Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
15 Como Tirar O Senso De Humor De Um Palhaço!
Notas iniciais
– Mas hein? – Alice enrugou inquisidoramente a testa, olhando em dúvida para o policial e reparando de soslaio na viatura prostrada em frente à sua casa.
– A senhorita deve esclarecer os pormenores de seu envolvimento com Coringa para a polícia, ou acreditou que sairia impune das consequências de ser cúmplice de um criminoso? – a impaciência era clara em seu rosto duro, e a voz soou como pura acusação.
A hippie deu um longo e contagiante bocejo, esfregando os olhos com as mãos numa tentativa de espantar o sono e desembaçar a visão.
– Já disse que não sabia da existência do Palhaço...
– Isso a senhorita terá que explicar na delegacia – anunciou, firme.
Alice reparou bem no homem à sua frente, analisando demoradamente cada traço de seu rosto exímio e mal humorado. O policial devia ter seus cinquenta e poucos anos, e parecia muito experiente na profissão. Sua feição era marcada por leves rugas no canto dos olhos, que juntamente com a determinação da sua postura, só lhe davam um aspecto mais ameaçador.
– Ok – começou a fechar a porta –, eu passo lá mais tarde.
Smith colocou o pé entre o batente e a porta, impedindo que ela se fechasse completamente ao deixar uma pequena fresta aberta, suficiente para ver um pedaço irritado do rosto da hippie transbordar a insatisfação que sentia.
– Nada disso – disse com prazer em meio a um sorriso quase macabro – A senhorita vai me acompanhar agora!
O rosto dele era todo sombrio, como se aquele homem já tivesse visto e vivido de tudo, nada parecia abalar a força de muralha que exalava. Era extremamente alto, o que incomodou um pouco Alice, pois nem se ficasse na ponta dos pés conseguiria encará-lo diretamente nos olhos. Sua cor bronzeada pelos anos de trabalho ao ar livre contrastava abertamente com a barba e os cabelos relativamente grisalhos.
Suspirou, abrindo novamente a porta e encarando o homem da melhor maneira que a diferença de altura permitiu.
– Posso pelo menos comer alguma coisa e tomar um banho?
– Não, estou com pressa. Essas coisas podem esperar.
O estômago de Alice deu um sonoro ronco, como se revidasse com voracidade aquele comentário, reclamando intensa e avidamente pela falta de alimento. A hippie arqueou uma sobrancelha, dizendo:
– Vai com calma, Papa Léguas! Como você deve ter percebido eu acabei de acordar e não como nada há horas, então não, isso não pode esperar, já você sim!
Contrariado e visivelmente acostumado a dar a última palavra, o homem simplesmente ordenou:
– Seja rápida então!
– Com certeza, senhor policial! – ofereceu-lhe uma expressão angelical e casta – Eu jamais deixaria uma autoridade de tamanha importância esperando por mim.
A hippie notou satisfeita o peito do homem fardado inchar, deixando claro que o ego de Smith inflou-se na mesma hora com aquele simples comentário. Ele nem imaginava que Alice estava, na verdade, zombando de sua autoridade. Ela continuou:
– Eu até te convidaria para entrar e comer alguma coisa, mas as minhas rosquinhas acabaram...
Fechou a porta com tudo, rindo baixinho da cara do policial. Era melhor que ele entrasse na viatura para esperar por ela, porque ficar ali em pé cansaria demais! Ela odiava obedecer ordens prepotentes, por isso demoraria o tempo que bem entendesse, por pura pirraça!
Primeiro abriu a geladeira e ficou analisando seu conteúdo por um bom tempo, até que seu estômago reclamou novamente e ela decidiu que não valia a pena demorar com o lanche, não estando faminta daquele jeito. Compensaria no banho...
Após dedicar longos minutos desnecessários à sua merecida refeição e sentir que finalmente havia preenchido o “rombo” que havia em seu estômago, resolveu cumprir a promessa que tinha feito aos seus cachorros quando chegou em casa. Aquela era uma hora perfeita para dar atenção à labradora e suas miniaturas. Sentou-se no chão e começou a brincar com todos eles, que se amontoaram desordenadamente em uma roda à sua volta, competindo entre eles por uma maior proximidade com a dona.
Começou a cantar alegremente enquanto acariciava seus belos filhotes e Capitu, sem pressa alguma. Os agudos desafinados de sua voz se propagavam em um timbre tosco pela sala.
– Um belo dia depois do expediente, quando eu botava no cabide o meu terno, tive um mal súbito, morri de repente. Indo parar nas profundezas do inferno, passei no céu mas resolveram me barrar! Burocracia lá no céu é o que há! É que eu morri sem preencher regulamento que dá direito a residir no firmamento. Levei cartão, ganhei status de banido, pois me levaram direto pro purgatório, e um anjo disse: faça um último pedido! Lhe perguntei: onde é que fica o mictório?[...]
O som de batidas incessantes e irregulares na porta preencheu a sala, fazendo parecer que a qualquer momento a madeira cederia, e interrompendo a cantoria animada e nada promissora de Alice. Ela pôde ouvir a voz impaciente do policial lá fora, que percebeu que a hippie caçoava de sua espera:
– O que pensa que está fazendo?! Saia já daí, ou eu arrombo esta maldita porta! – rosnou.
– Fique à vontade, policial – gritou alegremente de volta – Mas eu sugiro que o senhor tenha um mandato, para seu próprio bem! – Alice riu ao ouvir o gemido de frustração de Smith – Eu já vou sair, não se preocupe!
“Não mesmo!” – pensou – “Você ainda vai esperar por um bom tempo, Rosquinha!”
Ela ligou o chuveiro, regulando a água para uma temperatura entre morna e fria. Entrou totalmente embaixo da forte cascata, sentindo o líquido percorrer seus longos cabelos e depois tocar a pele nua de suas costas. Por mais que o banho sempre fosse uma hora relaxante, Alice não pôde deixar de pensar que sentia uma enorme falta da banheira da Mansão Wayne...
Ensaboou a pele levemente arrepiada o mais lentamente possível, imaginando o ódio que o policial devia estar sentindo de sua ousadia, e rindo ao pensar na cara de impotência que provavelmente estava franzindo aquele rosto quase acobreado.
– Mexeu com a pessoa errada, Guarda Belo! Tinha que ser funcionário do Bigodudo mesmo...
Fechou os olhos e aproveitou todas as sensações que o banho proporcionava. Adorava sentir a água caindo contra sua pele e roubar o calor de seu corpo, provocando arrepios pela diferença de temperatura. Passou shampoo nos cabelos com uma lentidão programada para ser exagerada, sempre cantarolando, sem qualquer vontade de ir depor na delegacia.
Smith certamente podia esperar até que estivesse pronta! Até mesmo porque as autoridades de Gotham eram tão despreparadas para o tipo raro de bandidos que abrigava, que tanto a sua presença quanto ausência não fazia a menor diferença...
A inutilidade deles era comprovada pela existência de Batman. A incompetência dos guardinhas era tanta, que era preciso que um cidadão comum tivesse uma vida dupla para realmente proteger a cidade dos criminosos mais perigosos, lutando contra o crime de forma ilegal.
– E os imprestáveis ainda perdem tempo correndo atrás de gente inocente, ao invés de buscar os verdadeiros bandidos... – completou seu pensamento como um desabafo – Pobre de mim... tão indefesa! – riu.
Depois de fazer um longo e demorado tratamento nos cabelos, decidiu que já era hora de terminar logo com aquilo e ir de uma vez para a delegacia contar o pouco que sabia sobre o Palhaço. Sem resistir, demorou mais alguns minutos para trocar de roupa e secar o cabelo – coisa que nunca fazia, mas as circunstâncias pediam...
Finalmente, ao terminar de se aprontar, abriu a porta de sua casa e olhou inocente para Smith, que já estava dentro da viatura segurando o volante com força desnecessária e uma expressão perigosa de fúria.
– Demorei? – perguntou, cínica, ao se aproximar do veículo.
– Entra logo no carro, se não quiser ir à delegacia de algemas!
– Tá bom, parei! – disse em rendição e finalmente entrou na viatura, ainda com um sorriso triunfante e de deboche.
– Você me garantiu que não ia demorar – acusou, com ódio.
– Ora, quem o senhor pensa que é para colocar a minha palavra em dúvida? – fingiu estar indignada – Eu disse que não deixaria uma autoridade importante esperando, mas aqui não tem ninguém que se encaixe nessa descrição! – defendeu-se, fazendo um esforço extraordinário para não cair na gargalhada com a situação.
– Eu vou ter uma enorme satisfação em prendê-la pessoalmente...
– Antes vai ter que encontrar provas, Sherlock! E não vai encontrar nenhuma, porque eu sou inocente!
Ele arrancou o automóvel, fazendo Alice quase cair do banco com a velocidade repentina, como se quisesse recuperar o tempo perdido que ficou esperando pela hippie. Que piada, um policial desrespeitando os limites de velocidade...
– Ei, cuidado! Tem uma dama no carro! – reclamou, retomando o equilíbrio perdido.
O homem riu sem humor nenhum, aproveitando a chance para tentar humilhar a hippie.
– De dama você não tem nada, Alice!
– Mas eu estava falando de você, não de mim. E tem mais uma coisa, seu guarda, não te dei liberdade para me chamar pelo primeiro nome! Pra você é senhorita Romanov!
– Deveria tomar mais cuidado com o que diz, senhorita Romanov!– destacou o tratamento formal com escárnio – Está bem encrencada com a polícia pelo que eu sei, e de nada irá ajudá-la ainda enfrentar uma acusação por desacato!
– Não me lembro de pedir seus conselhos, e muito menos de demonstrar interesse pela sua opinião. – replicou com irritação. Já estava farta de toda aquela confusão que parecia arrastá-la cada vez mais para o olho de um furacão – Eu sou inocente e vou provar.
– Você pode até enganar os outros policiais com seu discurso, mas a mim não. E eu farei o que estiver ao meu alcance para prender qualquer pessoa envolvida com o Coringa. – olhou-a de soslaio, firmando em seu rosto uma expressão um tanto ferida.
Alice até chegou a sentir pena pelo modo com que o homem falou aquilo, e olhou bem para seu rosto, mantendo-se um tempo em silêncio. Ele reparou no olhar inquisidor da hippie, parecendo desconfortável.
– O que o Coringa fez pra você? – Alice finalmente perguntou, de um modo quase gentil.
– Nada que valha a pena lembrar – esquivou-se, parecendo cansado.
– Não sei o que aconteceu pra te deixar assim, mas eu garanto que quando cuidei do Palhaço, realmente não sabia quem ele era...
– Veremos! – respondeu, com hostilidade, retomando a postura rígida.
Nada do que Alice dissesse ou fizesse naquele momento poderia mudar a opinião de Smith a respeito de sua culpa, então julgou que o mais sensato seria parar de falar, antes que se complicasse ainda mais. Percorreram os últimos quilômetros totalmente em silêncio, que só foi quebrado quando Smith freou o carro policial em frente à delegacia, olhou para Alice e disse:
– Vamos. Eles já estão esperando há muito tempo – disse, azedo.
Alice não pode deixar de sorrir com a alfinetada que o policial tentou lhe dar.
Saiu da viatura e foi em direção ao prédio, respirando fundo ao pensar que teria de aguentar um interrogatório agressivo e injusto, pois pelo jeito todas as evidências estavam contra ela, querendo derrubá-la e destruir o que restou de sua credibilidade... Ninguém parecia disposto a acreditar em sua versão, talvez porque até mesmo Alice parecia vacilar em sua verdade.
Os funcionários olhavam com hostilidade para a mulher conforme ela caminhava pela delegacia, mas a hippie sorria simpaticamente a todos e distribuía cumprimentos, como se fossem velhos conhecidos. Smith andava atrás dela, conduzindo-a para a sala certa com a mão encostando levemente em suas costas.
Quando chegaram ao local do interrogatório, Smith a empurrou para dentro do recinto, com uma força completamente dispensável, fazendo a hippie tropeçar em seus próprios pés.
– Quanta delicadeza... – resmungou. "Ogro, mal-amado!"
– Aqui está ela, Comissário – o policial exibia um sorriso triunfante, como se o seu humor azedo simplesmente se adoçasse com a perspectiva de se livrar da companhia da hippie, e ainda mais por deixá-la na sala de seu superior, à mercê de suas perguntas.
O Comissário analisava uma enorme pilha de papéis que estava metodicamente posicionada no centro de sua mesa, e imediatamente ao ouvir a voz do homem, levantou os olhos em sua direção, com uma expressão impenetrável.
– Pensei que não o veria hoje, Smith – Gordon disse em tom de reprovação, largando a atenção dos papéis que antes analisava com tanta minúcia.
– Sinto muito. A senhorita Romanov me atrasou – olhou feio para a hippie, que retrucou:
– Oh, mil perdões! – Alice disse, zombando – Desculpe se o fiz chegar depois que as rosquinhas já esfriaram, senhor policial!
Gordon saiu de trás da mesa para fechar a porta, olhando Alice com reprovação e impedindo que Smith rebatesse, ao trancá-lo do lado de fora, furioso. Retornou a sentar-se em sua cadeira, convidando Alice a fazer o mesmo com o assento que estava à frente de sua mesa.
– Finalmente poderemos esclarecer os fatos – disse, com uma satisfação além do normal. Seu farto bigode adornava um sorriso misterioso, que incomodou Alice por um momento.
– Eu não tenho nada a acrescentar além do que já falei.
– Isso cabe a mim decidir.
“Uuuuui, olha só como eu sou mau...” – Alice pensou, revirando os olhos por um momento.
Gordon esperou para ver se a hippie faria algum comentário, mas como ela permaneceu calada, encarando-o com feições tediosas, ele deu início às perguntas que tanto queria preencher com respostas.
– Há quanto tempo você convive com Coringa? – apoiou os antebraços em sua mesa e inclinou-se para frente, encarando Alice com intensidade.
– Somente pelo tempo que ele ficou na minha casa.
– Que seria...? – ele a instigou para que continuasse falando.
– Mais ou menos duas semanas e meia ou três... – disse, sem saber ao certo calcular o tempo corrido.
O Comissário fez anotações rápidas, mas Alice não foi capaz de ver o que o Senhor Cabeça de Batata escrevia. Ainda encarando fixamente a folha, continuou perguntando e escrevendo.
– E você diz que quando o encontrou ferido, não sabia quem ele era?!
– Não, eu nunca tinha ouvido falar nele.
– O que é bem intrigante, não acha? – parou de escrever e voltou a encará-la apenas arqueando os olhos em sua direção, com os dentes à mostra naquele mesmo sorriso que mais parecia uma armadilha armada do que uma tentativa de tranquilizá-la – O criminoso mais famoso de Gotham, e você insiste em dizer que não o conhecia...
Alice respondeu tranquilamente, sem se permitir abalar com a acusação mascarada naquele comentário maldoso.
– Eu acabei de me mudar para cá, e minha casa fica, digamos... Afastada o suficiente da cidade para que eu tenha conhecimento dos crimes que acontecem por aqui.
– Aí está mais uma explicação que me encantaria ouvir! Por que se isolar da cidade desse modo? Parece-me bem conveniente essa distância, não acha?
A pergunta irritou a hippie, ainda mais naquele tom de falsa banalidade, como se Gordon não demonstrasse desconfiança, apenas estivesse levemente curioso e interessado pelas preferências da mulher.
– Meus motivos para querer ficar longe do tumulto não são relevantes, Comissário. Aliás, que tipo de hippie eu seria se não buscasse a tranquilidade longe da bagunça dos centros?
– Claro... – o modo como Gordon disse isso a convenceu de que ele não havia acreditado em uma palavra sequer – E por que Coringa foi direto para a sua casa quando ficou ferido?
Aquilo foi à gota d’água para Alice, que não aguentava mais sentir a acusação desmedida na voz do desconfiado homem, como se ela nem ao menos fosse digna de receber o benefício da dúvida em seus relatos.
– Como eu vou saber? – alterou-se, perdendo o controle do seu bom senso e se levantando da cadeira de forma brusca. Sustentou seu peso com os braços retos apoiados na mesa do Comissário – Eu não faço ideia do porquê ele foi parar justamente na minha casa, mas ele foi, seja acidental ou não! E eu cuidei dele sem saber que se tratava de um criminoso procurado, é só!
James Gordon voltou a fazer anotações, como se nada tivesse acontecido.
– Sente-se, por favor.
Alice obedeceu, tentando acalmar os nervos ao forçar-se a controlar a respiração.
“Calma, Alice, não dê o gostinho à essa personificação de bigode de ser presa por desacato. Tudo o que eles querem é uma desculpa para te colocar atrás das grades e dar descarga na chave!”
Com tal pensamento, a hippie conseguiu ir se acalmando aos poucos, e o questionário sem fim continuou:
– Enquanto ele esteve... hospedado... na sua casa, deu alguma informação relevante que possa nos ajudar a identificar sua identidade?
Sem resistir, riu da cara do homem à sua frente.
– Está brincando comigo não é? – riu mais uma vez, e disse com sarcasmo – Claro que ele se identificou! Também me disse que seu sonho era virar freira e que queria pagar por todos os pecados feitos aqui na Terra. Sem contar que o Palhaço deixou bem claro que ia devolver todas as maquiagens roubadas! Não se preocupe, Comissário, ele está totalmente arrependido de seus crimes – revirou os olhos – Gostaria de saber o nome completo dos pais dele também?
Gordon sorriu, ameaçadoramente, parecendo bem menos paciente do que quando Alice chegou.
– Tudo bem, vou reformular a minha pergunta: O que você sabe sobre o Palhaço que nos permita ir atrás dele?
– Sei que se você lhe fizer essa proposta, Coringa vai aceitar rapidinho e talvez até divulgue seu verdadeiro nome. O Palhaço adora homens atrás dele... – piscou, como se dissesse “Fica a dica!”.
Pela primeira vez naquele depoimento, Gordon exaltou-se com a hippie, dando um soco barulhento na própria mesa e entortando o bigode de um jeito bem bizarro, que fez Alice esforçar-se muito para segurar a vontade de rir. Levou a mão à boca, disfarçando um pigarro.
– Chega das suas insolências! Chega de desrespeitar minha condição de autoridade! Eu quero respostas!
– E eu tenho cara de Nostradamus por acaso? – replicou enquanto revirava os olhos com impaciência – Já contei tudo o que eu sabia! Não sou vidente para adivinhar essas respostas, sinto muito!
O Comissário fechou os olhos e massageou as têmporas, tentando acalmar-se com o gesto. Quando falou novamente sua voz estava mais controlada.
– Você pode admitir que é cúmplice do Coringa, cooperar com a polícia enquanto há tempo e terá sua pena amenizada, ou pode insistir em negar esse envolvimento e mofar na cadeia quando tivermos provas contra você. E pode apostar, Alice, as provas virão mais cedo ou mais tarde. E então, o que vai ser? – abriu novamente os olhos, voltando a encarar Alice, quase implorando para que ela decidisse colaborar.
A hippie suspirou, cansada daquela história.
– O problema é que eu não posso cooperar mais com a polícia, porque eu realmente não sei nada sobre o Coringa. Tudo o que eu fiz foi tratar seu ferimento, ponto.
– E o que me diz sobre aquele beijo? – atacou, agarrando-se àquela última esperança de colocar a hippie contra a parede e fazê-la falar, sabendo que tal artifício podia soar traiçoeiro, mas estava realmente disposto a arrancar qualquer informação que fosse acerca do psicopata – Parecia real demais para a sua relação com ele se resumir apenas em médica e paciente.
“Estávamos brincando de médico, oras” – pensou, repleta de humor negro, e sem reprimir uns arrepios ao longo do corpo.
Como explicaria aquele beijo, Alice realmente não sabia. Simplesmente porque não havia o que esclarecer, o momento com Coringa foi mais do que real, mais do que verdadeiro, pelo menos pra ela...
– Ele ameaçou a mim e a minha samambaia, fui forçada a isso – mentiu, sem saber o que falar, mas em nenhum momento hesitando na força daquele contato visual que se perpetuou pelo que pareceu serem horas a fio.
– Espera mesmo que eu acredite nisso? – perguntou calmamente.
– Claro que não. Absolutamente nada do que eu disse até aqui o convenceu, porque agora seria diferente? Mas infelizmente isso é tudo o que eu tenho a oferecer, se não é capaz de acreditar na minha história, sugiro que comece a procurar provas contra mim e perder tempo perseguindo a pessoa errada.
Gordon percebeu que não tiraria nenhuma informação de Alice, nenhuma negociação ou acordo parecia funcionar com ela. Fazendo uma última tentativa desesperada, disse:
– Não precisa ter medo, Alice! – a sua voz tremia de expectativa – Se você contar o que sabe, não permitiremos que o Palhaço se vingue...
– Isso é tudo, Comissário? – ela o interrompeu, irritada.
– Sim... É tudo... – anuiu, sentindo-se o mais derrotado possível – Entrarei em contato novamente assim que tiver maiores informações, então você deve se manter dentro da cidade.
Alice apenas anuiu em concordância, adiantando-se em sair o mais rápido que conseguiu da delegacia, sentindo em si uma amarga vontade de estrangular alguém, totalmente frustrada por ser desacreditada pelo Comissário e atrair os olhares mais desconfiados de todos ali. Será que ninguém estaria ao menos um pouco disposto a acreditar em sua inocência? Até mesmo Bruce parecia duvidar...
Todos aqueles pensamentos assombravam a hippie quando ela dobrou a esquina, totalmente distraída com os próprios pensamentos nocivos. No momento em que a delegacia não podia mais ser vista, um enorme furgão quase a atropelou ao parar bruscamente ao seu lado, trazendo-a de volta à realidade com o susto.
– Hey, tá maluco? Tirou a carta de motorista no carrinho bate-bate por acaso? – reclamou, tentando olhar a pessoa diante do volante, porém sem sucesso.
O outro homem que estava ao lado do motorista abriu a porta de trás com tudo, dizendo com uma voz impaciente e mal humorada:
– Entra no carro!
– Oh, minha nossa... Isso é um sequestro? – falou com estridência, chamando a atenção dos pedestres que caminhavam nas proximidades – Já vou avisando que se pretende me manter em cativeiro vai precisar ter um estoque de chocolate, viu? Eu fico um demônio sem chocolate!
A figura sombria bufou de raiva com os olhares curiosos, puxando Alice pelo braço até que entrasse completamente no carro, e o motorista começou a correr mesmo antes de a porta ser totalmente fechada.
A hippie finalmente conseguiu ver as imagens de seus sequestradores, exceto pelos rostos, que eram ocultados por uma máscara ridícula de palhaço.
– Ah! Pelo amor de São Geovanni Street – disse empolgada – Vocês são o Patati e o Patatá, não são? Caramba, eu detesto o programa de vocês! Os dois são patéticos, um lixo, mas será que poderiam me dar um autógrafo?
Eles se entreolharam confusos, sem entender uma só palavra do que Alice dizia, porém isso em momento algum a desestimulou de falar nem por um minuto sequer.
– Vocês não têm vergonha de denegrir a imagem dos palhaços, não? Deve ser terrível ser um profissional medíocre e irritante! Como vocês se sentem em relação a isso? Oh, Odin, daria tudo por uma bazooca agora! Sempre quis ter a honra de matar vocês pessoalmente!
Alice continuava falando com uma animação e empolgação fora do convencional, deixando os dois sequestradores completamente abismados por sua reação estranha, e irritando-os pelo monólogo interminável e estridente. O motorista olhou para o companheiro e disse, tentando não prestar atenção na irritante voz de Alice:
– O chefe mandou que vendássemos os olhos dela...
– Eu sei, cara, mas estou pensando em outra utilidade pra esse pano!
A hippie continuava sem parar:
– ...caramba, é maravilhoso conhecer profissionais inúteis! Vocês são frustrados, não são?! Claro que sim – respondeu à própria pergunta como se fosse óbvia e besta demais, rindo em seguida – Qual de vocês é o líder, o Patati ou o Patatá...?
O homem mascarado que não dirigia foi para cima de Alice, segurando a venda nas mãos e prestes a colocá-la no rosto da hippie.
– Vai vendar meus olhos, Patati? – perguntou, perplexa.
– Não dessa vez – sua voz saiu traiçoeira.
Dizendo isso e sem delicadeza nenhuma, o homem de máscara posicionou o tecido entre o lábio superior e o inferior da riponga, improvisando uma mordaça extremamente apertada e deixando Alice praticamente impossibilitada de falar, apenas conseguia sibilar exclamações sem sentido, que provavelmente eram insultos pelo ato inesperado. Logo em seguida amarrou os pulsos, entrelaçando-os com uma corda incrivelmente áspera.
– Bem melhor agora – o motorista suspirou, aliviado –, será que Coringa vai se irritar por não colocarmos a venda nos olhos dessa louca?
– Só digo uma coisa, prefiro encarar a ira do Chefe do que ser obrigado a ouvir essa mulher falar mais alguma coisa...
Eles riram e Alice soltou um gemido de indignação com o comentário, mas o que saía de sua boca não passava de grunhidos, de tão apertada que estava a mordaça, dificultando até mesmo sua respiração. Ela sabia que deixaria marcas, assim como a corda em seus pulsos...
“Babacas! O que aquela Libélula ainda quer comigo, além de me matar...?”
Alice estremeceu ao perceber que estava indo de encontro ao seu doentio e irremediável vício, tão sedutoramente perigoso e, talvez por isso, tão atraente.
Teria que fazer todo o possível para manter o autocontrole na sua presença, e provar para ele – e principalmente para si mesma – que não podia ser manipulada tão facilmente, como o Palhaço certamente devia acreditar que era. Aquela seria sua melhor chance, e talvez a única, de reverter a situação em que se colocou quando foi resgatar sua samambaia – uma situação em que se mostrou totalmente submissa aos toques e à vontade de Coringa, e pior...
...À sua própria vontade!
“Dessa vez eu vou ficar no controle do meu próprio corpo!!” – encorajou-se mentalmente, tentando se convencer disso e se preparar para o que viria a seguir. Naquele momento, nem mesmo sobreviver a esse novo encontro parecia tão importante quanto mostrar que era capaz de possuir o controle.
Não demorou muito mais e o furgão estacionou brutalmente, num depósito abandonado e cheio de entulhos por toda parte. Alice olhou bem em volta, tentando reconhecer o local, mas não se lembrava de já ter ido naquela parte quase inóspita da cidade, e praguejou por ter se perdido em seus próprios pensamentos ao invés de prestar atenção ao caminho que o veículo fez até chegar àquele lugar totalmente estranho para ela.
“Alice, sua estúpida... Não tem controle nem dos olhos e quer ter do corpo inteiro...” – pensou com ironia, praguejando contra si mesma e sua própria estupidez.
Um dos capangas de Coringa passou a mão grossa e calejada em volta do braço de Alice, apertando-o com uma força dolorida, provavelmente aproveitando a situação para se vingar das coisas irritantes que a hippie falou pelo caminho até ser amordaçada.
Ele andava apressado, obrigando Alice a acompanhar o passo acelerado, e fazendo-a tropeçar várias vezes pelo caminho com aquela pressa desmedida. Reparou em tudo à sua volta, tentando identificar o lugar, mas sem sucesso. O ambiente estava imundo, a decoração resumia-se a vários caixotes largados pelo chão, dando ao recinto uma aparência ainda mais desleixada. A hippie podia sentir a poeira invadindo seus pulmões junto com o ar, o que provocou um terrível acesso de tosse.
Ela ficou completamente sem ar por causa da crise involuntária, que tentava expulsar o que havia de errado em seus alvéolos. O pano amarrado quase rasgando os cantos de sua boca impedia que ela pudesse tossir de verdade, e começou a sentir tontura pela falta de oxigênio em seu corpo.
Parou de andar e agachou-se sobre seus joelhos, ainda sentindo o aperto dolorido em seu braço agora estendido acima de sua cabeça. O capanga que a conduzia reparou nos seus lábios levemente arroxeados e na palidez repentina de seu rosto, e começou a sacudi-la como se Alice fosse uma criança pentelha levando uma bronca.
– O que acha que está fazendo? O Chefe quer você viva! – a preocupação em desagradar Coringa era evidente no esganiçado de sua voz.
Alice não possuía mais nenhum resquício de força para continuar tentando tossir, e puxar o ar era impossível agora, parecia que sua traqueia havia se fechado para o mundo exterior, impedindo a entrada e a saída do que quer que fosse, colabando-se num asfixiar inevitável.
Seu cérebro reclamava por ventilação, e na ausência desta, sentiu que ia desmaiar mais cedo ou mais tarde. Os olhos ficavam cada vez mais desfocados e uma estranha névoa se formava na periferia de sua visão, tirando a forma nítida dos objetos e do palhaço diante dela, agora sem a máscara, com olhos castanhos enraivecidos e preocupados ao mesmo tempo enquanto visava reverter a situação...
A última coisa que Alice ouviu, antes de mergulhar na escuridão da inconsciência, foi aquele homem grunhindo de raiva e tentando, desesperadamente, desamarrar o nó da mordaça que se emaranhava fortemente nos cabelos da hippie e, depois disso, tudo era breu.
Mas desmaiar não era algo tão terrível assim... Seus pulsos não ardiam mais com o aperto exagerado da corda e a queimação na garganta havia cessado, sem contar no aperto que parecia afundar seu peito e que agora não passava de uma distante e confusa lembrança da dor. Não sentir era a melhor coisa que podia ser feita por Alice naquele momento, e mesmo estando longe da consciência, sentiu-se grata por aquela distância que provou-se uma eficaz barreira contra a dor.
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– Morri? – ainda engasgada, perguntou a si mesma quando sentiu a posse do controle de seu corpo retornar novamente, ainda que aos poucos, de forma gradativa. Tomou coragem e abriu os olhos, levando um susto ao ver o rosto de Coringa observando-a, bem perto de seu próprio rosto – Ótimo! Morri e fui sem escala para o inferno – revirou os olhos.
– Você só vai morrer quando eu bem entender, Docinho. Por enquanto ainda está bem viva.
Alice não segurou o riso, que se mesclou com mais tosses doloridas.
– Quanta modéstia! – disse, sarcástica.
Percebeu que estava deitada em uma espécie de cama improvisada. Sentou-se e analisou tudo em volta, demorando-se mais tempo na seringa que o Palhaço segurava em uma das mãos. Olhou para seu próprio braço e viu um curativo em sua veia, entrando em pânico e encarando novamente a agulha que estava na mão de Coringa.
– O que você fez? Não é porque eu sou hippie que uso drogas...
Agora foi a vez de o Palhaço revirar os olhos e bufar em escárnio.
– Sem drama, Alice! Você teve uma crise de asma e eu, sendo essa pessoa virtuosa que sou – a hippie teve mais um colapso de tosse, mas este nada teve a ver com a poeira que invadiu os seus pulmões há pouco – injetei um remédio à base de corticoides que relaxaram seus músculos e permitiram a passagem de ar.
– Surpreendente... Você daria uma ótima enfermeira! Parece que nossos papéis foram trocados... Ótimo, acho que estamos quites: Eu salvei sua vida e você salvou a minha. Posso ir embora agora? – fez menção de se levantar, mas Coringa a impediu do gesto, segurando seu ombro.
– Nada disso, você fica até eu decidir o contrário – disse calmamente.
Alice olhou em volta, ainda sentindo-se tonta e um pouco deslocada. Pelo menos o lugar em que estavam não possuía tanta poeira.
– E então, Nemo, por que me raptou? Sentiu saudades?
Coringa não estava com o menor senso de humor e disposição para as piadinhas de Alice, mas ainda assim a olhou com curiosidade.
– Nemo? – elevou uma das sobrancelhas, sem muita paciência.
– Ah, por isso que você é essa pessoa amarga! Nunca viu “Procurando Nemo”? – perguntou, perplexa – Nemo é um peixe-palhaço. Palhaço! Fala sério, isso é hilário! – gargalhou, porém Coringa ainda encarava-a, sério, na medida do possível. Percebendo que ele não reagiu à sua piada, Alice disse, brava – Tem noção de como é irritante um palhaço que não acha graça de nada?
– Não tenho culpa se suas piadas são horríveis – disse, ainda com uma calmaria pouco típica e que era de assustar.
– Acha que minhas piadas são ruins? Escuta essa então: “O que a mulher do Einstein falou quando o viu pelado pela primeira vez?”
Coringa permaneceu em silêncio, esperando que Alice respondesse, ou talvez esforçando-se para ignorá-la.
– “Nossa, que físico!” – a hippie riu descontroladamente com a anedota, já o Palhaço permanecia impassível, como se tudo aquilo fosse entediante demais de suportar – Qual é, a piada é ótima! – disse, indignada.
– Não te trouxe aqui para ouvir infâmias, Alice.
Ela fez uma careta.
– Você e o Batman devem ter um caso. Os dois não sabem apreciar uma boa piadista feito eu!
– Pois sabe que eu tenho a mesma impressão?! – agora um leve sorriso marcava o rosto do psicopata.
Confusa, Alice perguntou:
– Você também acha que eu não tenho o reconhecimento que merecia com minhas piadas?
– Não, Docinho... – falou bem devagar, como um adulto que tenta explicar algo complexo demais para uma criança – Acho que você tem um caso com o Morcego.
A hippie ficou boquiaberta.
– Caramba, agora você realmente me ofendeu! Por acaso pensa que eu pratico zoofilia?
Pela primeira vez Coringa sorriu, mas não se desviou do assunto.
– Acho bom você cooperar! – tirou uma faca de dentro de seu paletó, numa evidente ameaça.
– Ei, vá com calma! Eu não sou sua concorrente, não precisa ter ciúme... – colocou a mão direita no peito – Juro pelo Bozo e por todos os santos padroeiros dos palhaços que eu nunca tive nada com o Morcegão!
Coringa segurou Alice pelos cabelos, fazendo-a levantar e ficar a centímetros de seu rosto. Os olhos de ambos faiscaram num brilho indomável.
– Mentira... – acusou num sussurro, a cada segundo transcorrido sentindo-se menos paciente – Você acha que eu não percebi o jeito que ele se irritou com a nossa brincadeirinha do outro dia? – ele olhou para os lábios dela, um pouco marcados pela força da mordaça – Que, aliás, nós podíamos repetir...
– Sabia que tinha sido uma desculpa para me ver de novo – sorriu –, você é mais previsível do que pensa, Palhaço.
Em resposta, ele posicionou a hippie contra a parede com uma força ridiculamente bruta, e apertou totalmente seu corpo contra o dela, ainda segurando a faca com uma mão, e com a outra afastando algumas mechas de cabelo do rosto de Alice, que sentiu o corpo tremer pela proximidade repentina, mas determinada a disfarçar o domínio doentio que Coringa aparentemente ainda possuía sobre ela.
– Você sabe quem é o Batman, não sabe? – posicionou a faca no pescoço da riponga, ainda pressionando seu corpo ao dela, o que tornava impossível pensar com clareza.
– Não sei – disse por fim, encarando-o –, e você não me assusta com essa faca! Podia ter me deixado morrer sufocada agora mesmo, mas me salvou! Se você me trouxe aqui para acabar comigo, era só não ter me socorrido e seu trabalho já estaria feito. Simples assim.
Coringa riu sombriamente, sussurrando num timbre sedutor junto ao ouvido da hippie.
– Seria uma morte muito fácil, não acha? – acariciou novamente seu rosto, sem distanciar a faca da garganta – Eu sempre preferi as facas... Com elas é possível extrair cada pequena emoção da vítima no momento da morte. Através da dor, descobrimos quem as pessoas são realmente. E há um bom tempo eu quero te ver sem a máscara, Alice.
– Acho que você vai se decepcionar quando perceber que minha máscara é meu próprio rosto. Não há nada nem ninguém que me motive a parecer o que eu não sou.
– Todos se escondem atrás de alguma camuflagem, e eu estou prestes a descobrir qual é a sua – beijou a curva de seu pescoço e aproximou-se novamente de seu ouvido para sussurrar – Sabe, eu estava pensando... Como deve ser inebriante o momento imediatamente antes da morte.
– Quer descobrir? Eu posso te ajudar! – sua voz saiu falha e Coringa riu, fazendo uma onda de hálito quente arrepiar a pele de Alice.
– Só quero fazer o possível para não desperdiçar tanto sua beleza... Você vai fazer parte de uma experiência totalmente nova pra mim. Viu só como é importante? – mordeu o lóbulo de sua orelha, e involuntariamente Alice aproximou ainda mais o próprio corpo ao dele.
– Uau, me sinto bem melhor agora! – riu, sem humor – Qual é a experiência, senhor carrasco? – perguntou no mesmo tom sussurrado.
– Vou sentir o último fio de vida abandonando você – sua voz era grave, baixa... deliciosa!
– Vai me matar mesmo? Então você pode realizar um último pedido?!
– Não abuse da sorte, Docinho...
– Nem é nada mirabolante, vai... faça isso por mim! Em recordação aos... bons momentos – disse rindo, sem encontrar outra expressão melhor. Como Coringa prolongou o silêncio, Alice interpretou a ausência de sua recusa como um consentimento para que ela prosseguisse – Tá, lá vai: Quando eu estiver morta, quero ser cremada e quero que as minhas cinzas sejam colocadas numa ampulheta!
O Palhaço a encarou com uma expressão de "mas-que-porra-é-essa?", enquanto Alice ainda esperava pela resposta, sustentando seu olhar tão próximo quanto indignado.
– Hum... – ele estalou os lábios, fingindo que cogitava o estranho pedido – Eu acho que não! – franziu a testa de forma irônica – Agora, onde eu estava mesmo? Ah, sim...
Sem prévio aviso, beijou Alice, que fez o possível para evitá-lo no começo, tentando empurrar o seu rosto para longe de si, porém sem força suficiente para competir com o homem. Rendeu-se a ele mais uma vez, impotente. O beijo foi ficando mais completo, mais íntimo, e Alice percebeu um pouco tarde demais a lâmina começar a rasgar a pele do seu pescoço, enquanto ainda dotava grande atenção aos lábios da hippie que se amassavam ferozmente junto aos seus.
Na mesma hora entendeu o que o Palhaço pretendia fazer; continuaria lhe beijando, explorando o seu corpo como bem entendesse e cortando sua garganta até que o último fio vital a abandonasse, e assim, sentiria quando a vida por fim deixasse seu corpo, e finalmente experimentaria a sensação do “inebriante momento pré-morte”.
Sentindo a forte ardência no ferimento que ainda se abria, reagiu por puro impulso, antes que fosse tarde. Sem pensar com clareza, seu joelho foi com violência e velozmente de encontro ao volume entre as pernas de Coringa, fazendo-o largar imediatamente Alice e gemer de dor, caído no chão à mando da enorme agonia.
O sangue escorria pelo seu pescoço e ela arfava pesadamente com aquela mistura curiosa de dor, medo e prazer, enquanto tentava estancar o sangramento. Não era grave, ela podia perceber, mas ainda assim seu coração saltava desgovernado em seu peito.
O Palhaço olhou-a, com uma mistura de surpresa e ódio descomunal. Sem conseguir levantar-se, disse, em tom ameaçador:
– Isso terá volta, sua riponga maldita... – rugiu, cego de um ódio que nunca antes sentira. O brilho ardil dentro de seus olhos amendoados fizeram Alice recuar alguns passos.
– Bom, muito obrigada pela recepção calorosa, mas já está na minha hora e eu realmente preciso ir... – começou a andar para trás a passos largos em direção à saída, e Coringa nem sequer conseguia levantar-se do chão, apenas a encarava, em fúria.
Alice correu, como se o próprio Justin Bieber estivesse atrás de si tentando fazê-la ouvir suas músicas, e conforme corria, mais sangue saía de seu pescoço devido ao esforço. Prendeu a respiração quando passou pela sala poeirenta novamente e surpreendeu-se por não ver os dois capangas de Coringa cercando o corredor.
"Talvez o Patati e o Patatá estivessem atrasados para apresentar o programa infantil..." – deduziu com uma pontada de humor.
Enquanto ainda corria para a saída, encontrou o pano que havia sido usado para cobrir sua boca jogado no chão, e resolveu usá-lo para tentar estancar o sangue, que já havia manchado sua blusa. Voltou a correr para longe dali.
O corte era superficial, a própria Alice seria capaz de cuidar do ferimento sem precisar ir ao médico. Provavelmente o desígnio de Coringa era matá-la lentamente e com muita tortura, por isso não enfiou a faca de vez em sua garganta...
"Azar o dele! O Palhaço que aprenda a não me subestimar da próxima vez!" – por pior que parecesse, Alice queria uma próxima vez...
Quando se viu livre do cativeiro, diminuiu a velocidade dos seus passos, andando normalmente pelas ruas como se nada de psicótico tivesse acabado de acontecer. Verificando que estava realmente viva, disse alegremente:
– Alice, você é foda! – comemorou, atraindo alguns olhares curiosos, ainda mais pelo sangue que manchava sua roupa. Apertou o pano com mais força sobre o corte, para tentar disfarçar o quanto o ferimento incomodava e latejava.
Caminhava sem rumo, e sem ter ideia de onde estava. Aquela parte da cidade era tão feia e mal cuidada quanto o próprio depósito que acabara de abandonar. Continuou andando, e só parou quando deparou-se com uma lojinha adornada com vários enfeites de Natal. Viu um Papai Noel que atendia a enorme fila indiana de crianças que estavam acompanhadas dos pais à sua frente, colocando-as no colo uma de cada vez e ouvindo pacientemente a cada pedido mirabolante para o Natal.
A hippie mudou a trajetória, indo em direção ao Bom Velhinho e furando a fila displicentemente, sem aparentar qualquer remorso ao vislumbrar os olhos marejados dos vários pares de olhos infantis e a indignação dos pais.
– Com licença, com licença – dizia a cada criança que estava em seu caminho, empurrando-as para o lado conforme avançava para o início da fila sem o menor pudor – Rala peito, pirralho!
Ficou frente a frente com o Papai Noel, que a encarava perplexo. Alice disse, em tom de acusação, apontando o indicador em riste na direção daquele famoso semblante idoso:
– Escuta aqui, velhote, acho que já está na hora de você me tirar da lista dos malvados!
Dizendo isso, deu as costas para ele e voltou a caminhar sem saber exatamente pra onde.
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