Notas iniciais
Esse capítulo é mais um prólogo da história, para explicar como Coringa encontra Alice e como o tonto conseguiu ter seu plano estragado por Batman e um policial. Os personagens principais do universo do Batman estão aí, com algumas criações minhas...

Coringa dirigia seu carro roubado a pleno vapor, sentindo os pneus cantarem ruidosamente a cada curva realizada. A silhueta da viatura policial – que há pouco estava colada ao carro preto de Coringa – diminuía num ritmo constante, parecendo agora um pequeno ponto luminoso por conta da sirene persistente, cada vez mais ao longe na estrada.

Coringa mudou a marcha com impaciência, pisando mais fundo no acelerador já sobrecarregado pelo peso de corpo, aumentando ainda mais a distância entre os dois veículos. A sirene – que antes emanava um sonoro estardalhaço agudo e nítido – agora não passava de um ruído baixo e de difícil identificação. Olhou pelo retrovisor a tempo de ver o carro policial uma última vez antes que ele desaparecesse completamente de vista.

“Capangas inúteis... – pensou, sentindo um ódio mortal se alargar em cada fibra de seu corpo debilitado – Ainda faço questão de matar um por um eu mesmo!”

Ele piscou algumas vezes, tentando recobrar o significado de sua visão enevoada. A dor profunda que faiscava em seu abdômen era agonizante! O ferimento queimava com uma intensidade muito além da suportável, e a sensação de sentir o próprio sangue abandonando o corpo cada vez mais rápido, fazia com que o buraco aberto em sua barriga latejasse com um vigor persistente. A cada novo segundo, as paisagens delineadas à sua volta pareciam ganhar um tom anormalmente escurecido e cada vez menos nítido... As formas davam lugar a confusos borrões, tornando-se indecifráveis aos seus olhos afetados em grande escala por aquela dor ofuscante.

A tradicional maquiagem borrada no rosto do Palhaço escondia o quanto sua pele estava verdadeiramente pálida e opaca.


Mais cedo naquele mesmo dia, Coringa tencionou perturbar a paz sempre tão frágil de Gotham, julgando interessante explodir o hospital mais elitista do município, aquele reservado apenas aos grandes figurões de uma cidade nacionalmente conhecida pelo seu enorme abismo social.

Interrompeu a programação televisiva em horário nobre com um pronunciamento incisivo, através de uma gravação editada e enviada por ele mesmo à emissora de maior audiência, comunicando parte de seus intuitos. Bastou sua imagem surgir nas telas – entrando sem consentimento nas casas de cidadãos já exaustos daquela rotina de impunidade e crimes –, que assim, mais uma vez, o agente do caos fez-se presente através do desespero alheio. Como um incêndio, que necessita de não mais do que uma fagulha para se alastrar de forma incontrolável.

O vídeo iniciou-se trêmulo e repleto de interferência, tendo por som o timbre gélido de uma risada estridente e igualmente doentia, e a imagem do Palhaço só apareceu após o término daquela gargalhada arrepiante, famosa a todos os munícipes, permitindo que sua voz saísse tão ameaçadora quanto a expressão alucinada em seu rosto:

“– Boa noite, Gotham City! – Lambeu a cicatriz num movimento impensado enquanto alargava o sorriso, já se deliciando ao imaginar o pânico que provocaria – Espero não atrapalhar isso que vocês chamam de... Rotina...? com este pequeno pronunciamento. Não pretendo tomar muito do seu tempo, até porque tempo é parte do problema que vocês terão a partir de agora. Como todos sabem, em algumas horas nossa querida cidade faz aniversário, e como prova da minha boa vontade e gratidão a tudo que essa cidade me trouxe, tenho uma boa ação programada pra comemorar esse marco tão... festivo! – sorriu, deliciado – À meia noite, os moradores de Gotham poderão se entreter com fogos de artifício no centro da cidade. Assumo que numa proporção muito maior de fogos do que de artifícios Coringa deu uma gargalhada exagerada e aproximou a câmera de seu rosto borrado pela habitual maquiagem, deixando apenas os amarelados dentes à mostra enquanto finalizava a mensagem – Se preparem para o show!”

Logo após a última frase, a imagem foi substituída por incômodos “chuviscos” barulhentos, e todas as atenções voltaram-se para a redação do jornal quando a emissora conseguiu retomar o controle da própria transmissão. Cada jornalista deixou cair a máscara da imparcialidade, a tensão do momento fazendo-o incapazes de driblar o quão pasmos e amedrontados ficaram.

A apresentadora do noticiário local, com voz trêmula, deu as tradicionais recomendações aos telespectadores a fim de tranquilizá-los, porém a preocupação escandalosamente tangível em sua feição ia contra tudo ao que falava, tornando aquele recado um tanto vazio.

Pedimos aos habitantes de Gotham que não se desesperem com a ameaça feita por Coringa! Sabemos que se trata de um criminoso de alta periculosidade, mas a polícia já está tomando providências para capturá-lo e trazer novamente a tranquilidade às ruas da cidade. – seus olhos estavam arregalados de medo, e seu timbre vacilava com constância – Recomendamos que todos evitem as estradas que passam pelo centro ou que levem a um trajeto próximo a ele e, se possível, permaneçam em casa para evitar qualquer surpresa desagradável, até que a situação se prove estar sob controle. O Comissário Gordon já está prestes a fazer um pronunciamento oficial, mas se dispôs a falar com um de nossos repórteres para dar melhores instruções sobre o que será feito.

A imagem foi substituída de imediato para outro repórter, que estava igualmente tenso, o canto de seus lábios tremendo em espasmos capazes de denunciar a pouca fé que depositava naquele sistema tão falho. Sua postura exageradamente ereta parecia pouco natural, e a câmera apenas evidenciava o suor frio no alto de sua testa.

O repórter disse, tentando acalmar a si mesmo:

– Obrigado, Annie. Aqui quem fala é Bryan O'Doyle, com notícias de última hora sobre a ameaça plantada por Coringa. Comissário, quais estão sendo as providências tomadas para a segurança dos habitantes de Gotham?

– Em primeiro lugar, a polícia de Gotham agradece às recomendações de evitar proximidade com o centro, realmente muito úteis para a nossa operação de impedir o sucesso dos planos de Coringa. – Jim Gordon agradeceu, e tornou sua voz o mais branda possível, fazendo o que estava ao seu alcance para evitar disseminar ainda mais o pânico entre os moradores – Além do que já foi prevenido, pedimos que a população confie no nosso trabalho e acima de tudo mantenha a calma. Estamos evacuando as ruas da cidade e, juntamente com Batman, caçaremos Coringa, e não descansaremos até que ele novamente ocupe uma cela em Arkham.

– Temos certeza de que os esforços da policia serão recompensados, e contamos com a colaboração de todos para o sucesso dessa operação! Obrigado, Comissário – o repórter inclinou a cabeça sem muita convicção de suas palavras, parecendo apenas cumprir um protocolo – Em breve, voltaremos com mais notícias sobre a captura de Coringa.


Mesmo com toda a tentativa da mídia de tentar tranquilizar os moradores, o pânico instantaneamente tomou conta das ruas e casas, como uma praga de rápida propagação, começando a gerar o caos que o Palhaço tanto prezava! — A primeira parte de seu plano estava finalmente cumprida.

As horas iam se arrastando e a tensão e incerteza se revezavam a tomar conta da cidade, até que quando o relógio marcou onze horas da noite, ninguém mais atrevia-se a trafegar pelas ruas – muito menos nas proximidades do alvo prometido –, somente vários carros policiais e o tão famoso Bat-Móvel circulavam apressados pelas avenidas interditadas e escurecidas pelo tradicional breu da noite, buscando incansavelmente por quaisquer sinais que pudessem revelar o intuito do psicopata, ou, se tivessem sorte, até o seu paradeiro.

Contudo, a brutal realidade era a de que ninguém sabia o que esperar daquela controversa figura. Coringa era o mais famoso e temido vilão do país, além de ser extremamente imprevisível. Todos sabiam que ele não seguia planos, e muito menos deixava-se barganhar como a maioria dos bandidos, o que dificultava – e muito – uma tentativa de prender o psicopata, já que ninguém sabia ao certo o que ele realmente queria com tudo aquilo. Suas atitudes estavam longe de serem negociáveis e entendíveis, e sua perspicácia insana estava muito além da mente limitada daqueles policiais, tão despreparados no quesito de medir forças com aquele criminoso em especial! Quando finalmente os ponteiros dos minutos e horas coincidiram no número doze, a preocupação disseminou-se sobre qualquer ser pensante, atacando mais mortalmente do que a suposta bomba que servira de ameaça. Reinou, então, um silêncio fúnebre na cidade, que apenas aguardava de forma resignada a catástrofe inevitável. E foi como se, por um instante, o ponteiro dos segundos se recusasse a correr.

Porém, nada aconteceu... Os segundos, os minutos, as horas continuaram passando e ninguém soube explicar aquela bonança... Todos ainda esperavam pelo pior, temendo a estranha calmaria que instalou-se na famosa Gotham City: famosa por seu alto índice de criminalidade, por grandes falcatruas, famosa pelo Cavaleiro das Trevas – que no momento era a melhor esperança de que a cidade dispunha. Famosa por seu lixo.

Tudo ainda parecia conspirar para fazer crescer o temor da população. O perigo é sempre maior quando a calmaria comanda, pois ela traz consigo a previsão de um desastre de proporções calamitosas, e isso foi capaz de mover ainda mais o medo das pessoas. Todos estavam em suas casas com a TV sintonizada no noticiário local, esperando por alertas da destruição que viria junto com os tão prometidos “fogos de artifício”.

Os ponteiros do relógio continuavam seu trajeto pelos números, impassíveis a toda aquela confusão instalada, pouco se importando com a aflição de quem os observava incessantemente. Até que por volta da uma e cinquenta da manhã, tudo parecia levemente mais calmo... Todos começaram a acreditar que o terrorismo incutido não passava de mais uma piada sem graça vinda do Palhaço apenas para fazer reinar o pânico, e até mesmo a mídia já cogitava tal hipótese. Assim, pouco a pouco, as pessoas foram esquecendo-se da ameaça do psicopata e deixando de lado seu pronunciamento, e a rotina noturna foi voltando ao normal, na medida do possível, embora adormecer ainda pudesse se mostrar um infortúnio aos que se aventuraram tentando.


Gordon chamou Batman para conversar, perfeitamente convencido de que estavam perdendo um precioso tempo com o falso alarde do psicopata.

– Acho que já podemos parar de procurar por esse Palhaço... – disse, parecendo cansado daquela busca em plena madrugada que não os levava a lugar algum – É evidente que nada vai acontecer hoje!

Batman, como sempre, respondeu com meias palavras, falando com uma rouquidão exagerada, numa tentativa evidente de disfarçar a voz:

– Vou continuar procurando.

– Mas isso é loucura! Não podemos desviar toda a polícia por causa do trote de um maluco que se veste de palhaço... – tentou convencê-lo, parecendo definhar ante aquele antro de sandices que era a cidade de Gotham.

– Voltem para a delegacia, eu cuido do Coringa – Batman decretou, teimosamente.

Gordon limitou-se a suspirar em tom reprovador, porém não ousou estender a discussão. Ao invés disso, adiantou-se em dispensar seu pessoal daquela inútil investigação. Um jovem policial – Willy – novato no ramo, e ansioso em provar seu valor, insistiu em acompanhar Batman naquela busca com poucas chances de sucesso, e ficou evidente que o Morcego não gostou nem um pouco da ideia.

– Nada disso, moleque, eu trabalho sozinho! – rosnou, e sua brilhante capa negra pareceu reluzir ainda mais, em concordância.

Willy, que era novo na cidade, tinha uma feição assimétrica por conta de um dos olhos, que se mantinha relativamente mais fechado em relação ao outro, e seu forte sotaque texano dificultada o entendimento de suas rápidas e afobadas palavras. Dirigindo-se a Batman com um ar curioso, perguntou:

– Cara, você tem câncer na garganta?!

O Cavaleiro das Trevas apenas demonstrou desentendimento nos poucos traços à mostra de seu rosto, não entendendo uma única palavra da rápida e confusa pronúncia de Willy, para a própria sorte do policial.

Gordon interveio rapidamente.

– Por favor, Batman, deixe o policial te acompanhar! Precisamos de algum informante da polícia nessa busca pra relatar qualquer novidade! – Gordon fez uma pausa por um minuto, e se aproximou de Batman, falando num sussurro somente para que o Morcego fosse capaz de ouvir: – E nós não o aguentamos mais na delegacia! — confessou, quase como se implorasse.

O Cavaleiro das Trevas já iniciava um grunhido de protesto, mas os policiais aproveitaram a deixa e já estavam voltando para o distrito, parecendo radiantes por não levarem o policial novato junto – técnica evasiva aprendida pelo convívio com o próprio Homem Morcego. Gordon não esperou pela resposta de Batman, e tratou de se juntar ao seu pessoal que já se dispersava.

– Ok, Willy... – Batman suspirou, derrotado.

– Os amigos me chamam de Will! – o policial o interrompeu, parecendo quase esperançoso.

– Tudo bem, Willy. Como eu ia dizendo, você só está aqui para manter a polícia informada. Se eu simplesmente achar que você vai me atrapalhar, eu não vou me importar em quebrar minha única regra. Então sugiro que mantenha os dois olhos bem abertos e fique fora do meu caminho! — avisou, com a mesma cortesia que ofereceria ao vilão responsável por tornar a cidade um completo caos naquela noite nublada.

A regra que para Batman era inviolável era somente uma – nunca matar. Nada o segurava além daquela máxima. Qualquer outra forma de violência era permitida, tudo em prol de algo que o vigilante acreditava ser o bem maior, acreditando que somente assim conseguiria obter sucesso em seus interrogatórios e grandes feitos pela cidade. O que explicava a máscara que usava; ela servia mais para protegê-lo das leis que quebrava do que de fato dos criminosos que queriam a sua cabeça exposta numa bandeja.

Os dois continuaram fazendo a ronda, enquanto o policial falava um amontoado de estupidez – da qual não dava para entender quase nada –, mas Batman não prestava a menor atenção às tagarelices de seu parceiro indesejado, focando-se apenas num único intuito.

Com a polícia fora das ruas, a paz retornou completamente à cidade. Reinou uma falsa sensação de normalidade, como se o problema já houvesse sido resolvido sem nem ao menos ser desdobrado, e algumas pessoas até saíram de suas casas, contrariando as recomendações feitas anteriormente, por acreditarem que o verdadeiro perigo havia passado.

Sem sequer imaginarem que era exatamente isso que Coringa almejava. Restabelecer a paz para poder gerar novamente o caos, que seria inimaginavelmente superior depois que as pessoas se enganassem com a falsa esperança de que tudo estava bem, novamente nos conformes de suas rotinas.

E assim foi.

Passou-se uma nova hora quando Batman já estava quase desistindo de sua caça, no limiar de sua tolerância, até que o policial finalmente fez um comentário que servisse, enfim útil para a investigação estagnada:

– Olha só aquele maluco falando no Walkie Tolkie... – riu, um pouco incrédulo com a cena – Esse é o tipo de aparelho que até o meu avô chamaria de ultrapassado! Quem usa esse tipo de ferramenta hoje em dia, ainda mais no tardar da hora? — questionou mais como uma forma de zombaria do que de fato estranhando a inusitada visão.

Batman fitou o homem apontado pelo policial, aquele parcialmente encoberto pelas penumbras que o vestiam, e logo suspeitou da cena por puro instinto, como qualquer pessoa minimamente normal... Aquele olhar preocupado de estar sendo vigiado – típico de criminosos amadores –, o cuidado em sussurrar rente ao aparelho, esgueirando-se pelas sombras e becos, e finalmente o terror no rosto ao ver o Morcego bem diante de si, como uma aparição assombrada.

Tal reação foi a confirmação que Batman necessitava para perceber que algo parecia errado naquelas redondezas e, mais ainda, naquele homem de olhar furtivo. O Morcego não perdeu tempo e já fez incidir sobre o estranho à sua frente seu interrogatório, suspendendo o homem a vários centímetros do chão ao segurá-lo pela gola da camisa, e quase enforcá-lo com esse brutal gesto. Não podia estar certo se havia de fato um envolvimento dele com Coringa, mas estava disposto a arriscar traçar esse rumo em seu palpite, mesmo que seu suspeito não passasse de um inocente excêntrico.

– Cadê o Palhaço? – grunhiu, impaciente pelo tempo que perdeu até aquele momento em sua busca.

C-como? – perguntou, ofegante, sentindo o ar abandonar seus pulmões com uma rapidez assustadora.

Willy decidiu agir também, ansioso por provar seu valor.

– Fala logo, seu merdinha! – o policial cerrou os punhos, numa coragem que visivelmente lhe faltava – Não é porque o Batman é um covarde que se esconde atrás de uma máscara, que você pode se aproveitar da nobreza dele.

– Some daqui! – Batman rosnou irritado para o policial, sem desviar os olhos do rosto amedrontado do suposto capanga de Coringa por um segundo sequer – Vá avisar a polícia que finalmente encontramos algo.

O policial saiu resmungando, do mesmo modo infantil que tanto fazia questão de esbanjar em suas estranhas reações.

– A gente tenta defender e ainda leva patada... – fungou contrariado, embora acatasse a ordem e já se afastasse.

Quando Willy enfim saiu de vista, ainda balbuciando palavras sem sentido, o Cavaleiro das Trevas apertou ainda mais o pescoço do homem, fazendo-o tossir pelo ar que agora se escasseava em seus pulmões.

– Enfim sós – jogou-o contra a parede, provocando um baque surdo – Começa a falar! O que Coringa pretende?

O capanga levantou-se com dificuldade, sentindo um líquido quente e espesso percorrer a parte de trás de sua cabeça e descer até a nuca num filete denso. Sua caixa craniana inteira latejava de dor por conta do baque. Sentiu que podia desmaiar, mas ainda estava consciente quando contou o que Coringa pretendia fazer após novas ameaças e intolerâncias do Morcego.

O interrogatório de Batman durou cerca de cinco minutos até que conseguisse todas as informações que queria, e nesse meio tempo conseguiu descobrir as intenções do Palhaço e o local da explosão. Ele tinha pouco menos de dez minutos para chegar ao afamado Hospital de Gotham e impedir que o Palhaço detonasse os “fogos de artifício”. A polícia também estava a caminho, fora alarmada por Willy que, por mais irritante que tenha sido, acabou se provando menos inútil do que parecera...

Quando chegou ao local ameaçado, logo avistou Coringa com o dispositivo nas mãos e um sorriso ameaçador no rosto, pronto para detoná-lo ao menor movimento de seu polegar.

– Ah, Batsy, já não era sem tempo! – sorriu ainda mais fartamente ao ver o Morcego ali – Pensei que teria de começar a festinha sem você... Que tal antecipar o fim de ano com alguns fogos de artifício? – gargalhou.

– O que você pretende com tudo isso? – tentou ganhar tempo, aproximando-se devagar do Palhaço, evitando movimentos bruscos que incitassem a loucura do homem de terno roxo.

– Só quero dar um pouquinho de luz a essa cidade tão negra! – simulou inocência na voz, como se o tom acusativo de Batman fosse de uma ofensa grave.

Nesse instante, a sirene do carro policial soou alta, alarmando a chegada da polícia no local da explosão e rasgando a escuridão pelos pontos que iluminava ao longo de seu trajeto. Coringa pareceu realmente surpreso, porém em nada temeroso.

– Parece que minhas rosquinhas também ficaram sabendo... Isso é uma festa particular! Já que vocês estão aqui de penetras, vou tornar a coisa mais interessante. – E dizendo isso, Coringa programou a bomba do hospital para explodir em dez minutos ao invés de detoná-la pessoalmente, e como uma forma de ratificar sua nova posição, destruiu o dispositivo, sem se desfazer do seu sorriso irritante – Agora vocês podem se divertir procurando a bomba e tentando desarmá-la! — gargalhou sonoramente, adorando ver o desespero em tantos rostos nitidamente despreparados que ainda faziam questão de medir forças com ele, justamente ele, aquele que anunciava o caos como se fosse o seu pretensioso Mestre.

– Vão atrás dele, eu acho a bomba! – Batman disse com pressa, entre rosnados.

O Morcego mal havia terminado de falar e já estava entrando no prédio, que explodiria em poucos minutos caso não encontrasse logo a maldita bomba e a desarmasse naquele período desfavorável, que praticamente já indicava um espetacular fracasso.

Willy ia segui-lo, mas hesitou ante uma oportunidade de parar o Palhaço e, sem pensar, mirou na perna de Coringa, porém o projétil acabou fincando-se no abdômen do fugitivo. Coringa cambaleou ao sentir a bala perfurando sua carne, mas mesmo assim ainda encontrou forças para entrar no carro e sair em disparada. Logo a polícia começou a segui-lo.

E, desta forma, pela primeira vez o Palhaço fracassou em suas ilicitudes sempre tão elaboradas. Pelas mãos do policial mais idiota de todos.


Coringa conseguiu despistar a polícia, mas, para o seu profundo desagrado, não tinha a mínima noção de onde se encontrava, sabia apenas estar afastado o bastante da cidade. Sem conseguir mais dirigir por causa da dor do ferimento e da escuridão que se firmava cada vez mais irredutível à sua volta, ele parou o carro e começou a caminhar lentamente em direção a uma simples cabana que havia ali perto, o único abrigo distante da cidade que foi capaz de encontrar.

Cada passo se tornava mais difícil – as fisgadas dolorosas e insistentes no local do tiro tornavam agonizantes até mesmo os mais insignificantes movimentos de seus músculos –, mas ele ainda tinha uma última coisa a fazer antes de cogitar desmaiar. Segurando sua arma e ofegando cada vez mais, seriamente lesionado com a perda de sangue, preparou-se para ameaçar os possíveis moradores do local. Precisaria de alguém que cuidasse do seu ferimento até que pudesse voltar para Gotham e resolver suas novas pendências.

Contudo, na metade do caminho, dominado pela desatenção de seus desfocados olhos, Coringa tropeçou numa sobressalente e pontuda pedra e caiu, agonizando com a dor, e sem conseguir mais resistir à ela, desmaiou ali mesmo, a apenas mais alguns passos da cabana, agora indiferente ao próprio destino que lhe fora reservado.

Notas finais
Espero que gostem! *-* E não custa nada comentar, né?? =)