desespero e de repente todas as pessoas vieram em nossa direção e uma confusão se formou. Corri para perto de Emma, puxando-a para longe da encrenca e começaram a gritar conosco, nos expulsando da festa.

— O que diabos te deu pra bater assim nela? — perguntei irritada, enquanto nos afastávamos — Ela não estava fazendo nada demais.

— Ah, não estava? — Emma perguntou brava, parando de caminhar. — Aquela escrota estava dando em cima de você e me debochando!

— E daí? E por isso você bateu nela? É assim que resolve as coisas? Batendo em todo mundo feito um animal? — gritei, sentindo-me muito nervosa e alterada, por causa do álcool. — Nós fomos expulsas da festa!

— Se quiser, você pode voltar. Aposto que eles te receberiam de volta com bom grado! — Emma me deu as costas e continuou andando, o que me deixou ainda mais irritada.

Corri e me coloquei em sua frente, empurrando-a com força pelos ombros.

— Sua imbecil! O que está insinuando? Que o meu interesse é a droga de uma festa? — dei socos em seus ombros e a empurrei com mais força, mas ela não reagiu.

"I don't quite know how to say how I feel

Eu não sei bem como dizer como me sinto

Those three words are said too much

Aquelas três palavras são ditas demais

They're not enough

Elas não são o suficiente."

Emma ficou parada, encarando-me, percebendo que a maior parte da minha raiva se devia por causa do álcool, e ao invés de ficar brava também, ela parecia agora calma e compreensiva, esperando que eu me acalmasse.

— Vai ficar parada me olhando? Não vai falar nada? Sua idiota! O que você pensa, ein? Por que você acha que eu estou aqui? Por que acha que aceitei viajar com você às escondidas?

— Não sei... — murmurou, respirando fundo — Não sei, Regina. Me diga. Por que você está aqui?

— Porque eu te amo, imbecil!