Tinha que ser assim
3 Capítulo 3
“Basta a mais leve fagulha de esperança para alimentar o amor.” Stendhal
Betty deixa escapar um leve e abafado suspiro e, finalmente, levanta para ele o belo rosto e os olhos negros, ainda com vestígios de lágrimas. Armando se sente como quem tem diante de si a visão do paraíso! A confissão inequívoca daquele olhar é um verdadeiro tratado de rendição àquele amor imenso que ela sempre sentira por ele e que novamente vinha à tona, pleno, intacto e finalmente correspondido! Nenhuma palavra, em língua nenhuma, poderia demonstrá-lo mais do que aquele olhar. Todavia, aquela boca adorada chega mesmo a pronunciar: “Pois bem, sim! Eu...” (*)
Os lábios dele calam os dela num beijo lento, doce, profundo, interminável...
A (sussurrando) – Betty, mi Betty! Vamos sair daqui, temos tanto que conversar!
E sem parar de se beijá-la ela a conduz para a porta, mas Betty muda de direção e começa a guiá-lo para o sofá da Presidência! Ao caírem no sofá ouve-se um barulho, mas eles nem se dão conta e continuam se beijando, não podem mais esperar. Só se ouve agora o som dos beijos, dos suspiros, da respiração entrecortada de ambos ...
De repente ouve-se o barulho do elevador que parou no andar e o som de passos no corredor. É o vigia do turno da madrugada, que acaba de chegar e está fazendo a ronda habitual. Viu luz acesa na sala da Presidência, e foi apagá-la supondo que a tinham esquecido acesa.
Betty corre e se esconde no hueco, Armando se adianta e despacha o vigia com uma desculpa qualquer. Em seguida saem da Ecomoda e Betty vai escondida no banco traseiro do carro dele. Armando para o carro na rua mais próxima e Betty passa para o banco da frente. Ele a puxa para si, senta-a no seu colo e a beija avidamente. Ela solta o corpo sobre o dele e corresponde àquele beijo tantas vezes sonhado, precisa sentir de novo o gosto daquela boca que ficou na sua memória desde que se deram o primeiro beijo “de verdade”. Armando abre e oferece-lhe por inteiro sua boca a ela. Betty invade a boca dele com a língua enquanto procura e aciona a trava do banco, que com o peso dos dois reclina de um só tranco. Armando está completamente incrédulo, ela não para de surpreende-lo, ele só pode estar sonhando... Por um instante se esquecem que estão em plena rua, no meio da noite e a ponto de perder completamente o controle da situação...
(*) Frase dita pelo personagem Madame de Tourvel ao Visconde de Valmont, no livro “Ligações Perigosas” e no filme homônimo, em uma das cenas mais marcantes deste romance que tem muuuuitas semelhanças com a estória de Armando e Betty ...
Armando e Betty entram no apartamento e continuam se devorando aos beijos ardentes, apaixonados, impacientes. Estão prestes a viver o momento supremo, o mais sonhado da vida deles. Ele a ergue nos braços e a leva para o quarto na penumbra.
Quando caem na cama, ouvem um grito. Ele caíram em cima de Marcela! Armando acende a luz e lá está ela, completamente bêbada. Depois que Armando desligou o celular na sua cara ela foi até o apartamento dele decidida a fazer o maior escândalo ...
A (louco de ódio) – Mas que droga Marcela! O que está fazendo aqui?!
M (sarcástica) – Ai, meu amor! Não seja cínico! Vim para cá, como você me pediu ...
Betty simplesmente não consegue acreditar no que está vendo e ouvindo. Mais uma vez Armando mentiu dizendo que tinha terminado tudo definitivamente com Marcela...
Sai correndo e vai em direção ao elevador, Armando corre atrás dela tentando, mais uma vez, explicar o inexplicável.
O elevador demora e Betty coloca as mãos nos ouvidos, não quer ouvir mais nada.
Chega Marcela disposta a destruir Betty por completo.
M (cada vez mais cínica e sarcástica) – O que você pensou, sua estúpida? Que ele ainda está morrendo de paixão por você?
A (descontrolado) – Cala a boca Marcela!
M – Como você continua ingênua! Não percebeu que Armando e eu combinamos que ele ia te trazer para cá? Fazia parte do nosso plano, ele queria se vingar de você e te dar uma lição por tê-lo entregue naquela reunião da diretoria...
A – Para de se humilhar e dizer mentiras, Marcela! A nossa relação acabou faz tempo, eu não te amo mais Marcela! Quando é que você vai entender isso e me deixar em paz?
M (rindo histericamente) – O quê pensou Beatriz? Que nós iríamos te perdoar por tudo o que fez para se tornar a Presidente da Ecomoda? Só porque voltou transformada, achou Armando iria se interessar por você de novo? Como você é burra!
Marcela agarra Armando e enquanto ele tenta se desvencilhar dela o elevador chega. Betty entra rápido e desce. Sai correndo pela rua deserta quase deserta e por sorte encontra um táxi na esquina mais próxima. Quer sair dali o mais rápido que pode, prefere pensar que está tendo um pesadelo e logo vai acordar...
Armando toma o elevador e vai até a rua, mas já não consegue alcançá-la.
Betty passa a noite em claro. O pesadelo parece interminável. Não, não pode ser, ela caiu de novo nas mentiras de Armando.Mais uma vez ela caiu na estória de que Armando iria terminar tudo com Marcela para ficar com ela. Mas é tudo real, ela não está sonhando. Ainda ecoam na sua mente as palavras sarcásticas e demolidoras de Marcela...
Naquela noite Betty toma aquela que acredita ser a decisão mais radical e acertada de sua vida: se vingar de Armando. Uma vingança completa, devastadora. Fazê-lo sofrer tudo o que ela sofreu e quem sabe um pouco mais. Vai tirar-lhe a Ecomoda e a Terramoda.
Enquanto isso, Armando e Marcela discutem violentamente. Para piorar ela passa mal por causa da bebedeira. Está praticamente em coma alcoólico, ele a leva a um pronto socorro, liga para Daniel que vá ficar com ela. Depois volta para casa, está além dos seus limites.
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