Notas iniciais
Oi, lindas! Tô bem feliz com o comentário de vocês, continuem assim :P Capítulo narrado pela Regina. Música do capítulo: Luz dos Olhos - Cássia Eller. Apreciem sem moderação. Beijão.

Estava muito atrasada, para variar um pouquinho. Por alguma razão que nem Eisten deveria saber, eu sempre me atrasava para a primeira aula, sendo que eu era uma das primeiras criaturas a chegar na faculdade de Storybrooke, que ficava na estrada principal e seu campus era composto por quatro enormes prédios.

Corri com meus livros nos braços e entrei no meio da aula de Psicanálise. Sentei-me no fundo, em uma das últimas fileiras porque já não havia mais lugar, o que era uma lástima. Sentei do lado de Belle, a única amiga que eu tinha naquele lugar.

— Perdi muita coisa? — perguntei em um susurro e ela sorriu para mim, balançando a cabeça.

— Professor só estava fazendo uma introdução sobre recalcamento. E aí? Como foi o encontro com a artista que conheceu na festa? Você nem me contou nada!

— Eu esqueci, cheguei em casa e mamãe já veio encher o meu saco. Depois fiquei dando uma estudada e acabei capotando... Foi maravilhoso!

— É? Foram na sorveteria mesmo? O que ela disse? — cochichávamos no meio da aula animadamente.

— Fomos e depois ela me levou para ver o pôr do Sol no cais — Belle arregalou os olhos.

— Não acredito! Que romântico! Vocês se beijaram?

— Claro que não, Belle! — falei meio constrangida — Nós mal nos conhecemos e eu nem sei se ela é lésbica. Não sei porque toda essa sua empolgação.

— Pela forma como você a descreveu, eu aposto que ela é lésbica sim e que ficou encantada por você, assim como você está por ela.

— Quem disse que estou encantada por ela? — perguntei alto demais, chamando atenção dos nossos colegas e do professor.

— Por um acaso estou interrompendo alguma coisa mais importante que a minha aula de Psicanálise, senhorita Mills? — naquele momento eu quis que um buraco se abrisse no chão para que eu pudesse entrar nele.

— Não, professor. Me desculpe — pedi constrangida e ele sorriu, retomando a aula e os olhares se voltaram para ele.

— Isso é tudo culpa sua, Belle — resmunguei de cara feia e ela riu.

[...]

No intervalo descemos para tomar um café na cantina e enquanto estávamos na fila, eu olhava distraidamente para fora da porta de vidro quando avistei um grupo de alunos pintando telas e meu coração acelerou, pois me lembrei de Emma, então sem me dar conta eu sai da fila, deixando-a ali e quando sai pela porta avistei uma loirinha de rabo de cavalo, usando óculos com armação grossa e preta e constatei que apesar de estar diferente, era Emma.

Esquecendo-me do café e sem pensar em mais nada fui caminhando na direção do grupo. Cada pessoa estava com sua tela presa em um cavalete e pintavam. Emma estava mais distante da maioria e olhava toda concentrada para sua tela. Estava uma gracinha usando o óculos!

"Ponho os meus olhos em você

Se você está

Dona dos meus olhos é você

Avião no ar

Dia pra esses olhos sem te ver

É como o chão do mar."

— Emma? — chamei, aproximando-me e ela se assustou ao me ver, arregalando os olhos.

— Regina?! — abriu um sorriso radiante e deixou sua paleta e o pincel de lado, haviam algumas gotas de tinta em suas mãos e seus antebraços. — O que faz aqui? — perguntou meio embasbacada.

— Eu estudo aqui também caso você tenha se esquecido — falei com bom humor e nós rimos. — Não pensei que fosse te encontrar aqui fora...

— Pintura ao ar livre! — disse com animação e então eu olhei para seu quadro.

— Emma! — surpreendi-me ao ver o que ela pintava: vários rostos se confundindo. — Que trabalho incrível... Uau! — fiquei sem palavras diante daquela imagem forte, chamativa.

— Você gostou? Mesmo? Está vendo aqui? — apontou um dos vários olhos que haviam na tela. — Aqui é um rosto e ali outro, eles estão se fundindo.

— Sim! Isso é... Não tenho palavras. Você tem muito talento.

Notei que Emma corou com meus elogios, baixando o olhar e dando-me um sorriso doce.

— E desde quando você usa óculos? — perguntei.

— Ah, é — Emma tirou os óculos, encarando-o em suas mãos — Eu sou um pouco ceguinha desde a infância. Tentei usar lentes, mas não gosto muito, então a única alternativa viável que sobrou foi essa... — colocou os óculos de volta, só que torto.

— Seu óculos — disse, erguendo minhas mãos e aproximando do seu rosto para arrumá-lo, deixando Emma tensa e paralisada diante de mim. Ajeitei-os delicadamente e encarei seus olhos verdes, que mesmo por trás das lentes grossas continuavam intensos. — Prontinho, senhora grande artista. Agora você me deixou ansiosa para conhecer seus outros trabalhos.

— Posso te mostrar depois das aulas. Qual seu último horário?

— Eu só tenho mais uma aula agora, às 10h40 estou saindo. E você?

— Estarei livre esse horário. Te encontro aqui... Ali — apontou toda nervosa para um banco a poucos metros de distância — Tá bom?

— Claro, Emma.

Fiquei esperando ansiosamente para aquele reencontro com Emma, tanto que nem prestei atenção na aula. Belle, que lá de dentro do prédio havia nos visto conversando, ficou enchendo minha paciência dizendo o quanto eu e Emma combinávamos e éramos "fofas" juntas. Inclusive ficou insistindo que eu dissesse o signo de Emma para que ela visse se éramos compatíveis... Esse era o tipo de amizade que eu tinha.

Quando a aula acabou, despedi-me de Belle e dos meus colegas e apressadamente fui até o banco que Emma havia dito. Sentei ali e fiquei vendo as pessoas irem e virem, alguns indo embora, outros trocando de prédio, carregando livros, comendo, conversando. O tempo parecia não passar e nada de Emma aparecer...

De repente uma rosa vermelha surgiu na minha frente e eu reconheci a mão branca e delicada que a segurava, inclusive essa mão estava manchada de tinta ainda.

— Espero que você goste de flores, não conversamos sobre botânica, mas presumi que você gostasse — Emma falou quase sussurrando perto do meu ouvido, o que me fez fechar os olhos, porque sua voz era ainda mais gostosa de ser ouvida assim.

— Eu amo rosas — sorri, segurando aquela rosa e Emma pulou como um moleque o banco ao invés de dar a volta. — Onde conseguiu? Não me diga que...

— Sim, roubei do jardim do seu Manoel — Manoel era o nome do jardineiro que cuidava de um belo jardim que tinha na entrada da faculdade. — Espero que esse seja nosso segredo, do contrário serei uma grande artista morta... — brincou, fazendo-me rir.

Notei que Emma carregava no colo uma pasta de desenhos.

— Aqui estão suas obras primas?

— Algumas delas...

Entregou-me a pasta, coloquei-a em meu colo e comecei a folhear, eram desenhos feito em grafite. Haviam animais, rostos de pessoas, paisagens, objetos dos mais variados. Fiquei encantada com seu traço delicado, com a forma como Emma se expressava desenhando. Era inegável seu talento.

O meu silêncio deixou Emma apreensiva, porque ela não parava de balançar suas pernas nuas. Reparei que ela usava apenas um short jeans desfiado e suas pernas branquissimas chamaram minha atenção, fazendo com que discretamente eu desviasse o olhar dos desenhos para elas sem que Emma notasse.

— Emma, seus desenhos são extraordinários! — falei, olhando para ela. — Eu nunca vi nada parecido. Eu não sou a maior entendedora de arte, mas já vi muitas obras de grandes pintores e eu vi a tela que você estava pintando... Você tem muito talento!

— Obrigada, significa muito vindo de você — murmurou. — Quando quiser conhecer meus quadros é só me dizer. O porão lá de casa é tipo o meu ateliê.

— Jura? Eu vou querer conhecer, vou cobrar essa visita, viu?

— É pra cobrar, Regina.

Ficamos sorrindo uma para outra e nossos olhares se prenderam quando um grupo com alguns rapazes e moças que eu desconhecia pararam na nossa frente e começaram a falar ofensas e provocações para Emma.

— E aí, esquisita? Quando você vai pintar o meu pau? — um deles disse, arrancando riso dos outros.

— Ela não gosta disso, Eric — uma das garotas respondeu.

— Tinha me esquecido, provavelmente deve estar pintando os peitos dessa aí — falou, referindo-se a mim, o que me deixou chocada e sem reação.

Emma tirou seu óculos, deixando-o sobre o banco e levantou quase num salto, tão rápido que me pegou de surpresa.

— O que você falou, seu babaca? — ela berrou, indo para cima dele, surpreendendo todo mundo. — Repete o que você disse, já que é tão macho.

— Emma! — levantei-me depressa e a agarrei pelos braços, mas ela estava com tanta raiva que se desprendeu facilmente de mim, empurrando o rapaz com força e lhe acertando um soco tão rápido que ninguém previu. — EMMA!

O rapaz caiu no chão e seus amigos o socorreram depressa, olhando aturdidos para Emma. As meninas também estavam assustadas.

— Vamos embora daqui — um dos amigos do tal do Eric disse.

— Você é estranha demais... — Eric murmurou, levantando-se com a mão na boca que sangrava — Sua sorte é que não bato em mulher, muito menos em loucos.

Por alguma razão aquele comentário pejorativo dele incomodou-me profundamente e Emma fez menção de ir atrás dele, mas eu a segurei novamente enquanto eles se afastavam e dessa vez ela não resistiu.

— Emma, você bateu nele — falei preocupada e quando ela virou o rosto para mim estava bem alterada.

— Claro, você ouviu o que ele disse? Estava te desrespeitando! Esse cara é um babaca, ele e os amigos. Desde que entrei na faculdade eles mexem comigo e com meu amigo Graham. São péssimas pessoas.

— Sim, eles são, mas você não precisava ter batido nele... — falei baixinho, em tom carinhoso, pegando a mão que ela havia usado para socá-lo e segurando entre as minhas. — Dói?

— Um pouquinho... — murmurou um pouco mais calma, mas ainda com uma carranca no rosto.

— Quer dizer que você bateu nele por que me desrespeitou? — perguntei tentando conter minha alegria em saber daquilo.

— Sim, quer dizer... Ele te desrespeitou... Perdi a cabeça. Sei que violência não resolve nada, é coisa primitiva, mas... — ficou toda sem jeito enquanto nos sentávamos novamente. — Não consegui me conter.

— Tudo bem. Também não sou adepta da violência, mas há casos que não temos o que fazer. Posso te perguntar algo?

Emma ficou me encarando meio receosa, como se já soubesse o que viria a seguir. Soltei sua mão e depois de longos instantes ela balançou a cabeça.

— Sim.

— Eu sei que aqueles caras são uns imbecis e que só falam bobagens, mas... O tal do Eric disse algo a seu respeito, e ele disse com convicção. É verdade?

— Que eu gosto de mulheres? — perguntou à queima roupa, constrangendo-me.

— É — falei meio hesitante. — Você... Gosta?

— Adoro! — respondeu com um sorriso enorme, mudando subitamente seu temperamento, agindo de forma tão estranha que me confundiu. — Adoro mulheres, elas são incríveis.

— Eu me refiro a... Acho que ele quis dizer num sentido mais...

— Sexual — completou, olhando-me fixamente e novamente senti-me constrangida. — Eu sei, e sim, eu gosto. Quer dizer... Eu nunca transei com uma mulher, mas eu me sinto atraída por elas. Na verdade nunca fiquei atraída especificamente por uma, porque eu sou estranha e normalmente não me sinto atraída por ninguém, mas... Sinto atração por mulheres, no geral.

A explicação rápida e efusiva de Emma deixou-me estranhamente nervosa. Saber que ela gostava de mulheres também era algo bom, e mexeu comigo de um jeito inexplicável. Saber também que ela nunca havia transado com uma soou quase como música para os meus ouvidos.

— Entendi — respondi algum tempo depois.

— Algum problema isso pra você? — parecia preocupada e então acabei rindo. — O que foi?

— Não há problema nenhum, Emma. Eu não sou uma pessoa preconceituosa e de qualquer forma, eu também gosto de mulheres — quase sussurrei a última frase.

— Você o quê? — falou em tom mais alto, perplexa e tive que rir de novo, pois eu estava muito nervosa e nós agíamos como duas loucas espantadas. — Desculpa, é que... Eu não pensei... Não esperava por isso, mas que bom. Isso é muito bom.

Ergui minhas sobrancelhas, cada vez mais surpresa.

— Muito bom?

— Quer dizer... Ser gay te faz menos preconceituosa, mais aberta ao mundo, mais compreensiva para ser psicóloga e coisa e tal. Espere aí! Você é gay? Lésbica? Porque disse que gosta de mulheres, mas também poderia gostar de meninos. Desculpe minha dedução precipitada, é que eu estou...

— Nervosa? — perguntei tentando controlar meu riso, porque era muito engraçado ver Emma toda sem jeito falando sem parar.

— É — admitiu, sem jeito — Um pouco.

— Eu tive algumas experiências desastrosas com rapazes, mas não gosto deles. Quero dizer, eu gosto deles, nada contra os rapazes, mas não sinto-me atraída por eles, nem fisicamente e nem romanticamente. Não me despertam nada.

Emma olhava-me com atenção, era um olhar tão atento e profundo que me senti mais analisada por ela do que pela minha psicóloga, o que era muito, muito estranho. Não que eu não gostasse do seu olhar, mas Emma era tão profunda que me intimidava, pois eu não passava de uma desajeitada e tímida universitária.

— Sei como é... Comigo é a mesma coisa. Já transou com quantas mulheres?

Olhei espantada para Emma e meu rosto ardeu tanto que eu sabia que estava corada.

— Desculpe perguntar assim, foi um pouco indelicado da minha parte. Deixe-me reformular a pergunta: Com quantas mulheres você teve um envolvimento profundo?

— Para ser sincera, com nenhuma — murmurei, constrangida.

— Nenhuma? — estava surpresa, mas não me olhou como se eu fosse uma aberração por causa disso. — Nunca... ?

— Nunca.

— E com homens? Quantos?

Olhei para os lados, muito constrangida com aquelas perguntas invasivas. Eu tinha bastante vergonha de expor minha sexualidade as pessoas, porque na época em que vivíamos era motivo de vergonha ter pouca experiência, ou nenhuma no meu caso.

— Emma... — falei sem graça.

— Tudo bem, pode me dizer, eu não vou te julgar por isso. A maioria das mulheres têm experiências heterossexuais antes de se descobrirem lésbicas, é normal.

— Eu nunca namorei um homem — disse.

— Hm... Que safadinha, então a Doutora Mills não é de namorar? — falou com malícia, brincando. Emma não havia entendido o que eu quis dizer. — Mas com quantos você já... Brincou?

— Nenhum — sussurrei.

— O quê? Não ouvi.

— Nenhum, Emma. Nunca dormi com nenhum homem, nem com nenhuma mulher. Com ninguém. Zero — falei meio impaciente, numa explosão — E sim, eu sei que isso é ridículo, que hoje em dia ninguém com vinte anos é mais virgem e...

— Eu tenho vinte anos e sou virgem também — ela disse suavemente, interrompendo-me, novamente me surpreendendo.

— Como? Você é... Virgem? — quase gaguejei, perplexa.

— Sou — sorria serenamente para mim — Você não é a única, e sinceramente não vejo isso como algo ridículo, nem como motivo de se sentir envergonhada. Sexo é algo natural que qualquer idiota pode praticar a qualquer momento, em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Não tem nada de grandioso em transar, por isso acho ridículo essa competição para ver quem transa mais.

— Eu... Concordo. Eu penso igual a você, Emma. Mas sempre fico com receio de expor esses pensamentos porque já fui bastante julgada pelas pessoas — expliquei. — Penso que como é algo que envolve o meu corpo, eu tenho o direito de escolher fazer isso quando eu bem entender, quando me sentir segura para isso, com alguém da minha confiança, que eu saiba que vai me respeitar.

Ela olhava-me com fascinação e eu nem me dava conta de quanto tempo havia passado desde que iniciamos aquela conversa íntima e reveladora.

— Para mim o sexo é como a arte. São idênticos. Sinônimos, eu diria. Sexo não, sexo é mecânico, sexo é instintivo, é animalesco. Refiro-me a fazer amor. Fazer amor é sinônimo de arte. Quando eu pego o lápis ou o pincel na mão... Quando olho para as folhas e telas em branco... Não é só a técnica que aprendi, não são só cores e traços. Quando eu desenho, quando pinto dou tudo de mim. É minha alma expressa naqueles desenhos e pinturas. Não é só uma paisagem, sou eu ali. São os meus sentimentos, o meu coração, a minha alma! — falava como uma verdadeira poeta romântica saída do século dezoito. — Para mim, fazer amor é igual. Um ato íntimo de entrega com outra pessoa, onde eu vou dar tudo de mim, onde vou expressar todos os meus sentimentos, por isso não há possibilidade de fazer amor com qualquer pessoa, sem mais nem menos. A outra pessoa precisa sentir o mesmo que eu, precisa querer expressar-se, querer dar tudo de si para mim.

Embasbacada, eu encarava Emma Swan com uma admiração e fascinação inexplicáveis. Eu não conseguia pensar em alguém que eu admirasse tanto quanto ela naquele instante. Mesmo as figuras mais intelectuais e importantes da história não me causaram o mesmo fascínio, talvez porque eu não os conhecesse pessoalmente, ou porque eu tinha a sensação de que Emma Swan era igual a eles: um gênio mal compreendido que marcaria o mundo.

— Falei besteira demais? — perguntou sem graça depois de notar a minha cara de boba.

— Não! Pelo contrário. Nunca ouvi nada assim antes. A sua ideia do sexo, a forma como defendeu essa ideia... Te imaginei defendendo uma tese de Doutorado em Oxford agora — falei em tom brincalhão, arrancando-lhe risos.

Logo mudamos de assunto e voltamos a devanear sobre várias ideias. Emma era socialista, detestava o capitalismo e se importava com questões sociais mais até do que minha irmã, que estudava Ciências Sociais. Fiquei impressionada com suas ideias e teorias e me imaginei morando no mundo ideal de Emma Swan. Um mundo sem miséria, sem pessoas se matando, todos se amando e se ajudando.

[...]

Depois de muita insistência, acabei cedendo e aceitando o convite para almoçar na casa de Emma. Chegamos inesperadamente e me surpreendi. Apesar de morar num subúrbio, um bairro bem diferente do meu, sua casa era grande e muito aconchegante. Fiquei encantada com as fotografias de Emma e os irmãos quando eram pequenas espalhadas pela sala de visita e também com alguns quadros espalhados pela casa, todos da autoria de Emma Swan.

Seus pais, Mary Margareth e David eram figuras excêntricas e muito divertidas. Sua mãe era um doce e um poço de gentileza, enchia meu prato de comida o tempo inteiro e David era um senhor exibicionista que adorava contar histórias de sua juventude quando começou trabalhar como policial e tinha muito orgulho de sua família. Pelo tempo que conversamos foi notório uma certa dificuldade para ele "entender" o dom de sua filha em pintar. David me pareceu um homem um pouco bronco, que não dava importância para artes, aquele tipo de pessoa que pensa que é uma grande perda de tempo, mas Emma conseguiu não transparecer sua chateação com isso, sempre sorridente.

Mary parecia mais sensível e tinha muito orgulho de Emma. David falou mais do filho mais velho, August e quando mencionou Neal foi para reclamar do filho, chamando de "palhaçada" a forma como ele levava a vida. Pouco falou de Emma, e como eu disse, pareceu realmente não entender a escolha dela por estudar artes, já a mãe era claramente uma entusiasta do mundo artítisco e amava exaltar o talento de Emma, que sorria constrangida com os elogios exagerados que só uma mãe era capaz de fazer.

Depois do almoço, Emma me mostrou seu quarto. Encantei-me, porque o lugar era exatamente o que eu esperava: a cara dela. Suas paredes dividiam-se em tons de azul e cinza, sua escrivaninha estava lotada de papéis esparramados com seus desenhos, seus lápis e grafites espalhados, havia uma estante de livros e com uma olha rápida vi desde romances policiais até as histórias de terror mais sórdidas, passando por Shakespeare, Oscar Wilde, Jane Austen, Stephen King, Charles Bukowski, Kafka e tantos outros autores fantásticos que me perdi em sua estante. Haviam várias fotos de grandes obras espalhadas por suas paredes e Emma tinha um grande painel na parede esquerda com retratos de figuras históricas importantes, como Platão, Eisten, Gandhi. Também havia pôsteres de bandas e cantores de rock, The Beatles, Kiss, Elvis Presley. A cama de Emma era grande e espaçosa, apesar de ser uma cama de solteiro e perto dela haviam dois pufs vermelhos de frente para uma televisão equipada com vídeo game de última geração.

— Até os artistas precisam de uma distração — foi o que ela me disse ao ver minha expressão de surpresa quando vi o vídeo game.

Emma me mostrou sua coleção de discos e CD's, seus livros, sua coleção de DVD's de filmes e séries e descobri que tínhamos ainda mais coisas em comum. Nossos gostos eram bem parecidos, gostávamos dos mesmos filmes, das mesmas bandas, mas na hora de analisarmos as coisas, tínhamos visões totalmente diferentes.

— Titanic é um bom filme, bem produzido e a história acaba nos emocionando, mas aquele tipo de amor não existe — eu defendia minha tese quando aleatoriamente escolhemos aquele filme para analisarmos.

— Como pode dizer isso? — sua incredulidade era tanta que parecia ofendida com minha opinião. — Claro que existe, Regina! Aquela relação é a expressão clara do amor.

— Bobagem. É lindo, é, mas não é real. Os exemplos da vida real são completamente diferentes, Emma. Olhe ao nosso redor os casais... Mesmo aqueles que se dizem profundamente apaixonados. As relações não são duradouras, ninguém tem coragem e paciência suficientes para investirem em uma relação à longo prazo, e aqueles que o fazem... Bom, os meus pais são casados há mais de vinte anos e eu não vejo esse tipo de amor neles.

— Eu não vou dizer que você está completamente errada — começou ela a argumentar com aquele seu olhar analítico — Nem vou julgar essa sua forma equivocada de pensar.

— Equivocada? — franzi o cenho.

— Seus pais podem não ter esse tipo de amor, certo. E sim, hoje em dia tudo está insano. As pessoas falam tanto da falta de amor, falam tanto que desejam viver um grande amor, igual ao do Jack e da Rose, mas ninguém tem coragem para isso. O fato das pessoas serem covardes e não investirem no amor não significa que ele não exista.

— Mas eu não disse que o amor não existe... Só disse que ele não é tão intenso, arrebatador e indestrutível como retratado nesses tipos de filmes.

— Como você pode saber? Já amou alguém? — nesse momento seu olhar para mim foi tão profundo que eu me sentia intimidada e mal podia pensar.

— Não — disse por fim — E deve ser por isso mesmo que eu não acredito — dei um sorrisinho cínico e Emma riu, estávamos sentadas sobre sua cama.

— O que eu faço com você, ein? — perguntou contrariada e rimos novamente.

Eu não respondi a sua pergunta, mas dentro de mim algumas ideias martelaram do que Emma poderia fazer comigo, e é claro que tais pensamentos me constrangeram ao ponto do meu rosto ruborizar diante dela. Eu não sabia o que acontecia, mas sempre que eu estava diante de Emma Swan pensamentos incomuns me ocorriam.